Bobeira, acaso e música boa

VitrolaSão 4h35 da manhã e devia estar trabalhando, aproveitando que a turma toda está dormindo. Estou trabalhando, preparando aulas, e resolvi dar uma parada pra refrescara a cabeça. Fui dar uma zapeada e dei de cara com o programa Live@Home.

Sou do tempo em que, para descobrir sons novos – mesmo que antigos – tinha que gastar algumas horas em um loja de discos. Muitas vezes não dava pra ouvir na hora, você tinha que arriscar, ou acreditando na indicação do vendedor (nas boas lojas, os vendedores entendiam de música), ou acreditando que a capa era uma espécie de prólogo do que vinha por aí.

Foi assim, por exemplo, que descobri o Artie White, comprei o CD porque o cara estava em pé na capa, sozinho, envergando um discretíssimo terno azul turquesa, com chapéu e tudo. Pensei que “esse negão tem que ser bom”, e não me enganei.

Também foi assim, se lembro bem da história, que o Caius resolveu comprar o primeiro CD do Jota Quest, os caras de terno e perucão black power sobre uma base psicodélica. Funk-soul total. Ele que apareça pra confirmar ou não minha memória. O que é certo é que não se enganou e me apresentou. Infelizmente os caras não mantiveram o nível de produção nos discos seguintes.

Como se vê, as indicações sempre foram uma boa fonte. Foi assim que conheci a Joss Stone. Um dia meu pai me ligou pra confirmar se ia passar na casa dele no fim de semana. Avisou: “se prepare pra ouvir uma garota de 17 anos que é espetacular”. O pagamento só veio a pouco tempo, quando coloquei ele pra ouvir o Alabama Shakes, que descobri sozinho.

A última indicação que recebi e valeu muito a pena foi da Carlinha, The Lumineers. Como quase sempre, a música dos caras que estourou por aí era a pior do disco. Mas os caras são muito, muito bons.

Acaba sendo cômico, pra não dizer trágico, que eu que passo a maior parte dos meus dias em frente ao computador acabe não gastando muito tempo pra garimpar sons diferentes, coisas novas ou que o valha. E como nunca me preocupei muito em ser o primeiro a descobrir talentos, a estar na crista da onda e coisas do gênero, sigo em frente sabendo que perco um sem número de oportunidades de ouvir boa música. Acabo contando com o acaso.

E voltamos ao programa de TV. Encontrei com Jamie Cullum. Potaquéoparéu!!!! Como é que nunca prestei atenção ao cara que já estava lá atrás, na trilha da Bridget Jones? Nos dois filmes!!! O cara já lançou cinco álbuns e virou referência no jazz. E eu dando essa bobeira. Enfim, não dou mais.

Se você é que nem eu, meio desligado, meio atrasadinho, taí embaixo o programa com o cara. Também vale dar um pulo no Grooveshark e ouvir suas gravações originais. Acho difícil não se apaixonar.

E se tiver alguma boa dica, não se acanhe. Vale qualquer estilo, juro. Só não vale música ruim.

Melhor que ovo de chocolate

John Pizzarelli, Meets The Beatles / ReproduçãoQuando colocava Helena pra dormir, bebezinha, tentava variar a trilha sonora. Variava estilos e intérpretes. Naturalmente, umas coisas funcionam melhore que outras, algumas vozes são mais doces, carinhosas. E se você presta um tantinho de atenção…

De certa forma, Isabel aproveitou (ou aproveita) muito pouco essa minha disposição, só porque tem um outro esquema de sono, outra dinâmica pra dormir.

Mas há dois discos que são, sempre foram infalíveis. Uma voz masculina, outra feminina. Em comum entre eles? Quatro rapazes ingleses, de Liverpool.

Sarah Vaughan, Songs of The Beatles / ReproduçãoPois é, cada um a seu estilo, John Pizzarelli e Sarah Vaughan gravaram dois discos antológicos e até com algumas faixas em comum. O da moça, não ouvia há algum tempo e lembrei dele para indicar ao Augusto, pai de primeira viagem dos gêmeos João e Miguel. Não sei se já testou, mas se nasceram impregnados pelo bom gosto do pai, não vai ter erro.

O que me impressiona nos dois discos é a riqueza (em algumas faixas) e originalidade (em outras) de seus arranjos. Porque todo mundo já está cansado de conhecer a obra dos Beatles, a sensação óbvia é que não há mais o que inventar. E o sujeito tem de ser corajoso pra mexer em obras clássicas, há uma linha muito tênue entre o sucesso e o fracasso que, num caso desses, não seria perdoado.

Por exemplo, a tal banda Suricato que se apresentou nesse programa novo de música da Globo. Não sei se a banda é boa, se seu repertório vale o investimento. Mas sua versão para Come Together ficou duca.

Enfim, lembrei deles hoje. E se você tiver um tempinho nesse feriado que está começando, não perca a chance. Meets The Beatles e Songs of The Beatles. Fica como meu ‘ovo’ de chocolate para todos. Garanto que não engordam. Feliz Páscoa!

The blue room

Madeleine Peyroux / Foto: Rocky SchenckEm 1962, contra a vontade e a expectativa de todos (inclusive sua gravadora), um grande e já reconhecido cantor negro de R&B, resolveu gravar um disco de música country. Pois o resultado foi absurdo. O compacto de I Can’t Stop Loving You vendeu “só” um milhão de cópias. E o álbum Modern Sounds in Country and Western Music, lançado algumas semanas depois, ficou “apenas” 14 semanas em primeiro lugar nas paradas americanas. Estou falando de Ray Charles.

E se estou falando do negão, o que é que a moça bonita aí em cima tem a ver com isso?

Ela é Madeleine Peyroux, uma americana nascida no estado da Geórgia e que morou na Califórnia, em Nova Iorque e em Paris. Filha de um aspirante a ator com uma professora de francês. Aos 15 anos, se empolgou com a boemia do Quartier Latin e começou a se apresentar pelas ruas e alguns botecos da Cidade Luz.

Sua carreira, propriamente dita, começou aos 16 anos. A mocinha foi convidada para ser a crooner da The Lost Wandering Blues and Jazz Band e passou dois anos em turnê pela Europa. No repertório da banda, pérolas de Fast Waller, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Bessie Smith, que seriam a base de seu trabalho desde então.

Em 1996, lançou seu primeiro álbum: Dreamland. As 12 faixas – três canções originais e nove regravações – fizeram com que Madeleine fosse considerada a Billie Holiday do século XXI. Segundo a Time, o disco trazia a mais excitante e envolvente performance vocal feita por uma nova cantora.

Mas aí deu ruim. Ao final de 1997, foi diagnosticada com problemas graves nas cordas vocais e ainda teve problemas com sua gravadora. E sumiu. E só apareceu de novo em 2004, com a gravação do EP Got you on my mind, com William Galison.

Depois da parceria desfeita, Peyroux apresentou o trabalho como demo à Rounder e, depois de oito anos, a moça lançava Careless Love, segundo disco e primeiro com o produtor Larry Klein. De lá pra cá, mais três discos. E apesar da voz que mais parece um cristal e do repertório brilhante, apenas álbuns comuns em vista do seu potencial.

Até que depois de um almoço mais do que agradável, meu pai deu a dica: The Blue Room, o novo álbum. E voltamos ao início, a Ray Charles. A primeira faixa é a clássica I Can’t Stop Loving You. Como suas regravações são conhecidas, continuei ouvindo. Mas aí apareceram You don’t know me e Bye Bye Love (ouça a versão Ray Charles e a versão Madeleine Peyroux) e não deixaram dúvida: não era por acaso.

The Blue Room pretende ser uma homenagem a Charles e seu disco clássico. Além das três citadas acima, ainda traz Born to Lose e outras seis canções de mesmo espírito. Mas será que deu certo?

O disco é muito bom de ouvir, não há dúvidas. A voz não treme e os arranjos, com roupagem atual (claro), não tentam reescrever a história. Mas o álbum não equivale, nem de perto, à revolução conceitual provocada por Modern Sounds in Country and Western Music. Talvez ela conseguisse alcançar isso se tivesse uma banda com ataques mais radicais, no estilo The Dap Kings, algo que seria muito diferente do que ela produziu até hoje.

Abaixo, uma das faixas de The Blue Room: Change All those Changes.

Ao piano

Nina Simone / Arte: Ananda NahuTenho uma amiga que diz que é impossível namorar alguém que não conheça algumas coisas básicas. Uma delas, Nina Simone – sua voz e sua música. Lembrei disso porque comecei o dia ouvindo a moça. Bendito Grooveshark que nos permite trabalhar com bom repertório nos fones de ouvido.

A cantora e pianista viveu exatamente 70 anos e dois meses. E Durante 50 deles, Nina foi a identidade de Eunice Kathleen Waymon.

Sexta criança de oito filhos de uma empregada doméstica e um mestre de obras, aprendeu a tocar piano ao lado das irmãs na igreja metodista liderada pelos pais. E por causa deles, aos 20 anos, adotou o nome artístico para tocar blues, a música do diabo, em cabarés e pequenos pubs no circuito Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City. E começou a cantar por acaso, para manter o emprego. De quebra, se tornou uma baita compositora.

Negra, foi impedida de ingressar em um conservatório na Filadélfia. E com a proibição, não realizou o sonho de ser uma grande concertista. E abraçou a luta contra o racismo e foi perseguida por isso. Chegou a cantar no enterro de Martin Luther King e algumas de suas canções sobre o tema – como Mississipi Goddamn, sobre o assassinato de quatro crianças negras – tornaram-se clássicos hinos ativistas.

Nina Simone / Ilustração: Chicho LorenzoA parte de sua vida tocando para platéias díspares e, muitas vezes, desinteressadas, se reflete no repertório de estilos variados. Também nunca aceitou o rótulo de musa do jazz, dizendo que “É o título que todo branco concede, piedosamente, aos cantores negros”. Do balaio de gatos foi sua formação na igreja e em bares e suas posturas políticas, saíram seus 19 discos (LPs) de estúdio e 14 ao vivo. Neles, é possível passear pelo gospel, soul, blues, folk, funk e jazz.

Nina também passou pelo Brasil e em 1990 gravou Pronta pra cantar (Ready to sing) e Tomara (God grant) com Maria Bethânia, faixas do álbum Canto do Pajé.

Se você ainda não conhece a moça, uma boa maneira de entrar em contato com o universo de Nina Simone é ouvir o álbum Anthology e suas 31 canções que passam por todos os estilos que ela experimentou.

Aveludadas

Não, já faz algum tempo que não é novidade. Mas é que ando um tanto viciado na voz da moça. E achei essa versão interessante, crua mesmo, de Right as rain.

Mas não é só da Inglaterra que surgem as boas vozes femininas dos últimos tempos. Guardem bem o rosto dessa moça.

De Los Angeles e com os mesmos 23 anos de Adele, vale conhecer Raquel Rodriguez. Em seu site, além do download de duas canções, há outras coisas interessantes.

A intrusa (parte 2)

Volto a falar de Amy Whinehouse. Como já disse no post anterior, gosto de suas canções, mas acredito que a santidade que sucede todas as mortes acabou provocando alguns exageros, como a tentativa de igualá-la às grandes divas do jazz, soul e blues.

É isso mesmo que você está lendo. Se não viu nada a respeito por aí, me surpreendo. Mas muita gente colocou a inglesa no patamar figuras como Etta James, Ella Fitzgerald e Billie Holiday, entre outras. Me pergunto se essas pessoas realmente pensaram a respeito e entenderam as razões das três citadas apenas como exemplo serem consideradas divas.

Amy tinha uma bela voz, que não durou mais do que cinco anos graças aos seus abusos com drogas e álcool, produziu pouco e, mesmo nos shows em que estava sóbria, não conseguia manter a qualidade durante toda a apresentação, seja com a rouquidão precipitada ou mesmo desafinos em canções de fraseados um pouco mais rebuscados.

Aliás, esse é outro detalhe: Amy não se mostrou capaz de grandes vocalizações, mesmo em estúdio. O que quero dizer é que as canções de Amy eram muito legais, seus discos são bons, sua voz muito interessante, mas ela não teve quantidade nem qualidade para ser comparada às verdadeiras divas do jazz, soul e blues. E mesmo no rock, se comparada a Janis Joplin – que passou por processo de autodestruição semelhante – no último ano de carreira, já definitivamente rouca, mas ainda capaz de criar e executar fraseados complexos e originais.

Prestem atenção nessa lista: Aretha Franklin, Billie Holiday, Carmen McRae, Cleo Laine, Dinah Washington, Dorothy Dandridge, Dusty Springfield, Ella Fitzgerald, Erma Franklin, Etta James, Eva Cassidy, Helen Merrill, Nina Simone, Peggy Lee, Sarah Vaughan, Shirley Bassey e Shirley Horn.

Onde e quando e como Amy Whinehouse pode se encaixar nela, levando-se em conta a capacidade e extensão vocal, quantidade de produção, perenidade da obra, influências no seu e em outros estilos?

Talvez seja difícil, principalmente pra turma que já nasceu na era do CD, ouvir e perceber as nuances de gravações que foram feitas, muitas delas, em 78rpm. É o caso de Billie Holiday. Ou, ainda, descobrir quem foi Dorothy Dandridge e que ela fez mais sucesso cantando no cinema do que em álbuns e casas de shows. E Dusty Springfield, que nos 60 e 70, passeou pelo folk e rock.

Então seria interessante que, ao menos pela curiosidade, essas gravações fossem ouvidas (e sim, boa parte delas está disponível) sem preconceitos. Pois sem essa disposição, fica impossível entender a importância de muitas dessas figuras e, pior ainda, imaginar do que seriam capazes de fazer com os recursos de hoje em dia.

O que tento mostrar é que vale a pena pesquisar um pouquinho antes de aceitar qualquer coisa que qualquer um diz. Se tiver curiosidade, clique aqui para ouvir uma seleção com pelo menos uma canção de cada uma das moças listadas.

Depois, tentem descobrir quem faria parte dessa lista e não está lá. Como a menos cotada Chonita Turner, contemporâneas como Diana Krall, européias não britânicas como a alemã Ute Lemper ou Edith Piaf, e até brasileiras como Dona Ivone Lara. Ou você não sabia que o samba é primo do jazz?

Madrugada musical (6)

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