Até um pombo…

Em tempos onde tudo se filma, se grava, se fotografa e se transmite, é muito raro conseguir desdizer algo flagrado. Especialmente quando é uma posição oficial e assumida.

O vespeiro que o ministro da (des)educação se enfiou – e com ele, o (des)governo – é, no mínimo, curioso. E o presidente, útil e idiotamente, colabora para piorar, como sabemos.

Sim, o ministro disse que cortaria das universidades que fazem balbúrdia. Sim, o ministro (e o presidente) dizem e insistem que as carreiras de humanas não servem pra nada (ou quase nada). Sim, o ministro e o presidente insistem que a universidade pública não entrega nada, apesar de ser responsável por mais de 95% da ciência produzida no país. E apesar de tentar, o presidente não nos deixa esquecer das ligações da família Guedes com os maiores grupos privados de educação do Brasil.

Tentar nos convencer que corte não é, chamando-o de contingenciamento, soa – no mínimo – infantil. Justamente por já termos visto isso em governos passados. E ao contrário dos que ainda tentam defender isso tudo que está aí, houve grita e não foi pouca. Só no governo petista (que eles adoram citar, quase como tara) foram quatro grandes greves: 2003 (59 dias), 2004 (25 dias), 2005 (112 dias) e 2012 (125 dias). Se falarmos dos anteriores então…

É gente, não esqueçam que a educação nunca fez parte dos projetos de poder deste nosso Brasil varonil. Um ou outro arremedo de ação, para inglês ver, no máximo. Vocês sabem né, gente que pensa, gente que tem conteúdo, dá um trabalho danado… Voltemos ao que importa agora.

Os mais de 30% cortados, que – depois da balbúrdia – foi estendido a todas as universidades e outras instituições desde a base (Pedro II é um exemplo, apenas), são do custeio. Não tem nada a ver com salários, por exemplo, rubricas completamente diferentes. Esse é um dinheiro que paralisa as instituições, pois impedidas de resolver seu dia a dia com fornecedores, reparos etc.

De quebra, nessa conta, não entram Fundeb, Fies, Capes, CnPQ etc. É isso mesmo, só pra deixar claro que o facão passou em várias esferas, da base à pesquisa. Mas vamos falar agora só das universidades públicas que hoje têm cerca de quatro milhões de alunos.

Diz o censo escolar de 2018 que as escolas públicas têm cerca de 39,5 milhões de estudantes matriculados, enquanto as privadas contam com cerca de nove, pouco mais. Desses quase 50 milhões de estudantes, quantos você conhece que sonham em entrar na Estácio, Veiga e congêneres espalhadas pelo país?

Os pais e responsáveis que escreveram cartas e criaram abaixo-assinados contra as escolas particulares que aderiram ao movimento de ontem querem suas “crianças”, olhando para o Rio, na UFRJ ou na Estácio? Na UFF ou na Veiga? Na Unirio ou na Santa Úrsula?

Sim, todo mundo sabe que o país está quebrado. E sim, sabemos como chegamos a isso. Mas o que o desgoverno fez nesses quatro meses e meio pra melhorar isso? Nada. Pelo contrário, fatos e factoides só colaboram para piorar o quadro, deixando todo mundo inseguro internamente e fechando portas externas que levaram décadas para se consolidarem.

Sim, sabemos que não há dinheiro suficiente pra tudo. Nunca vai haver. Mas, além de manter os pintos limpos e caçar fantasmas, quais são as prioridades? Qual é o plano – além de ridicularizar nossa política externa, liberar venenos para a agricultura, armar a população, destruir o meio ambiente e proteger milicianos – para mudar “tudo isso que tá aí, talquêi?”

Visões de mundo e ideologias diferentes constroem coisas. Delas, podemos e devemos discordar, discutir, tentar melhorar. Mas o que fazer com um governo que só quer saber de destruir e matar, nunca criar, consertar e evoluir? Até um pombo seria melhor. E esse é o busílis.

Lágrimas de crocodilo

Essas fotos foram tiradas na última visita ao Museu Nacional. 8 de julho, Dia Nacional da Ciência. Levei Helena para encontrar uma amiga da escola. Dia de festa e muitas atividades no museu.

Cheguei em casa comemorando com a Flávia, que o museu estava lindo, as exposições incríveis, o clima era ótimo, que a quantidade de boquinhas abertas e exclamações por todos os lados era incontável.

Mas havia lá, à vista de todos, um monte de coisas erradas, como fios aparentes, por exemplo. E um monte de coisas que não se via. E várias faixas e impressos em protesto contra a falta de investimento.

Daqui a pouco, bem pouco, teremos eleições. Todos os candidatos, TODOS, vão tentar pegar carona na tragédia, não tenham dúvidas. Já começaram, na verdade. E fazer todas as acusações imagináveis, uns contra os outros, claro.

E pra ficar só no óbvio, vale lembrar que o governo FHC foi uma lástima para a educação em geral e as universidades em particular. Vale lembrar que Lula abriu trocentas universidades Brasil afora, mas que não cuidou das que já existiam. Dilma… Bom, Dilma foi a Dilma. E Temer foi o cara que fez o teto dos gastos e bloqueou os investimentos. Aprovado por esse fabuloso congresso que – pelas estimativas – terá 75% de seus integrantes reeleitos. Ou seja, como disse o Ricardo no outro dia, pode até eleger Jesus que não dá jeito.

A situação no estado do Rio é ainda pior. Acreditem.

Não vou tentar convencer vocês a votar em A ou B, não é esse o caso. Até porque, se contar a meia dúzia de 3 ou 4 leitores que passam por aqui, não muda nada. Mas tentem, por favor, fazer um esforço de pesquisa e de consciência na hora de decidir seu voto. Tentem olhar menos para onde seu calo aperta e pensar um tico mais no mundo ao redor, desenvolver um senso de comunidade, identificar o que seria bom para todos.

E filtrem as lágrimas de crocodilo que estão rolando neste momento, porque a verdade é que todos, TODOS, sempre cagaram e andaram pra esses negócios que só servem pra perturbar, educação, história, ciência, memória, essas merdas.

Hora da escola (6)

Uma escola diferente não se faz apenas dentro de sala de aula, mas em todas as suas dimensões. Não adianta, por exemplo, discursos lindos ou projetos político-pedagógicos que, bem escritos em seus sites, não passam de publicidade ruim se não são colocados em prática em todos os níveis.

Felizmente há cada vez mais escolas tentando praticar essas “novidades”. É o caso da escola das minhas mocinhas, a Oga Mitá. Ela faz isso há 38 anos. Só.

Não, isso não quer dizer que seja perfeita. Isso não existe. Mas quando o discurso é colocado em prática, as coisas realmente acontecem. É o caso do reajuste zero, pelo segundo ano seguido. Dá pra imaginar como seria aguentar as mensalidades, mesmo com algum desconto, se tivéssemos acompanhado a inflação de mais ou menos 20% nesses dois anos?

Já contei em outros posts (a série completa está aqui) como funcionam as coisas por lá, a comissão de planejamento, as assembleias, a participação dos pais em todos os temas da escola. Porque a educação dos nossos filhos não pode se restringir a entrega-los e busca-los no portão. Precisamos nos envolver. E precisamos ser parceiros, trabalhar juntos. E muitas vezes é muito trabalho. Mas vale a pena, é mais um pedacinho do legado que vamos deixar para nossas crianças.

E a experiência mostra que a relação não pode ser Pais/Responsáveis contra a escola, mas Pais/Responsáveis COM a escola. Se a instituição em que seus filhos estudam não permitem isso, será que não está na hora de buscar alternativas? Pense a respeito.

Andamos falando tanto de mobilização, de democracia… Que tal praticar?

Hora da escola

O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2010. Mas até hoje ele é disparado o post mais visitado, mas lido e comentado do blog, com mais de 5 mil visitantes únicos. E é por isso que resolvi republicá-lo, não por acaso na época de busca por escolas, de matrículas e rematrículas.

Na época procurávamos a primeira escola da Helena. Hoje, ela e Isabel seguem felizes suas vidas escolares. E é bem fácil deduzir que a Oga Mitá foi a escolhida.

Esse texto tem quatro filhotes e vocês podem encontrar todos eles clicando aqui e espero que sejam todos úteis.

E aos que decidirem visitar a escola, tenham a certeza que – além de serem muito bem recebidos – vão se surpreender. Basta estarem dispostos. E não esqueçam de dizer como chegaram à escola, que foi uma indicação do Gustavo, pai da Helena e da Isabel. A casa agradece de joelhos  ;).

Sabe aquela frase sobre o futuro de nossas crianças que já virou clichê: “não importa que mundo vamos deixar para nossas crianças, mas que crianças vamos deixar para o mundo”. Pois é, foi uma semana bem interessante essa que passou. Já peço desculpas antecipadas pelo texto longo que escrevi, mas achei que dividir essas experiências seria importante.

Já há alguns meses desde que a Mari começou a visitar escolas próximas de casa em busca de um bom lugar em que Helena comece sua vida acadêmica. E nesta semana fizemos um pequeno roteiro juntos. Como estou muito longe de ser um especialista em educação, minhas impressões refletem – simplesmente – o que percebi como pai em função do que gostaria para minha filha.

Construção

Foram cinco visitas nos últimos dias, teremos mais uma na segunda-feira. E em cada uma delas, olhos e ouvidos atentos às qualidades e defeitos. Como quando o ano letivo começar, em fevereiro, ela terá um ano e quatro meses, além de entender como é o processo pedagógico de cada uma, muita atenção às pessoas que possivelmente lidarão com nossa menina e com a estrutura oferecida, instalações etc.

A primeira visita foi à Oga Mitá. E algumas coisas interessantes chamaram muito a atenção. O primeiro ambiente, logo após passarmos o portão, é a biblioteca. A partir daí, não deveria ter sido surpresa encontrar, no sofá próximo à secretaria, uma menina confortavelmente instalada e concentrada no livro em suas mãos. Em horário de aula! Ao mesmo tempo, na pequena quadra, meia dúzia de quatro ou cinco crianças jogavam bola. A essa altura, Helena já andava pra lá e pra cá. E quando fomos fazer a visita propriamente dita e conversar com a coordenadora, ela já tinha se enturmado com as crianças de sua idade e ficou junto com a turma. Hummm…, foi o que pensei.

A linha de atuação da escola é baseada no construtivismo, o que – entre muitas outras coisas – incentiva a autonomia das crianças.

Hummm, continuei ruminando, quer dizer que é possível incentivar minha filha a pensar para que serve a tabuada ao invés de simplesmente fazê-la decorar que 7 X 9 = 63? É possível, mais do que ensinar, incentivar minha filha a decidir o que é certo para ela? Hummm…

Muitas questões

A segunda visita foi à Meimei, outra escola muito bem conceituada e que, em tese, também segue uma linha progressista. Fomos muito bem recebidos por todos e Helena, rapidamente, já estava mais uma vez entre as crianças. A estrutura da escola é bem legal, todas as pessoas muito simpáticas e tal, crianças nitidamente muito bem educadas, mas sabe aquela sensação de que algo não bate?

O que me incomodou foi um certo artificialismo, presente principalmente no discurso da coordenadora que nos recebeu. É que para ela tudo era uma questão. A questão do leve e pesado, do doce e salgado, do quente e do frio etc etc etc. Eram tantas questões e nenhuma resposta que fiquei ensimesmado. Alguém poderia dizer que o problema, então, não era a escola mas aquela pessoa. Mas, como lembrou a Mari, quem colocou aquela moça ali?

Três sapos

A sexta-feira foi bem movimentada, com visitas a três escolas. A primeira foi à J’Alevi. Mari já tinha visitado essa antes e, de certa forma, gostado. Na verdade, uma pequena escolinha tradicional, onde tudo funciona bem, profissionais simpáticos, crianças sorridentes e bem educadas. E bem perto de casa, pra ir andando. Mas aí, quem implicou fui eu. Um sobradinho acanhado, onde tudo é apertadinho e cheio de escadas. Pra mim, coisas que não combinam com crianças.

Logo depois, andamos mais 50 metros e chegamos à Sindicato da Criança. Fomos muito bem recebidos por uma das sócias da escola. A visita não ia mal não, muito pelo contrário, estava gostando mesmo do que via. Tudo muito simples, mas tudo bem feito e resolvido, até que entramos em uma sala e… “Haviam (sic) três sapos”.

A frase estava lá na parede, em um quadro em que as crianças, aparentemente, estavam aprendendo as primeiras noções de matemática. Depois dessa, precisa dizer mais alguma coisa?

Grande empresa

A última visita foi ao Mopi. É bem possível que, lá em 1973, quando a professora Regina Canedo fundou a escola, sua proposta fosse realmente brilhante. E se é inegável que a escola é conceituadíssima e acumula muitos bons resultados em sua história, minha impressão é de que – em algum momento de seus 37 anos – algo saiu dos trilhos.

Tudo é superlativo, o gigantismo é característica que grita aos olhos de quem circula pela escola. À primeira vista, a estrutura é sensacional e apesar de ser uma “escola vertical”, há espaço pra tudo. Mas como em tudo o que é grande demais, é nítida a impessoalidade no lidar com as pessoas. Sabe a diferença entre viajar e ficar numa pousada ou no Hilton? Foi o que senti.

Listo alguns detalhes que chamaram nossa atenção, infelizmente, sempre negativamente. Das escolas que visitamos juntos, foi a única em que Helena não conseguiu interagir com outras crianças. Foi a única em que vimos crianças correndo pelos corredores estabanadamente, esbarrando nos outros e sequer se preocupando em olhar pra trás para ver se estava tudo bem (pedir desculpas, então, nem pensar). Foi a única em que, antes mesmo de avaliar o desenvolvimento de Helena, já fomos avisados que ela teria que repetir a série (maternal 1 ou algo assim) em função de sua idade (porque ela teria 1 ano e quatro meses e o certo seria um ano e seis). Não fomos apresentados e não vi biblioteca, simplesmente não sei se existe. Funciona como uma grande corporação, terceirizando serviços como a alimentação, aulas de laboratório de ciências, aulas de inglês e sei lá mais o quê. É a única que em todas as suas salas há instalado um quadro board (primeira vez que vi uma redundância bilíngüe), usando a tecnologia como grande bandeira mas esquecendo que ela deve ser ferramenta ao invés de princípio.

Por fim, além de não encontrar qualquer coisa positiva, ainda é a escola mais cara.

O que queremos?

Nos recusamos a participar da neurose que tem tomado conta de muitos e muitos pais de nossa geração e escolher a escola em que Helena entrará com menos de um ano e meio imaginando em como isso se refletirá em sua colocação no vestibular. Também não queremos uma grife.

Em compensação, fazemos questão de um ambiente que seja agradável a ela, em que ela se divirta e aprenda de maneira natural, em que seja tratada como gente e não como a criança número 9 da lista de chamada.

Ainda lembro de uma troca de cartas entre meu pai e uma professora de português na minha quinta série, sobre uma questão de prova. Não acho que esse distanciamento funcione, não quero passar por algo parecido. Procuramos uma escola à qual tenhamos acesso, em que participemos ativamente do processo de educação de nossa moça, como parceiros que devemos ser, ao invés de entregá-la e buscá-la nas horas marcadas e vocês que se virem.

Ainda não tomamos qualquer decisão, ainda há outras escolas para visitar e algum tempo para pensar. Mas, como vocês podem ver, eliminar opções tem sido bem fácil.

Hora da escola (5) (ou meus 11 segundos de “não-fama”)

UbuntuHoje apareci no Jornal Nacional. “Xique núrtimo!” E já comecei a imaginar como os paparazzi vão andar atrás de mim quando estiver pelo Leblon. Mas essa história vem depois. Quero mesmo é contar pra vocês a experiência que tivemos neste ano e que acabou virando pauta de um monte de lugares. Inclusive da turma do Bonner.

Falo da gestão participativa da escola das moças. O negócio funciona mais ou menos assim. Há uma comissão de planejamento, que conta com a participação de pais, diretores, funcionários e professores. Um fórum que se reúne todos os meses para discutir todos os temas que envolvem a escola, desde questões pedagógicas até as financeiras.

Dessas reuniões da comissão, saem os temas que serão tratados na assembleia geral, que por sua vez tem caráter decisório. Isso mesmo, o que é discutido e votado na assembleia está decidido e será adotado pela escola.

Naturalmente, um dos temas mais importantes tratados todos os anos (para muitos, o mais importante), é o valor da mensalidade/anuidade. E em 2015 vivemos algo que só ouvia contar como história.

E aqui abro um parêntese: a comissão de planejamento e a assembleia geral fazem parte do projeto político-pedagógico da escola e nela existe desde sempre. Sim, é democrático e, para ser assim de fato, exige participação. É, galera, dá trabalho. Mas é justamente este caráter participativo, o conceito colaborativo que permeia todas as dimensões da escola que nos dá a segurança de acreditar que estamos no lugar certo, que nossas filhas estão no lugar certo.

ComissaoPlanejamento

Reunião da Comissão de Planejamento sobre as propostas de reajuste para 2016

Voltando à história… Eu sou um dos pais que fazem parte da comissão. E quando começamos a preparar a assembleia, ficou claro – por todas as circunstâncias que estamos vivendo no país – que a mensalidade de 2016 seria a questão dominante, até a única. E a mecânica é a seguinte: a escola apresenta suas necessidades e algumas propostas de reajuste para que tudo siga normalmente, sem a perda da qualidade que temos, sem a diminuição dos investimentos e – especialmente – sem cortes dos projetos de formação continuada do quadro de professores.

E a primeira proposta era um reajuste médio de 10%, apenas para repor a inflação. E foi daí que começamos a trabalhar, a botar a cachola pra funcionar. A escola precisa de um reajuste ou de um aumento de receita da ordem de 10% para ser sustentável?

Alguns dos pais que fazem parte da comissão são especialistas em contas: economistas, administradores, contadores etc. E se debruçaram por cerca de duas semanas sobre todos os números da escola. E os doidos (com todo o carinho aqui, por favor) apresentaram seis cenários possíveis para resolvermos a questão. Entre eles, a proposta que foi aprovada pela assembleia geral.

Reajuste 0

Assembleia Geral

O momento em que a proposta de reajuste 0 foi aprovada pela Assembleia Geral

É isso mesmo, reajuste de 0% nas mensalidades de 2016. E isso será possível se algumas tarefas forem cumpridas, tanto pela escola como pelos pais. A primeira e óbvia, o esforço da escola no corte de custos, com economia de água, energia, telefone etc. Também foi aprovado um corte de 2% em todos os descontos praticados pela escola. Além disso, a escola passa a ter, além da comissão de planejamento, uma comissão de sustentabilidade (formada por pais, funcionários, diretores e professores) que será responsável por implantar ações que diminuam outros custos além dos serviços óbvios.

Mas a maior parte do ganho de receita está baseada na média histórica de crescimento de 5% no número de alunos. E para isso, algumas ações estão em andamento, como a abertura de novos convênios entre a escola e empresas, associações e clubes, e o compromisso dos pais em colaborar diretamente na captação de alunos. E aqui chegamos aos meus 11 segundos de “não-fama” lá do início.

Como incentivo para os pais realizarem essa “tarefa”, criou-se uma “promoção” em que para cada aluno novo, os pais que o indicaram não pagam uma mensalidade. Assim, se alguém consegue trazer 12 alunos novos, fica sem pagar mensalidade o ano inteiro. Boa ideia? Eu acho, de verdade. E essa foi uma das coisas que disse durante a entrevista.

Jornal Nacional

Mamãe, tô na Globo!

Mas vejam só que maravilha. A escola foi uma das que entraram em uma matéria do Jornal Nacional de hoje (29 de setembro) sobre os reajustes escolares em tempos de crise. E em que pese tudo isso só ser possível graças à política da escola, à participação de todos, ao fato de transcender a relação entre prestador de serviço e cliente para ser de verdade uma comunidade escolar, as únicas coisas que saíram na matéria foram o corte de gastos e a “promoção”. Os tais 11 segundos que fecham a reportagem. Desse jeito, falando de promoção, nunca que eu vou aparecer no Ego…

Sim, eu sei como funciona uma pauta, a construção de uma matéria e, especialmente, o tempo da TV. Mas é impossível negar que hoje eu tive o meu dia de xingar a Globo, de dizer que eles manipulam tudo o tempo todo, que são o Grande Satã culpados de tudo de ruim que acontece no Universo.

Depois, com calma, vendo e revendo a matéria, lembrando de todas as limitações, chega-se à conclusão de que ficou legal. Sem contar o reconhecimento de que os caras só apareceram por lá porque somos realmente diferentes.

Ubuntu

Esse é o quinto texto da série Hora da escola, que começou quando ainda estávamos procurando a primeira escola da Helena, em 2010. Hoje, ela e Isabel estão na Oga Mitá. A quem me pergunta, digo claramente que só pretendemos sair de lá por uma questão financeira.

É claro que há problemas. Como canso de dizer, não há escola ideal (existe alguma coisa ideal?). Mas até a maneira de encarar os que aparecem, mesmo com alguns tropeções, é diferente. Então, para nós aqui de casa, o slogan da Oga é a tradução perfeita do que vivemos por lá: Eu sou porque nós somos!

P.S.: Como quem não chora não mama, não custa lembrar que se você leu tudo isso, se chegou até aqui e está pensando em matricular seu filho na Oga, diga que foi indicado pelo Gustavo. 😉

Hora da escola (4)

Foto: Gustavo SirelliQuem tem o hábito de visitar o cafofo, já sabe que sou desses que bate palmas pra escola das filhas, que abraçam a proposta e defendem os caminhos adotados. Mas nem tudo são flores, claro. Por exemplo, já houve discussão sobre a doação de livros para determinada organização, ação social embolada e embalada por proselitismo político.

Outra discordância sempre aparece nessa época do ano, final do primeiro semestre, hora de acender a fogueira das festas juninas. Ou, na visão pretensamente progressista e politicamente correta da escola, uma asséptica festa no campo.

Aqui, abro parênteses que se mostrarão úteis mais à frente. Ontem à noite, na abertura do programa Saia Justa do GNT (não sei se era reprise ou episódio do dia), o professor Sérgio Cortela disse duas coisas óbvias: “o estado brasileiro é laico mas não é ateu” (basta ler nossa constituição pra descobrir isso) e “ter religiosidade não é a mesma coisa que ter religião”. É o ululante, sei disso, mas quando dito por um catedrático como Cortela, ganha peso e (talvez) seja mais levado a sério. Sigamos pois.

2014 é o nosso terceiro ano na escola, e no primeiro ainda dei-me ao trabalho de levantar algumas bolas com a professora da Helena de então, a Camila. Depois desisti, sinceramente deu preguiça. E talvez tenha errado nisso, deveria ter insistido. Ora bolas, por que festa do campo e não festa junina? Por que não vestir as crianças como os matutos tradicionalmente representados em qualquer festa junina?

 Sacro

Foto: Gustavo SirelliO que é sagrado para você? Pra mim, um monte de coisas. Em termos de religião, sou católico apostólico baiano. Mas não é isso que vem ao caso. As festas juninas, sem esse nome, são bem anteriores à era cristã. Têm relação direta com o solstício de verão, na Europa, e a relação das sociedades de então com a terra e seus deuses. Era nessa época do ano, ali entre o que seriam os dias 22 e 25 de junho do nosso calendário juliano, que eram feitas oferendas e pedidos em busca de uma boa colheita.

Se não pode derrota-los, junte-se a eles. Foi assim que a Igreja Católica, sem conseguir frear a tradição, criou as datas em homenagem aos santos. Isso foi pelo século X. Daí que além da referência óbvia ao mês de junho, o termo junino também seja apontado por estudiosos como uma corruptela de joanino, posto que 24 de junho é dia de São João.

Curiosamente, ao chegarem por aqui, os portugueses – católicos fervorosos – encontraram entre os índios, celebrações realizadas na mesma época (por aqui, o solstício de inverno) e pelas mesmas razões: agradecimento aos deuses pelo sucesso obtido e oferendas e pedidos por uma nova boa colheita. E é por isso que, nas festas juninas brasileiras, pela convivência de costumes entre nativos e europeus, as comidas típicas das nossas festas tenham tanto milho.

Foto: Gustavo SirelliPara cada detalhe, é encontra-se uma explicação, todas elas ligadas às origens das festas. É assim com os balões (usados para avisar a comunidade do início das festas), as fogueiras (tradição pagã, para iluminar os caminhos dos deuses, e católica, pela lenda de que uma fogueira seria o modo de comunicação entre Maria e Isabel), o casamento (referência clara a Santo Antônio) e a pescaria (brincadeira em homenagem a São Pedro).

Sinceramente, não sei como a escola trata desses assuntos com os alunos do ensino fundamental em diante (ainda estou na educação infantil a acredito que tudo isso ainda está fora do espectro de compreensão dos pequenos). Mas seria absurdo negar a relação sagrada dos povos com a terra, tanto na Europa medieval e anterior, quanto entre os índios brasileiros. Também seria absurdo negar a relação sagrada (nesse caso, de origem católica) dos fiéis celebrando seus santos. Porque tudo isso é sagrado e – antes de religião – é história da formação do nosso povo.

O matuto

Foto: Gustavo SirelliQuando era criança, lá estava eu de calça jeans puída com remendos coloridos, camisa xadrez, chapéu de palha e um dente “faltando”. As meninas, de vestido de chita quase sempre floridos, maria-chiquinha e outros detalhes. E foi aqui que me peguei com a escola e sua festa do campo. Há um discurso que isso é uma visão deturpada do homem do campo, que não deve ser disseminada.

Oi? Ou não sabem história ou estão com preguiça de contextualizar o mundo para as crianças ou são mais realistas que o rei. Mais ou menos como tentar mudar a letra de “atirei o pau no gato”. Basicamente, se esse for o caso, tristemente reconheço uma visão boçal.

Pra começo de conversa, no início não eram todos que iam fantasiados às festas. Apenas aqueles que dançariam a quadrilha e tinham lá seus personagens: padre, noivo, noiva, pais do noivo, pais da noiva, madrinhas, padrinhos, delegado e sacristão. Esse é o significado geral do negócio que, apesar das regionalidades, se mantém.

Não sei vocês, mas já vivi algumas (muitas) festas juninas na roça. E eles adoram as quadrilhas e as fantasias, a carnavalização de si próprios, que sempre foi celebração e crítica simultâneas. Uma vez que “isolados” dos recursos das grandes cidades, não conseguem comprar roupas novas para as festas (por isso os remendos e calças pescando siri, e as camisas xadrez feitas com o tecido barato disponível) nem tem acesso a alguns serviços básicos, como saúde (e por isso um ou outro dente pintado de preto, como se não existisse).

Foto: Gustavo SirelliA evolução desse cenário foi uma espécie de glamourização dos figurinos, como se Joãozinho Trinta assumisse a produção, também com coreografias a cada ano mais elaboradas, para os grandes concursos de quadrilha.

Tudo isso pode parecer uma grande bobagem, “são só festas juninas”. Não acho, especialmente nesses nossos tempos pós-modernos, em que as crescentes cidades do interior e a expansão do agronegócio aproximam cada vez mais as experiências de quem vive no campo e na cidade. Porque fechar os olhos a essas tradições, tentar negar que isso existe e tem um significado muito forte, é fechar os olhos para a formação do povo brasileiro. É um jeito progressita-intelectualóide, em que se tentar igualar tudo e todos para não ferir suscetibilidades, quando na verdade deveríamos estar preocupado em resguardar tradições, nos esforçando para explica-las e, assim, usar o passado para entender nosso presente e pensar o bendito futuro.

Hora da escola (3)

Na escola das minhas filhas existe racismo. Também existe homofobia. E bullying. E roubos ou furtos, sei lá o nome correto quando alguém tira algo de alguém sem ninguém ver. Tudo isso entre outras coisas.

Isso é supreendente?

Não deveria ser. Porque se você tem filhos e eles estão na escola, lá também acontecem essas coisas. É, não adianta torcer o nariz não. Ou você acredita que, mesmo pagando caro ou muito caro, está livre do que acontece no mundo, que aquela sacrossanta instituição à qual confiou a educação de suas crianças é uma ilha da fantasia?

Caiu em si? Então, a pergunta seguinte é o x da questão: o que a escola dos seus filhos faz, como ela trata desses problemas?

Enquanto você pensa a respeito, vou aproveitar pra contar o que aconteceu na escola das minhas pequenas nos últimos meses, até ontem à noite. E o tema é racismo.

O fato

Pouco depois do início das aulas, um garoto do ensino fundamental começou a ser mal tratado pelos colegas. Começou com alguns e a coisa cresceu. O moleque foi chamado de mendigo e colocado nesse papel. Daí pra baixo. E pelo que sei, só não se chegou à violência física. Ele é negro. E tem um belo black power.

Por uma enorme inabilidade da escola no que diz respeito à comunicação, combinada com o sentido de urgência da família diretamente atingida, a coisa deu uma boa degringolada, a história correu a escola e houve certa (e não indevida) comoção. Também houve um erro de coordenação, admitido pelo próprio diretor da escola, em uma das muitas reuniões que aconteceram desde que tudo veio à tona.

É, foram muitas reuniões. Particulares, com as famílias envolvidas, e nas comissões da escola. Em que pese os tropeções, trancos e barrancos no início do processo e uma grande dose de cagaço (desculpem o termo, mas falo de um medo estranho e superlativo) ‘empresarial’ por medo de expor a instituição e até perder alunos, a escola não fugiu do assunto. E chegamos a ontem.

Envolvimento

Fórum de Pais e Professores. Tema: Racismo na Oga Mitá.

Já estava marcado há um mês ou quase. E eu sinceramente estava preocupado com o risco de tudo ser muito tempo perdido. De sair do foco, que é o problema ocorrido na escola e ver a discussão descambar para um tropel de opiniões desconexas ou cair na velha discussão racialista.

Sim, passamos perto disso. Entre duas acadêmicas convidadas para falar a respeito e meia dúzia de três ou quatro pais e mães militantes da causa negra, cheguei a pensar na possibilidade de abandonar o debate e chegar em casa mais cedo. Porque quando alguém sofre algo assim, não é a militância nem a teoria nem o sindicalismo de causas que vai resolver o problema. Especialmente quando se trata de uma criança.

Mas no todo, o fato é que o debate foi muito, muito bom, com uma troca de experiências riquíssimas (em que pese triste às vezes) e o surgimento de várias ideias (das piores às melhores) para não deixar o assunto morrer, muito pelo contrário.

Foram muitas propostas de ações para as crianças e para os pais das crianças. E isso é algo importante, porque apesar da sala muito cheia, nem todo mundo foi (claro), nem todo mundo tomou conhecimento do problema (sim, há gente que vive em outra dimensão).

De visitas a quilombos com as crianças a atividades inspiradas no documentário Olhos Azuis, de Jane Elliot. Mais e mais encontros e reuniões e discussões. Porque infelizmente o assunto não acaba, não vai acabar.

#SomosTodosDiferentes

Felizmente somos todos humanos (com trocadilho e sem hashtag). Felizmente somos todos diferentes em infinitos aspectos. Brancos e negros, cabelos lisos e toin-oin-oins, magros e gordos, princesocas ou bichos-grilos etc etc etc etc.

Estamos falando de crianças, de seres humanos que, em seus vários estágios de desenvolvimento, estão descobrindo e constatando as diferenças, todas elas. Simples assim. Mas, no final das contas, depende de nós, da forma como valorizamos e nos relacionamos com a existência de todas essas diferenças, a forma como nossas crianças lidam e lidarão com o mundo de diferenças ao seu redor.

Escola dos sonhos?

Por que contei essa história e escrevi esse texto monstruoso? Porque acho importante, ora bolas.

A escola das minhas moças é a escola dos sonhos? Claro que não, isso não existe. E ando até insatisfeito com algumas coisas que acho importantes, ontem mesmo avisei a coordenadora que quero uma reunião com ela e a professora da minha mais velha. Sobre algumas coisas que saíram ou mesmo nem entraram nos trilhos.

Mas diga aí, conte ou confesse, sei lá: o que a escola dos seus filhos faz pra tratar de temas espinhosos como racismo? O que acontece na escola além de, eventualmente, apresentações de grupos de capoeira no dia da consciência negra ou tentar correlações muito inexatas entre Zumbi, Machado de Assis e Luther King? E você, como participa da escola dos seus filhos?