Um raio

Ela nasceu há cinco anos. E eu a conheci há quatro anos, nove meses e quatro dias. E por muita sorte, fui o primeiro a pegá-la no colo. E ela me enganou!!! Olhou no fundo dos meus olhos, sorriu e eu me derreti achando que era a última bolacha do pacote.

Demorou pouco pra descobrir que ela fazia (e continua fazendo) isso com todo o mundo ao seu redor.

Olhos que faíscam, covinhas que desarmam qualquer um. Ela é raio, é pura luz que, ao mesmo tempo, inebria e acalenta quem está por perto. E seu coração é maior que o mundo. E não, não há corujice aqui. Porque não é nada de fácil não, tem um gênio que Deus me livre. E quando encrenca, sai de baixo.

Ela é assim. O mundo que se prepare, porque ela vai virá-lo de ponta-cabeça. Esse, aliás, já é um costume seu desde sempre, virou todos os nossos mundos. O meu, por exemplo, é virado e revirado algumas vezes a cada dia que estamos juntos.

Dizem por aí que temos, nós adultos, muito a ensinar a nossas crianças. Sei não, desconfio disso. Porque muito além do concreto, é ela que me ensina, que me faz tentar ser alguém melhor todos os dias; é ela, irradiando seu amor, que me ensina o que é amar. É por isso que agradeço por você estar na minha vida, por ter sorrido e piscado e me enganado. Por permitir que eu seja seu pai.

Parabéns minha filha. Parabéns Isabel.

Hora de plantar

Fotos: Flávia Souza Rocha

Alguns dias, por mais simples que pareçam, entram para a nossa história. Fácil assim. Foi o caso da sexta-feira, feriado de Tiradentes.

A previsão não era das melhores e, a princípio, era apenas um compromisso de trabalho. Descobrir Aurora… Eu iria a bordo cedinho para conhecer o barco, ver o que era necessário fazer e preparar tudo para a sessão de fotos que estamos preparando. Mas aí…

– Armando, e se ao invés de passar lá correndo, déssemos um passeio. É fim de semana de crianças e acho que elas adorariam.

– Claro, vambora.

E lá foi a família tralalá ver o Rio por um ângulo diferente. Com o dia lindo, saímos do clube em direção a Copacabana. Até aí, nada demais. O detalhe é que foi a primeira vez das mocinhas a bordo. E foi incrível.

Depois do encantamento, da surpresa de como é um veleiro por dentro, de dar algumas voltas pelo convés, de se espantarem com o tamanho das velas e até por ver peixinhos ao redor, começaram a colocar a curiosidade pra fora. E foi um tal de “pai, o que é isso?” e “pai, pra que serve aquilo?” que achei que não teria mais fim. Bússola, cabos, anemômetro, estais, âncora, maré, as fortalezas, tudo era descoberta.

E Armando, que durante muitos anos trabalhou com crianças, não se fez de rogado quando Isabel, com seus quatro, quase cinco anos, decidiu: “quero dirigir o barco!”. Colocou a mocinha no leme e começou a explicar, mostrar no que precisava prestar atenção e tudo o mais. E ela aproveitou e ficou por ali quase meia hora. E até discutiu com ele pra que lado ir quando o vento deu uma torcidinha.

Helena também aproveitou a chance e ainda tirou onda com uma mão só na roda de leme, enquanto não parava de se espantar porque “estamos no oceano pai!!!” É verdade, que não ficou tanto tempo no timão, mas estava à vontade que só ela…

No fim do dia o vento merrecou, a maré atrapalhou e não conseguimos chegar a Itaipu pra parar e dar um mergulho. Sem problemas. Antes mesmo de desembarcar, Isabel já avisava que “agora quero correr regata com você” e Helena perguntava, de olho comprido para os optimists que passavam, se “a gente pode voltar toda semana?”.

Se a vida é plantar, a semente foi posta. E, pelo jeito, já está germinando. Agora é só cuidar. Com vento e água salgada, claro.

Poesia mora lá…

bandeira_do_gres_imperio_serrano-800x509O primeiro carnaval de que tenho realmente memória foi o de 1984. Não me refiro aos bailinhos no Vila nem dos bate-bolas no Boulevard. Falo de escolas de samba e do arrastão que a Mangueira provocou, indo e voltando pela nova avenida do samba.

Naquele tempo os desfiles entravam pela manhã e a Portela já tinha deixado todo mundo de boca aberta no domingo (manhã de segunda, na verdade).

Enfim, foi por causa daquele carnaval que me formei mangueirense. E foi por causa destes dois desfiles que me apaixonei pelo carnaval da Sapucaí. Com o tempo, fui aprendendo e entendendo cada escola, o significado de cada uma pra história do carnaval e da cidade.

E depois de um bom bocado de desfiles – no grupo especial e de acesso – e de uns bons anos sem colocar os pés na avenida, ganhei um presente. Daqueles que não dá pra se medir.

Império Serrano.

Não sei se a meia-dúzia que 8 ou 9 amigos, do Rio e de fora, tem a noção do que significa isso. Império Serrano.

Tentei não dar bandeira, fiz força para ficar um tanto blasé, mas fiquei tenso durante todo o dia, especialmente na concentração, como não fiquei nem na primeira vez em que desfilei.

É um símbolo, tem uma aura diferente. E nem se trata de ser imperiano, mas de se dar conta do que representa.

É uma instituição, ao lado da minha Mangueira e da Portela. E pra mim, ao lado da Vila, meu bairro querido onde nasci e me criei, de Noel e de Martinho.

De quebra, vejam só, entrei na avenida comemorando o aniversário do meu irmão, que estava ao lado, da minha comadre querida e dela. Ela, imperiana devota de ficar com o coração disparado só de ouvir o primeiro acorde do cavaco, e que me levou para viver esse presente. Foi a certeza de que meu quintal é maior que o mundo.

Desfilamos no sábado, grupo de acesso em que o Império nunca deveria estar, e estou escrevendo antes de saber o resultado da apuração, antes de saber se, no ano em que comemora 70 anos, o menino de 47 vai voltar ao Grupo Especial. Porque não importa. Porque, como disse aí em cima, foi um presente vivido.

Não sei se será possível – algum dia – lhe proporcionar algo parecido com o que vivi nessa “festa” de 10 meses.

E neste fevereiro sem o dia 29 em que contamos nosso tempo, neste primeiro dia de março, aniversário da nossa cidade, “cantando eu declamo esse amor por você.”

É treta!

tretaMe acostumei a escrever um texto todo fim de ano, uma espécie de balanço do que foram os 365, 366 dias que passaram. Mas dessa vez, enrolado com um monte de coisas, deixei passar. E logo nesse que foi bem esquisito né não?

É, eu sei que nesse ponto não vou falar nada de novo. Afinal, nos acostumamos – especialmente com o fim do ano chegando – a falar mal dele e pedir pra que fosse logo embora. Muita gente legal morreu, muita gente que marcou muito a geração que está aí entre os 35 e 45. Mais ou menos onde estou, como vocês sabem. E ainda aconteceram as tragédias, Chape à frente…

E essa foi uma das razões pelas quais deixei de escrever. Comecei a pensar o quanto foi ruim o ano, se é que ele foi ruim mesmo. E agora já falo de mim, meu próprio umbigo.

Foi mais um ano sem emprego, já são dois e meio ao todo. Uma barra pesadíssima, sei que ninguém duvida disso. Mas foi um ano bom, apesar de tudo, porque me descobri fazendo coisas novas, é preciso se virar afinal. E terminou bem, com horizontes e novas possibilidades surgindo. A consciência de que o emprego como o conhecemos (nós, dessa turma por volta dos 40) talvez já não exista mais, ao menos em algumas áreas de atuação.

Foi um ano de muita conversa, muita discussão e, ao mesmo tempo, muita solidão, de olhar pra dentro pra tentar redescobrir, recomeçar, revolucionar, sei lá.

Sabe aquela história de dar um tapa no visual? Então, a consciência de que se o que faço, o que sei e gosto é comunicação, esquecer que é necessário estar dentro de um escritório ou uma agência, que meu trabalho vai comigo – na cabeça e nas pontas dos dedos – onde quer que eu vá. A consciência e o impulso que precisava para dar um tapa na minha vida. E o tapa tá vindo, vários tapas, se fizer direitinho serão porradas bem certeiras, daquelas que podem deixar marcas pra sempre na nossa história.

Também foi um ano bom na minha vida pessoal enquanto pessoa… rsrsrsrs …Achar que foi tudo pro saco e ter força pra recomeçar não é tão simples, todo mundo sabe. Reconstruir é mais difícil ainda. Mas a vida não para e te dá, nas mesmas medidas, sustos e boas surpresas.

Sim, estou falando dela. Sabem aquela piada de que de onde menos se espera é que não sai nada mesmo? Pois é, conosco foi o contrário. E é provável que só deu e está dando certo por conta disso, porque não esperávamos nada.

O tempo é nada. Parem pra pensar na dimensão de uma vida. O que são oito meses, que é o que corremos até hoje? Nada. Mas e quando a intensidade de algo nos dá a sensação de que uma semana durou um ano? Agora imaginem isso vezes oito meses.

Como ela mesmo gosta de falar, meu desassossego e minha paz. Portos seguros foi o que nos tornamos um para a outra e vice-versa, em todos os aspectos. E só isso já valeria uma vida. O que dirá então de um ano?

Também não posso, claro que não, falar do ano que passou sem falar da minha família. Pai, mãe, irmã. Que com todas as confusões que qualquer família tem, a única coisa que posso dizer é que são foda!!!!! (não tem outro termo e as exclamações, quantas eu colocar, serão sempre poucas). E os mais próximos sabem do que estou falando.

Por fim, minhas filhas. Meu tudo. E nem poderia ser diferente. Foi um ano mais que atribulado, de adaptações (que não terminaram) e aprendizado diário (e sim, eu sei, não vai acabar nunca).

Por elas e com elas fui e sou tudo e qualquer coisa. Bravo, sorridente, choroso, agoniado, esperançoso, desesperado, desnorteado, sensato… É, eu sei que poderia usar todos os adjetivos do Aurélio e um pouco mais. É assim mesmo, não é?

E ainda fui bobo de suas cortes, fui rei e rainha, príncipe e princesa, boneco e boneca, palhaço e até Mulher Maravilha, vejam só.

2017 já começou. Sei que em alguns casos está parecendo o 2016 S ou até, mais radical, 2015 S Plus. Mas a verdade é que não adianta reclamar. Como diria o filósofo, “é treta, mano!”. E o que resta então? Lutar. Porque “felicidade é só questão de ser”. E nesse fim de texto recheado de frases feitas, resta a certeza de que “o bom combate nunca será em vão”. Né não?

Hora da escola (6)

Uma escola diferente não se faz apenas dentro de sala de aula, mas em todas as suas dimensões. Não adianta, por exemplo, discursos lindos ou projetos político-pedagógicos que, bem escritos em seus sites, não passam de publicidade ruim se não são colocados em prática em todos os níveis.

Felizmente há cada vez mais escolas tentando praticar essas “novidades”. É o caso da escola das minhas mocinhas, a Oga Mitá. Ela faz isso há 38 anos. Só.

Não, isso não quer dizer que seja perfeita. Isso não existe. Mas quando o discurso é colocado em prática, as coisas realmente acontecem. É o caso do reajuste zero, pelo segundo ano seguido. Dá pra imaginar como seria aguentar as mensalidades, mesmo com algum desconto, se tivéssemos acompanhado a inflação de mais ou menos 20% nesses dois anos?

Já contei em outros posts (a série completa está aqui) como funcionam as coisas por lá, a comissão de planejamento, as assembleias, a participação dos pais em todos os temas da escola. Porque a educação dos nossos filhos não pode se restringir a entrega-los e busca-los no portão. Precisamos nos envolver. E precisamos ser parceiros, trabalhar juntos. E muitas vezes é muito trabalho. Mas vale a pena, é mais um pedacinho do legado que vamos deixar para nossas crianças.

E a experiência mostra que a relação não pode ser Pais/Responsáveis contra a escola, mas Pais/Responsáveis COM a escola. Se a instituição em que seus filhos estudam não permitem isso, será que não está na hora de buscar alternativas? Pense a respeito.

Andamos falando tanto de mobilização, de democracia… Que tal praticar?

Hora da escola

O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2010. Mas até hoje ele é disparado o post mais visitado, mas lido e comentado do blog, com mais de 5 mil visitantes únicos. E é por isso que resolvi republicá-lo, não por acaso na época de busca por escolas, de matrículas e rematrículas.

Na época procurávamos a primeira escola da Helena. Hoje, ela e Isabel seguem felizes suas vidas escolares. E é bem fácil deduzir que a Oga Mitá foi a escolhida.

Esse texto tem quatro filhotes e vocês podem encontrar todos eles clicando aqui e espero que sejam todos úteis.

E aos que decidirem visitar a escola, tenham a certeza que – além de serem muito bem recebidos – vão se surpreender. Basta estarem dispostos. E não esqueçam de dizer como chegaram à escola, que foi uma indicação do Gustavo, pai da Helena e da Isabel. A casa agradece de joelhos  ;).

Sabe aquela frase sobre o futuro de nossas crianças que já virou clichê: “não importa que mundo vamos deixar para nossas crianças, mas que crianças vamos deixar para o mundo”. Pois é, foi uma semana bem interessante essa que passou. Já peço desculpas antecipadas pelo texto longo que escrevi, mas achei que dividir essas experiências seria importante.

Já há alguns meses desde que a Mari começou a visitar escolas próximas de casa em busca de um bom lugar em que Helena comece sua vida acadêmica. E nesta semana fizemos um pequeno roteiro juntos. Como estou muito longe de ser um especialista em educação, minhas impressões refletem – simplesmente – o que percebi como pai em função do que gostaria para minha filha.

Construção

Foram cinco visitas nos últimos dias, teremos mais uma na segunda-feira. E em cada uma delas, olhos e ouvidos atentos às qualidades e defeitos. Como quando o ano letivo começar, em fevereiro, ela terá um ano e quatro meses, além de entender como é o processo pedagógico de cada uma, muita atenção às pessoas que possivelmente lidarão com nossa menina e com a estrutura oferecida, instalações etc.

A primeira visita foi à Oga Mitá. E algumas coisas interessantes chamaram muito a atenção. O primeiro ambiente, logo após passarmos o portão, é a biblioteca. A partir daí, não deveria ter sido surpresa encontrar, no sofá próximo à secretaria, uma menina confortavelmente instalada e concentrada no livro em suas mãos. Em horário de aula! Ao mesmo tempo, na pequena quadra, meia dúzia de quatro ou cinco crianças jogavam bola. A essa altura, Helena já andava pra lá e pra cá. E quando fomos fazer a visita propriamente dita e conversar com a coordenadora, ela já tinha se enturmado com as crianças de sua idade e ficou junto com a turma. Hummm…, foi o que pensei.

A linha de atuação da escola é baseada no construtivismo, o que – entre muitas outras coisas – incentiva a autonomia das crianças.

Hummm, continuei ruminando, quer dizer que é possível incentivar minha filha a pensar para que serve a tabuada ao invés de simplesmente fazê-la decorar que 7 X 9 = 63? É possível, mais do que ensinar, incentivar minha filha a decidir o que é certo para ela? Hummm…

Muitas questões

A segunda visita foi à Meimei, outra escola muito bem conceituada e que, em tese, também segue uma linha progressista. Fomos muito bem recebidos por todos e Helena, rapidamente, já estava mais uma vez entre as crianças. A estrutura da escola é bem legal, todas as pessoas muito simpáticas e tal, crianças nitidamente muito bem educadas, mas sabe aquela sensação de que algo não bate?

O que me incomodou foi um certo artificialismo, presente principalmente no discurso da coordenadora que nos recebeu. É que para ela tudo era uma questão. A questão do leve e pesado, do doce e salgado, do quente e do frio etc etc etc. Eram tantas questões e nenhuma resposta que fiquei ensimesmado. Alguém poderia dizer que o problema, então, não era a escola mas aquela pessoa. Mas, como lembrou a Mari, quem colocou aquela moça ali?

Três sapos

A sexta-feira foi bem movimentada, com visitas a três escolas. A primeira foi à J’Alevi. Mari já tinha visitado essa antes e, de certa forma, gostado. Na verdade, uma pequena escolinha tradicional, onde tudo funciona bem, profissionais simpáticos, crianças sorridentes e bem educadas. E bem perto de casa, pra ir andando. Mas aí, quem implicou fui eu. Um sobradinho acanhado, onde tudo é apertadinho e cheio de escadas. Pra mim, coisas que não combinam com crianças.

Logo depois, andamos mais 50 metros e chegamos à Sindicato da Criança. Fomos muito bem recebidos por uma das sócias da escola. A visita não ia mal não, muito pelo contrário, estava gostando mesmo do que via. Tudo muito simples, mas tudo bem feito e resolvido, até que entramos em uma sala e… “Haviam (sic) três sapos”.

A frase estava lá na parede, em um quadro em que as crianças, aparentemente, estavam aprendendo as primeiras noções de matemática. Depois dessa, precisa dizer mais alguma coisa?

Grande empresa

A última visita foi ao Mopi. É bem possível que, lá em 1973, quando a professora Regina Canedo fundou a escola, sua proposta fosse realmente brilhante. E se é inegável que a escola é conceituadíssima e acumula muitos bons resultados em sua história, minha impressão é de que – em algum momento de seus 37 anos – algo saiu dos trilhos.

Tudo é superlativo, o gigantismo é característica que grita aos olhos de quem circula pela escola. À primeira vista, a estrutura é sensacional e apesar de ser uma “escola vertical”, há espaço pra tudo. Mas como em tudo o que é grande demais, é nítida a impessoalidade no lidar com as pessoas. Sabe a diferença entre viajar e ficar numa pousada ou no Hilton? Foi o que senti.

Listo alguns detalhes que chamaram nossa atenção, infelizmente, sempre negativamente. Das escolas que visitamos juntos, foi a única em que Helena não conseguiu interagir com outras crianças. Foi a única em que vimos crianças correndo pelos corredores estabanadamente, esbarrando nos outros e sequer se preocupando em olhar pra trás para ver se estava tudo bem (pedir desculpas, então, nem pensar). Foi a única em que, antes mesmo de avaliar o desenvolvimento de Helena, já fomos avisados que ela teria que repetir a série (maternal 1 ou algo assim) em função de sua idade (porque ela teria 1 ano e quatro meses e o certo seria um ano e seis). Não fomos apresentados e não vi biblioteca, simplesmente não sei se existe. Funciona como uma grande corporação, terceirizando serviços como a alimentação, aulas de laboratório de ciências, aulas de inglês e sei lá mais o quê. É a única que em todas as suas salas há instalado um quadro board (primeira vez que vi uma redundância bilíngüe), usando a tecnologia como grande bandeira mas esquecendo que ela deve ser ferramenta ao invés de princípio.

Por fim, além de não encontrar qualquer coisa positiva, ainda é a escola mais cara.

O que queremos?

Nos recusamos a participar da neurose que tem tomado conta de muitos e muitos pais de nossa geração e escolher a escola em que Helena entrará com menos de um ano e meio imaginando em como isso se refletirá em sua colocação no vestibular. Também não queremos uma grife.

Em compensação, fazemos questão de um ambiente que seja agradável a ela, em que ela se divirta e aprenda de maneira natural, em que seja tratada como gente e não como a criança número 9 da lista de chamada.

Ainda lembro de uma troca de cartas entre meu pai e uma professora de português na minha quinta série, sobre uma questão de prova. Não acho que esse distanciamento funcione, não quero passar por algo parecido. Procuramos uma escola à qual tenhamos acesso, em que participemos ativamente do processo de educação de nossa moça, como parceiros que devemos ser, ao invés de entregá-la e buscá-la nas horas marcadas e vocês que se virem.

Ainda não tomamos qualquer decisão, ainda há outras escolas para visitar e algum tempo para pensar. Mas, como vocês podem ver, eliminar opções tem sido bem fácil.

Luz

HelenaNão faz muito tempo, voltando da escola pra casa, a mocinha começa a soltar suas pérolas.

– Pai, eu sou uma pré-pré-adolescente

– Como assim?

– É, a Isabel é criança. Eu sou uma pré-pré-adolescente. O João é pré-adolescente. E a Gigi é adolescente.

– E eu?

– Você é adulto uai!

– Sim, mas sou velho, novo, velhinho…?

A moça ficou na banana, coçou a cabeça e, talvez por piedade,  tratou de mudar de assunto. Ela ainda tinha 6 anos. Hoje ela faz 7.

Pombas, faz sete anos que a mocinha chegou. Faz sete anos que eu nasci como pai. Ok, os mais radicais diriam que isso aconteceu há sete anos e (mais ou menos) nove meses. Mas toda a preparação, tudo o que foi planejado, até o que li e estudei antes da sua chegada (e confesso que nem fui muito aplicado nessa parte), não valeu de nada.

Faz sete anos que o peso do mundo duplicou ou quadruplicou ou muito mais sobre meus ombros. Faz sete anos que há luz em minha vida.

Diz o Dicionário de Nomes Próprios que “Helena é um nome feminino que teve origem com o grego Heléne, a partir de heláne, que significa tocha. O termo hélê quer dizer raio de Sol, fazendo com que o significado de Helena seja a reluzente ou a resplandecente.”

E não, não pensamos nisso pra escolher seu nome, mas seu significado é perfeito.

Faz sete anos que tento encontrar definições plausíveis para a palavra amor, para o amor que sinto a cada vez que cruzamos olhares, a cada vez que sorrimos, a cada vez que brigamos, a cada vez que só ficamos em silêncio, a cada vez que lhe seco uma lágrima ou lhe conquisto um sorriso ou uma gargalhada, a cada vez que damos as mãos para atravessar uma rua, a cada machucado que preciso cuidar com uma delicadeza que nem eu sabia que tinha, a cada vez que velo seu sono. Faz sete anos que desisti de procurar explicação e apenas viver esse amor.

Faz sete anos que existe luz em minha vida.

Obrigado Helena!