9

Foi no último fim de semana, durante a viagem do feriado, que caiu a ficha. Com o peso de uma bigorna, é bom que se diga. 9!

Foi um fim de semana especial pra ela, que pelas circunstâncias, pelos relacionamentos ao redor das duas mais novas, sempre abre mão de tantas coisas, sempre disposta a fazer tudo certo e ajudar até quando não precisa.

Foi um fim de semana especial pra ela, com tanta liberdade. E ver sua independência e sua personalidade florescerem em todos os aspectos. Essa moleca é do balacobaco.

E foi um fim de semana especial pra mim, que pelas mesmas tais circunstâncias, tenho tão poucas oportunidades de estar só, de fazer coisas, de ter conversas só com ela. Ao mesmo tempo que ela ficou tão livre e solta, há muito não tínhamos tantos momentos só nossos.

E ela chegou aos 9. E a tal bigorna pesa entre os momentos em que ela já se comporta como a adolescente que será muito em breve e aqueles em que ela – talvez sem se dar conta – ainda se permite ser uma criancinha que rola de rir com um palhaço sem graça. Entre a garota que já tem vergonha dos micos do pai e a menina que pede colo.

9. Já faz 9 anos que ela chegou, que minha vida virou do avesso, que minha vida ganhou sentido, todos os clichês possíveis, imagináveis e muito reais.

Vi por aí que o 9 representa a mais alta forma do amor universal. Taí a definição.

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Por que #agoraéHaddad

Sobre o texto anterior, recebi (de forma privada) duas respostas – como posso dizer…? – interessantes.

“Pronto Sirelli, já pode votar no PT. Foi de Ciro só pra disfarçar”.

“Mas os erros do PT só começaram a aparecer depois de 2004”.

Desde a minha primeira eleição, votei no PT. Especialmente, claro, no Lula. Até 2002. Mais que isso, era militante mesmo, de andar com estrela no peito, de vender materiais pra ajudar a arrecadar etc. Até 2002. Por quê?

Porque depois de dois anos de governo, já havia o cadáver de Celso Daniel, já conhecíamos Waldomiro Diniz e, na preparação para as eleições de 2004, abriu o leque de alianças que deu no que deu. O cheiro do ralo já estava instalado.

Sim, os “erros” do PT só apareceram depois de 2004 se falarmos do mensalão e tudo o que soubemos depois. O que, convenhamos, não foram “erros”. Foi uma cagalhopança do tamanho do Brasil, pra dizer o mínimo. E sim, meteram a mão. Como “nunca antes na história destepaiz”. Depois de passarem décadas dizendo que tudo estava errado e fariam exatamente o contrário.

E, por enquanto, nem vou entrar no mérito do perfil hegemônico que assumiu, da busca incessante pelo poder a qualquer custo, das sabotagens a qualquer um que não se aliasse, entre muitas outras coisas.

Então, como já disse um dia, é bem fácil explicar o ódio ao PT: nós fomos muito enganados.

E como podem ver, sei muito bem do que se trata o PT. “Ah, mas eles fizeram isso e aquilo…”. Pois é, todo governo faz alguma coisa boa. Eles fizeram algumas mesmo. Mas não compensa, não justifica, aquele chavão de fins e meios…

E não, não disfarcei nada. Das opções dadas, acredito que a melhor era o Ciro, apesar da Kátia Abreu. Mas gostaria mesmo é de ter votado no Eduardo Jorge.

Mas, então, por que cargas d’água vou votar em Haddad? Porque a alternativa a ele é inimaginável na minha consciência. Por tudo o que escrevi no texto anterior e muito mais.

Porque, se necessário, contra o PT, o país consegue lidar por meio de suas instituições e leis. Mesmo que aos trancos.

E, basicamente, porque tendo estudado um bom bocado de história, tenho a percepção de que nossa frágil democracia está em risco com o outro candidato. E não pelo que vai acontecer, mas pelo que já está acontecendo. E não dá pra achar normal.

“Se acha que os dois são ruins, anula o voto!”
Não! Porque lavar as mãos não resolve nada. Lavar as mãos não absolve minha consciência. Porque entendo que anular o voto é dizer “fodam-se vocês aí” enquanto eu faço parte, para o bem e para o mal, de tudo o que venha a acontecer a partir de 29 de outubro.

Porque se eu anular o voto com o espírito “vocês que arrumaram essa confusão que a resolvam”, um dos dois será eleito da mesma forma e eu vou sofrer as consequências do mesmo jeito.

Não é só porque eu e você votamos no Ciro, Amoedo, Marina, Alkmin, Boulos, Daciolo ou Eymael que não fazemos parte do problema em que estamos.

E se eu ligar o foda-se, não vou poder olhar para minha amiga gay e tentar consolá-la depois de sofrer uma violência. Se eu ligar o foda-se, não poder olhar para minha colega de trabalho negra e tentar consolá-la depois de sofrer uma violência. Se eu ligar o foda-se, não vou poder tentar ajudar a vizinha que deixou de ser contratada ou foi demitida por ser mulher e poder engravidar. Porque se eu ligar o foda-se, não vou poder olhar nos olhos da professora das minhas filhas que perdeu o seu filho (negro) quando o policial “confundir” um guarda-chuva com um fuzil.

Porque se eu ligar o foda-se, não vou poder viver com vocês. Nem vou poder reclamar quando vocês ligarem o mesmo foda-se para mim.

Porque #elenunca

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Eu não gostaria de votar no PT. Não votei no PT no primeiro turno. Não voto no PT desde 2004. Por tudo o que sabemos. Mas essa eleição não é mais sobre o PT. Nem sobre o PSDB, PDT, PSOL, MDB, DEM, PROS, REDE, PV ou qualquer um dos mais de 30 partidos (mais de 30 partidos!!!). Essa eleição não é mais sobre ideologias. Essa eleição se transformou num plebiscito sobre em que ambiente se quer viver. Sobre se vamos viver em um ambiente de diálogos ou de força. Sobre se vamos viver em um ambiente democrático (com todos os benefícios e malefícios possíveis) ou não. Se vamos viver em um ambiente humanista e diverso ou não.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Não vou listar aqui todas as suas declarações, desde sempre, em vídeos, áudios ou textos. Todo mundo já conhece.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque acredito no direito de todos, cada um, dizer o que pensa e viver da forma como desejar. E arcar com as consequências de suas decisões, estejam elas – as consequências – nas leis ou nas regras construídas em cada grupo social onde se integra.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque, apesar de ter no meu pai o melhor companheiro que poderia imaginar, cresci rodeado de mulheres e me tornei o homem que sou hoje graças a elas. E é nelas que confio para melhorar tudo o que ainda falta em mim.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque tenho filhas e enteada. E o futuro que eu desejo para elas – e para todas, por óbvio – é um futuro seguro, livre e igualitário. Um futuro em que elas tenham sobre si o poder real de decidirem o que querem fazer da vida, nos seus relacionamentos pessoais e profissionais. Em que elas possam dizer sim ou não, sem sofrer nenhum tipo de ameaça. Em que elas sejam reconhecidas por suas competências e pelo amor que têm a distribuir. Em que elas não sejam julgadas e subjugadas por serem mulheres.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque sou bisneto da Vovó Mulatinha, neto da D. Helósia, filho do Paulo e pai da Isabel. Todos nós, negros. Mesmo que um ou outro tenhamos a pele clara. Porque Helena, minha mais velha, é amiga da Julia que é negra. Porque minha enteada loura dos olhos claros é aluna da Carol, que é negra. Porque o vovô Pedro das minhas filhas é negro e nordestino. Porque um dos melhores amigos do meu pai é o Carlos Alberto, o Negão, que desde quando eu era criança no seu colo me fazia gargalhar só por abrir seu lindo sorriso. E porque todas essas misturas não deveriam ter peso em qualquer julgamento ou classificação. Porque, simples assim, somos todos gente.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque não sou gay. Mas tenho um primo gay, tenho amigos e amigas gays, tenho colegas de trabalho gays. Também tenho amigos e amigas bi. E provavelmente alguns pansexuais. E tenho amigos que têm filhos e filhas gay. E já tenho amigos que têm netos gays. E sabem o que isso importa na minha ou na sua vida? Nada. Mas todos eles, amigos, amigas, colegas, pais e avôs, sofrem muito. Não pela sua orientação, mas pelo medo que sentem diuturnamente da violência e do preconceito que pairam sobre eles.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque vivi mais de 20 anos na igreja católica, em movimentos da pastoral da juventude. E nesses anos todos, conheci um sujeito chamado Jesus, que morreu por um julgamento preconceituoso. Que morreu depois de ser torturado. Que defendeu e valorizou as mulheres sempre. Que passou a vida falando de amor e lutando contra qualquer tipo de preconceito e injustiça. Porque nesses anos todos, houve momentos duros como quando virei as costas a uma paróquia depois de uma discussão com um padre sobre liberdade. Porque nesses anos todos, em outra paróquia, com um padre (que por acaso era negro), tive as melhores e mais profundas conversas sobre a mensagem de amor daquele tal Jesus.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque, já há quase 20 anos, sou da Umbanda. E isso, tudo o que isso significa, já é autoexplicativo.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque o estado deve ser laico. Porque aborto, laqueaduras, vasectomias e consumo de drogas são temas de saúde pública e de direitos individuais, nunca de polícia, violência, bala ou tutela do estado.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque me formei jornalista, já fui ator (muito) amador, porque faço e amo música, porque escrevo. Porque gosto de arte e a arte precisa ser livre. E porque sem a liberdade para se expressar e criar e romper padrões e quebrar paradigmas e expor tabus, não se pode dizer que se leva uma vida livre e em paz.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque ele está cagando para o meio ambiente e isso é um problema do tamanho do nosso futuro. Porque sustentabilidade não é uma palavrinha descolada em um power point bem construído. É algo muito sério e sobre o quê ele fala com escárnio e desprezo.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque eu estudei Moral e Cívica na escola, mas aprendi o que é moral, civismo e civilidade dentro da minha casa. Porque meu avô foi da Marinha e meu pai foi do Exército. E nenhum dos dois jamais compactuará ou compactuaria com o que esse sujeito prega e representa.

Jamais votarei em Jair Messias Bolsonaro.

Porque é uma questão de princípios e valores.

Tempestade

Eu desconfio de pesquisas. Tenho o hábito de duvidar e questionar tudo aquilo que não entendo bem. Mas há alguns dados que se mostram muito firmes, seguros até para os incautos como eu.

O maior deles, a rejeição ao inominável. Cada vez maior e com números equivalentes em todos os principais institutos.

Sim, é verdade que para aqueles que adoram uma teoria da conspiração tudo é fruto de uma daquelas grandes. Mas aqueles que usam a lógica hão de reconhecer que o tal índice já pode ser considerado um fato.

Apesar de discordar até a última gota, eu realmente sou capaz de entender os caminhos que fazem alguém votar no sujeito. Mesmo as mulheres, os negros, os gays etc. E não, não é estupidez ou burrice. É fruto das circunstâncias e de uma divisão que começou a ser plantada há uns 20 anos, um nós contra eles (isso sim estúpido) que só fez se enraizar e crescer e crescer e crescer.

No melhor estilo “quem planta vento, colhe tempestade”, chegamos às eleições de 2018.

O que me surpreende não é quem vota no sujeito, mas como quem vota no sujeito se permite ter a vista embotada uma vez que – na média – são bem formados e informados. Com o seu ódio ao PT, ao Lula e a “tudo isso o que está aí” – e esses sentimentos são facilmente explicados por qualquer sociólogo de quinta categoria -, vão insistir em votar no sujeito e serão responsáveis pela eleição de Haddad. Ou seja, aquilo que mais odeiam. Legal né?

Vou repetir: dadas as informações que temos hoje, o segundo turno será (como era previsível) entre ele e Haddad. E Haddad será eleito. Então, a culpa da volta do PT ao poder será sim do eleitor do sujeito.

Sim, ao contrário da rejeição a ele, há tempo para mudar o resultado. Infelizmente, duvido que aconteça. E rezo profundamente para estar completamente errado. Infelizmente, duvido disso também.

Lágrimas de crocodilo

Essas fotos foram tiradas na última visita ao Museu Nacional. 8 de julho, Dia Nacional da Ciência. Levei Helena para encontrar uma amiga da escola. Dia de festa e muitas atividades no museu.

Cheguei em casa comemorando com a Flávia, que o museu estava lindo, as exposições incríveis, o clima era ótimo, que a quantidade de boquinhas abertas e exclamações por todos os lados era incontável.

Mas havia lá, à vista de todos, um monte de coisas erradas, como fios aparentes, por exemplo. E um monte de coisas que não se via. E várias faixas e impressos em protesto contra a falta de investimento.

Daqui a pouco, bem pouco, teremos eleições. Todos os candidatos, TODOS, vão tentar pegar carona na tragédia, não tenham dúvidas. Já começaram, na verdade. E fazer todas as acusações imagináveis, uns contra os outros, claro.

E pra ficar só no óbvio, vale lembrar que o governo FHC foi uma lástima para a educação em geral e as universidades em particular. Vale lembrar que Lula abriu trocentas universidades Brasil afora, mas que não cuidou das que já existiam. Dilma… Bom, Dilma foi a Dilma. E Temer foi o cara que fez o teto dos gastos e bloqueou os investimentos. Aprovado por esse fabuloso congresso que – pelas estimativas – terá 75% de seus integrantes reeleitos. Ou seja, como disse o Ricardo no outro dia, pode até eleger Jesus que não dá jeito.

A situação no estado do Rio é ainda pior. Acreditem.

Não vou tentar convencer vocês a votar em A ou B, não é esse o caso. Até porque, se contar a meia dúzia de 3 ou 4 leitores que passam por aqui, não muda nada. Mas tentem, por favor, fazer um esforço de pesquisa e de consciência na hora de decidir seu voto. Tentem olhar menos para onde seu calo aperta e pensar um tico mais no mundo ao redor, desenvolver um senso de comunidade, identificar o que seria bom para todos.

E filtrem as lágrimas de crocodilo que estão rolando neste momento, porque a verdade é que todos, TODOS, sempre cagaram e andaram pra esses negócios que só servem pra perturbar, educação, história, ciência, memória, essas merdas.

Eu sou contra o aborto!

Hipocrisia

Sinceramente, não conheço ninguém que seja a favor. Não conheço ninguém que pense algo nem de perto parecido com “ah, foda-se! Se engravidar vou ali e faço um aborto. Me come aí!”. Porque é algo terrível, sob qualquer aspecto que se olhe a coisa. É um puta dum trauma. É dolorido e doloroso. É um peso enorme sobre os ombros, uma marca profunda que fica pra sempre na vida de quem vive isso.

Sempre para as mulheres (quando elas não morrem), muitas vezes para os homens – podem acreditar.

Tive a sorte de nunca viver um aborto de um filho gerado por mim. Mas vivi a experiência de levar amigas que tomaram a decisão de realizar o aborto. Com uma delas, o sujeito apareceu no momento em que saíamos da clínica, com cara de arrependido por não estar ao seu lado. Com a outra, nem sinal. O que, por si só, já é um baita sinal.

Lembro vivamente das duas situações. Como elas sofreram para tomar a decisão, como elas sofreram depois de tudo feito. Mas tem gente que realmente acredita que decide-se passar por um aborto como quem escolhe a cor da calcinha…

Elas tinham ou arrumaram o dinheiro. Puderam pagar por clínicas “bem conceituadas”. Mas, como a gente sabe, como clandestino que é, mesmo assim contaram com a sorte. Não morreram, não ficaram sequelas. Mas tente fazer um mísero exercício de empatia, tentem se colocar na pele da maior parte das mulheres do Brasil. Só por um segundo.

Agora, que vocês já fizeram esse pequeno exercício (tenho certeza!), vamos falar do nosso moderníssimo Código Penal e nossas grandes hipocrisias. O código foi criado no governo de Getúlio Vargas, em 1940. Sim, eu sei que houve atualizações, novos crimes identificados e incluídos etc. Mas o código é, conceitual e estruturalmente, velho. E lá entre os artigos 124 e 128, trata do aborto. É crime. Menos quando há o risco de morte da mãe ou a gravidez é decorrente de estupro. O STF, recentemente, acrescentou a concepção de fetos anencéfalos entre as exceções.

Os maiores argumentos contra a descriminalização ou legalização da prática de aborto se referem à preservação da vida. Não vou entrar nos méritos científicos, sobre a partir de quando o feto concebido deve ou não ser considerado um ser humano, não é esse o caso. Vamos partir do princípio que, desde sempre, o feto concebido é um neném.

Vamos também deixar de lado os casos de risco de morte da mãe e dos anencéfalos. Pensem apenas no “neném”. Porque vou tratar uma bola que vi levantada pela Julia Tolezano, a Jout Jout (obrigado, muito obrigado!).

Segundo nosso Código Penal e a grande maioria das pessoas que são contra a descriminalização ou legalização da prática de aborto – sempre em defesa da vida, claro -, tudo bem matar o “neném” se a mulher for estuprada. Mas tudo mal matar o “neném” se a mulher engravidou e não quer ter o filho (não importa a razão). Como ela mesmo disse, não tem a ver com o “neném”, mas com a concordância ou não em abrir as pernas.

Por que, afinal, o “neném” de um estupro tem menos direito que um “neném” consentido?

Ou seja, branquin, neguin e azulzin não estão nem aí pro “neném”, não são a favor da vida. Querem mesmo é punir a mulher.

Hipócritas! Pra dizer o mínimo.

Porque já está mais que provado que, onde legal, as taxas caem. E não apenas essas. Há uma renca de estudos e estatísticas que provam que, além do número de abortos diminuir (e as mortes de gestantes, claro), um monte de outros índices apresentam melhoras impressionantes. Incluindo economia e segurança. É, talvez seja muito duro descobrir e admitir certas coisas. Mas deem-se ao trabalho, pesquisem, cruzem dados.

Então, meus amigos, tratem de cuidar de suas próprias vidas. Parem de olhar o rabo do outro. Parem de usar seus deuses para justificar suas tolices, eles não têm nada a ver com isso, com suas incongruências, sua falta de horizonte. Deixem de ser hipócritas.

Agosto

Acho engraçado as reclamações e lendas e sei lá mais o quê. O “mês do cachorro louco”, “o mês interminável”… Bom, isso ele é mesmo. 31 dias, sem feriados. A partir do momento que o sujeito tem de trabalhar e pagar contas, isso tem o peso do mundo.

Por outro lado, tenho mãe aniversariante em 1º de agosto. Ou seja, meus caros, sem agosto eu não existiria. Salve agosto! Ave agosto!

O agosto de 2018 tem um quê a mais para se reclamar, pois não ganhamos a Copa e ainda temos eleições. E que eleições, não é mesmo? E que candidatos…

Mas vamos ao que importa. Lendo Xico Sá, fui parar em Caio Fernando Abreu. E reencontrei o texto que, à moda da época, viralizou. E ele está aí embaixo, vale a leitura. Publico, a 24 dias de terminar o mês, um texto que já tem 23 anos. Saiu (ainda era a época em que as coisas saíam no jornal) originalmente no Estadão, no dia 6 de agosto de 1995. Então é bom lembrar que a internet (mal) engatinhava e tudo o mais que se torno possível por conta dela.

Também, pela data, a referência a FHC. A ele, nos dias de hoje, somaria uma renca de gente: Temer, Lula, Aécio, Moro, Mendes, Dilma, Renan… A lista é praticamente infinita, com destaque especial para Bolsonaro. Ah Brasil, onde foi que lhe metemos?

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso, antes de mais nada, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso, quem sabe, ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente “ah!”, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros angúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções – úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancun ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem se vingar, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.