Trilha sonora

O fim de semana foi dos melhores. Muito choro no sábado e domingo especialmente dedicado a Jackson do Pandeiro (depois, outro dia, explico isso). Aproveitei que o Ron Groo me lembrou do Vanguart e usei a segunda e a terça pra mudar de ares, digamos assim. Porto Alegre, São Paulo, Patos de Minas e Cuiabá. Esse foi o resultado do giro, por enquanto.

O que tem de música boa sendo feita por aí não está no gibi. Mas é preciso se dar ao trabalho de, vez em quando, procurar, fuxicar. Ou, vá lá, contar com um tanto de sorte de algo realmente novo aparecer nas listas de “descobertas” da semana dos seus aplicativos favoritos. Mas vamos ao que interessa.

Comecei com a lembrança do Groo, Vanguart. Os caras são de Cuiabá e já tiveram momentos de alguma badalação, apareceram em uns programas Globo e até gravaram disco do Multishow. Lançaram agora há pouco, junho, um disco que prometia muito mas entregou pouco: Vanguart sings Bob Dylan. Concentrado nos primeiros 15 anos da obra do bardo, a coleção de 15 faixas é incrível, mas no fim das contas o disco não ultrapassa a homenagem correta. Respeito demais, originalidade de menos. O que não combina com seus três discos autorais: Boa parte de mim vai embora, Muito mais que o amor (pra mim, o melhor) e Beijo estranho. Se for curioso, escute também o disco solo do vocalista Hélio Flanders, Uma temporada fora de mim. Hélio canta bagarai, apesar de ser dramático demais, às vezes.

Depois “fui” a Porto Alegre ouvir um disco que adoro: Maravilhas da Vida Moderna. Tristemente, o Rio Grande do Sul tem tradição de muito boa música pouco reconhecida, apesar do Humberto Gessinger. Fazia tempo que não ouvia Dingo Bells, a ponto de não saber que tinham lançado, no ano passado, seu segundo disco. Todo mundo vai mudar é muito bom, mas o “Maravilhas” é tão tão foda que, ao caírmos na armadilha da comparação, corremos o risco de não lhe dar o devido valor. E se você é meio vintage, que gosta de ter o CD em casa, vá à loja da banda, porque os álbuns não se resumem aos discos. Vêm numa embalagem diferente e com projeto gráfico de bater palmas.

O terceiro passo desses dois dias foi em São Paulo. Se você diz que gosta de rock ou, vá lá, indie e não conhece O Terno, sinto muito. Mesmo. Até agora, são quatro álbuns – além de aparições em um monte de outros discos, incluindo Lulu Santos e Tom Zé. O último, <atrás/além>, lançado agorinha há pouco, é bom demais. Meu preferido é o terceiro, Melhor do que parece. Agora, ouvir os quatro em sequência é algo muito legal, porque é quase tátil a evolução nas composições e na sonoridade.

Aí lembrei de O Berço e me mudei para Pato de Minas. Em 2014 lançaram Alto do Vale. E se você gosta da psicodelia setentista, entre outras influências, é um disco imperdível. Gosto muito. O problema é que a banda acabou. Dois dos integrantes originais saíram do Brasil e o que era pra ser um hiato virou o fim. Mas… Sim, há um mas. À turma que sobrou por aqui, se juntaram novos músicos de Patos e da região para fazer nascer uma nova banda: Pássaro Vivo (sim, o nome é ruim, mas lembrem-se que já tivemos Miquinhos Amestrados e Abóboras Selvagens). Por enquanto, o que temos é um EP com sete faixas, Sobre Asas e Raízes. Pro meu gosto, de médio pra fraco, uma pena.

No fim das contas, estou mesmo curioso sobre o que vai aparecer de sugestões depois de ouvir tudo isso em sequência, uma espécie de overdose no algoritmo.

Melhor que ovo de chocolate

John Pizzarelli, Meets The Beatles / ReproduçãoQuando colocava Helena pra dormir, bebezinha, tentava variar a trilha sonora. Variava estilos e intérpretes. Naturalmente, umas coisas funcionam melhore que outras, algumas vozes são mais doces, carinhosas. E se você presta um tantinho de atenção…

De certa forma, Isabel aproveitou (ou aproveita) muito pouco essa minha disposição, só porque tem um outro esquema de sono, outra dinâmica pra dormir.

Mas há dois discos que são, sempre foram infalíveis. Uma voz masculina, outra feminina. Em comum entre eles? Quatro rapazes ingleses, de Liverpool.

Sarah Vaughan, Songs of The Beatles / ReproduçãoPois é, cada um a seu estilo, John Pizzarelli e Sarah Vaughan gravaram dois discos antológicos e até com algumas faixas em comum. O da moça, não ouvia há algum tempo e lembrei dele para indicar ao Augusto, pai de primeira viagem dos gêmeos João e Miguel. Não sei se já testou, mas se nasceram impregnados pelo bom gosto do pai, não vai ter erro.

O que me impressiona nos dois discos é a riqueza (em algumas faixas) e originalidade (em outras) de seus arranjos. Porque todo mundo já está cansado de conhecer a obra dos Beatles, a sensação óbvia é que não há mais o que inventar. E o sujeito tem de ser corajoso pra mexer em obras clássicas, há uma linha muito tênue entre o sucesso e o fracasso que, num caso desses, não seria perdoado.

Por exemplo, a tal banda Suricato que se apresentou nesse programa novo de música da Globo. Não sei se a banda é boa, se seu repertório vale o investimento. Mas sua versão para Come Together ficou duca.

Enfim, lembrei deles hoje. E se você tiver um tempinho nesse feriado que está começando, não perca a chance. Meets The Beatles e Songs of The Beatles. Fica como meu ‘ovo’ de chocolate para todos. Garanto que não engordam. Feliz Páscoa!

Hey ho

The Lumineers / Foto: DivulgaçãoRamsey é uma cidadezinha de mais ou menos 15 mil habitantes, distrito de Nova Jersey, coladinho em Nova Iorque. Algo muito distante da paisagem quase bucólica que a primeira audição de The Lumineers pode sugerir.

Os amigos de infância Wesley Schultz (guitarra e voz) e Jeremiah Fraites (bateria) começaram a compor e tentar aparecer na cena musical local pelos idos de 2005. A falta de espaço e o alto custo os ajudaram a tomar uma decisão arriscada.

Quase quebrados e, àquela altura, mais por teimosia, juntaram o pouco que tinham aos seus instrumentos e colocaram o pé na estrada. Aportaram em Denver, capital do Colorado, e colocaram um anúncio no jornal em busca de um violoncelista. Neyla Pekarek foi a primeira a responder e não demorou muito para compor o – agora – trio.

A mocinha fez mais do que bem aos velhos amigos, suavizando seu estilo e incorporando outros instrumentos ao som dos rapazes: bandolim e piano.

Com uma base folk e oscilando entre o country à moda antiga e o rock seco (e a voz rasgada e marcante de Schultz é fundamental nessa construção), os Lumineers lançaram seu primeiro disco (The Lumineers, Dualtone Records) em abril de 2012. A música de trabalho (essa é velha) foi a quinta faixa do álbum, Hey Ho. A canção explodiu e chegou a ser a terceira colocada no top 100 da Billboard.

O lançamento da banda foi muito bem trabalhado. Antes mesmo do disco estar pronto, Hey Ho foi apresentada em um comercial de TV para o Bing, entrou na trilha sonora de episórios das séries Hart of Dixie, Vampire Diaries, Bones e no último episódio do seriado britânico Cuco. Ainda na Inglaterra, a canção também esteve em propagandas da E.ON, Microsofot e do filme O lado bom da vida.

Com toda essa preparação, o sucesso era até previsível. E se Hey Ho é uma espécie de música chiclete e fácil de reconhcer (cheguei a pensar que bem antiga) também é verdade que é uma canção mais do que agradável.

O primeiro e único disco é, na média, muito bom com algumas faixas (1, 3, 4 e 11) excelentes. Abaixo, a já mais que conhecida Hey Ho no único vídeo produzido pela banda. Agora é torcer para que os próximos álbuns mantenham o nível.

70

É isso, o sujeito chegou aos 70 e o que mais é preciso dizer sobre ele? Que continua fazendo lindas canções de amor.

Balançando o Alabama

A dica foi do amigo Octavio Machado. Me apaixonei pela voz rascante da moça, à moda antiga. E o som dos Alabama Shakes salvou o dia.

A banda existe desde 2009 e mantém sua formação original: Brittany Howard (voz e guitarra base), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo) e Steve Johnson (bateria). De quebra, há ainda o tecladista Ben Tanner que, desde o ano passado, participa de shows e gravações mas, sei lá por quê, não faz parte da banda.

Acho que Johnson, o batera, merece um aparte. Desde sempre, cansei de ouvir leigos (quase surdos) e especialistas falando mal de Ringo. É claro que se você comparar o ex-beatle com alguns dos grandes bateristas dos últimos 20 ou 30 anos, principalmente aqueles mais performáticos das grandes bandas em suas turnês mundiais filmadas e exibidas pelo boom da MTV, o sujeito era mesmo um simplório. É o mesmo caso, embora mais ameno e muito diferentes entre si, de Charlie Watts e Nick Mason (e se você não sabe quem são esses, meus pêsames).

Ao misturar estações, esqueceram que os três foram capazes de criar batidas inconfundíveis e, em alguns casos, inimitáveis. Além disso, tão precisos quanto os melhores metrônomos do mercado. Sem comparações de competência, reparem no vídeo como o moço toca. Reto, preciso, sem frescuras ou espalhafatos. E sem barulho, deixando guitarras e baixo com o espaço que o arranjo da canção merece.

Voltando à banda, de forma geral, bons riffs (que em vários momentos me remetaram ao Creedence), arranjos honestíssimos (não inventam muito e também não perdem a mão), letras interessantes… Se você desconfia que não é isso tudo, recomendo que ouçam On Your Way.

Enfim, vale visitar o site dos caras ou pesquisar um tantinho para encontrar outros vídeos e algumas faixas voando por aí.

As lágrimas doces de uma guitarra

Há alguns dias atrás, a Rolling Stones publicou uma lista que se pretende definitiva, dos dez maiores guitarristas da história. Um tanto óbvia, na verdade, e limitada – não pelo número, mas pelo universo dos eleitos e eleitores. Normal.

George Harrison não está na lista. E até acredito que não deva estar mesmo, independente de ter sido o puta instrumentista e compositor que foi. Ontem fez dez anos que ele morreu, infelizmente. Como falei com amigo Lessa, “um dia a gente vai também. Quem sabe não vai rolar um monte de show de graça nessas outras dimensões por aí?”

Abaixo, o clássico dos clássicos do sujeito.

Se você quiser se divertir um tantinho, aqui tem outro clipe legal. De 1987, o vídeo (que só começa de verdade pelos 40 segundos) é melhor que a música (que não é ruim). Participação muito especial de Ringo Starr e uma aparição quase anônima de Elton John. De quebra, dados os recursos da época, vale dar atenção às soluções em tons de efeitos especiais.

15

Hoje faz 15 anos que Renato Russo morreu. E não, não sou um fã tão ardoroso a ponto de guardar essa ou aquela data. Mas de algumas efemérides você não escapa quando abre sites ou jornais de folhas. E, como para quase todos da minha geração, a música do sujeito foi uma das referências da minha vida.

Não pretendo cair aqui na discussão inútil sobre quem era melhor, Renato ou Cazuza. Também não pretendo fazer ilações filosóficas ou sociológicas sobre as letras do sujeito, sobre em qual canção ele assumiu sua bissexualidade ou quando ele cantou sobre suas dependências ou em qual letra ele despejou a angústia pela descoberta da AIDS ou sobre quando, finalmente, sua obra foi finalmente compreendida.

Mas como acontece com todas as canções, filmes, livros e que tais consumidos durante nossa adolescência e pós-adolescência – fases em que construímos boa parte de nossas referências –, várias músicas do Legião me fazem lembrar automaticamente de algumas histórias. Hoje, quando ouvi falar de Renato Russo pela primeira vez, Mauricio estourou na minha cabeça.

Fui um adolescente idiotamente romântico, daqueles que se apaixonava perdidamente por qualquer namoradinha de duas semanas, que sofria de amor a cada pé na bunda, que curtia muita fossa (ainda se curte fossa hoje em dia? Ainda existe fossa?)  ao som do Good Times 98 (ainda existem a rádio e o programa?), em que Barry White era uma presença constante.

Pelo final da década de 80 e início de 90, eu era parte de um grupo de jovens da igreja católica. Como tocava violão, era da ‘banda’. E parte disso era receber alguns convites para tocar em missas de formatura ou de quinze anos do amigo do amigo ou da amiga da amiga. E foi assim que conheci a Cíntia.

Tinha lá meus 15, 16 anos e ela era uma das alunas que iriam se formar em um colégio de freiras ali do Rio Comprido e eu fui um dos que foi tocar na missa e, conseqüência, convidados para a festa. E começamos a namorar. Hoje, já não lembro de seu rosto nem de como escrever seu nome corretamente nem se nosso grande relacionamento durou duas semanas ou um mês, vejam só. Sei que estávamos juntos no meu aniversário e que ela me deu de presente a fita (é, na época era comum presentear as pessoas com K7 ou LP) de As Quatro Estações, recém lançado.

Depois de algum tempo (alguns dias, sou capaz de apostar), como de hábito, levei um fora. E então ouvia aquela fita sem parar e, no final de Mauricio, lá estavam os versos que embalaram minha fossa: “eu vi você voltar pra mim, eu vi você voltar pra mim, eu vi você voltar pra mim…”

Não é mesmo curioso o tipo de lembrança que temos de vez em quando?