88 milhões de não votos, vida que segue

EleicoesHoje não fui ao Maracanã, fui votar. Não foi meu time que perdeu um título, mas meu candidato que não se elegeu. Também não perdi nenhum parente ou amigo querido. Estou triste, muito triste, mas não estou de luto. Também não vou deixar de comer pão de queijo, tapioca, tutu ou camarão na moranga. Quem perde sou eu, ora bolas.

Não votei no PT, não gosto do PT porque o modelo de estado que seus integrantes tentam construir não é o que penso melhor para o meu país, para o meu futuro e –mais importante do que qualquer coisa – para o futuro das minhas filhas.

Não odeio Dilma ou Lula, nem mesmo Dirceu ou Genoíno, os bandidos condenados que eles tentam transmutar em heróis da pátria. Tenho, sinceramente, mais o que fazer e com o que me preocupar.

No entanto, e isso é o que me preocupa, eles têm em seu programa (basta lê-lo), em seu ideário (basta se debruçar sobre as relações externas a que eles se dedicam), um claro perfil totalitário, com diminuição paulatina das liberdades individuais e claro controle dos meios de comunicação, e a pretensão de se implantar o que chamam por aí de “democracia direta”, plebiscitária. O próprio discurso da vitória da moça já foi recheado de recados, em sua sombra estão as diretrizes do Foro de São Paulo.

Definitivamente não é isso o que quero, tenho mesmo medo.

Sua eleição é legítima. Já disse isso por aí. O voto de cada um é tão legítimo quanto o meu. O grau de consciência de cada um, do mais ao menos formado, do mais ao menos informado, não pode ser motivo de chacota e ofensa.

Venceram por um fio, 3,5 milhões de votos em 142 milhões de eleitores. Sem contar que mais de um quarto deles não votou, escolhendo branco, nulo ou nem aparecendo diante das urnas. Ao todo, mais de 88 milhões de eleitores não votaram em Dilma. E é bom ela lembrar que será a presidente desses também.

Mas venceram e o que me incomoda, me ofende na verdade, a maneira encontrada por esse partido para chegar à vitória na eleição.

Uma campanha baseada em mentiras e ofensas, uma campanha que se ocupou de produzir uma luta de classes, um nós contra eles virulento e que contaminou todos os níveis de relações, uma campanha que cuidou de disseminar o medo e de manipular informações.

O país está parado, a desigualdade voltou a crescer, nossos resultados na educação são pífios, o incentivo à pesquisa é ridículo, o índice de pleno emprego já está mais do que comprovado que é fictício, a infraestrutura do país é vergonhosa e tantos mais problemas que são esfregados nas nossas caras diariamente. E não é possível que eles sigam entocados em sua ostra infinita, dizendo por aí que toda a imprensa é o Grande Satã e/ou a mídia golpista. Que golpistas são esses que aceitam como legítimo o resultado das urnas?

Mas eles estão eleitos. Reeleitos para seu quarto mandato.

Nos resta, agora, muito mais do que torcer, trabalhar, exercer a tão propalada cidadania e cuidar, muito além dos 20 centavos, para que a oposição seja de fato oposição e para que nossas instituições sejam realmente fortes e independentes o suficiente para cuidar do que importa.

Estamos às margens da maior crise política da nossa história, basta que tudo seja realmente investigado e colocado às claras. E não, isso não é uma brincadeira, terrorismo ou superlativo de derrotado. Prestem atenção ao que acontece um palmo diante de seu nariz. Mas tenho muito medo de que a estrutura, mais que viciada a essa altura, impeça que tudo venha a um termo justo.

Tenho muito medo do que possa acontecer com o Brasil nos próximos anos. Mas, por mais paradoxal que possa parecer, também tenho muita esperança. Porque é possível que desse processo eleitoral que mais pareceu uma guerra entre persas e espartanos, é possível que dos resultados dessa eleição surja uma estrutura partidária mais robusta, com a fusão de alguns partidos e o surgimento de novos. Será que a Rede será real depois de mais uma derrota de Marina? Será que o Novo, que está em gestação, quase parido, será algo relevante de fato, como eu espero? Ainda não dá pra saber.

O país maravilha da propaganda oficial não existe, tanto quanto o caos da propaganda eleitoral dos seus adversários. O que é fato consumado é a dificuldade que teremos pela frente, os próximos anos serão muito duros. Será com Dilma, seria com Aécio. Ideologia à parte, pois, e absolutamente incrédulo, torço sinceramente para que a presidente se cerque de gente capaz de melhorar as coisas.

Agora, por favor, vamos parar de nos ofender, de querer nos matar. Não é possível que não tenhamos mais o que fazer. Eu, por exemplo, preciso trabalhar para pagar pelos meus luxos pequeno-burgueses, como a escola e o plano de saúde das minhas filhas, a compra do mês, contas de luz, gás, telefone, prestação, condomínio e, de vez em quanto, uma pizza e uma cerveja. Vida que segue.

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Conversas

Conversa / Fonte: Blog do Eloi ZanettiTive algumas conversas deveras interessantes nas últimas semanas e resolvi contar alguns trechos de algumas delas.

 

1

Fui dar entrada no Seguro Desemprego. Depois de amargar meses tentando fazer o tal agendamento, fui atendido às 17h50 de uma sexta-feira no Centro. Lá a coisa toda aconteceu a contento, atendimento rápido e eficiente. E simpático, vejam vocês. Quando estava quase tudo pronto e a mocinha (funcionária pública do Ministério do Trabalho) já me devolvia os documentos, a coisa se desenrolou assim:

– Só isso, simples assim?

– É

– Olha que quase dá vontade de votar na Dilma…

– Você não vai fazer isso, vai?

– Não, claro que não, nem por decreto e com a guarda em forma

– Ah bom…

– Tá feia a coisa né?

– Ô… E essas oposições não dão as pauladas que têm que dar, parece que têm medo

– É, mas aos poucos as coisas vão mudar, tem coisa nova aparecendo por aí

– Será?

– Você já ouviu falar do Novo?

– Já, claro. Legal né? Parece que os liberais finalmente estão querendo sair do armário

– Então, o negócio é não desistir e participar

– Você já foi a alguma reunião?

– Ainda não, sempre acontece alguma coisa na última hora e eu furo. Mas estou tentando encontrar um espaço pela Tijuca pra propor um encontro, ainda não teve nenhum por lá.

– Ah, legal. Mais cedo ou mais tarde a gente vai se encontrar de novo então.

 

2

Estava no metrô, voltando de uma reunião, com um livro na mão. Sou meio que ímã pra malucos, tagarelas e congêneres. E apesar de estar com um livro aberto, o sujeito que sentou ao meu lado não teve dúvidas.

– Rapaz, tô impressionado com essa campanha.

– Ahã…

– Os caras insistem nessa história de luta de classes, de que rico tem raiva de pobre, que pobre tem raiva de rico. Agora tão inventando até que pobre tem raiva de pobre.

– Ahã…

– Esse negócio de avião e aeroporto, por exemplo. De vez em quando aparece um grã-fino torcendo o nariz pra galera. Isso não é lenda urbana não, só pra colocar medo no povo? E não é o rico que é dono de avião, de hotel, de loja? Por que os caras vão torcer o nariz se vendem mais passagem, se o povo viaja mais?

– Ahã…

-E carro então? Todo mundo reclama que o trânsito tá uma merda. Aí inventaram esse negócio de IPI e venderam mais carro ainda. Quem é que vende carro? Como é que vão reclamar então? E churrasco na laje? Quem é que vende carne? Pergunta lá pro dono da Friboi se ele reclama que pobre compra mais carne!

– Hummm

 

3

Chope de amigos de antão, daqueles que se encontram uma vez por mês pra falar besteiras e matar as saudades. Um deles voltava de férias e esteve no Uruguai. Enquanto discutíamos acaloradamente e resolvíamos o Brasil entre uma tulipa e outra, ele contou uma passagem interessante. É claro que o conhecendo bem, ficamos todos imaginando o portunhol macarrônico em que ele tentava se comunicar. Mas segue o relato já traduzido pelo próprio.

– Entrei num táxi e não teve jeito, não resisti e perguntei do Mujica

– É um bom presidente

– Mas e esse negócio dele morar no sítio, andar de Fusca, ser gente como a gente?

– É pitoresco

– No Brasil ele é tratado como ídolo por muita gente

– Bobagem

– Como assim?

– É um bom presidente e isso é importante. Mas o mais importante é a alternância.

 

4

Sala de casa, último debate presidencial, menina de cinco anos que torce para o América tentando entender o mundo ao redor. Dilma e Marina nos púlpitos.

– Papai, por que elas têm que andar até aquela mesinha pra falar?

– Porque elas vão falar coisas importantes e precisam aparecer bem, destacados dos outros que estão calados.

– E por que essa aí tá falando com soluço?

– Ela não está com soluço

– Mas parece

– É porque pra não falar besteira, tem que pensar antes

– Então ela pensa devagar né?

O ser estupidamente político

Foto: Jamie McDonald / Getty Images / Fifa.comNeymar fraturou uma vértebra e está fora da Seleção. Todo mundo já sabe disso, claro. Naturalmente, com a Copa realizada no Brasil e o nosso maior craque cortado quando chegamos à semifinal, um problemaço. E só se fala nisso por aí, nas TVs, rádios, jornais, portais, blogs etc.

Ah, que absurdo, uma comoção dessas por um jogador de futebol e que ainda ganha milhões!

Vamos combinar que, dadas as circunstâncias, o estranho seria se não houvesse mobilização. É curioso ver que, a essa altura da vida, esses seres políticos sejam tão ranzinzas e tão cegos que ainda não tenham percebido o quanto o futebol é algo importante para o brasileiro médio.

Pois deixem de ser chatos, pelamordedeus, ao menos de vez em quando?

Não só tem copa, como ela está entrando para a história como uma das melhores de todos os tempos. Com alguns problemas sim e que, dependendo do caso, são ou não são mostrados. Como acontece em qualquer lugar do mundo.

Sim, estamos todos os torcedores preocupados com o Neymar. E mesmo para quem não torce, é natural a preocupação e o tempo gasto com suas notícias. Afinal, um jovem de 22 anos teve uma contusão séria (fratura de vértebra!) praticando um esporte. Mas ó, vocês, além de chatos, são míopes.

Porque todo mundo sabe que ele terá o melhor tratamento que o dinheiro pode pagar. E como é atleta, sua recuperação, por mais difícil que seja, será mais rápida do que das pessoas normais e sua carreira, felizmente, não corre risco.

Digo que são míopes porque ao se desgastarem tanto com a ‘comoção por Neymar’, não se dão conta de que estamos (os torcedores) todos preocupados mesmo é com o futuro da Seleção na Copa. Porque queremos ganhar e agora será mais difícil.

Meus amigos, não querem se envolver com a festa? É um direito de qualquer um, claro. Mas assumam isso e não se envolvam de verdade, sem encher o saco de quem tem o direito de gostar, participar e se empolgar.

Sei que é perda de tempo tentar ser racional com quem é irracional. Mas algumas coisas são simplesmente tão estúpidas… Ainda há gente que acredita que a vitória da Seleção será capaz de eleger a Dilma ou que sua derrota será capaz de eleger outra pessoa. Não, meus amigos, o futebol não tem esse poder.

Todo mundo que me conhece sabe que não votarei na Dilma. E, dentro das minhas possibilidades, ainda farei campanha contra ela e o PT e seus aliados. E não, ainda não decidi em quem votar. Para nenhum dos cargos.

Mas não tentem me fazer sentir culpado por aproveitar ao máximo uma das coisas que mais gosto e que só acontecem de quatro em quatro anos. Nossos problemas estavam aqui muito antes da Copa, muito antes – inclusive – de sermos definidos como sede da Copa, quando 78% da população não só apoiou como bateu palmas.

Nossos problemas continuarão aqui no dia 14 de julho e o futebol não tem nada a ver com isso. O futebol é apenas a coisa mais importante entre todas as coisas desimportantes. Não encham o saco.

Ah, a mídia golpista…

Reprodução: NewseumSempre disse que no Brasil a mídia, os meios de comunicação de massa ao menos, é oficialista. Ao contrário de outros países, com democracias um tantinho mais evoluídas, nossos jornais não assumem o que são e o que querem de verdade, escondendo-se atrás de uma máscara de isenção que é, simplesmente, impossível de praticar. Simplesmente porque todo mundo tem opinião.

Caso raríssimo foi o do Estadão, que na eleição passada assumiu em editorial o apoio a José Serra. Sempre achei que o ideal é que todos fizessem o mesmo: apoio isso ou aquilo por acreditar que isso ou aquilo é melhor para o país, estado, cidade ou seja lá que raio fosse.

Essa falta de posição provoca desvios absurdos. Por exemplo, temos hoje – como sempre – os órgãos oficialistas como sempre cada vez mais pressionados (e atendendo à pressão) pelo discurso da mídia golpista.

Pois quando fiz faculdade, a disciplina ‘Leitura de Jornal’ (dependendo da instituição, leitura comparada ou leitura crítica ou coisas do gênero) era obrigatória. Hoje parece que é eletiva e não das mais concorridas, infelizmente.

E daí?

Daí que, apenas como exemplo, vejam a manchete e subtítulo do Globo de hoje: “Renda média sobe mas desigualdade para de cair – Analfabetismo também deixou de registrar queda depois de 15 anos”. Por quê não escrever de forma reta, direta? Por exemplo: “Renda média sobe mas desigualdade aumenta – Analfabetismo cresce depois de 15 anos em queda”.

Pode parecer besteira, mas o efeito é completamente diferente. Ou será que estou louco?

Pois bem, leiam as manchetes de cinco dos principais jornais do país neste sábado e tentem reescrevê-las de modo mais objetivo. E analisem a quem favorece esse ou aquele jeito de escrever.

Depois, lembrem-se que o maior adversário de Dilma, hoje, é Lula. Ele já anunciou que está de volta ao jogo e os petistas chegam a babar de prazer com a possibilidade dele ser o candidato. E a moça, apesar de voltar a subir nas pesquisas, não está lá muito segura na cadeira, por conta de tudo isso que está aí, como diria – se vivo – Leonel Brizola.

Ah, a mídia golpista… Fico me perguntando: golpe contra quem?

Nos trilhos

Estrada de FerroSabem por que ando entediado? Porque no final das contas, todas essas confusões políticas apontam para a mesma direção. E no final das contas, ficamos (a massa que ainda depende da mídia tradicional e ainda é maioria no país) à mercê de como as coisas são noticiadas.

Por exemplo, a história da Siemens e do cartel em São Paulo, em que tentam arrastar até os mortos para o pântano.

Agora, vejam que curioso: o mesmo problema aconteceu no Distrito Federal, e isso – definitivamente – não anda sendo explorado.

Em mais uma obra com problemas, dessa vez em Fortaleza. O metrô com superfaturamento comprovado, que custou o triplo do estimado no projeto e que foi pago com dinheiro federal, foi realizado por um consórcio formado pelas seguintes empresas: Siemens, Alstom, Bombardier e Balfour Beatty. Reconhecem?

E ainda há o estranho caso do consórcio formado por Alstom e CAF. Em Belo Horizonte, numa licitação da CBTU (federal), a primeira ficou com 90% do negócio e a outra com 10%. Já em Porto Alegre, em licitação da Trensurb (federal), as proporções do negócio foram invertidas. Em ambos os casos, não houve concorrentes nas licitações e as compras de trens não foram canceladas. Estranho?

Pra mim, estranho de verdade é não ver essas histórias maciçamente noticiadas. Mas tenho certeza que isso não é de propósito, é apenas porque não cabe tudo nos telejornais.

Bom, mas eu falava de tédio e mais do mesmo. Então, hoje haverá manifestação em São Paulo, convocada pelo MPL, aquele Movimento Passe Livre. Afinal, o último escândalo é sobre trens e metrô, imaginem se perderiam a chance. Pois é bom não esquecer que o MPL é parceiro histórico do PT. E se há manifestação, estarão lá o Black Block (é assim que escreve?), para provocar e se bater com a polícia, e a Mídia Ninja, aquela turma independente que anda de braços dados com o Capilé.

Em compensação, nos outros lugares em que o governo federal ou suas estatais pagaram pelas obras com os mesmos problemas de São Paulo, ninguém fala nada, ninguém faz nada.

E tudo isso é mesmo um tédio, porque continuamos (e continuaremos, pelo visto) falando de manutenção (no caso do governo federal e alguns de seus aliados) e conquista de poder (o estado de São Paulo sempre foi a jóia da coroa dos sonhos do PT).

Só um detalhe: o contrato de Porto Alegre foi assinado pela própria Dilma. Mas quem se importa, né não?

Horizonte, cenário, contexto…

Metrô

A verdade que emana da cerveja

David Luiz / Foto: Jasper Juinen/Getty ImagesNoite de sábado, véspera da final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha. Estávamos lá. Eu, Marcos, Alexandre e outro Gustavo. Muitas latas depois, discutindo sobre o tudo e sobre o nada. Cerca de mais ou menos 6min38seg depois de resolver todos os problemas do Brasil, o país, surge a grave questão: “e aí, como vai ser amanhã?”

Dadas as condições gerais das últimas semanas, com discussões políticas intermináveis pelos motivos que todos conhecemos, andava até evitando falar de futebol. Principalmente sobre a possível “final que todos queriam ver”. O único sujeito que li e ouvi falando que o Brasil colocaria a Espanha no bolso foi o Rica Perrone. De resto, “a Espanha é (inclua aqui qualquer adjetivo igual ou superior a fodástico)”

Tenho um amigo querido, Rogério (sem sobrenomes, por favor) que desde as vésperas da última Copa chegava a orgasmos múltiplos a cada jogo da Roja. Imagina, então, se eu – logo eu! – ia ser do contra.

Mas a verdade que emana da cerveja…

Entre as observações e interjeições que ouvi (algumas nada decorosas), estavam:

– Você é louco

– Bebeu?!

– Tá de onda…

– Interna!

Basicamente, o que eu disse, é que ganharíamos da Espanha sem maiores sustos. E que se déssemos a sorte de um gol logo no início, enfiaríamos um saco de gols nos caras (foi por pouco). E que se jogássemos 18 vezes contra a Espanha, ganharíamos 17 (e só aqui eu admito um tantinho de exagero, mas era pra defender posição em meio à discussão encharcada).

Não, eu não sou louco. Pelo menos oficialmente. Mas há coisas sobre a Espanha que nem são tão difíceis de observar. A primeira, por óbvio, é que é um timaço sim. Com grandes e inteligentíssimos jogadores. Agora, o resto.

O toque de bola absurdo do time é baseado no Barcelona, algo que todo mundo sabe. Mas há uma diferença crucial entre o clube e a seleção. O Barça tem a possibilidade de contratar qualquer grande atacante do mundo, e faz isso há já há décadas. E só formou, craque mesmo, o Messi. A seleção não tem essa possibilidade e os artilheiros espanhóis não seriam titulares em metade dos 20 clubes do nosso Brasileirão. Não por acaso, ganharam a Copa de um a zero do início ao fim (fora a derrota pra Suiça). E é tão bonito de ver jogar que pouca gente se deu conta do quão fora da curva foi a goleada sobre a Itália na final da Euro.

O toque de bola, então, que é maravilhoso sim, na esquadra nacional, assume o papel de melhor sistema defensivo do futebol mundial. Afinal, sem a bola, ninguém faz gol. Pela qualidade e inteligência acima da média do time, os caras botam os outros na roda, extenuam os adversários com seus 65, 70% de posse de bola, e matam as partidas com um, dois gols no máximo. Quase sempre no segundo tempo. Peguem as estatísticas. De outras vezes, poucas, acham um ou dois gols no primeiro tempo e os adversários, com metro de língua pra fora, não conseguem reagir.

E por que eu tinha certeza que venceríamos o jogo? Pela intensidade com que o time veio jogando e crescendo, porque o time não é ruim (apesar de saber que não é a escalação ideal), porque a Espanha tem pontos fracos óbvios (como as laterais), porque eles não são tão velozes sem a bola (especialmente os zagueiros). Ah, e um detalhezinho, besteira, bobagem: camisa.

E sim, acredito que se jogarmos 10 vezes com eles, ganhamos 7, empatamos 2 e perdemos 1.

Os caras, donos do mundo que a geração Playstation acredita ser a melhor de todos os tempo (ah, os jovens), estavam há 29 jogos oficiais invictos. Mas alguém já se deu conta de quem foram os adversários? Vejam (e analisem) a lista, com resultados, de trás pra frente. São jogos de Copa, Eliminatórias, Euro e Confederações. Os negritos para os times de (alguma) camisa, os vermelhos para os resultados ridículos (pro bem e pro mal).

Itália, 0-0 (7-6 nos pênaltis)
Nigéria 3-0
Taiti 10-0
Uruguai 2-1
França1-0
Finlândia 1-1
França 1-1
Bielorrúsia 4-0
Geórgia 1-0
Italia 4-0
Portugal 0-0 (4-2 nos pênaltis)
França 2-0
Irlanda 4-0
Itália 1-1
Escócia 3-1
República Tcheca2-0
Liechtenstein 6-0
Lituânia 3-1
República Tcheca 2-1
Escócia 3-2
Lituânia 3-1
Liechtenstein 4-0
Holanda 1-0
Alemanha 1-0
Paraguai 1-0
Portugal 1-0
Chile 2-1
Honduras 2-0

O Brasil será campeão do mundo ano que vem? Não sei. A própria Espanha pode repetir a dose. E até pode nos vencer na final, por que não? E ainda há Alemanha (minha favorita hoje) e Itália. Por fora, correm como sempre a Holanda e a Argentina. E sempre há a questão dos cruzamentos, uma surpresa africana, uma zebra norte-americana, uma Bélgica que vem jogando muito bem e pode atrapalhar.

Basicamente, o que estou tentando dizer é que o bicho nunca teve sete cabeças. E lazaronis a parte, Brasil é Brasil. Ou vocês acham que eles queriam se bater com a gente por acaso?

P.S. 1: “E se o David Luiz não tivesse salvado o empate, se a bola entrasse?” O ‘se’ não joga, se sapo tivesse embreagem não pulava tanto. Pois digo que mesmo se fosse gol, venceríamos o jogo.

P.S. 2: Dilma, Cabral e Paes encastelados, ausentes no Maracanã? Não tem preço

Verbetes e expressões (29)

Diversionismo

(di.ver.si:o.nis.mo)

sm.

1. Manobra us. nos órgãos legislativos ou deliberativos, consistente em desviar a atenção de seus membros para assunto diverso daquele que se discute, a fim de impedir-lhe a aprovação.

2. P.ext. Qualquer recurso us. para despistamento; cortina de fumaça.

[F.: diversão + –ismo, seg. o mod. erudito.]

Fonte: iDicionário Aulete

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https://gustavosirelli.wordpress.com/2013/06/27/pt-e-dilma-voce-ainda-se-surpreende/Esse plebiscito é uma piada. Péssima, por conta de tudo o que o envolve e desde a maneira como surgiu.

Desde que as manifestações começaram, via-se de tudo nos gritos confusos e cartazes criativos ou não que circularam pelas ruas. É verdade que tinha até gente falando do assunto e é claro que a reforma política é algo de suma importância num país em que existe uma crise de representatividade gigantesca.

Primeiro é preciso lembrar a maneira como a presidente se apresentou. No primeiro pronunciamento, 10 minutos de elucubrações sem assumir qualquer compromisso claro. Depois, armou uma enorme cena para jogar sobre o país as resoluções de um congresso de seu partido, sem qualquer tipo de acordo ou aviso prévio àqueles que estava com ela à mesa.

Por fim, o tal plebiscito, o que sobrou do vexame da constituinte específica. Como já disse, a reforma é sim importante, mas nem de perto o tema mais grave e mais urgente para se tratar neste momento. Além disso, apesar de previsto na nossa Carta (como os referendos), expõe um modelo de governo já praticado em alguns de nossos vizinhos (Hugo, Evo e Rafael sabem bem o que é isso) e que fragiliza sobremaneira um dos poderes nação, pilar da democracia. Que Congresso que teria coragem de ir contra a “voz das ruas”?

Pombas, mas todo o poder emana do povo, qual o problema em se acatar a “voz das ruas”? O problema é que hoje o governo federal, não satisfeita com sua maioria construída como todos sabemos, tem um cabresto que parte de mais ou menos 20 milhões de votos. O problema é que, da maneira que a coisa está sendo feita, a toque de caixa, não haveria tempo hábil para se educar a população sobre os principais pontos da tal reforma. O problema é que a reforma que se desenha (com todo o suporte da máquina) privilegiará a manutenção do poder pelo grupo que está aí (voto em lista, financiamento público, manutenção do voto obrigatório), ao contrário do que deveria acontecer, fortalecendo a democracia com chances reais de alternância de poder e aproximação entre políticos e população, representantes e representados.

E o resultado é que os problemas básicos do Brasil não estão sendo atacados enquanto estamos todos, compulsoriamente, discutindo o tal plebiscito.