Melhor que ovo de chocolate

John Pizzarelli, Meets The Beatles / ReproduçãoQuando colocava Helena pra dormir, bebezinha, tentava variar a trilha sonora. Variava estilos e intérpretes. Naturalmente, umas coisas funcionam melhore que outras, algumas vozes são mais doces, carinhosas. E se você presta um tantinho de atenção…

De certa forma, Isabel aproveitou (ou aproveita) muito pouco essa minha disposição, só porque tem um outro esquema de sono, outra dinâmica pra dormir.

Mas há dois discos que são, sempre foram infalíveis. Uma voz masculina, outra feminina. Em comum entre eles? Quatro rapazes ingleses, de Liverpool.

Sarah Vaughan, Songs of The Beatles / ReproduçãoPois é, cada um a seu estilo, John Pizzarelli e Sarah Vaughan gravaram dois discos antológicos e até com algumas faixas em comum. O da moça, não ouvia há algum tempo e lembrei dele para indicar ao Augusto, pai de primeira viagem dos gêmeos João e Miguel. Não sei se já testou, mas se nasceram impregnados pelo bom gosto do pai, não vai ter erro.

O que me impressiona nos dois discos é a riqueza (em algumas faixas) e originalidade (em outras) de seus arranjos. Porque todo mundo já está cansado de conhecer a obra dos Beatles, a sensação óbvia é que não há mais o que inventar. E o sujeito tem de ser corajoso pra mexer em obras clássicas, há uma linha muito tênue entre o sucesso e o fracasso que, num caso desses, não seria perdoado.

Por exemplo, a tal banda Suricato que se apresentou nesse programa novo de música da Globo. Não sei se a banda é boa, se seu repertório vale o investimento. Mas sua versão para Come Together ficou duca.

Enfim, lembrei deles hoje. E se você tiver um tempinho nesse feriado que está começando, não perca a chance. Meets The Beatles e Songs of The Beatles. Fica como meu ‘ovo’ de chocolate para todos. Garanto que não engordam. Feliz Páscoa!

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Hey ho

The Lumineers / Foto: DivulgaçãoRamsey é uma cidadezinha de mais ou menos 15 mil habitantes, distrito de Nova Jersey, coladinho em Nova Iorque. Algo muito distante da paisagem quase bucólica que a primeira audição de The Lumineers pode sugerir.

Os amigos de infância Wesley Schultz (guitarra e voz) e Jeremiah Fraites (bateria) começaram a compor e tentar aparecer na cena musical local pelos idos de 2005. A falta de espaço e o alto custo os ajudaram a tomar uma decisão arriscada.

Quase quebrados e, àquela altura, mais por teimosia, juntaram o pouco que tinham aos seus instrumentos e colocaram o pé na estrada. Aportaram em Denver, capital do Colorado, e colocaram um anúncio no jornal em busca de um violoncelista. Neyla Pekarek foi a primeira a responder e não demorou muito para compor o – agora – trio.

A mocinha fez mais do que bem aos velhos amigos, suavizando seu estilo e incorporando outros instrumentos ao som dos rapazes: bandolim e piano.

Com uma base folk e oscilando entre o country à moda antiga e o rock seco (e a voz rasgada e marcante de Schultz é fundamental nessa construção), os Lumineers lançaram seu primeiro disco (The Lumineers, Dualtone Records) em abril de 2012. A música de trabalho (essa é velha) foi a quinta faixa do álbum, Hey Ho. A canção explodiu e chegou a ser a terceira colocada no top 100 da Billboard.

O lançamento da banda foi muito bem trabalhado. Antes mesmo do disco estar pronto, Hey Ho foi apresentada em um comercial de TV para o Bing, entrou na trilha sonora de episórios das séries Hart of Dixie, Vampire Diaries, Bones e no último episódio do seriado britânico Cuco. Ainda na Inglaterra, a canção também esteve em propagandas da E.ON, Microsofot e do filme O lado bom da vida.

Com toda essa preparação, o sucesso era até previsível. E se Hey Ho é uma espécie de música chiclete e fácil de reconhcer (cheguei a pensar que bem antiga) também é verdade que é uma canção mais do que agradável.

O primeiro e único disco é, na média, muito bom com algumas faixas (1, 3, 4 e 11) excelentes. Abaixo, a já mais que conhecida Hey Ho no único vídeo produzido pela banda. Agora é torcer para que os próximos álbuns mantenham o nível.

70

É isso, o sujeito chegou aos 70 e o que mais é preciso dizer sobre ele? Que continua fazendo lindas canções de amor.

Balançando o Alabama

A dica foi do amigo Octavio Machado. Me apaixonei pela voz rascante da moça, à moda antiga. E o som dos Alabama Shakes salvou o dia.

A banda existe desde 2009 e mantém sua formação original: Brittany Howard (voz e guitarra base), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo) e Steve Johnson (bateria). De quebra, há ainda o tecladista Ben Tanner que, desde o ano passado, participa de shows e gravações mas, sei lá por quê, não faz parte da banda.

Acho que Johnson, o batera, merece um aparte. Desde sempre, cansei de ouvir leigos (quase surdos) e especialistas falando mal de Ringo. É claro que se você comparar o ex-beatle com alguns dos grandes bateristas dos últimos 20 ou 30 anos, principalmente aqueles mais performáticos das grandes bandas em suas turnês mundiais filmadas e exibidas pelo boom da MTV, o sujeito era mesmo um simplório. É o mesmo caso, embora mais ameno e muito diferentes entre si, de Charlie Watts e Nick Mason (e se você não sabe quem são esses, meus pêsames).

Ao misturar estações, esqueceram que os três foram capazes de criar batidas inconfundíveis e, em alguns casos, inimitáveis. Além disso, tão precisos quanto os melhores metrônomos do mercado. Sem comparações de competência, reparem no vídeo como o moço toca. Reto, preciso, sem frescuras ou espalhafatos. E sem barulho, deixando guitarras e baixo com o espaço que o arranjo da canção merece.

Voltando à banda, de forma geral, bons riffs (que em vários momentos me remetaram ao Creedence), arranjos honestíssimos (não inventam muito e também não perdem a mão), letras interessantes… Se você desconfia que não é isso tudo, recomendo que ouçam On Your Way.

Enfim, vale visitar o site dos caras ou pesquisar um tantinho para encontrar outros vídeos e algumas faixas voando por aí.

As lágrimas doces de uma guitarra

Há alguns dias atrás, a Rolling Stones publicou uma lista que se pretende definitiva, dos dez maiores guitarristas da história. Um tanto óbvia, na verdade, e limitada – não pelo número, mas pelo universo dos eleitos e eleitores. Normal.

George Harrison não está na lista. E até acredito que não deva estar mesmo, independente de ter sido o puta instrumentista e compositor que foi. Ontem fez dez anos que ele morreu, infelizmente. Como falei com amigo Lessa, “um dia a gente vai também. Quem sabe não vai rolar um monte de show de graça nessas outras dimensões por aí?”

Abaixo, o clássico dos clássicos do sujeito.

Se você quiser se divertir um tantinho, aqui tem outro clipe legal. De 1987, o vídeo (que só começa de verdade pelos 40 segundos) é melhor que a música (que não é ruim). Participação muito especial de Ringo Starr e uma aparição quase anônima de Elton John. De quebra, dados os recursos da época, vale dar atenção às soluções em tons de efeitos especiais.

15

Hoje faz 15 anos que Renato Russo morreu. E não, não sou um fã tão ardoroso a ponto de guardar essa ou aquela data. Mas de algumas efemérides você não escapa quando abre sites ou jornais de folhas. E, como para quase todos da minha geração, a música do sujeito foi uma das referências da minha vida.

Não pretendo cair aqui na discussão inútil sobre quem era melhor, Renato ou Cazuza. Também não pretendo fazer ilações filosóficas ou sociológicas sobre as letras do sujeito, sobre em qual canção ele assumiu sua bissexualidade ou quando ele cantou sobre suas dependências ou em qual letra ele despejou a angústia pela descoberta da AIDS ou sobre quando, finalmente, sua obra foi finalmente compreendida.

Mas como acontece com todas as canções, filmes, livros e que tais consumidos durante nossa adolescência e pós-adolescência – fases em que construímos boa parte de nossas referências –, várias músicas do Legião me fazem lembrar automaticamente de algumas histórias. Hoje, quando ouvi falar de Renato Russo pela primeira vez, Mauricio estourou na minha cabeça.

Fui um adolescente idiotamente romântico, daqueles que se apaixonava perdidamente por qualquer namoradinha de duas semanas, que sofria de amor a cada pé na bunda, que curtia muita fossa (ainda se curte fossa hoje em dia? Ainda existe fossa?)  ao som do Good Times 98 (ainda existem a rádio e o programa?), em que Barry White era uma presença constante.

Pelo final da década de 80 e início de 90, eu era parte de um grupo de jovens da igreja católica. Como tocava violão, era da ‘banda’. E parte disso era receber alguns convites para tocar em missas de formatura ou de quinze anos do amigo do amigo ou da amiga da amiga. E foi assim que conheci a Cíntia.

Tinha lá meus 15, 16 anos e ela era uma das alunas que iriam se formar em um colégio de freiras ali do Rio Comprido e eu fui um dos que foi tocar na missa e, conseqüência, convidados para a festa. E começamos a namorar. Hoje, já não lembro de seu rosto nem de como escrever seu nome corretamente nem se nosso grande relacionamento durou duas semanas ou um mês, vejam só. Sei que estávamos juntos no meu aniversário e que ela me deu de presente a fita (é, na época era comum presentear as pessoas com K7 ou LP) de As Quatro Estações, recém lançado.

Depois de algum tempo (alguns dias, sou capaz de apostar), como de hábito, levei um fora. E então ouvia aquela fita sem parar e, no final de Mauricio, lá estavam os versos que embalaram minha fossa: “eu vi você voltar pra mim, eu vi você voltar pra mim, eu vi você voltar pra mim…”

Não é mesmo curioso o tipo de lembrança que temos de vez em quando?

A intrusa (parte 1)

É certo que, com a comoção pela morte de Amy Whinehouse, você ouviu ou viu ou leu alguma referência sobre o Clube dos 27. Se você chegou de Marte… É um grupo de estrelas do rock que morreram, coincidentemente, aos 27 anos. E estão tentando incluir a inglesa.

Antes que apareça alguma tiete enlouquecida por aqui (duvido que aconteça), aviso logo que gosto da moça e das canções da moça. Boas letras, bela voz. Mas me incomoda muito essa necessidade de mitificação expressa do nosso mundo extremamente midiático de hoje.

Apesar da coincidência da idade, eu simplesmente não a incluiria no clube por algumas razões simples: o que mais, além da idade, seria motivo pra isso? Vocês realmente acreditam que apenas cinco ou seis artistas pop morreram aos 27 anos? Quem faz parte da turma e qual o legado de cada um?

Robert Johnson

É o primeiro e o mais discutível membro do Clube. Tudo porque sua data de nascimento (1911) não tem comprovação (há documentos com datas que variam de (1909 a 1912). E a maneira como morreu, em 1938, também não é lá muito certa. Reza a lenda que bebeu uísque envenenado com estricnina servida pelo dono ciumento do bar em que tocava.

Outra lenda sobre Johnson diz ele fez um pacto com o diabo para garantir que tocasse bem e fosse reconhecido. Algumas de suas letras ajudam a propagar o pacto: Crossroads Blues, Me And The Devil Blues e Hellhound On My Trail.

Muita gente o aponta como o músico mais importante do século XX e se hoje você ouve e gosta de rock, a culpa é dele.

O cara gravou apenas 29 músicas na vida, algumas duas vezes. Pouco, mas mais do que o suficiente para construir – com seus riffs muito mais elaborados do que a média do blues nascido no delta do Mississipi e utilizando as notas mais graves do violão para modelar ritmos regulares – as bases harmônicas que deram origem ao, hoje, bom e velho rock ‘n roll.

Brian Jones

O cofundador dos Rolling Stones é o próximo da lista, morreu afogado em sua piscina menos de um mês depois de ser excluído da banda devido ao exagero no consumo de drogas e bebidas que provocavam suas ausências e mau desempenho em gravações e shows.

Multiinstrumentista e, no início, único da banda capaz de ler partituras, não era compositor muito profícuo (apenas sete canções na banda), mas capaz de fazer arranjos brilhantes. O estilo adotado pelo grupo é cai na sua conta. Além disso, gravou com os Beatles e compôs a trilha do filme A Degree Of Murder. Com a banda, gravou 12 álbuns.

Jimi Hendrix

Em tese, não deveria ser necessário apresentar o sujeito, mas vamos lá. O cara morreu em 1970, teoricamente (nunca foi confirmado) afogado em seu próprio vômito. O cenário teria sido o resultado de uma overdose de soporíferos misturados com vinho.

Como estamos falando de legado… O cara gravou apenas três álbuns e uma pequena série de compactos. Mas deixou mais de 300 gravações inéditas. Além disso, basta procurar pela web que é fácil encontrar centenas de filmes com suas performances. O cara simplesmente mudou o conceito ‘tocar guitarra’, transformou a Fender Stratocaster (braços estreitos e alavanca de trêmolo) e o amplificador Marshall (único, na época, a agüentar o peso de sua música) em lendas do rock e foi o primeiro a controlar a microfonia a ponto de transformá-la em parte das músicas.

Uma de suas passagens marcantes, além do hino estadunidense em Woodstock, foi abrir um show em Nova Iorque com Sgt. Peppers, no dia seguinte de seu lançamento em Londres pelos quatro de Liverpool. É fácil reparar que apenas 24 horas depois, a canção já tinha outra cara e um solo absurdo.

Janis Joplin

O que falar de uma cantora que solta a seguinte pérola?

Posso não durar tanto quanto as outras cantoras, mas sei que posso destruir-me agora se me preocupar demais com o amanhã.

O final, anunciado como se vê, foi alguns meses depois de Hendrix, com uma overdose de heroína. Sua voz pouco marcante, como sabemos, lhe rendeu algumas alcunhas como ‘a rainha do rock n’ roll’ e ‘a maior cantora de rock dos anos 60’, fase áurea do estilo.

Começou a carreira como crooner da Big Brother & the Holding Company. Depois, montou suas próprias bandas e seguiu carreira solo. E transformou algumas canções em clássicos do rock, como Cry Baby, Mercedes Benz e Piece Of My Heart. Sua última gravação foi Happy Trails, uma brincadeira como presente de aniversário para John Lennon.

Apesar do princípio transgressor, o rock sempre foi um tanto conservador (se é que é possível). E foi Janis quem quebrou a barreira de mostrar que é possível ter uma mulher como grande estrela.

Jim Morrison

Morreu na banheira, em seu apartamento de Paris, em julho de 1971, graças a uma overdose nunca comprovada.

Esse é provavelmente o menos influente personagem do Clube. Vocalista e fundador do The Doors, ainda foi poeta e cineasta. Com a banda, gravou seis álbuns e produziu alguns clássicos como Light my fire, Roadhouse blues e Hello, I Love you.

Kurt Cobain

Se tentar observar toda a situação do ponto de vista de que o rock exige uma postura transgressora, fica fácil entender porque o sujeito que deu um tiro na cabeça em 1994 é considerado “a última estrela verdadeira do rock”.

O Nirvana existiu entre 1987 e 1994, período em que lançou três álbuns: Bleach (1989), Never Mind (1991) e In Utero (1993). Além da própria banda e da voz de Kurt, nenhum deles têm semelhanças estruturais elementares, tanto no estilo de composição quando na execução das canções. Mas a herança real do Nirvana, além dos discursos e atitudes anti-sexista do líder, foi ter dado ao rock alternativo, começando pelo movimento grunge de Seatle, o acesso ao mainstream.

O motor dessa mudança de cenário foi o álbum Never Mind, de faixas como Smells Like Teen Sirit e Come As You Are. Se é verdade que o álbum Ten, do Pearl Jam, do mesmo ano, também contribuiu na consolidação do estilo, é inegável que foi a partir do Nirvana, e de Kurt Cobain, que o rock alternativo passou a ser parte muito relevante da indústria.

Amy Whinehouse

E voltamos a ela. Dois álbuns. Frank (2003) não tem uma linha criativa, é apenas um apanhado de boas canções. E o grande sucesso Back to Black (2006). Se sua excelente voz e musicalidade devem favor a alguém, o cara é Mark Ronson. Foi ele quem desenhou o disco, definiu sua estrutura e apresentou a cantora à banda The Dap-Kings, conhecidos por fazer hoje o som dos anos 60 e 70.

E o legado, sua herança para a história da música? Um punhado de boas canções confessionais? Sinceramente, me parece pouco.