Sonho meu

Na quinta-feira, no RiR, assisti aos shows ao lado de um garoto de 11 anos. Amigo da filha de um amigo que estava lá com toda a família. O moleque, que já toca guitarra há três anos, violão há quatro e ainda estuda piano.

Foram quatro shows ao lado dele, Escalene, Alice Cooper (que merecia o palco Mundo), Def Leppard e Aerosmith. No fim da noite, depois de assistir suas reações aos quatro, ainda tive a oportunidade de ouvi-lo dizer: “os velhinhos arrebentam…”

Ontem vimos o que vimos com o The Who. E Guns. Putz… Axl, que lixo.

E fico pensando nas bandas fantásticas que estão por aí e que – sei lá porquê – parecem não ter perfil para o RiR. Fica parecendo que há um enorme vácuo geracional entre as bandas, que de fato não é real. E desconfio que o Groo e o Ricardo tendem a concordar comigo. Porque nem é preciso muita força ou muita pesquisa pra encontrar tanta gente de qualidade.

Porque esses caras não vêm? Porque o Lollapalooza consegue reunir um monte de bandas “novas” de qualidade e o RiR segue pagando os vexames que paga? Se vestiu da aura de “maior festival de música e entretenimento” do mundo e só aceita o que é (ou aparenta ser main stream)?

Sim, eu sei que – de certa forma – comparo alhos com bugalhos, falo de dois festivais de perfis muito diferentes. E que também há um monte de detalhes como calendário e agendas de músicos e bandas, fora o resto. Fora o apelo comercial para a venda de ingressos, mas que, com a máquina de comunicação que é o RiR, seria até fácil resolver.

Resumindo: cacete, como eu gostaria – só uma vez – de ser o responsável pela escalação do RiR. E olha que nem penso em acabar com a diversidade de estilos não.

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Uma boa pergunta

Metro São Paulo - David BowieJá faz uma semana que recebemos a notícia. E ontem tive uma conversa pra lá de interessante, sobre o peso das coisas e o tamanho das pessoas. Muita gente ficou muito impressionada com a dimensão da cobertura, do espaço dado à morte de Bowie.

Flavio Gomes, por exemplo, escreveu pouco mas escreveu muito a respeito: “David Bowie preparou a morte, imaginou a morte, cantou e filmou a morte. Foi artista até o derradeiro segundo, fez da morte, arte.” Se referiu a Lazarus, claro. Mas falou muito sobre o que Bowie foi.

O irmão Ricardo Santos fez o diagnóstico preciso: “A variedade de músicas postadas para homenagear Bowie prova seu apelido”. Mais do que o apelido, se referiu à capacidade e à variedade criativa que fez com que alcançasse o público absolutamente diverso que tinha.

E há por aí, fomos inundados na verdade, por uma infinidade de textos sobre o sujeito que era mesmo fenomenal.

Mas, voltando ao que importa aqui, a tal conversa de ontem começou com o espanto: “quase um bloco inteiro do Jornal Nacional!”… “Capa de Veja!”… Veja, na verdade brilhante, fez 12 capas diferentes. Mas não foi só isso: não houve jornal ou portal ao redor do mundo que não desse destaque ao sujeito. Mas a partir dessa constatação, veio a melhor pergunta da noite:

“- O que vai acontecer com a imprensa, qual vai ser o espaço, o que o mundo dirá quando caras como como McCartney, Clapton, Jagger e Richards, Wonder, Page, Waters e Gilmour, Van Halen morrerem? E no Brasil, quando o Roberto Carlos morrer?”

Sinceramente, não sei responder. E sim, é uma boa pergunta, que vai muito além de gostar ou não gostar do artista tal. A questão é perceber sua relevância. Alguém se arrisca a dar um palpite? Alguém se arrisca a aumentar essa listinha?

A ciranda da vida…

…Que gira e faz girar a roda da vida que gira.

É, eu poderia pegar trechos das canções do cara, escrever, reescrever, talvez até transmutar em algo razoável, mas que nunca chegaria a ficar bom. Porque se você reparar, ouvir com cuidado, tudo o que precisa ser dito já está.

Feliz 2015!

Bobeira, acaso e música boa

VitrolaSão 4h35 da manhã e devia estar trabalhando, aproveitando que a turma toda está dormindo. Estou trabalhando, preparando aulas, e resolvi dar uma parada pra refrescara a cabeça. Fui dar uma zapeada e dei de cara com o programa Live@Home.

Sou do tempo em que, para descobrir sons novos – mesmo que antigos – tinha que gastar algumas horas em um loja de discos. Muitas vezes não dava pra ouvir na hora, você tinha que arriscar, ou acreditando na indicação do vendedor (nas boas lojas, os vendedores entendiam de música), ou acreditando que a capa era uma espécie de prólogo do que vinha por aí.

Foi assim, por exemplo, que descobri o Artie White, comprei o CD porque o cara estava em pé na capa, sozinho, envergando um discretíssimo terno azul turquesa, com chapéu e tudo. Pensei que “esse negão tem que ser bom”, e não me enganei.

Também foi assim, se lembro bem da história, que o Caius resolveu comprar o primeiro CD do Jota Quest, os caras de terno e perucão black power sobre uma base psicodélica. Funk-soul total. Ele que apareça pra confirmar ou não minha memória. O que é certo é que não se enganou e me apresentou. Infelizmente os caras não mantiveram o nível de produção nos discos seguintes.

Como se vê, as indicações sempre foram uma boa fonte. Foi assim que conheci a Joss Stone. Um dia meu pai me ligou pra confirmar se ia passar na casa dele no fim de semana. Avisou: “se prepare pra ouvir uma garota de 17 anos que é espetacular”. O pagamento só veio a pouco tempo, quando coloquei ele pra ouvir o Alabama Shakes, que descobri sozinho.

A última indicação que recebi e valeu muito a pena foi da Carlinha, The Lumineers. Como quase sempre, a música dos caras que estourou por aí era a pior do disco. Mas os caras são muito, muito bons.

Acaba sendo cômico, pra não dizer trágico, que eu que passo a maior parte dos meus dias em frente ao computador acabe não gastando muito tempo pra garimpar sons diferentes, coisas novas ou que o valha. E como nunca me preocupei muito em ser o primeiro a descobrir talentos, a estar na crista da onda e coisas do gênero, sigo em frente sabendo que perco um sem número de oportunidades de ouvir boa música. Acabo contando com o acaso.

E voltamos ao programa de TV. Encontrei com Jamie Cullum. Potaquéoparéu!!!! Como é que nunca prestei atenção ao cara que já estava lá atrás, na trilha da Bridget Jones? Nos dois filmes!!! O cara já lançou cinco álbuns e virou referência no jazz. E eu dando essa bobeira. Enfim, não dou mais.

Se você é que nem eu, meio desligado, meio atrasadinho, taí embaixo o programa com o cara. Também vale dar um pulo no Grooveshark e ouvir suas gravações originais. Acho difícil não se apaixonar.

E se tiver alguma boa dica, não se acanhe. Vale qualquer estilo, juro. Só não vale música ruim.

O terceiro elemento

Hyldon / DivulgaçãoTim Maia e Cassiano. Falta um. Um sujeito que nasceu na Bahia, ainda criança veio parar em Niterói e na pré-adolescência trocou o relógio novinho que acabara de ganhar por um violão. Não por acaso, o sujeito que ao lado daqueles dois é um dos precursores do soul brasileiro nunca mais largou o instrumento. Nem usou relógios.

Hyldon de Souza Silva atracou na terra de Araribóia aos sete anos e aos 14 já tinha sua primeira banda, Os Abelhas. Primo de Pedrinho da Luz, guitarrista do The Fevers, o interesse pelo iê-iê-iê e jovem guarda foi mais que natural. Enquanto o grupo de moleques zumbiam entre Icaraí e outras cidades próximas, além das rádios locais, a família de Hyldon decidiu voltar para a Bahia. E esse foi o momento chave de sua carreira.

Hyldon convenceu os pais a deixá-lo por aqui, morando com seu primo. Aos poucos, foi apresentado a maestros, músicos de estúdio, arranjadores e produtores. De quebra, Pedrinho ainda lhe proporcionaria a oportunidade da primeira gravação. Quando os Fevers preparavam seu primeiro disco, o vocalista e guitarrista Almir Bezerra teve um problema e Hyldon foi seu substituto por um dia. Pouco tempo depois, o garoto ainda com 17 anos teve sua primeira canção gravada pelo argentino Roberto Livi. Eu me enganei vendeu mais de 100 mil cópias.

Final dos anos 60, início dos 70. O moleque começou a ser procurado e teve algumas de suas canções gravadas por estrelas da época como Jerry Adriani e Wanderley Cardoso. E apareceu como guitarrista em discos de Toni Tornado e Wilson Simonal. De quebra, passou a integrar, ao lado de Cassiano, Os Diagonais. Além de seus próprios shows e discos, foi a banda de apoio dos primeiros discos de Tim Maia.

Seu reconhecimento pelo público começou a ser construído em 1974, com o lançamento do compacto Na rua, na chuva, na fazenda. Vendeu muito e, em 75, novo compacto: As dores do mundo. Outro sucesso e, enfim, a oportunidade de lançar seu primeiro álbum.

Na rua, na chuva, na fazenda / ReproduçãoAlém da faixa título (regravada, entre outros, pelo Kid Abelha), Na rua, na chuva, na fazenda é imediatamente marcado como um clássico do soul e da música negra brasileira. Entre as 12 canções do álbum, todas escritas por Hyldon, estão Na sombra de uma árvore, Acontecimento (regravada por Marisa Monte) e As dores do mundo (regravada por Jota Quest).

E é a partir deste disco que, apesar de muitos outros grandes artistas, foi confirmada a tríade símbolo da soul music tupiniquim: Tim, Cassiano e Hyldon. Certamente, não o são por acaso. A lista ainda poderia ter Gérson King Combo, Carlos Dafé e toda a turma da Black Rio, além de uma menina que ainda iria estourar, uma tal de Sandra. Mas sem os três…

Seu segundo álbum, Deus, a Natureza e a Música saiu logo em 1976. Mas entre experimentações e brigas com gravadoras, não teve sucesso. Aliás, nunca mais o teria, apesar de ser referência e até enfrentar estúdios como instrumentista convidado nas últimas décadas ou produtor. Diferente de Cassiano, que se enclausurou em um sítio, o moço produziu.

Seu último lançamento aconteceu em outubro de 2013. Romances urbanos, além de mostrar que o sujeito continua em forma como músico e compositor, mostra que anda mais atualizado do que pode supor a vã filosofia de quem só ouve a música enlatada das rádios populares. Em boa companhia nas composições e execuções – Zeca Baleiro, Bebeto, Serjão Loroza, Arnaldo Antunes, Céu, Emicida, Renegado e Jorge Aílton –, passeou pelos mais diferentes estilos da música negra dos últimos 40 anos. Como no primeiro álbum, 12 faixas que você pode baixar aqui.

Agora, pra voltar no tempo e ouvir sua obra prima (com duas faixas bônus remix), é só clicar aqui. Não dá pra se arrepender.

Melhor que ovo de chocolate

John Pizzarelli, Meets The Beatles / ReproduçãoQuando colocava Helena pra dormir, bebezinha, tentava variar a trilha sonora. Variava estilos e intérpretes. Naturalmente, umas coisas funcionam melhore que outras, algumas vozes são mais doces, carinhosas. E se você presta um tantinho de atenção…

De certa forma, Isabel aproveitou (ou aproveita) muito pouco essa minha disposição, só porque tem um outro esquema de sono, outra dinâmica pra dormir.

Mas há dois discos que são, sempre foram infalíveis. Uma voz masculina, outra feminina. Em comum entre eles? Quatro rapazes ingleses, de Liverpool.

Sarah Vaughan, Songs of The Beatles / ReproduçãoPois é, cada um a seu estilo, John Pizzarelli e Sarah Vaughan gravaram dois discos antológicos e até com algumas faixas em comum. O da moça, não ouvia há algum tempo e lembrei dele para indicar ao Augusto, pai de primeira viagem dos gêmeos João e Miguel. Não sei se já testou, mas se nasceram impregnados pelo bom gosto do pai, não vai ter erro.

O que me impressiona nos dois discos é a riqueza (em algumas faixas) e originalidade (em outras) de seus arranjos. Porque todo mundo já está cansado de conhecer a obra dos Beatles, a sensação óbvia é que não há mais o que inventar. E o sujeito tem de ser corajoso pra mexer em obras clássicas, há uma linha muito tênue entre o sucesso e o fracasso que, num caso desses, não seria perdoado.

Por exemplo, a tal banda Suricato que se apresentou nesse programa novo de música da Globo. Não sei se a banda é boa, se seu repertório vale o investimento. Mas sua versão para Come Together ficou duca.

Enfim, lembrei deles hoje. E se você tiver um tempinho nesse feriado que está começando, não perca a chance. Meets The Beatles e Songs of The Beatles. Fica como meu ‘ovo’ de chocolate para todos. Garanto que não engordam. Feliz Páscoa!

Tom maior, tom menor

Comumente, dizemos que cada música tem um tom. Na verdade, música está dentro de uma tonalidade. Isso significa que, dependendo da distância entre as notas da escala utilizada em sua composição (tons e semitons), a tal tonalidade pode ser maior ou menor. E daí?

Daí que isso influi diretamente no objetivo de uma composição, no conjunto de sentimentos e sensações que se pretende transmitir. Apesar do contrário não ser impossível, a média diz que a escala maior é feliz, alegre, vibrante, enquanto a menor é triste, algo melancólica e sorumbática.

E por que diabos estou aqui tentando traduzir o pouco de teoria musical que conheço? Porque recebi do Giorgio a dica deveras interessante de um canal do Youtube: Oleg Berg.

Oleg  BergMúsico e engenheiro ucraniano, o sujeito tinha o sonho de transformar as músicas tristes em alegres. E não é que ele fez isso e muito mais?

Trabalhando as tonalidades das canções, ele as mudou estruturalmente sem tirar suas identidades. Quando você ouve, rapidamente reconhece. Mas é impossível não notar que há algo muito diferente.

Enfim, como em todo projeto experimental, no Major Vs Minor há muita coisa boa e muita coisa ruim. Entre as que mais gostei, o tema da Pantera Cor de Rosa, Tears in Heaven e Summertime. A brincadeira que fez com Don’t worry, be happy também ficou bem interessante. Em compensação, a trilha de O Podereso Chefão ficou uma bosta.

A questão é que, independente do resultado final, todo mundo que gosta de música deve conhecer o trabalho do sujeito. E tem muita variedade no canal, de (quase) todos os estilos.

Abaixo, a canção que o carcamano usou como isca para me fisgar. Também ficou muito boa.

P.S.: como seria o resultado de um trabalho assim com os sambas de Paulinho e Martinho? Fiquei curioso…