#VaiTerCopa

Reprodução: PaniniA piada do título é das mais óbvias e infames. Mas dei-me o desfrute de não escapar dela. Vai ter copa!

Já faz dias que estou no clima, sou desses que espera ansiosamente a passagem dos quatro anos entre uma e outra, que para em frente à televisão para assistir todos os jogos ao vivo ou VT. E ainda falta um mês. Um mês!!!

Não, não sou um alienado doidivanas. Mas tento separar o coração do cérebro de vez em quando. Sim, os problemas são muitos, enormes. Mas eles estavam aí antes, continuarão aqui depois.

Não acho que a copa impediu o investimento em educação, saúde ou qualquer outra coisa muito mais importante que futebol. Simplesmente porque o dinheiro usado para fazer a Copa não seria mesmo usado para o que importa. E isso não quer dizer que não devamos reclamar, que não devamos todos sair de casa e ocupar todas as ruas de todas as cidades desse país tropical para reclamar e brigar pelo que é certo. Que seja durante a copa e depois da copa. E todos os dias, se necessário e possível for. Afinal, é inegável que a copa foi um belo de um pretexto para se roubar mais um bom bocado.

Mas vai ter copa.

E não estou nem um tantinho preocupado com o Flamengo também. Ganhou do Palmeiras, perdeu do Fluminense e a cotação do dólar nem aí. Só achei sacanagem (muita mesmo) o que fizeram com o Jaime. Mas o que importa agora é outra coisa.

Vai ter copa!

E não vai ser nada fácil, muito pelo contrário. Esse clima de que ganhar a Copa em casa é obrigação é ridículo. Pelos exemplos recentes, basta ver que Itália em 90 e Alemanha em 2006 não chegaram à final. Curiosa e coincidentemente, uma ganhou a copa na casa da outra.

Acho que Fred e Neymar têm boas chances de serem artilheiros. Mas tenho medo de que quebrem o garoto pelo caminho. No nosso time, não confio no Hulk, no Jô, no Henrique e no Júlio César. Dois titulares, o que é um problema, e dois reservas, que podem vir a ser problemas.

Se mantida a tradição, ainda teremos alguém machucado durante a preparação. Se for um só, torço pelo Júlio César. Até porque, não poderia haver maneira mais bonita de exorcizar o fantasma de 50 e todos os resquícios de preconceito contra Barbosa do que ver um outro goleiro negro, Jefferson, como titular campeão do mundo.

Se der a lógica, Brasil pega a Alemanha nas semifinais. Aliás, há uma enorme probabilidade de que o Brasil, a partir da segunda fase, só enfrente campeões mundiais. Tenho certeza que o Brasil chega entre as quatro, mas não acho que ganhe a Copa. Desconfio que os bávaros serão os campeões, apesar da maratona de viagens, calor e umidade que enfrentarão no inverno do nosso querido patropi.

Lógica por lógica, há grande chance de Argentina e Uruguai se enfrentarem na outra semi. E a possibilidade de um outro ‘maracanazo’ é imensa. Então, é bom preparar o coração.

Suiça X Honduras, Irã X Bósnia e Coréia X Argélia devem disputar o ‘troféu’ de pior jogo do torneio. E calculo que uma vitória dos iranianos contra a Argentina seria uma zebra tão grande quanto a não classificação da Espanha para a segunda fase. Se bem que, hummm…, essa é até uma hipótese bem plausível. O Chile tem tudo para ser a grande surpresa.

Vou passar longe do Alzirão, mais longe ainda das festas oficiais. Botecos nem pensar. Sou ranzinza demais pra aturar os comentários dos outros durante as partidas e provavelmente verei os jogos sozinho no meu sofá.

Mas vou torcer como um louco. E com a certeza de que não passo nem mesmo perto de uma mãe Dinah, rezar para queimar a língua.

Vai ter copa! Só não sei por quê não começa logo…

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Clube dos 8

Benzema comemora seu gol (em impedimento) contra a Ucrânia / Foto: ReutersEu realmente entendo e até concordo que o tal ranking da Fifa tem que existir para algo prático. Mas há coisas e há coisas, será que me entendem?

Vejamos: existem oito seleções campeãs do mundo e a copa é dividida em oito grupos. As oito estão classificadas para o torneio. Então, como é que pode alguém levemente lúcido não colocar as oito campeãs como as oito cabeças de chave?

Pois é, teremos Suiça, Colômbia e Bélgica. Com todo o respeito que todos e qualquer um merecem, como disse lá em cima, há coisas e há coisas.

O tal ranking poderia ser usado da seguinte maneira: todos os campeões classificados serão cabeças de chave. Se um ou mais não estiver, a indicação das vagas restantes se dará pelo ranking. Simples assim.

E quando o país sede não for um dos campeões? Simples: o ranking indicará os cabeças de chave, primeiro entre os campeões; depois entre os demais classificados.

E pronto.

Desta forma seriam respeitados o ranking e a História, ora bolas.

Mas se é possível complicar, pra quê simplificar? Se respeitar a história não tem graça, por quê não inventar? Uma salva de palmas para Fifa.

P.S.: E não é que a França se classificou, de novo, com um gol roubado?

A verdade que emana da cerveja

David Luiz / Foto: Jasper Juinen/Getty ImagesNoite de sábado, véspera da final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha. Estávamos lá. Eu, Marcos, Alexandre e outro Gustavo. Muitas latas depois, discutindo sobre o tudo e sobre o nada. Cerca de mais ou menos 6min38seg depois de resolver todos os problemas do Brasil, o país, surge a grave questão: “e aí, como vai ser amanhã?”

Dadas as condições gerais das últimas semanas, com discussões políticas intermináveis pelos motivos que todos conhecemos, andava até evitando falar de futebol. Principalmente sobre a possível “final que todos queriam ver”. O único sujeito que li e ouvi falando que o Brasil colocaria a Espanha no bolso foi o Rica Perrone. De resto, “a Espanha é (inclua aqui qualquer adjetivo igual ou superior a fodástico)”

Tenho um amigo querido, Rogério (sem sobrenomes, por favor) que desde as vésperas da última Copa chegava a orgasmos múltiplos a cada jogo da Roja. Imagina, então, se eu – logo eu! – ia ser do contra.

Mas a verdade que emana da cerveja…

Entre as observações e interjeições que ouvi (algumas nada decorosas), estavam:

– Você é louco

– Bebeu?!

– Tá de onda…

– Interna!

Basicamente, o que eu disse, é que ganharíamos da Espanha sem maiores sustos. E que se déssemos a sorte de um gol logo no início, enfiaríamos um saco de gols nos caras (foi por pouco). E que se jogássemos 18 vezes contra a Espanha, ganharíamos 17 (e só aqui eu admito um tantinho de exagero, mas era pra defender posição em meio à discussão encharcada).

Não, eu não sou louco. Pelo menos oficialmente. Mas há coisas sobre a Espanha que nem são tão difíceis de observar. A primeira, por óbvio, é que é um timaço sim. Com grandes e inteligentíssimos jogadores. Agora, o resto.

O toque de bola absurdo do time é baseado no Barcelona, algo que todo mundo sabe. Mas há uma diferença crucial entre o clube e a seleção. O Barça tem a possibilidade de contratar qualquer grande atacante do mundo, e faz isso há já há décadas. E só formou, craque mesmo, o Messi. A seleção não tem essa possibilidade e os artilheiros espanhóis não seriam titulares em metade dos 20 clubes do nosso Brasileirão. Não por acaso, ganharam a Copa de um a zero do início ao fim (fora a derrota pra Suiça). E é tão bonito de ver jogar que pouca gente se deu conta do quão fora da curva foi a goleada sobre a Itália na final da Euro.

O toque de bola, então, que é maravilhoso sim, na esquadra nacional, assume o papel de melhor sistema defensivo do futebol mundial. Afinal, sem a bola, ninguém faz gol. Pela qualidade e inteligência acima da média do time, os caras botam os outros na roda, extenuam os adversários com seus 65, 70% de posse de bola, e matam as partidas com um, dois gols no máximo. Quase sempre no segundo tempo. Peguem as estatísticas. De outras vezes, poucas, acham um ou dois gols no primeiro tempo e os adversários, com metro de língua pra fora, não conseguem reagir.

E por que eu tinha certeza que venceríamos o jogo? Pela intensidade com que o time veio jogando e crescendo, porque o time não é ruim (apesar de saber que não é a escalação ideal), porque a Espanha tem pontos fracos óbvios (como as laterais), porque eles não são tão velozes sem a bola (especialmente os zagueiros). Ah, e um detalhezinho, besteira, bobagem: camisa.

E sim, acredito que se jogarmos 10 vezes com eles, ganhamos 7, empatamos 2 e perdemos 1.

Os caras, donos do mundo que a geração Playstation acredita ser a melhor de todos os tempo (ah, os jovens), estavam há 29 jogos oficiais invictos. Mas alguém já se deu conta de quem foram os adversários? Vejam (e analisem) a lista, com resultados, de trás pra frente. São jogos de Copa, Eliminatórias, Euro e Confederações. Os negritos para os times de (alguma) camisa, os vermelhos para os resultados ridículos (pro bem e pro mal).

Itália, 0-0 (7-6 nos pênaltis)
Nigéria 3-0
Taiti 10-0
Uruguai 2-1
França1-0
Finlândia 1-1
França 1-1
Bielorrúsia 4-0
Geórgia 1-0
Italia 4-0
Portugal 0-0 (4-2 nos pênaltis)
França 2-0
Irlanda 4-0
Itália 1-1
Escócia 3-1
República Tcheca2-0
Liechtenstein 6-0
Lituânia 3-1
República Tcheca 2-1
Escócia 3-2
Lituânia 3-1
Liechtenstein 4-0
Holanda 1-0
Alemanha 1-0
Paraguai 1-0
Portugal 1-0
Chile 2-1
Honduras 2-0

O Brasil será campeão do mundo ano que vem? Não sei. A própria Espanha pode repetir a dose. E até pode nos vencer na final, por que não? E ainda há Alemanha (minha favorita hoje) e Itália. Por fora, correm como sempre a Holanda e a Argentina. E sempre há a questão dos cruzamentos, uma surpresa africana, uma zebra norte-americana, uma Bélgica que vem jogando muito bem e pode atrapalhar.

Basicamente, o que estou tentando dizer é que o bicho nunca teve sete cabeças. E lazaronis a parte, Brasil é Brasil. Ou vocês acham que eles queriam se bater com a gente por acaso?

P.S. 1: “E se o David Luiz não tivesse salvado o empate, se a bola entrasse?” O ‘se’ não joga, se sapo tivesse embreagem não pulava tanto. Pois digo que mesmo se fosse gol, venceríamos o jogo.

P.S. 2: Dilma, Cabral e Paes encastelados, ausentes no Maracanã? Não tem preço

Ocre Marajó*

Eu tinha oito anos de idade e morávamos na Souza Franco, em Vila Isabel. Um apartamento quarto-e-sala, em que a sala de tamanho mais que razoável era dividida do chão ao teto por uma persiana de metal. De um lado, sala; do outro, o quarto das crianças, eu e minha irmã. Nossa vitrola era um lindo móvel de madeira com espaço para guardar os dicos. Era comum passar férias em Guarapari e, na volta, meu pai lavava o fusquinha 73 Ocre Marajó com o Chico, no posto em frente, geral com óleo de mamona por causa da maresia.

Meu pai e eu jogávamos botão numa mesa Estrelão, com bolinha de Bombril. Raul era meu goleiro e Zico, claro, meu camisa 10. E nessa época ele ganhava todas. E torcíamos para o Brasil. E nos encantávamos com o Brasil. Era a copa do Naranjito, do Pacheco, do “bota o ponta Telê” e do “voa, canarinho, voa”. E a cada gol do Brasil, meu pai vibrava em pé, em cima da cama.

Era a copa do Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Éder. Era pra ter sido a copa do Reinaldo, mas destruíram o joelho dele. Era a Copa de Platini, Tigana e Six; Schumacher, Rummenigge, Breitner e Littbarski; Dasayev e Bezsonov; Lato e Bonieck; Pfaff e Van Der Elst; a copa de estréia de Maradona. E foi a copa de Paolo Rossi.

Antognoni, Gentile, Graziani, Scirea, Tardelli, Cabrini, Altobelli, Conti, Zoff. Nenhum destes interessa, porque – pelo menos pra mim – aquela foi a copa de Paolo Rossi.

No dia 5 de julho de 1982 aconteceu a tragédia do Sarriá. Um dia em que um time capaz de fazer sonhar perdeu para um time muito bom. Um dia que é apontado por muita gente como o início da discussão ‘futebol arte X futebol de resultados’. Uma injustiça com times excelentes que foram às finais daquela copa, inclusive a Itália.

Ainda recito a escalação do ‘meu’ Brasil. Waldyr Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (e o Roberto no banco…!) e Éder. Sim, o ‘meu’ Brasil. Foi com esse time que aprendi a torcer pela seleção, que aprendi a aproveitar cada jogo de cada Copa do Mundo, foi com esse time que aprendi que o melhor não ganha sempre e que essa é apenas uma das graças da coisa.

Faz 28 anos. Já não moro em Vila Isabel mas estou sempre por perto. E cada vez que desço a Souza Franco em direção à Teodoro da Silva, me lembro do fusquinha, do álbum duplo de Simon & Garfunkel no Central Park, da minha Monark, da bolinha de Bombril, do Sítio do Pica Pau Amarelo, do Maverick azul e do Puma conversível e vermelho que ocupavam vagas na garagem do prédio (o Veca está lá até hoje). E lembro do meu pai falando de um jogador italiano desesperado e com as mãos na cabeça quando empatamos em 2 a 2. E lembro daquele time e como, apesar daquela derrota tão doída, como ele é capaz – até hoje – de me ajudar a lembrar de tanta coisa boa.

*Post publicado, originalmente, no dia 5 de julho de 2010.

Será que vai ficar sem graça?

Então teve corrida ontem. E está provado que a pista de Barcelona pode ser excelente para equipes e pilotos, técnica e tal. Mas para o espetáculo, é uma bosta. Não deu jeito nem com pneus de farelo e asa móvel. Uma prova muito inferior às outras.

Sobre o campeonato? Parece que estamos mesmo a caminho de um daqueles anos históricos, como 92 e 93 (Mansell e Prost na Williams) ou 2002 e 2004 (Schumacher na Ferrari). Aliás, se Webber estivesse em forma – no mínimo – razoável, a Red Bull poderia repetir o que fez a McLaren em 88. O detalhe é que os pilotos que venceram 15 de 16 corridas eram Prost e Senna.

No mais, destaque para Alonso que anda muito mais que sua Ferrari. Outro detalhe é que a Lotus (a verde) já começa a andar – de verdade – no meio do bolo, e não apenas como uma das três nanicas. Se continuar evoluindo nesse ritmo, já será uma boa média na próxima temporada. Por fim, parece que Hamilton (e a McLaren) são os únicos capazes de dar trabalho de verdade à dupla Vettel-Red Bull. Minha impressão é que até pode vencer uma aqui, outra ali, mas não tem condições de disputar o título de verdade.

Domingo que vem é a vez de Mônaco e a polêmica será a asa móvel, liberada para uso na reta que sai do túnel. Risco de muitos acidentes sérios. A ver.

Corrida (quase) maluca

E então haverá uma folga de três semanas até que o circo chegue à Turquia. E teremos, então, um pouco mais de tempo para tentar entender tudo o que aconteceu nas três corridas realizadas até agora e o que seus resultados podem significar para o andamento do campeonato.

Porque, para um desavisado qualquer que tenha parado para assistir ao GP da China, ontem, a Fórmula 1 está muito parecida com uma certa corrida maluca criada por William Hanna e Joseph Barbera.

Apesar de ainda um tanto confuso, é impossível dizer que o negócio não está mais divertido. Durante todo o GP da China houve disputa de posições, fosse pelos diferentes estágios de degradação dos pneus, pela asa móvel, pelo KERS ou por tudo junto.

Sobre o resultado em si, apenas algumas observações: Webber foi o cara da corrida, saindo de 18º para o pódio. Apagou a imagem ruim, de desmotivado e pré-derrotado das duas primeiras corridas e da classificação horrorosaem Xangai. Mostrou, mais uma vez, que a Red Bull tem o melhor carro. Da mesma maneira que Vettel, segundo, mostrou que o KERS da turma da latinha ainda é um problema. O equipamento fez muita falta durante a prova, especialmente na largada em que perdeu posição para as duas McLaren.

A largada ruim fez a equipe a mudar a estratégia e, com pneus duros e muito desgastados, permitiu a ultrapassagem de Hamilton a cinco voltas do final. O inglês, como quase sempre, pilotou o fino e não deixou mais dúvidas sobre a capacidade de recuperação da equipe que promete mesmo ser a pedra no sapato dos touros vermelhos.

Sobre a Ferrari, algumas ambivalências. O que Massa está largando bem neste ano é sacanagem. Em compensação, Alonso só anda largando mal. O brasileiro fez uma corrida bem honesta, acompanhando o ritmo de Vettel e Hamilton e boa parte da corrida, mas com os pneus duros a Ferrari ficou pra trás. De um pódio quase certo, Massa foi ultrapassado por uma fila de carros para chegarem sexto. Oúnico lado bom é que, mais uma vez, à frente do companheiro espanhol.

Outros destaques: a Mercedes ainda vai apanhar muito, não vai brigar por vitórias mas pode incomodar e tem potencial para beliscar alguns pódios. A Williams, que chegou a prometer, parece que não vai cumprir. Kovalainnen, quem poderia imaginar, chegou com sua Lotus à frente de Perez (Sauber) e Maldonado (Williams).

Para a corrida na Turquia, o início da temporada européia, quase todas as equipes devem apresentar muitas novidades e a Pirelli já avisou que em Istambul e Barcelona, logo a seguir, levará os mesmos pneus das três primeiras corridas. Em compensação, em Mônaco (circuito de rua, asfalto liso, pista curta, baixa velocidade), os carros calçarão – pela primeira vez – os supermacios. A outra opção será o macio.

A Red Bull tem potencial para bater todos os recorde possíveis e imagináveis. Mas terá que resolver o problema do KERS se não quiser passar aperto

F111

Todo mundo que passa por aqui sabe que a Fórmula 1 é uma das minhas paixões. Então, nada mais natural do que falar de cada um dos carros apresentados pelas equipes para a temporada que começa daqui a duas semanas na Austrália. Faltava uma, a Hispania.

Em alguns momentos do ano passado, cheguei a apostar que a equipe não conseguiria correr em 2011, talvez não terminasse 2010.

Pelo menos oficialmente, estou enganado. O F111 foi apresentado na sexta-feira, em Barcelona, penúltimo dia dos testes de pré-temporada. O carro estrearia no sábado e chegaria à primeira corrida com pouquíssima quilometragem, mas melhor do que ano passado em que o carro só andou nos treinos livres do GP do Bahrein.

E eu disse aí que o carro estrearia porque, com a desculpa esfarrapada de que algumas peças ficaram presas na alfândega (amortecedores, por exemplo), o carro não foi para a pista.

Vale lembrar que a regra dos 107% volta à categoria nesta temporada e se a Lotus (verde) evoluiu um bom bocado, Virgin (agora Marussia) e Hispania… Quero dizer que não será nada estranho se, dos 26 carros existentes, só tivermos 22 no grid de largada de boa parte das corridas do ano.

Sobre a Hispania, seu novo carro e sua situação geral, segue abaixo o texto publicado no Blog do Capelli.

Adiando a extinção

A Hispania, por muito pouco, não virou mais um daqueles times que anunciam sua chegada à Fórmula 1 e morrem antes mesmo de estrear. Não são casos muito raros, só de cabeça fica fácil lembrar da italiana First, da francesa DAMS, da japonesa Dome e da mais recente, a norte-americana USF1. Originalmente, a equipe seria chamada Campos, o mesmo time que já competia na World Series e na GP2, pertencente ao ex-piloto espanhol Adrián Campos. Porém, sem fundos para dar sequência ao projeto, Adrián arrumou o empresário espanhol José Ramón Carabante como sócio. A equipe pôde nascer, mas Campos perdeu praticamente tudo.

Carabante, dono do Grupo Hispania, que atua no mercado imobiliário espanhol, é um sujeito suspeito. Uma péssima fama o precede, principalmente de não honrar palavra, compromissos, nem dívidas. Cheques sem fundo parecem ser uma prática corrente. Sua forma de fazer negócios não é muito bem vista na Espanha e o acontecido com Adrián Campos parece reforçar esta imagem. Inicialmente apoiador e dono de uma pequena parcela da equipe, Cabarante foi comprando os percentuais de outros acionistas e, com isso, ganhando poder. E conseguiu tumultuar tanto o ambiente ao ponto de fazer com que Adrián desistisse de tudo e vendesse para ele todo o restante do time. O dinheiro veio de um banco espanhol, através de contatos políticos (também suspeitos).

Algumas semanas depois, a Hispania estreava na Fórmula 1, no GP do Bahrein do ano passado. Obviamente, um projeto tumultuado e de poucos recursos não teria como dar certo. O time trocou de pilotos toda hora em busca de dinheiro, tinha o carro mais lento e amargou sempre as piores posições no grid e nas corridas. Só não foi último colocado no campeonato por causa da inexistente confiabilidade dos carros da Virgin, que no começo do ano tinham um tanque de combustível de tamanho incompatível com o volume de litros necessário para terminar uma corrida. A Hispania teve a sorte de encontrar alguém tão incompetente quanto ela pela frente.

Mas o cenário para 2011 não deve ser muito diferente. O carro novo foi apresentado somente hoje, penúltimo dia de testes da pré-temporada, e nem foi para a pista. E, ao que parece, é apenas uma versão do fraco modelo do ano passado, com dianteira remodelada. A pintura, com espaços para patrocínio preenchidos com “Sua logo aqui” e “Este é um espaço legal” é patética. A dupla de pilotos, com o jovem-aposentado Vitantonio Liuzzi e o risível indiano Narain Karthikeyan, é absurda. Colin Kolles, diretor da equipe contratado por Cabarante, também tem péssima fama no meio do automobilismo, também por má conduta. Em resumo, o time é ridículo, uma picaretagem.

Talvez a equipe até mesmo vá para a pista na Austrália, mas tenho sérias dúvidas se terá capacidade de terminar a temporada. A menos que seja comprada por alguém sério, a Hispania continuará a ser um arremedo de time até que sua extinção aconteça. Por enquanto, ela foi apenas adiada.