Que time é teu?

Durante esses mais de 20 dias em que estive sem paciência para atualizar o cafofo, dei-me o trabalho de tentar entender algumas coisas sobre as quais se fez muito barulho e em que o x da questão seria justamente aquela postura de time pequeno que tanto nos irrita (pelo menos aqueles que gostam de futebol).

“O empate é um ótimo resultado”, “a classificação é como um título para nós”, “quem disse que entrar em campo com três zagueiros e cinco volantes é sinônimo de retranca?” Time pequeno é aquele que não tem coragem para enfrentar a vida, não anda pelo mundo de cabeça erguida e peito estufado (silicones fora, por favor), não assume sua verdade nem para si.

E pra fazer o contraponto, juro que tentei mas não consegui fugir do óbvio. Vejam o que o Arthur Muhlenberg escreveu na semana passada:

Ser Flamengo envolve uma irresistível atração pelo risco, um eterno desafio ao infortúnio e um completo desprezo à segurança e à estabilidade cultuados pelos medíocres. Ser Flamengo é tudo ou nada.

Biografias

InternacionalO que falar do papelão de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil? Gigantes que disputariam os grandes títulos só fizeram arranhar as próprias biografias, além de revelarem um absurdo sentimento de time pequeno. E aí é pior ainda. Gente grande que pensa pequeno é muito pior do que o pequeno que nunca teve a chance de ser grande e não tem a noção de como se comportar.

E cito os três, óbvio, por serem os nomes mais ilustres e – não por acaso – justamente quem deu a cara a bater em nome do tal grupo Procure Saber. E não falo de Roberto porque esse passou a vida inteira tentando esconder a vida e pelo menos foi coerente. Mas os três?

Não foram eles que construíram suas carreiras e viraram referência justamente porque passaram o período da ditadura brigado pela liberdade? E o argumento mais clichê dessa discussão: não foi Caetano que escreveu, gritou, cantou “é proibido proibir”?

Lembro do Inter de Porto Alegre. Tricampeão brasileiro nos anos 70, berço de Falcão. Mas que desde 79 não fez mais nada. Todo ano é um dos favoritos, mas nunca chega a lugar nenhum, no máximo o brilho regional. Uma espécie de ex-grande., quase médio. E é impossível não lembrar que os três grandes artistas não produziram nada muito fabuloso depois da redemocratização do país.

Aí, alguém vai lembrar que o Inter ganhou a Libertadores e o Mundial. Então né, o Gil ganhou o Grammy por Quanta. Santa semelhança, Batman…

Eike

Internacional de LimeiraA essa altura do campeonato, precisa falar mais alguma coisa? Alguém duvida de que  foi um brilhareco digno de um Madureira em final de carioca ou, pior, Inter de Limeira campeão paulista? A única diferença é que nenhum dos dois ficou devendo os tubos e mais um pouco para o BNDES.

Eduardo Campos

Paraná ClubeO cara está lá, todo pimpão. Não sabe se é, não sabe se não é, cheio de “ai meu Lula”. Aí, num movimento mais do que inesperado, surge o acordo com Marina e sua estranha Rede. Pois bem, oficialmente foi a moça que se juntou a Eduardo Campos, mas é ela quem tem mais eleitores. E aí, numa espécie de “quem manda aqui sou eu” da primeira hora, criou um baita dum problema com os ruralistas.

A gasolina de nosso triste PIB é a produção rural, mas Marina acredita que eles são o problema do Brasil. Vá entender… Agora, a turma que produz comida e dinheiro, e que tendia a apoiar Campos, vai se reunir até com o Lula e, quem sabe, bater palmas para Dilma.

A confusão nessa chapa me lembrou o Paraná Clube, fruto da fusão de Colorado (mais torcida) e Pinheiros (mais gestão). Quando nasceu, pensou e até pareceu que seria grande. Mas hoje todo mundo sabe que é só um time pequeno que virou iô-iô entre as divisões do campeonato brasileiro.

Diego Costa

Vasco da GamaA reação e discurso de Felipão foi vergonhosa, enquanto Parreira, Marim e os advogados da CBF foram apenas risíveis mesmo. Qualquer um que entenda um tantinho de futebol sabe que o técnico da seleção canarinho queria mesmo era atrapalhar a Espanha.

Não cabe nem discutir se o cara é essa coca-cola toda mesmo. Mas ele foi convocado para dois amistosos mequetrefes no início do ano e não agradou. Tanto que sequer foi lembrado pela comissão técnica ou jornalistas na época da Copa das Confederações. Aí o sujeito resolve jogar por outro time e o caso vira a pantomima que vimos.

Concordo que a (falta de) regra da FIFA é bisonha, mas o sujeito tem o direito de escolher. E isso não é nada demais. Mas será que a turma acredita que, com Diego Costa, o time que foi bicampeão europeu e campeão mundial sem ele será, agora, imbatível? Medinho de perder? Quem vergonha.

E se você duvida de que isso é atitude de time pequeno, basta lembrar do que o Vasco fazia com os clubes contra quem iria jogar e tinha atletas da colina no elenco (o Olaria que o diga). Sim, eu sei que o clube de São Januário é um gigante do Rio. Mas é inegável que Eurico Miranda fez muita força pra mudar isso. E Roberto vai pelo mesmo caminho…

Rei do camarote

São PauloÉ possível imaginar um sujeito como esse fora de São Paulo? Sim, coloque essa pergunta na conta de todos os preconceitos possíveis. Mas onde mais uma garrafa de champagne, uma Ferrari e duas ou três subcelebridades agregam tanto valor à imagem de alguém? E o statis? E a mulher que o cara comeu no banheiro? E, no futebol, quem mais faz questão de se dizer rico, competente, bem gerido, limpinho, cheiroso e macho?

Ok, eu sei que o São Paulo não é time pequeno. Mas esse jeito de ser é de uma pequenez enorme (com trocadilho, claro).

Massa (e Nars) na Williams

BotafogoSua história está cheia de grandes vitórias, títulos e heróis. Até semi-deuses já fizeram parte do time. Mas já faz 16 anos que não ganham nada, nem campeonato de construtores nem de pilotos. Daí pra chegar a 21, não custa nada. E agora vocês já sabem de quem estou falando.

Massa saiu da Ferrari e gritou aos quatro ventos que só ficaria na F1 se fosse em uma equipe capaz de lhe dar um carro competitivo. E aí fecha com a Williams? Ok, o time tem história, como sabemos. E, apesar da grana cursta, também está com as contas em dia. E o regulamento quase vira de cabeça pra baixo a partir do ano que vem, do motor à asa dianteira, tudo muda. Mas daí é ser muito otimista achar que isso basta para inverter a relação de forças da categoria.

Porque é básico: quem tem dinheiro paga os melhores (e mais caros) profissionais. Eles podem errar? Claro que sim. Mas daí uma equipe sem grana para desenvolvimento se transformar na rainha das pistas? Não, meus amigos, aí já é esperar milagre mesmo.

E Nars, o que tem com isso? Pela foto de Massa no site da equipe, Banco do Brasil ao fundo, é o garoto (seus patrocinadores, na verdade) que paga a conta. Ele será o reserva da equipe, o que é quase nada hoje em dia. Mas quando surgiu a notícia do acerto com Massa, falaram em cinco anos. Anunciaram três. Será que, como divagou Flavio Gomes, que não seria um contrato de 3 + 2 anos, uma venda casada dos dois felipes?

Voltando ao futebol, já faz 18 anos que o Botafogo ganhou seu único brasileirão. E nos últimos anos (e é claro que não levo os estaduais em conta), uma vocação para cavalo paraguaio floresceu. Será que isso pode acontecer com o time de Grove. Por conta das mudanças, um coelho da  cartola e a Williams pula na frente. Mas sem a grana pra continuar desenvolvendo, fica pra traz na reta final da temporada. Quem sabe? Afinal há coisas que só acontecem…

Enfim

FlamengoComo todo mundo está cansado de saber e mais uma vez foi comprovado, time grande não cai.

O Maraca

MaracanãJá não lembro mais quantos anos eu tinha, se 8 ou 9, quando fui ao Maracanã pela primeira vez. Meu primeiro jogo foi América e Internacional. Fazendo uma conta simples, comecei minha aventura no maior e mais belo estádio do mundo há mais ou menos 30 anos.

Nele eu vi bola, música e até papai Noel. Vi grandes jogos e imensas peladas de muitos times e da seleção. Vi o Zico voltar, fazer lançamento para Renato de bicicleta e, depois, e se despedir de novo. Vi o Maradona acertar o travessão do meio campo e Bebeto e Romário ensaiarem o que fariam em 94. Estava lá quando a arquibancada caiu.

Nele, pisei do gramado à tribuna de honra, passando pela querida geral. Só não fiz o que esses caras aí da foto fizeram. O vivi com mil e com 120 mil pessoas. Tomei banho de pó de arroz ao lado do meu pai, torci pelo Botafogo com amigos. E com o Flamengo… Quantos sorrisos, quantas comemorações, quantos dramas e lágrimas pelo quase conquistado. E na minha memória, aquele urro que começava baixinho e crescia apoiado no eco do concreto até tomar conta de todo o anel: Meeeennnnngooooo, Meeeennnnngooooo…

No complexo, fiz aula de natação e vôlei, treinei e experimentei a pista de atletismo. Joguei bola no portão 18 quando estudava ali em frente, joguei bola na quadra da escola Arthur Friedenreich.

Amanhã ele será reaberto. E tenho a impressão que muita gente, como eu, terá dificuldade de chamá-lo de Maracanã de coração aberto, de chamá-lo de Maraca com a intimidade típica de quem era da casa. E ontem dei de cara com o texto abaixo, no blog do Arthur Muhlemberg.

Ai de ti, Maracanã

1. Ai de ti, Maracanã, que deste tuas costas ao clamor de tuas arquibancadas e soterraste tua geral humilde em busca das glórias vãs; céus e terra te negarão o sono, e 200 mil vozes hão de assombrar-te pelas noites.

2. Ai de tuas poltronas acolchoadas, ai de teus camarotes de luxúria, ai de tua soberba para poucos, porque para muitos te quis e para muitos foste erguido. Porque nem tua cobertura há de te esconder os teus inúmeros pecados quando minha ira se lançar contra ti.

3. Acaso não te lembraste do silêncio que te dei quando nasceste? Que te fiz carioca, mas te inaugurei paulista, para que soubessem que não és lar de ninguém? Acaso não te conduzi até a final do Mundial, para que fosses profanado pela Celeste estrangeira e calasses tua ambição desmedida? Não te testei timaços e timinhos pela régua das vitórias?

4. Não te consignei eu aos clássicos, porque eras neutro e palco perfeito, um lugar a ser conquistado no grito e no campo pelas quatro forças que ao teu redor orbitam, e pelos ídolos que desfilaram tantas cores? Pois hoje vejo que te prostituis a consórcios que não te conhecem, e não mais serás informado pela Suderj em teus vindouros telões de LED.

5. Enorme era teu campo, e encolheu-se; ampla era tua capacidade, e apequenou-se; agrandaste teu estacionamento e será imensa tua final, mas não como sonhavas quando aprenderam a te amar. Ai de ti, Maracanã, pois culparás os cabrais que não te deram dimensão exata nem te fizeram olímpico e pagarás com teu orçamento estraçalhado, teu parque aquático em deserto e tua pista soterrada.

6. E aqueles que te cantaram hinos aos domingos, ao se sentarem em tuas cadeiras numeradas, não te reconhecerão; e a nova torcida que terás tampouco tu hás de reconhecer. E eu hei de emudecer teu eco catedral à sombra de tua intrepável lona cobertora, para que sejas silencioso e ordeiro como um shopping de aeroporto.

7. E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

8. Ai daqueles que combinarem de se encontrar no Bellini, pois se perderão, com suas camisetas piratas e seus ingressos falsos repassados por cambistas torpes a custo de quatro dígitos, indo parar na Uerj. Nem assim teu banheiro será mais limpo do que foi nos dias de tua glória.

9. Selarei teu portão 18, e não mais se concederá tua imensa cortesia aos múltiplos conchavos, quando traficavas influência em teus corredores e escadas rolantes. Perpétua será tua dor, cativa será tua vergonha.

10. Desfraldai vossas bandeiras, uniformizados, porque só assim recordareis o espetáculo que fazíeis: tuas faixas darão lugar aos camarotes da luxúria, e teus cânticos não serão ouvidos no isolamento perfeito dos proseccos, mojitos e DJs, numa publicitária orgia no templo que virou programa.

11. E tu, Maracanã, com teus ouvidos de concreto lamentarás aqueles palavrões que sentados não bradamos, mesmo com o grito molhado na cevada, e gemerás em cada viga, em cada solda, em cada rejunte, no chapisco de teus muros, nos parafusos dos mais buchas, em cada cu que assentares (78 mil lugares?), na tua escassez de gigantismo a flagelar-te com a memória de quando eras mais nosso porque cabiam mais de nós.

Márvio dos Anjos

(d’apres Rubem Braga)

Torcida carioca

TorcidaCariocaComeçou o ano, como todo mundo já está cansado de saber. Assim, a bola já começou a rolar. E com a pelota correndo sobre a verde relva, voltam também as cornetas, piadas, análises embasadas, enfim, tudo aquilo do que sofremos de abstinência desde o início de dezembro.

No Rio, uma turma de quatro torcedores rivais que já habitava o mesmo cafofo, resolveu mudar de casa. O pessoal de Os 4 Grandes agora habita o Torcida Carioca. Basicamente, saíram de um quitinete para um sala-três quartos-varandão. Todo o resto continua o mesmo: as boas crônicas, alfinetadas, provocações e bom humor.

Minha esperança, com a casa nova, é que eles encontrem novos room mates. Penso que seria excelente – até pra conhecer os outros clubes mais de perto – ter um representante de cada clube do cariocão. Bastaria colocar a cabeça pra funcionar, que encontrar voluntários não será tão difícil. E depois, com o fim do estadual, ficam aqueles que participarão de qualquer divisão do Brasileirão. Não haveria nada igual por aí. Pensem nisso senhores.

A sorrir eu pretendo levar a vida

Nada como uma boa vitória para começar a semana com bom humor. Como – depois de ler crônicas e blogs, além de ver e ouvir comentários na TV e no rádio – desconfio fortemente que o jogo que passou na minha casa foi diferente do transmitido para o resto das pessoas, resolvi escrever em tópicos.

O contrário do Grêmio

Ouvi dizer por aí (e não foi num lugar só) que a atuação de ontem foi o inverso da de Porto Alegre. Não vi isso não. O Flamengo começou o jogo em cima do Cruzeiro, marcando forte e tentando atacar. E, de repente, teve um apagão que durou, sei lá, uns nove minutos. Tomou o gol, uma bola na trave, o pênalti ridículo de Alex Silva e só. E daí pra frente, até o fim, não houve mais adversário em campo.

É claro que se o pênalti fosse convertido, o jogo teria outra história. Mas o se não joga.

Na verdade, a cagalhopança que tirou Williams do time parece ter ajudado. Thomás jogou bem pela segunda vez seguida. E como Renato Abreu estava suspenso, Muralha entrou no segundo tempo no lugar certo. E fez o que fez.

Meio-campo

Acho que todos concordam que o menino da camisa 25 não pode mais sair do time. Mas para a próxima partida, Renato Abreu estará de volta, o profexô não vai tirá-lo do time. E isso nem é tão mal. O que fazer, então? A solução é simples: colocá-lo como segundo homem.

E por que isso não é tão mal? Porque Renato, com todas as suas limitações, sabe fazer a saída de bola melhor do que Aírton. E ontem, o camisa 55 foi o responsável por ditar o ritmo de jogo, segurar a bola quando preciso e tentar acelerar quando possível. Não precisa nem pensar muito pra dizer se isso faz algum sentido.

Também não discordo totalmente de Luxemburgo quando ele diz que é perigoso, até para os meninos, colocar Muralha e Thomás em jogos decisivos desde o início. Então, para a próxima partida aposto no meio-campo com Aírton, Renato, Thomás e Thiago Neves.

Falando nele…

A melhor coisa de ontem foi ter pedido o samba O Sol Nascerá como trilha sonora dos seus três gols na matéria do Fantástico. Mas alguém precisa avisá-lo que o clássico é de Cartola e não do Revelação.

Sobre o golaço que fechou a conta, vale lembrar que Fábio tentou entregar o jogo de forma parecida desde o primeiro tempo. Mérito para o nosso camisa sete, que aproveitou a chance que teve com muita classe.

R10

Eu só o vi em campo, de verdade, duas vezes. Na cobrança do escanteio do segundo gol e no lance em que, com o gol aberto, resolveu fazer gracinha. Olhou para um lado, chutou para o outro. E bola teria ido parar na geral se geral lá houvesse. Pois bem, não é bom esperar muito do sujeito na reta final. Sempre sumiu nos momentos de decisão, mesmo em seu auge no Barcelona. Não é agora que vai mudar. Se tiver uma chance de brilhar, talvez aproveite. Mas que ninguém conte com ele como esteio na luta pelo título ou por qualquer outra coisa.

Próximos passos

Nossa tabela não é boa nem ruim. Do Coritiba, se arrancarmos um empate lá – dado o histórico – será bom. Contra o Figueirense, a surpresa do campeonato, não espero nada diferente da óbvia vitória que colocaria as coisas nos seus devidos lugares. Tenho um certo medo do Atlético de Goiás. Se tudo correr bem até lá, é provável que o Serra Dourada esteja lotado de rubro-negros. E é nesses cenários com tudo a favor e contra times pequenos que o Flamengo costuma entregar a rapadura. Inter em casa é jogo grande de time grande. Não tenho nenhum medo. E contra o Vasco… O dia em que um rubro negro tiver medo de jogar contra o Vasco, é melhor largar o futebol.

4 pontos

Estamos a quatro pontos do título. Porque não basta empatar com ninguém, temos menos vitórias que todos os nossos adversários. Mas vejo o campeonato na nossa mão. A questão é saber se vamos buscá-lo ou não. Se o jogo de ontem foi um último suspiro ou o início de um maravilhoso sprint à vitória.

Porque como já aconteceu ontem, o Corinthians vai peidar. Desculpem a linguagem tosca. Mas seu técnico já bradando em entrevista coletiva que ali não há cagalhões (assim mesmo) é a prova cabal da tremedeira que acometerá o time dos mano e das mina, a necessidade de autoafirmação que negaria o óbvio.

Também não acredito que o Vasco agüente o tranco e já sabemos que Caio Jr. não deixará o Botafogo brigar pelo título. Também não aposto no Fluminense, mas já é de quem tenho mais medo a essa altura.

Ou seja, apesar de não parecer, só depende de nós. Faltam cinco jogos para o hepta. Será que o time vai ter coragem de ser campeão?

Bisonho

Neosaldina? Numa sexta-feira? Sem avisar o médico? Tá bom, Felipe, tá bom. A gente acredita…

Construindo heróis

O jogo ainda não tinha acabado, mas Abel dava um piti à beira do campo, foi expulso e se recusou a sair apesar da presença da polícia para escoltá-lo aos vestiários. Nisso, minha querida esposa que é tricolor, soltou a pergunta-pérola: “esse cara trabalhou no Botafogo?”, referência óbvia ao péssimo hábito do chororô, traço cultural pelos lados de General Severiano.

Então, antes de falar do jogo propriamente dito, vamos aos lances que – teoricamente – justificariam o ataque de pelancas tardio (pois que enquanto vencia tudo ia bem) do treineiro das laranjeiras.

1. No último lance do primeiro tempo, Renato Abreu acertou uma cotovelada que provocou um corte no lábio da She-Ha. Bom, todo mundo sabe que o meia metido a sherife não é mesmo flor que se cheire, mas ele não fez nada diferente de quase todos os jogadores tupiniquins, levantando braços em qualquer disputa de bola. Às vezes pega, às vezes não, às vezes o juiz vê, outras não.

2. O tal pênalti não marcado foi tão falta quanto qualquer agarra-agarra nas áreas de nossos campos do Oiapoque ao Chuí. Jael tanto empurrou quanto foi puxado. E aí, se juiz bom não tem peito de marcar pênaltis assim em clássicos como o de ontem, o que dizer dos ruins?

3. A falta que originou o segundo gol do Flamengo foi clara.

4. A expulsão de Souza foi justíssima, em que pese as circunstâncias. O sujeito simplesmente esqueceu a bola e levantou Botinelli, o maior craque surgido nas imediações do Rio da Prata. Nem foi tão violento, é verdade, mas quem disse que é preciso decaptar o adversário para receber o vermelho? Ok, talvez o amarelo fosse suficiente. Mas ficou claro que o juizinho resolveu sacanear o técnico chorão que se recusou a sair quando foi expulso. Sou capaz de apostar nisso. E a prova é que preferiu empurrar Rafael Moura a expulsá-lo como deveria.

A vitória

O jogo, propriamente dito, foi uma bomba. O Flamengo jogou mal do início ao fim e perdeu a chance de golear o adversário no primeiro tempo. Os 45 minutos iniciais foram tão fáceis que nosso bravo arqueiro reserva saiu para o intervalo com seu uniforme branco imaculado.

Mas acho que já não dá pra negar a forte vocação para o drama e a tragédia nas hostes rubro-negras. Não precisava sufoco, não precisava susto. Era só jogar de verdade que a vitória seria tranqüila. Mas como construir mitos e heróis sem um bom bocado de sofrimento, superação e surpresa?

Botinelli bateu uma falta que, normalmente, não bateria. E, se desde 95 somos obrigados a aturar a história do gol de barriga, agora temos o gol de bunda para revidar. Para completar, um chute de três dedos como há muito tempo não via. Sensacional.

Só faltam dez jogos para o hepta e, como já disse antes, não estou preocupado com os confrontos contra os times ‘grandes’. Já os jogos contra os cearás da vida, estes me dão calafrios.

Seriedade

Literalmente, dormi durante o jogo de ontem. Jogo que começou estranho, modorrento apesar do domínio, algumas chances e até o gol do Botafogo. Depois, entre ontem à noite e hoje, vi o tape e li as críticas.

Porque não vi o primeiro tempo acabar e não acordei nem com os gritos pelo gol do Jael. E acabei assistindo só os últimos seis ou sete minutos da partida ao vivo.

No frigir dos ovos, primeiro um time completamente sonado e desorganizado. Melhorou um pouco, mas nada que emocionasse. Por fim, uns 20, talvez 25 minutos de acomodação com o empate. O que é uma vergonha para o Flamengo.

Lembrando de um velho clichê (quase certeza, de autoria do profexô), “o medo de perder tira a vontade de vencer”. E esse é o problema. Sujeito que joga no Flamengo não pode abdicar da vitória jamais. Sujeito que joga no Flamengo tem que saber que perder faz parte do jogo mas que a acomodação com a não-derrota é inadmissível. Sujeito que joga no Flamengo tem que saber que, apesar dos riscos, tem que partir pra cima mesmo que seja aos trancos.

Esse tem sido o grande problema do Flamengo nessa longuíssima série de nove jogos sem vitória. Ter entrado em campo, sempre, com uma preguiça irritante, um certo jeito ‘tô nem aí, se der deu’.

A maior prova de que o campeonato está aberto é que o Vasco assumiu a liderança. E a coisa está tão fácil que nem é preciso padrão de jogo, jogadas ensaiadas e qualquer outra coisa que mostre que o profexô tenha trabalhado. Basta jogar sério e deixar pra lá essa estranha vontade de ajudar os pobres e oprimidos, como nosso ridículo e galináceo próximo adversário. E aí, como disse o vergonhosamente agredido Arthur Muhlenberg no Urubunews, o empate de ontem terá sido apenas o início de uma nova série invicta a caminho do (faltam só 14 jogos) hepta.

P.S.: Para desopilar o fígado, acalmar o coração e inspirar a alma à espera da vitória de quarta-feira, ouçam Rosemary Clooney e John Pizzarelli. Juntos e só tocando bossa.

Pro alto e avante

Antes que os ataques de pelanca prevaleçam, antes que calcinhas e calções sejam arrancados pela cabeça, vamos deixar uma coisa clara: só faltam 18 jogos para o hetpa.

Estamos no fundo do poço, o bagulho ficou esquisito. Perdemos a terceira partida no ano, a segunda no campeonato, estamos a cinco jogos sem vencer, nosso craque é desfalque na próxima rodada, tem um monte de gente machucada, não temos zagueiros suficientes. Ah, e estamos na quarta posição a quatro pontos do líder com 54 em disputa pela frente. Estamos em crise, né não? Chegamos ao fundo do poço.

E estar no fundo só tem um significado: não há outro caminho além da subida. Portanto, parem de chorar pelos cantos. Coloquem as louras pala gelar, caprichem nos acepipes e sorriam. Pro alto e avante!

Sobre o jogo, algumas conclusões óbvias: nosso banco não tem nem um terço da capacidade técnica do time titular; com essa quantidade de desfalques que estamos tendo nos últimos dias, não há time capaz de se entrosar; ninguém entra em campo com Rodrigo Alvim e fica impune; está provado, mais uma vez, que não há levantador de defuntos maior do que o Flamengo no futebol brasileiro.

O profexô – de quem não gosto mas sou obrigado a admitir – entende do riscado. Vai arrumar o time, colocar a bagaça em ordem e tudo voltará ao seu devido lugar.

Nosso próximo compromisso é contra o poderoso Bahia, time contra o qual empatamos vexaminosamente no primeiro turno, jogando em Salvador. Chegou a hora de mostrar a real diferença entre um time de futebol de verdade e uma coleção de renegados.

Durma com um barulho desses

Não entendo, juro que tento, mas não entendo. O Vasco venceu, parabéns. O Fluminense ganhou fora para tentar uma recuperação, parabéns. O Botafogo, como quem não quer nada, venceu de novo. Parabéns também.

Mas sabem o que a turma que diz torcer para esses times está fazendo desde ontem à noite. Ao invés de comemorar suas respectivas derrotas, estão pulando de alegria pela derrota rubro-negra. E, além de não entenderem as piadas, ficam passando recibo em listas e blogs por aí. Como até o Tchaka fez aqui.

Será que algum psicanalista passará por aqui e conseguirá nos explicar esse fenômeno?

A grana que ergue e destrói coisas belas

Falaê Kleber Leite, dizaê Plínio Serpa Pinto. R$ 65 milhões em dívidas jogados no colo da presidenta por conta do projeto de construção de estádio e shopping center na Gávea, que nunca saiu do papel. Na época, o tal consórcio que faria a obra adiantou R$ 6 milhões que foram gastos para trazer Edmundo. A obra não existiu e o clube não devolveu a grana.

O departamento jurídico do clube defendeu a tese de que foi doação. Pombas, se eu que sou um cara bom, de ótimo coração, não dou dinheiro nem pra minha mãe, por que esses caras dariam dinheiro pro Flamengo?

Da decisão de ontem, ainda cabe recurso. Mas, com o bom senso como referência, faz sentido o Flamengo ganhar essa causa?