O começo da história

A depressão é uma doença (acho que hoje todo mundo já entende isso né) crônica, provocada por uma disfunção bioquímica do cérebro. (Muito) Grosso modo, me disse um psiquiatra, é como uma inflamação do cérebro. E quando o sujeito está em crise, ou seja, com a caixola muito inflamada, ela simplesmente não funciona. E se ela não funciona…

Fui diagnosticado em 2014, depois de resistir muito à ideia de que era esse o meu problema, de que deveria procurar um médico. Quando finalmente cheguei ao consultório, eu já estava em crise – acreditem – há cerca de dois anos. Com o devido acompanhamento, você aprende a viver e identificar o que pode disparar suas crises, e como lidar com todos esses cenários.

Mas, mesmo o devido acompanhamento, não o livra de fazer cagadas. E vou lhes contar algo: eu capricho.

No texto anterior, disse que o processo que explodiu em 2021 foi iniciado em 2019 (tinha escrito 2018, mas já consertei). Na verdade, foi mais ou menos assim: 2017 chegando ao fim com mais um período de desemprego e eu aos 44 anos. Eis que surge a oportunidade de criar algo, abrir minha própria empresa. Comigo, dois sócios: um amigo de mais de 30 anos – daqueles que, apesar dos hiatos da vida, se frequentam as casas, famílias, filhas – e um seu amigo, também, de mais de década.

Erro 1: Não seja uma criança de 5 aos 45

“Amigos, amigos. Negócios à parte.” Sabedoria popular não seria sabedoria se não fosse, óbvio, sábio. A questão sempre será a interpretação e, apesar de tudo, eu jamais teria outra empresa com um sócio que não fosse amigo. A firma andava devagar, mas andava. E estava sob controle, contas em dia etc. Ou deveria.

É claro que nem eu nem ninguém tem culpa se um outro sujeito é desonesto e mentiroso compulsivo. Mas se você tem uma empresa, lida com clientes e quer “brincar” de ser adulto, não pode confiar em ninguém de olhos fechados, sem controlar tudo de perto. Mesmo que você conheça o tal sujeito há mais de 30 anos e tudo o mais que já contei lá em cima.

E ao misturar a pancada prática com a destruição dos afetos envolvidos, é claro que deu merda.

Erro 2: A vida não é um filme no velho oeste

Ao abrir uma empresa, é necessário se preparar para a possibilidade do fracasso, claro. Tinha me programado para um prazo de definição de dois a dois anos e meio, ou engrena ou encerra, essas coisas. Racionalmente (e teoricamente), tudo lindo.  Mas era eu.

Idiota e emocionalmente, não fui capaz de administrar nada. Dadas as minhas circunstâncias e os meus medos, além do cenário ao redor, o Brasil apontando cada vez mais para o sucesso (precisa explicar que contém ironia?), encarei tudo aquilo como a bala de prata da minha carreira. Aí, quando deu errado, eu desmoronei.

Erro 3: O Exército de Um Homem Só é apenas um livro muito bom

Toda essa merda explodiu entre março e abril de 2019. E a verdade é que nem posso reclamar da sorte, pois pouco tempo antes eu havia sido convidado para um projeto que duraria até o fim do ano. Ao menos tinha um trabalho que, além de salvar alguma grana, ainda ajudava a mascarar o problema. Só pra mim, claro.

Porque quem me conhece de verdade e estava ao meu redor (inclusive no trabalho) sabia que havia algo errado e tentava acessar o problema, mas eu dava um jeito de escorregar das conversas. Masculina e estupidamente, acreditei que seria capaz de lidar com e resolver tudo sozinho. Mas qual a chance disso dar certo? O Exército de Um Homem Só é apenas um livro muito bom (e uma música ruim dos Engenheiros), mas nem Scliar arriscou fazer essa maluquice funcionar.

Toda essa história, e todos esses erros, foram os pontos de partida da crise que ainda vivo. De quebra, fez surgir uma espécie de nuvem negra que pairou sobre mim durante todo esse período. E quanto mais o tempo passava, mais fechado ia vivendo, e quando a merda toda veio à tona, trouxe uma quebra de confiança que quase pôs fim ao meu casamento. E a tal nuvem só foi dissipada em novembro do ano passado, com a ajuda (ora, vejam só!!!!) do meu pai.

No dia seguinte a assinar os documentos que me livraram definitivamente da empresa, tive um piripaque no coração. Coincidência, claro. Mas isso é outra história que já já eu volto pra contar.

Continuem se cuidando. Por favor.

17 de março de 2021

Ontem, quando eu e Flávia, minha conge (taí uma palavrinha ótima que foi agregada ao léxico nacional, né não?), assistíamos a uma aula de escrita criativa, o professor falou de “Torto Arado”, só o livro mais vendido de 2021. Confessei, então, que até ela falar comigo sobre o livro (nem lembro quando, mas não fazia muito tempo não), eu jamais tinha ouvido a respeito. Tampouco sabia quem era Itamar Vieira Junior.

Depois dos olhos esbugalhados, a boca aberta, outras caretas e muitas interjeições de espanto, ela disse a frase que – aleluia!!! – me deu o clique para vir escrever este texto (provavelmente o primeiro de alguns) que ameaço começar a tanto tempo, mas sigo procrastinando como todo o resto em minha vida.

“Mas também, você passou boa parte do ano fora do ar. Nem sei se já aterrissou de verdade…”

17 de março de 2021. Não acredito ser data que esqueça tão rápido não. Saí de casa logo pela manhã, fui buscar meus óculos. Na volta, o caldo entornou. Com o coração disparado e a sensação de que o ar não entrava, parei algumas vezes pelo caminho, em cantos afastados das calçadas, para baixar máscara e “tentar” respirar. Quando cheguei em casa, não lembro como contei o que houve, mas me escorava tonto nas paredes e me enfiei sob o chuveiro frio, onde fiquei por quase meia hora, a tentativa de reequilibrar tudo.

Consegui um atendimento de emergência, o que naquele momento em que a pandemia apertava o cerco mais uma vez, foi uma teleconsulta com um psiquiatra paulista. Dos bons, por sinal.

Mesmo com o devido acompanhamento, com toda a estrutura em casa, com todo o apoio da moça e mais uma ou duas pessoas que sabiam o que acontecia, eu praticamente vegetava. E foram pelo menos quatro, cinco meses assim.

Pelo menos quatro, cinco meses em que eu – literalmente – fugi de tudo e todos. Não respondia mensagens, não atendia o telefone. Não fazia nada além do mínimo mínimo mínimo burocrático obrigatório.

O maior problema, no entanto, é que você não vive assim, não age assim porque quer, porque decidiu. Você, simplesmente, não consegue estar de outra forma. Qualquer ideia, qualquer desejo, qualquer vontade, qualquer movimento, qualquer… tudo faz sua cabeça ou seu corpo ou os dois doerem, seu peito apertar, seu coração disparar, sua respiração parecer não ventilar. A vista nubla, você paralisa.

É físico! E sim, isso mesmo, foram quatro, cinco meses assim. E ela tem razão, até hoje ainda não pousei mesmo. Ainda não fiz um terço do que devo: ligar para pessoas, recuperar ideias e projetos, fazer germinar e deixar crescer os novos, me ver capaz de viver-reviver relações e ações de forma plena.

Dois dias antes da implosão que vivi, no dia 15, fui demitido. Ainda que as circunstâncias tenham sido (muito) recheadas de incoerência e hipocrisia – tanto que as pessoas que faziam os discursos lindos jamais tentaram contato –, a demissão não foi a causa, apenas o disparador. Porque passei esses tais dois dias acelerado, cabeça a mil por hora, fazendo coisas como atualizar currículo e enviar mensagens, juntando documentos e avisando pessoas importantes, e pensando – claro – em como arrumar trabalho novo em plena pandemia, pensão, filhas, contas… Como disse, o disparador.

O processo, como um todo, já tinha começado em 2019, mas isso aqui já está imenso. Então, já já eu volto pra contar outra parte da história.

Cuidem-se.

Arrimo, bússola, inspiração

A vida mais separa que une. Essa é velha, vocês sabem disso. Mas a dor que lembrar disso traz não é menor a cada dia. E esse 2020 caprichou em nos lembrar disso. Que ano feladaputa, afinal de contas.

Apesar de tudo, com todo o cuidado, todo o radicalismo adotado por aqui – que até desgaste na família provocou – nos ajudou a levar em banho maria. Pra mim, ao menos, até novembro. Até 21 de novembro, quando aquela mensagem vinda de Fortaleza mudou tudo. “Nosso amigo querido faleceu”. E a maldita Covid bateu à porta.

Caius faleceu no dia 18, e o atraso da notícia dá bem a medida do afastamento que vivíamos já há algum tempo. Um amigo de quase 30 anos, calouros juntos que fomos. Passei uma noite inteira chorando, pensando na vó Geni e na Jorgete, que sempre me trataram como neto e filho, na Renata e no Gabriel. Porra Kaju!!!!

E depois dele, começou uma avalanche, amigos e amigas que perderam pais e avós em seguida, semanas seguidas de notícias trágicas, de velórios e missas de sétimo dia às quais não tive coragem e estrutura para comparecer. E desde então me fechei em silêncio na minha bolha caseira, sem acessar redes sociais, falando com pouquíssimas pessoas, com tudo agarrado dentro do peito mas sem força pra falar, pra escrever, pra qualquer coisa, ao mesmo tempo em que fazia força pra não receber mais notícias ruins. Até com vergonha de agradecer pelo quase milagre de que, em um país com quase 200 mil mortos, a família, em qualquer direção que se pense, não tomou nem um susto, todos bem e em paz.

Mas aí chegou a véspera de Natal e a primeira mensagem que piscou no meu celular foi da Isabel, “papai, é Natal, é Natal, é Natal!!!!”, uma alegria tão esfuziante e sincera que me obrigou a pensar no que sinto, no que acredito. Afinal, as partidas são sempre doloridas, como não, mas não é essa a vida, vir, viver, cumprir a missão (mesmo que não sejamos capazes de entender) e dar o fora? E o sentido da missão cumprida não deveria nos alegrar, nos deixar leves e orgulhosos por ter feito parte dessas missões?

Não sei mesmo responder.

E o que importa é que hoje é véspera de Natal. Dia de celebrarmos a vida, o nascimento de alguém tão especial que veio ao mundo, cumpriu sua missão, mudou a história do mundo e deu o fora.

É, admito que essa não é uma mensagem de Natal das mais festeiras. Mas o que desejo a todos é um Natal de paz, em casa, chorando nossas partidas e saudades, mas celebrando as vidas de quem passou por nossas vidas. E de quem está por aqui sendo, às vezes até sem perceber, nossos arrimos, nossas bússolas, nossas inspirações.

Em dezembro de 81

Foto: Marcelo Rezende

Foto: Marcelo Rezende

Meu pai é tricolor. E sim, há fotos minhas de criança com a camisa de listras verdes, brancas e grenás. E ali pelos seis, provavelmente sete anos, cheguei em casa e contei pro velho que eu era Flamengo. Já era efeito da geração de um certo Arthur.

Sim, eu sei que a memória falha. E muito. Especialmente sobre as lembranças de infância. Mas não lembro dele discutir o caso, fazer esforço para me fazer voltar atrás. Lembro apenas de um “tem certeza?” e um “não pode voltar atrás, virar a casaca”.

E quando chegamos a 13 de dezembro de 1981, eu tinha oito anos há apenas 15 dias. E como era uma criança com regras e rotinas, dormia e acordava cedo, mas o jogo no Japão começaria à meia-noite no Rio. É claro que eu queria ver o jogo, é claro que eu não aguentaria ficar acordado, mas sou bem capaz de imaginar o quanto não enchi seu saco sobre isso.

Na minha memória, o que não garante nada, chegamos a um meio termo em que eu iria para a cama e ele me acordaria para o jogo. Acho mesmo que foi assim, pois me lembro bem de ver o jogo começar na sala escura do apartamento da rua Souza Franco. Mas não vi nem o primeiro gol de Nunes, aos 13 minutos.

Lembro de ter sido acordado com festa no domingo de manhã, lembro de ter visto tudo o que se falou sobre o jogo e a conquista na TV, lembro até de ter visto um VT completo alguns dias depois.

Ao longo dos anos, fomos muitas vezes ao Maracanã para ver jogos do Flamengo e do Fluminense, juntos. Ele chegou a me levar para ver um Flamengo X Vasco numa quarta-feira à noite, num meio de campeonato, jogo que não valia muita coisa. E fomos a jogos gigantes, como os da fase final do Brasileiro de 1984, saudade do Maraca com mais de 100 mil. Como vimos juntos a final do carioca de 95, daquele maldito gol de barriga.

Também foi com meu pai (e com o Assis), em 83, que eu aprendi a nunca comemorar vitória nem aceitar derrota antes do apito final. Com o jogo no fim e o título “garantido”, saí de casa correndo pra comemorar o título com o Xavier, o porteiro rubro-negro. Enquanto estava no elevador…

Dessas voltas engraçadas que o mundo dá, calhou do Flamengo voltar à disputar o Mundial justamente contra o Liverpool. De novo. E jantamos juntos ontem e, quando perguntei, logo ele que sempre tem um palpite na ponta da língua, ficou pensativo e não disse nada. No sábado, ao contrário de 81, o Liverpool é franco favorito e o que vier é lucro. O “rumo a Tóquio” deu em Doha, o jogo não será à meia-noite e nós não estaremos juntos. Cada um na sua casa, será a vez da minha filha estar ao meu lado (sim, Isabel é rubro-negra e já reclamou que ainda não tem uma camisa…). Mas tenho certeza que, como ao longo de todos os anos depois que paramos de frequentar o estádio juntos, ele ligará pra comemorar a vitória eventual.

Depois, só concentrar no próximo campeonato. Que será duro, jogado à vera e – tenho certeza – vencido.

Espelhos e superficialidades

Como é bom falar sobre espelhos. E podemos começar com Rubens Ricupero. Lembram dele, ministro da Fazenda ali por 1994 e que foi pego por um sincericídio nos bastidores de uma entrevista que daria a Carlos Monforte e que, por azar (dele, claro) foi captado por parabólicas pouco antes de entrar ao vivo, não lembro se no Jornal Nacional ou da Globo.

Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde.

Pois bem, vivemos no país do “agora vai”, de ruptura em ruptura, de salvador da pátria em salvador da pátria, de mito em mito. Até que chegamos ao atual. Até um pombo seria melhor que ele, sabemos disso. E também sabemos as razões disso.

Mas lembrem-se que o objetivo é falar dos espelhos e da frase brilhante do ex-ministro.

O amigo Mario Leme, há alguns dias, disse aquele bom e velho óbvio ululante que, de tão óbvio, teimamos em não ver. Mesmo quando vemos.

Lula Livre não quer ser Lula Livre porque com Lula Livre não há Lula Livre.

Voltemos aos espelhos, pois.

Eliane Brum tem um texto brilhante. E escreveu trocentos artigos sobre o mito, todos desmontando o mito, todos (os que eu li) com muita razão. E todos compartilhados feericamente por muitos dos amigos que compõem minha bolha. Menos o último. Será por quê?

É da essência do maniqueísmo apagar as complexidades. Num país polarizado, o maniqueísmo serve aos dois polos. Ou é todo o mal, ou é todo o bem. (…) Nas entrevistas que Lula tem dado para preparar sua possível saída da prisão, ele deixa claro que seguirá apostando no fortalecimento do próprio mito.

Cliquem aqui e leiam o artigo. Inteiro. Até é sobre Belo Monte. Mas é sobre algo muito mais profundo que a maldita usina. E vamos enfiar nas nossas digníssimas cabeças, esses belos enfeites que balançamos sobre o pescoço: enquanto seguirmos na superficialidade, não chegaremos a qualquer lugar, seguiremos estacionados – como numa espécie de dimensão paralela – numa eterna Sucupira.

Trilha sonora

O fim de semana foi dos melhores. Muito choro no sábado e domingo especialmente dedicado a Jackson do Pandeiro (depois, outro dia, explico isso). Aproveitei que o Ron Groo me lembrou do Vanguart e usei a segunda e a terça pra mudar de ares, digamos assim. Porto Alegre, São Paulo, Patos de Minas e Cuiabá. Esse foi o resultado do giro, por enquanto.

O que tem de música boa sendo feita por aí não está no gibi. Mas é preciso se dar ao trabalho de, vez em quando, procurar, fuxicar. Ou, vá lá, contar com um tanto de sorte de algo realmente novo aparecer nas listas de “descobertas” da semana dos seus aplicativos favoritos. Mas vamos ao que interessa.

Comecei com a lembrança do Groo, Vanguart. Os caras são de Cuiabá e já tiveram momentos de alguma badalação, apareceram em uns programas Globo e até gravaram disco do Multishow. Lançaram agora há pouco, junho, um disco que prometia muito mas entregou pouco: Vanguart sings Bob Dylan. Concentrado nos primeiros 15 anos da obra do bardo, a coleção de 15 faixas é incrível, mas no fim das contas o disco não ultrapassa a homenagem correta. Respeito demais, originalidade de menos. O que não combina com seus três discos autorais: Boa parte de mim vai embora, Muito mais que o amor (pra mim, o melhor) e Beijo estranho. Se for curioso, escute também o disco solo do vocalista Hélio Flanders, Uma temporada fora de mim. Hélio canta bagarai, apesar de ser dramático demais, às vezes.

Depois “fui” a Porto Alegre ouvir um disco que adoro: Maravilhas da Vida Moderna. Tristemente, o Rio Grande do Sul tem tradição de muito boa música pouco reconhecida, apesar do Humberto Gessinger. Fazia tempo que não ouvia Dingo Bells, a ponto de não saber que tinham lançado, no ano passado, seu segundo disco. Todo mundo vai mudar é muito bom, mas o “Maravilhas” é tão tão foda que, ao caírmos na armadilha da comparação, corremos o risco de não lhe dar o devido valor. E se você é meio vintage, que gosta de ter o CD em casa, vá à loja da banda, porque os álbuns não se resumem aos discos. Vêm numa embalagem diferente e com projeto gráfico de bater palmas.

O terceiro passo desses dois dias foi em São Paulo. Se você diz que gosta de rock ou, vá lá, indie e não conhece O Terno, sinto muito. Mesmo. Até agora, são quatro álbuns – além de aparições em um monte de outros discos, incluindo Lulu Santos e Tom Zé. O último, <atrás/além>, lançado agorinha há pouco, é bom demais. Meu preferido é o terceiro, Melhor do que parece. Agora, ouvir os quatro em sequência é algo muito legal, porque é quase tátil a evolução nas composições e na sonoridade.

Aí lembrei de O Berço e me mudei para Pato de Minas. Em 2014 lançaram Alto do Vale. E se você gosta da psicodelia setentista, entre outras influências, é um disco imperdível. Gosto muito. O problema é que a banda acabou. Dois dos integrantes originais saíram do Brasil e o que era pra ser um hiato virou o fim. Mas… Sim, há um mas. À turma que sobrou por aqui, se juntaram novos músicos de Patos e da região para fazer nascer uma nova banda: Pássaro Vivo (sim, o nome é ruim, mas lembrem-se que já tivemos Miquinhos Amestrados e Abóboras Selvagens). Por enquanto, o que temos é um EP com sete faixas, Sobre Asas e Raízes. Pro meu gosto, de médio pra fraco, uma pena.

No fim das contas, estou mesmo curioso sobre o que vai aparecer de sugestões depois de ouvir tudo isso em sequência, uma espécie de overdose no algoritmo.

Até um pombo…

Em tempos onde tudo se filma, se grava, se fotografa e se transmite, é muito raro conseguir desdizer algo flagrado. Especialmente quando é uma posição oficial e assumida.

O vespeiro que o ministro da (des)educação se enfiou – e com ele, o (des)governo – é, no mínimo, curioso. E o presidente, útil e idiotamente, colabora para piorar, como sabemos.

Sim, o ministro disse que cortaria das universidades que fazem balbúrdia. Sim, o ministro (e o presidente) dizem e insistem que as carreiras de humanas não servem pra nada (ou quase nada). Sim, o ministro e o presidente insistem que a universidade pública não entrega nada, apesar de ser responsável por mais de 95% da ciência produzida no país. E apesar de tentar, o presidente não nos deixa esquecer das ligações da família Guedes com os maiores grupos privados de educação do Brasil.

Tentar nos convencer que corte não é, chamando-o de contingenciamento, soa – no mínimo – infantil. Justamente por já termos visto isso em governos passados. E ao contrário dos que ainda tentam defender isso tudo que está aí, houve grita e não foi pouca. Só no governo petista (que eles adoram citar, quase como tara) foram quatro grandes greves: 2003 (59 dias), 2004 (25 dias), 2005 (112 dias) e 2012 (125 dias). Se falarmos dos anteriores então…

É gente, não esqueçam que a educação nunca fez parte dos projetos de poder deste nosso Brasil varonil. Um ou outro arremedo de ação, para inglês ver, no máximo. Vocês sabem né, gente que pensa, gente que tem conteúdo, dá um trabalho danado… Voltemos ao que importa agora.

Os mais de 30% cortados, que – depois da balbúrdia – foi estendido a todas as universidades e outras instituições desde a base (Pedro II é um exemplo, apenas), são do custeio. Não tem nada a ver com salários, por exemplo, rubricas completamente diferentes. Esse é um dinheiro que paralisa as instituições, pois impedidas de resolver seu dia a dia com fornecedores, reparos etc.

De quebra, nessa conta, não entram Fundeb, Fies, Capes, CnPQ etc. É isso mesmo, só pra deixar claro que o facão passou em várias esferas, da base à pesquisa. Mas vamos falar agora só das universidades públicas que hoje têm cerca de quatro milhões de alunos.

Diz o censo escolar de 2018 que as escolas públicas têm cerca de 39,5 milhões de estudantes matriculados, enquanto as privadas contam com cerca de nove, pouco mais. Desses quase 50 milhões de estudantes, quantos você conhece que sonham em entrar na Estácio, Veiga e congêneres espalhadas pelo país?

Os pais e responsáveis que escreveram cartas e criaram abaixo-assinados contra as escolas particulares que aderiram ao movimento de ontem querem suas “crianças”, olhando para o Rio, na UFRJ ou na Estácio? Na UFF ou na Veiga? Na Unirio ou na Santa Úrsula?

Sim, todo mundo sabe que o país está quebrado. E sim, sabemos como chegamos a isso. Mas o que o desgoverno fez nesses quatro meses e meio pra melhorar isso? Nada. Pelo contrário, fatos e factoides só colaboram para piorar o quadro, deixando todo mundo inseguro internamente e fechando portas externas que levaram décadas para se consolidarem.

Sim, sabemos que não há dinheiro suficiente pra tudo. Nunca vai haver. Mas, além de manter os pintos limpos e caçar fantasmas, quais são as prioridades? Qual é o plano – além de ridicularizar nossa política externa, liberar venenos para a agricultura, armar a população, destruir o meio ambiente e proteger milicianos – para mudar “tudo isso que tá aí, talquêi?”

Visões de mundo e ideologias diferentes constroem coisas. Delas, podemos e devemos discordar, discutir, tentar melhorar. Mas o que fazer com um governo que só quer saber de destruir e matar, nunca criar, consertar e evoluir? Até um pombo seria melhor. E esse é o busílis.

A vasectomia e uma coleção de foda-ses

Lá vem textão. Porque vou contar pra vocês a história da minha vasectomia.

Todo o processo começou no meio do ano. Marquei uma consulta com um urologista conveniado no plano da firma pra saber e tentar realizar o procedimento que ficou conhecido entre os mais chegados como “cortar as bolinhas”.

O médico explicou tudo direitinho, como funcionava etc., mas disse que eu teria que entrar em contato com o plano porque eles tinham o programa de planejamento familiar e que tudo era feito por eles. E lá fui eu.

NotreDame Intermédica. Guardem bem.

Liguei pro plano e descobri que tinha que assistir duas palestras, uma em cada mês, e depois cumprir as formalidades que a tutela burocrática do estado impõe. Até testemunha tive de apresentar. E mesmo depois de assinar os papeis, descobri que só poderia realizar o procedimento pelo menos 60 dias depois. Vai que eu mudo de ideia, né não…?

Quem me contou essa novidade foi o doutor Bernardo Geoffroy em nossa primeira consulta. Nesta primeira, na rotina de consultas a jato dos dias de hoje, apenas fez o pedido de exames. Na segunda, do mesmo jeito, apenas olhou os exames, preencheu meia dúzia de papéis e me avisou que mandaria todo aquele material para que tudo fosse aprovado pelo plano (apesar de estar realizando todos os procedimentos, desde as malditas palestras, pelo plano) e que, então, eles me ligariam em até 10 dias para fazer o agendamento.

Duas semanas depois e sem nenhum contato do plano, resolvi ligar para saber como andava e descobri que não havia nada registrado no sistema, que a única forma de resolver seria agendar uma nova consulta.

Só pra registar: assinei os papeis em 15 de agosto, ou seja, estava liberado a partir de 15 de outubro. Mas com essa primeira confusão (isso, a primeira), já estávamos em novembro quando houve a terceira consulta. Nela, me disse que eu não era o primeiro paciente que aparecia com o mesmo problema.

E foi nessa consulta que, finalmente, soube que estava agendado para o dia 13 de dezembro, no Samci da Tijuca. Deveria me apresentar às 8h e o médico que me operaria seria o doutor Leandro Vale. Isso mesmo, seria operado por alguém que não conhecia, nunca tinha visto. Nem ele a mim. Ó que maravilha.

A partir daí, organiza-se a vida no trabalho, na família etc. A Flávia, mais que doce companheira, também organizou sua vida para me acompanhar.

Aí, no dia 11 de dezembro, às 8h, recebo um SMS da Intermédica mandando entrar em contato. Achei que fosse alguma confirmação de praxe sobre o procedimento, orientações gerais e tals. E descubro que, de véspera, a cirurgia foi antecipada para o dia 12 por conta da agenda do médico. Esse foi só o primeiro foda-se.

Quando perguntei sobre as alternativas, a resposta foi a seguinte: aceitar ou não se apresentar e reagendar. Taí o segundo foda-se. Para os dois primeiros, a certeza de que só a agenda do médico é importante e que nós, reles mortais, e nossas vidas que nos adequemos.

No dia 12, lá fui eu para o Samci às 8h da manhã e, quando cheguei, soube que eu não estava no mapa de cirurgias do dia:

– sinto muito, isso é comum com os pacientes do doutor Leandro.

Apenas depois de quase arrumar um rebu é que a mocinha da recepção resolveu se mexer e me encaminhar para a mocinha que cuida das cirurgias. Ela, então, descobriu que eu deveria estar no Quali Ipanema. Não é ótimo? Por que o corno que me atendeu quando liguei, não avisou que tinha mudado a data e o hospital? Taí o terceiro foda-se.

Com todo o trânsito do horário, e depois de uma pequena fortuna de táxi, chegamos lá às 9h. Me apresentei, entreguei documentos, respondi algumas perguntas e ganhei uma pulseirinha. E como cheguei “atrasado”, sabia que estava no fim da fila. Sim, porque não tinha hora marcada pra cirurgia não, era por ordem de chegada. E o tempo passa…

Lá pelas tantas, fui perguntar se havia alguma previsão pra ser chamado e a mocinha me disse o seguinte:

– O médico nem chegou ainda. Eles mandam todo mundo chegar às 8 pra cadastrar. Quando o médico chega, é só chamar e pronto. Aí é rapidinho… Taí o quarto foda-se. Continuem contando.

O médico, aquele que ia cortar minhas bolinhas mesmo sem me conhecer, chegou às 11h, quando já estava há 12 horas em jejum. E sim, essa foi uma orientação. Chegar às 8 em jejum de ao menos oito horas. Jantamos às 23.

Fui chamado, finalmente, às 14h47. Fui levado para o centro cirúrgico em algum momento entre 15h30 e 15h40. Às 16h45 avisei à minha moça que já estava acordado e de volta no quarto.

Pouco tempo depois, recebi uma enfermeira com uns papeis na mão. Entre eles, uma receita com algumas recomendações.

– Legal. E quando o médico passa pra falar com ele?

– Ele não passa não, tá tudo aí.

– Não tá não, tenho um monte de perguntas pra fazer.

– Mas ele não passa não…

Taí o quinto foda-se. E continuo sem olhar na cara do sujeito que cortou minhas bolinhas.

Entre as recomendações, está “agendar revisão”. Assim mesmo, sem prazos ou nada mais. Liguei agora há pouco para a Intermédica.

– O doutor Bernardo só tem agenda para 14 de janeiro

– E eu vou ficar um mês sem a revisão da cirurgia? Tem algum outro médico que possa me atender.

– Revisão cirúrgica é só com ele mesmo.

– Então como é que eu faço? Um mês pra fazer revisão?

– O último dia que ele atende é segunda-feira, 17 de dezembro. Mas a agenda está muito cheia. Posso tentar um encaixe e se conseguir, nossa central avisa.

– E eu vou ficar um mês com os pontos? Esperando infeccionar etc?

– Não, pra tirar os pontos o senhor pode ir até nosso centro de saúde e procurar a equipe de enfermaria. Se algo estiver errado, se for necessário, as enfermeiras chamam o médico de plantão para atende-lo.

– É sério isso?

– O senhor pode ir entre 8 e 10h35, que é o horário em que o Dr. Bernardo estará atendendo. Aí, se for necessário, as enfermeiras o chamam para vê-lo.

Entenderam? A agenda do cara está lotada porque ele só atende por duas horas e trinta e cinco minutos (por extenso mesmo, pra ninguém esquecer). 

Sinceramente, perdi a conta dos foda-ses. A Intermédica está de parabéns por todo esse atendimento exemplar de sua equipe, né não?

9

Foi no último fim de semana, durante a viagem do feriado, que caiu a ficha. Com o peso de uma bigorna, é bom que se diga. 9!

Foi um fim de semana especial pra ela, que pelas circunstâncias, pelos relacionamentos ao redor das duas mais novas, sempre abre mão de tantas coisas, sempre disposta a fazer tudo certo e ajudar até quando não precisa.

Foi um fim de semana especial pra ela, com tanta liberdade. E ver sua independência e sua personalidade florescerem em todos os aspectos. Essa moleca é do balacobaco.

E foi um fim de semana especial pra mim, que pelas mesmas tais circunstâncias, tenho tão poucas oportunidades de estar só, de fazer coisas, de ter conversas só com ela. Ao mesmo tempo que ela ficou tão livre e solta, há muito não tínhamos tantos momentos só nossos.

E ela chegou aos 9. E a tal bigorna pesa entre os momentos em que ela já se comporta como a adolescente que será muito em breve e aqueles em que ela – talvez sem se dar conta – ainda se permite ser uma criancinha que rola de rir com um palhaço sem graça. Entre a garota que já tem vergonha dos micos do pai e a menina que pede colo.

9. Já faz 9 anos que ela chegou, que minha vida virou do avesso, que minha vida ganhou sentido, todos os clichês possíveis, imagináveis e muito reais.

Vi por aí que o 9 representa a mais alta forma do amor universal. Taí a definição.

Por que #agoraéHaddad

Sobre o texto anterior, recebi (de forma privada) duas respostas – como posso dizer…? – interessantes.

“Pronto Sirelli, já pode votar no PT. Foi de Ciro só pra disfarçar”.

“Mas os erros do PT só começaram a aparecer depois de 2004”.

Desde a minha primeira eleição, votei no PT. Especialmente, claro, no Lula. Até 2002. Mais que isso, era militante mesmo, de andar com estrela no peito, de vender materiais pra ajudar a arrecadar etc. Até 2002. Por quê?

Porque depois de dois anos de governo, já havia o cadáver de Celso Daniel, já conhecíamos Waldomiro Diniz e, na preparação para as eleições de 2004, abriu o leque de alianças que deu no que deu. O cheiro do ralo já estava instalado.

Sim, os “erros” do PT só apareceram depois de 2004 se falarmos do mensalão e tudo o que soubemos depois. O que, convenhamos, não foram “erros”. Foi uma cagalhopança do tamanho do Brasil, pra dizer o mínimo. E sim, meteram a mão. Como “nunca antes na história destepaiz”. Depois de passarem décadas dizendo que tudo estava errado e fariam exatamente o contrário.

E, por enquanto, nem vou entrar no mérito do perfil hegemônico que assumiu, da busca incessante pelo poder a qualquer custo, das sabotagens a qualquer um que não se aliasse, entre muitas outras coisas.

Então, como já disse um dia, é bem fácil explicar o ódio ao PT: nós fomos muito enganados.

E como podem ver, sei muito bem do que se trata o PT. “Ah, mas eles fizeram isso e aquilo…”. Pois é, todo governo faz alguma coisa boa. Eles fizeram algumas mesmo. Mas não compensa, não justifica, aquele chavão de fins e meios…

E não, não disfarcei nada. Das opções dadas, acredito que a melhor era o Ciro, apesar da Kátia Abreu. Mas gostaria mesmo é de ter votado no Eduardo Jorge.

Mas, então, por que cargas d’água vou votar em Haddad? Porque a alternativa a ele é inimaginável na minha consciência. Por tudo o que escrevi no texto anterior e muito mais.

Porque, se necessário, contra o PT, o país consegue lidar por meio de suas instituições e leis. Mesmo que aos trancos.

E, basicamente, porque tendo estudado um bom bocado de história, tenho a percepção de que nossa frágil democracia está em risco com o outro candidato. E não pelo que vai acontecer, mas pelo que já está acontecendo. E não dá pra achar normal.

“Se acha que os dois são ruins, anula o voto!”
Não! Porque lavar as mãos não resolve nada. Lavar as mãos não absolve minha consciência. Porque entendo que anular o voto é dizer “fodam-se vocês aí” enquanto eu faço parte, para o bem e para o mal, de tudo o que venha a acontecer a partir de 29 de outubro.

Porque se eu anular o voto com o espírito “vocês que arrumaram essa confusão que a resolvam”, um dos dois será eleito da mesma forma e eu vou sofrer as consequências do mesmo jeito.

Não é só porque eu e você votamos no Ciro, Amoedo, Marina, Alkmin, Boulos, Daciolo ou Eymael que não fazemos parte do problema em que estamos.

E se eu ligar o foda-se, não vou poder olhar para minha amiga gay e tentar consolá-la depois de sofrer uma violência. Se eu ligar o foda-se, não poder olhar para minha colega de trabalho negra e tentar consolá-la depois de sofrer uma violência. Se eu ligar o foda-se, não vou poder tentar ajudar a vizinha que deixou de ser contratada ou foi demitida por ser mulher e poder engravidar. Porque se eu ligar o foda-se, não vou poder olhar nos olhos da professora das minhas filhas que perdeu o seu filho (negro) quando o policial “confundir” um guarda-chuva com um fuzil.

Porque se eu ligar o foda-se, não vou poder viver com vocês. Nem vou poder reclamar quando vocês ligarem o mesmo foda-se para mim.