Construindo heróis

O jogo ainda não tinha acabado, mas Abel dava um piti à beira do campo, foi expulso e se recusou a sair apesar da presença da polícia para escoltá-lo aos vestiários. Nisso, minha querida esposa que é tricolor, soltou a pergunta-pérola: “esse cara trabalhou no Botafogo?”, referência óbvia ao péssimo hábito do chororô, traço cultural pelos lados de General Severiano.

Então, antes de falar do jogo propriamente dito, vamos aos lances que – teoricamente – justificariam o ataque de pelancas tardio (pois que enquanto vencia tudo ia bem) do treineiro das laranjeiras.

1. No último lance do primeiro tempo, Renato Abreu acertou uma cotovelada que provocou um corte no lábio da She-Ha. Bom, todo mundo sabe que o meia metido a sherife não é mesmo flor que se cheire, mas ele não fez nada diferente de quase todos os jogadores tupiniquins, levantando braços em qualquer disputa de bola. Às vezes pega, às vezes não, às vezes o juiz vê, outras não.

2. O tal pênalti não marcado foi tão falta quanto qualquer agarra-agarra nas áreas de nossos campos do Oiapoque ao Chuí. Jael tanto empurrou quanto foi puxado. E aí, se juiz bom não tem peito de marcar pênaltis assim em clássicos como o de ontem, o que dizer dos ruins?

3. A falta que originou o segundo gol do Flamengo foi clara.

4. A expulsão de Souza foi justíssima, em que pese as circunstâncias. O sujeito simplesmente esqueceu a bola e levantou Botinelli, o maior craque surgido nas imediações do Rio da Prata. Nem foi tão violento, é verdade, mas quem disse que é preciso decaptar o adversário para receber o vermelho? Ok, talvez o amarelo fosse suficiente. Mas ficou claro que o juizinho resolveu sacanear o técnico chorão que se recusou a sair quando foi expulso. Sou capaz de apostar nisso. E a prova é que preferiu empurrar Rafael Moura a expulsá-lo como deveria.

A vitória

O jogo, propriamente dito, foi uma bomba. O Flamengo jogou mal do início ao fim e perdeu a chance de golear o adversário no primeiro tempo. Os 45 minutos iniciais foram tão fáceis que nosso bravo arqueiro reserva saiu para o intervalo com seu uniforme branco imaculado.

Mas acho que já não dá pra negar a forte vocação para o drama e a tragédia nas hostes rubro-negras. Não precisava sufoco, não precisava susto. Era só jogar de verdade que a vitória seria tranqüila. Mas como construir mitos e heróis sem um bom bocado de sofrimento, superação e surpresa?

Botinelli bateu uma falta que, normalmente, não bateria. E, se desde 95 somos obrigados a aturar a história do gol de barriga, agora temos o gol de bunda para revidar. Para completar, um chute de três dedos como há muito tempo não via. Sensacional.

Só faltam dez jogos para o hepta e, como já disse antes, não estou preocupado com os confrontos contra os times ‘grandes’. Já os jogos contra os cearás da vida, estes me dão calafrios.

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