Sonho meu

Na quinta-feira, no RiR, assisti aos shows ao lado de um garoto de 11 anos. Amigo da filha de um amigo que estava lá com toda a família. O moleque, que já toca guitarra há três anos, violão há quatro e ainda estuda piano.

Foram quatro shows ao lado dele, Escalene, Alice Cooper (que merecia o palco Mundo), Def Leppard e Aerosmith. No fim da noite, depois de assistir suas reações aos quatro, ainda tive a oportunidade de ouvi-lo dizer: “os velhinhos arrebentam…”

Ontem vimos o que vimos com o The Who. E Guns. Putz… Axl, que lixo.

E fico pensando nas bandas fantásticas que estão por aí e que – sei lá porquê – parecem não ter perfil para o RiR. Fica parecendo que há um enorme vácuo geracional entre as bandas, que de fato não é real. E desconfio que o Groo e o Ricardo tendem a concordar comigo. Porque nem é preciso muita força ou muita pesquisa pra encontrar tanta gente de qualidade.

Porque esses caras não vêm? Porque o Lollapalooza consegue reunir um monte de bandas “novas” de qualidade e o RiR segue pagando os vexames que paga? Se vestiu da aura de “maior festival de música e entretenimento” do mundo e só aceita o que é (ou aparenta ser main stream)?

Sim, eu sei que – de certa forma – comparo alhos com bugalhos, falo de dois festivais de perfis muito diferentes. E que também há um monte de detalhes como calendário e agendas de músicos e bandas, fora o resto. Fora o apelo comercial para a venda de ingressos, mas que, com a máquina de comunicação que é o RiR, seria até fácil resolver.

Resumindo: cacete, como eu gostaria – só uma vez – de ser o responsável pela escalação do RiR. E olha que nem penso em acabar com a diversidade de estilos não.

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Poesia mora lá…

bandeira_do_gres_imperio_serrano-800x509O primeiro carnaval de que tenho realmente memória foi o de 1984. Não me refiro aos bailinhos no Vila nem dos bate-bolas no Boulevard. Falo de escolas de samba e do arrastão que a Mangueira provocou, indo e voltando pela nova avenida do samba.

Naquele tempo os desfiles entravam pela manhã e a Portela já tinha deixado todo mundo de boca aberta no domingo (manhã de segunda, na verdade).

Enfim, foi por causa daquele carnaval que me formei mangueirense. E foi por causa destes dois desfiles que me apaixonei pelo carnaval da Sapucaí. Com o tempo, fui aprendendo e entendendo cada escola, o significado de cada uma pra história do carnaval e da cidade.

E depois de um bom bocado de desfiles – no grupo especial e de acesso – e de uns bons anos sem colocar os pés na avenida, ganhei um presente. Daqueles que não dá pra se medir.

Império Serrano.

Não sei se a meia-dúzia que 8 ou 9 amigos, do Rio e de fora, tem a noção do que significa isso. Império Serrano.

Tentei não dar bandeira, fiz força para ficar um tanto blasé, mas fiquei tenso durante todo o dia, especialmente na concentração, como não fiquei nem na primeira vez em que desfilei.

É um símbolo, tem uma aura diferente. E nem se trata de ser imperiano, mas de se dar conta do que representa.

É uma instituição, ao lado da minha Mangueira e da Portela. E pra mim, ao lado da Vila, meu bairro querido onde nasci e me criei, de Noel e de Martinho.

De quebra, vejam só, entrei na avenida comemorando o aniversário do meu irmão, que estava ao lado, da minha comadre querida e dela. Ela, imperiana devota de ficar com o coração disparado só de ouvir o primeiro acorde do cavaco, e que me levou para viver esse presente. Foi a certeza de que meu quintal é maior que o mundo.

Desfilamos no sábado, grupo de acesso em que o Império nunca deveria estar, e estou escrevendo antes de saber o resultado da apuração, antes de saber se, no ano em que comemora 70 anos, o menino de 47 vai voltar ao Grupo Especial. Porque não importa. Porque, como disse aí em cima, foi um presente vivido.

Não sei se será possível – algum dia – lhe proporcionar algo parecido com o que vivi nessa “festa” de 10 meses.

E neste fevereiro sem o dia 29 em que contamos nosso tempo, neste primeiro dia de março, aniversário da nossa cidade, “cantando eu declamo esse amor por você.”

A carta

fogoQuando Ana e Zé se viram pela primeira vez o garoto ainda não tinha chegado aos 20 anos. Mal começara a faculdade e nem carteira de motorista tinha. Ana, em compensação, já morava sozinha nos seus vinte e poucos, trabalhava, sabia bem o que queria (ao menos era o que ela pensava…).

Se conheceram por acaso, em um evento em que os dois estavam trabalhando. Ele, estagiário. Ela, coordenadora. Ele tentando descobrir o mundo, ela já se achando dona. E mesmo assim rolou aquele clic. E daquele tal evento que duraria vários dias, o esbarrão foi logo nas primeiras horas. Enquanto davam conta, cada um do seu trabalho, se viravam para se encontrar. Fosse para almoçar, fosse para brincar no parquinho mequetrefe que existia nos fundos do pavilhão onde estavam. Ele, que até hoje morre de medo de altura, querendo impressionar, criou coragem para uma volta na montanha russa que tinha ares de filme B.

Hoje não lembram mais se o primeiro beijo foi logo ali ou depois do passeio nada assustador no trem fantasma. Mas engataram o namoro, quem diria? Tudo isso já faz quase 25 anos. E enquanto se sentia meio que o Eduardo, Zé se apaixonava. Mas Ana não era Mônica. E apesar de grandes momentos e até algumas aventuras, o casal nem chegou ao Natal daquele ano. Vida que segue, pois.

E os anos passaram como pra todo mundo. E vieram os casamentos e os filhos. Mas de uma maneira, talvez estranha, certamente inesperada, mantiveram contato. Falavam vez em quando e – vá lá – podiam até se dizer amigos.

 

Demorou mais de dez anos para que se reencontrassem, finalmente dispostos e disponíveis. Ela linda como sempre, morena de olhos verdes e sorriso infinito. Ele já achava que era homem, barba bem feita e um bom emprego. E chegaram a sair algumas vezes, sem e com filhos. Programas a dois e a muitos. E do alto da sua prepotência, “agora ela é minha”, abriu a guarda. E entrou pelo cano. De novo. Dessa vez, sem aviso, sem conversa, sem abraço. Ele esperando. Ela sumiu.

E nenhum cataclismo aconteceu, muito pelo contrário. Vida que segue, de novo, pois.

E a moça casou de novo. E ele teve bandas. E ela lançou livros. E ele deu a volta ao mundo. E ela pintou quadros. E ele casou de novo. E ela compôs belas canções. E ele também. E os dois descasaram. Ambos mais de uma vez.

A moça, virava e mexia, lhe aparecia na lembrança. Mas não era amor nem paixão nem abandono, nada além da sensação estranha de algo inacabado. E não é que um dia, o sujeito tranquilo em casa, piscou a janela de mensagens da rede social? Justo no momento em que tentava descobrir como recomeçar a vida depois de mais um casamento desfeito, quarto ou quinto a essa altura, vá saber.

– E aí, tudo bem?

Não, não estava tudo bem. Sozinho de novo, perrengue no trabalho, em crise até com os filhos, “vou virar eremita no Nepal”.

– Tudo ótimo, e por aí? Novidades?

E seguiram nessa lengalenga por dias, semanas, sem maiores escaramuças ou provocações, até criarem a coragem pra se ver. Encontro protocolar em boteco com mesas de plástico. Mas a cerveja, pelo menos, era gelada. E depois de muitos goles, finalmente cumpriram o inevitável. E se acreditando sem cobranças ou compromissos, se aproveitaram. Não sabiam ao certo se estavam tirando o atraso, recuperando o tempo perdido ou vivendo uma nova história. Mas sorriam, como sorriam…

 

Mas tem coisas que não são pra acontecer. E, de novo e do nada, a moça silenciou.

– Podemos nos ver hoje à noite?

– Não, não podemos. Não quero casos, amantes ou namorados. Não quero me sentir presa.

 

Quando o sujeito já acreditava que não a veria mais, quando decidiu que tinha tudo chegado ao fim, mesmo achando que não existia um fim, a tal caixinha de mensagens piscou na tela à sua frente.

– Em 2025 te conto porque não deu certo dessa vez. Tudo anotado.

– Se está tudo anotado, fala logo. Dez anos é muito tempo.

– Nos encontramos no lugar de sempre, pra não ter dúvidas. E se não quiser esperar, azar o seu.

Conversa estranha justo no dia do aniversário dela. À noite ele não apareceu. Nem flor, nem recado, nem bombom. Pra quê?

 

Alguns meses depois, foi atingido. Bala perdida quando saía de um boteco no Grajaú. Não resistiu. Ela soube, mas faltou coragem de aparecer pra se despedir pessoalmente. Sozinha na varanda, entre as tintas, telas e os violões encostados na parede, abriu uma cerveja e escreveu uma carta. Sem lágrimas, sem rasuras. E depois do último gole, queimou aquelas folhas de papel com a história que não seria contada dali a dez anos.

Uma boa pergunta

Metro São Paulo - David BowieJá faz uma semana que recebemos a notícia. E ontem tive uma conversa pra lá de interessante, sobre o peso das coisas e o tamanho das pessoas. Muita gente ficou muito impressionada com a dimensão da cobertura, do espaço dado à morte de Bowie.

Flavio Gomes, por exemplo, escreveu pouco mas escreveu muito a respeito: “David Bowie preparou a morte, imaginou a morte, cantou e filmou a morte. Foi artista até o derradeiro segundo, fez da morte, arte.” Se referiu a Lazarus, claro. Mas falou muito sobre o que Bowie foi.

O irmão Ricardo Santos fez o diagnóstico preciso: “A variedade de músicas postadas para homenagear Bowie prova seu apelido”. Mais do que o apelido, se referiu à capacidade e à variedade criativa que fez com que alcançasse o público absolutamente diverso que tinha.

E há por aí, fomos inundados na verdade, por uma infinidade de textos sobre o sujeito que era mesmo fenomenal.

Mas, voltando ao que importa aqui, a tal conversa de ontem começou com o espanto: “quase um bloco inteiro do Jornal Nacional!”… “Capa de Veja!”… Veja, na verdade brilhante, fez 12 capas diferentes. Mas não foi só isso: não houve jornal ou portal ao redor do mundo que não desse destaque ao sujeito. Mas a partir dessa constatação, veio a melhor pergunta da noite:

“- O que vai acontecer com a imprensa, qual vai ser o espaço, o que o mundo dirá quando caras como como McCartney, Clapton, Jagger e Richards, Wonder, Page, Waters e Gilmour, Van Halen morrerem? E no Brasil, quando o Roberto Carlos morrer?”

Sinceramente, não sei responder. E sim, é uma boa pergunta, que vai muito além de gostar ou não gostar do artista tal. A questão é perceber sua relevância. Alguém se arrisca a dar um palpite? Alguém se arrisca a aumentar essa listinha?

A ciranda da vida…

…Que gira e faz girar a roda da vida que gira.

É, eu poderia pegar trechos das canções do cara, escrever, reescrever, talvez até transmutar em algo razoável, mas que nunca chegaria a ficar bom. Porque se você reparar, ouvir com cuidado, tudo o que precisa ser dito já está.

Feliz 2015!

Bobeira, acaso e música boa

VitrolaSão 4h35 da manhã e devia estar trabalhando, aproveitando que a turma toda está dormindo. Estou trabalhando, preparando aulas, e resolvi dar uma parada pra refrescara a cabeça. Fui dar uma zapeada e dei de cara com o programa Live@Home.

Sou do tempo em que, para descobrir sons novos – mesmo que antigos – tinha que gastar algumas horas em um loja de discos. Muitas vezes não dava pra ouvir na hora, você tinha que arriscar, ou acreditando na indicação do vendedor (nas boas lojas, os vendedores entendiam de música), ou acreditando que a capa era uma espécie de prólogo do que vinha por aí.

Foi assim, por exemplo, que descobri o Artie White, comprei o CD porque o cara estava em pé na capa, sozinho, envergando um discretíssimo terno azul turquesa, com chapéu e tudo. Pensei que “esse negão tem que ser bom”, e não me enganei.

Também foi assim, se lembro bem da história, que o Caius resolveu comprar o primeiro CD do Jota Quest, os caras de terno e perucão black power sobre uma base psicodélica. Funk-soul total. Ele que apareça pra confirmar ou não minha memória. O que é certo é que não se enganou e me apresentou. Infelizmente os caras não mantiveram o nível de produção nos discos seguintes.

Como se vê, as indicações sempre foram uma boa fonte. Foi assim que conheci a Joss Stone. Um dia meu pai me ligou pra confirmar se ia passar na casa dele no fim de semana. Avisou: “se prepare pra ouvir uma garota de 17 anos que é espetacular”. O pagamento só veio a pouco tempo, quando coloquei ele pra ouvir o Alabama Shakes, que descobri sozinho.

A última indicação que recebi e valeu muito a pena foi da Carlinha, The Lumineers. Como quase sempre, a música dos caras que estourou por aí era a pior do disco. Mas os caras são muito, muito bons.

Acaba sendo cômico, pra não dizer trágico, que eu que passo a maior parte dos meus dias em frente ao computador acabe não gastando muito tempo pra garimpar sons diferentes, coisas novas ou que o valha. E como nunca me preocupei muito em ser o primeiro a descobrir talentos, a estar na crista da onda e coisas do gênero, sigo em frente sabendo que perco um sem número de oportunidades de ouvir boa música. Acabo contando com o acaso.

E voltamos ao programa de TV. Encontrei com Jamie Cullum. Potaquéoparéu!!!! Como é que nunca prestei atenção ao cara que já estava lá atrás, na trilha da Bridget Jones? Nos dois filmes!!! O cara já lançou cinco álbuns e virou referência no jazz. E eu dando essa bobeira. Enfim, não dou mais.

Se você é que nem eu, meio desligado, meio atrasadinho, taí embaixo o programa com o cara. Também vale dar um pulo no Grooveshark e ouvir suas gravações originais. Acho difícil não se apaixonar.

E se tiver alguma boa dica, não se acanhe. Vale qualquer estilo, juro. Só não vale música ruim.

Os cocares do Dalí

Salvador DalíE aí caímos na esparrela do viradão do CCBB e fomos pra lá ver o Dalí. Afinal, é o último fim de semana da exposição.

Primeiro, vamos ao mais importante. A exposição é muito boa, uma bela coleção que veio ao Brasil, com um belo espectro da obra do sujeito em todas as suas fases. Algumas obras muito conhecidas, outras nem tanto o que é sempre muito bom. Eu, entre outras coisas, não conhecia suas ilustrações para alguns livros e me encantei, me apaixonei na verdade, pelas gravuras para O Velho e o Mar.

O grande problema da exposição, e eu bem fui avisado pelo meu pai, é a iluminação das obras. As salas a meia luz, com pequenos spots apontados para cada um dos quadros. Algo curioso, que não se vê quando visitamos os melhores museus do mundo. De quebra, e como bem lembrou minha consorte, quando o sujeito pintou o quadro, ele pintou o quadro e ponto. O que ele queria mostrar está ali na obra, sem especificações de iluminação ou qualquer coisa do gênero. E quando o curador resolve fazer uma coisa dessas, ele interfere na obra. E isso tem sido comum nas exposições que aportam ao sul do equador.

Agora a roubada. Não sei também com que objetivo, mas armaram uma tenda com DJ na porta do CCBB. Na única porta disponível. Estava um caos. Entrar e sair era uma luta. E nós levamos as crianças, Helena pediu pra ver a exposição e quando ela se deu conta de que estávamos chegando, bateu palmas e deu vivas.

Demos nosso jeito. Entrar até foi mais fácil. Sair, só aos empurrões. A fila nem estava das maiores, mas o barulho e a circulação de um público que foi até lá para curtir a balada e nem aí para a exposição tumultuou demais. Se pra nós foi difícil e desconfortável, imaginem para os idosos (e havia vários) e deficientes, cadeirantes ou não.

Na porta, naquela única, só havia um segurança que apesar da sua boa vontade era incapaz de organizar a entrada e saída das pessoas. Resumindo: se a ideia, de forma geral, era boa, o planejamento e execução foram trágicos. Uma zona pela qual não me arrisco de novo a passar, mesmo sem as crianças.

Helena também pediu pra ver o Miró, nós também queremos ir. Pelo jeito, a solução será matar um dia de aula, assim no meio da semana, pra não entrar em outra roubada. Porque minha sensação é que voltei pra casa com alguns cocares na cabeça.