Entre brigadeiros e celulares

Vida de pai é um negócio sensacional. Mas às vezes dá um trabalho danado pra organizar a agenda e conciliar os interesses da prole com o nosso desejo filosófico-esportivo-carnavalesco. Ontem, por exemplo, foi um dia daqueles.

Nico Rosberg / Foto: Getty ImagesA manhã até que foi tranqüila e consegui assistir o GP de Mônaco inteiro: a previsível vitória de Rosberg e sua Mercedes, a nova panca de Massa (quase um replay do que houve no treino de sábado), um mexicano deixar escancarado a guerra de bastidores na McLaren e Sutil fazer duas ultrapassagens magníficas na Lowes e Vettel, que terminou em segundo, sair do principado ainda mais líder do que quando chegou. No fim, uma corrida bem decente, dentro dos padrões Mônaco.

Viva Tony

Meus problemas começaram à tarde, com as 500 milhas e a estréia no brasileirão. Sobre a corrida de Indianápolis, enquanto arruma bolsa, dá mamadeira, veste uma, calça a outra, serve a ração pras mocinhas e tudo o mais que envolve sair de casa com duas crianças e deixando duas cachorras, ia acompanhando. Mas era domingo de festinha, das 15 às 19h30. Ou seja, justamente na hora da decisão, quando faltavam umas 30 voltas para terminar, hora de ir.

Tony Kanaan vence a Indy 500Soube depois que Kanaan venceu. Sinceramente, achei sensacional. Gosto do sujeito, já foi campeão e bateu na trave algumas vezes. Então, agora pode dizer que sua (longa) passagem pela categoria está, finalmente, completa. Castroneves chegou a liderar, mas no passa e repassa do grupo da frente, terminou em sexto. Pra esse, que já venceu três vezes no templo e já foi campeão da dança dos famosos no país do Tio Sam, falta o título da categoria.

Começou

E, enfim, chegamos ao mais importante evento esportivo do final de semana. A estréia do Flamengo no campeonato brasileiro. Como já disse, estava na festinha, acompanhado de outros pais rubro-negros que tentavam acompanhar o embate do planalto pelo celular. E o 0 a 0 nos deixou bem desanimados e desconfiados. Mas assisti o VT quando cheguei em casa e até que fiquei surpreso.

O Flamengo nem jogou mal, a defesa bem postada, o time organizado, todos sabendo o que fazer com a bola. No meio, a inoperância de Renato foi compensada por Elias, em tarde inspirada. Dominamos o jogo e tivemos muitas chances de vencer, pelo menos quatro reais. E Felipe, que nem foi incomodado, teve a chance de posar para a foto de despedida do Neymar ao defender (sem rebote para a marca do pênalti!!!) um falta cobrada pelo moleque.

Rafinha perde gol / Foto: Agencia O GloboAgora, a indigência de nosso ataque foi assustadora. Hernane, o artilheiro do carioca, mostrou que suas caneladas – salvadoras contra quissamãs e caxias – não serão suficientes no certame nacional. E Rafinha, que contra os bambalas e arimatéias chegou a ser melhor que o Neymar, se encolheu. Mas esse tem potencial e tende a melhorar quando se acostumar com os jogos grandes em grandes estádios. Moreno entrou bem e, com ritmo, será o dono do ataque. E Carlos Eduardo… Sei lá o que dizer sobre ele. Mas, no geral, o que importa é que não desgostei não. Mas o sentimento de que perdemos dois pontos jogando fora de casa amargou a boca.

O próximo jogo será “em casa”, contra a Ponte. A obrigação é vencer, claro, mas não será fácil. O campo acanhado e o gramado pererecante de Juiz de Fora estão a favor da macaca. Ou seja, preparem as unhas e calmantes.

Brasileiraço

Picareta no Campeonato Estadual de 2011 / Foto: Fred HoffmanSe o brasileirão começou ontem, no próximo fim de semana acontece o Brasileiraço, com letra maiúscula mesmo. Entre quinta e domingo, no Saco de São Francisco, ali em Niterói, serão realizadas as oito regatas do 6º Campeonato Brasileiro da Classe Velamar 22 com largadas previstas, sempre, a partir das 13h. Não sei quantos barcos estarão na água, isso não importa. O que importa é que a tripulação do Picareta – na qual me incluo – está na ponta dos cascos. A turma do foquetinho azul do Boteco 1 promete garra, dedicação, empenho eeeeee tentar corresponder em campo eeeeeeeee tentar realizar o que o professor determinou eeeeeeee agradar a torcida eeeeeeeee fazer de tudo pra levar o caneco pra casa.

Vale ressaltar que o campeonato – SEM NENHUM INCENTIVO FISCAL – é patrocinado pela Focus Brindes, Noi, a cerveja concebida sem pecado, Yen Motors, Olimpic Sails e Känga Box. Então, obrigado e parabéns às cinco empresas.

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Sete

Aproveitando que falei do Maracanã no post abaixo, lembrei do Flamengo. Que jogou alquebrado contra o Santos em uma partida em que, pelas circunstâncias, todos esperavam uma goleada do peixe. E todos viram que, mesmo jogando mal de novo, mesmo até merecendo perder, não foi o que aconteceu.

É verdade que houve um pênalti não marcado. Mas não por roubo, e sim por falta de coragem do juiz. Imagina, dois pênaltis seguidos contra o Flamengo no Engenhão… Basicamente, ruindade mesmo. Como no gol do Flamengo mal anulado por impedimento.

Cheguei a escrever na semana passada que, mesmo a derrota, não seria um grande problema. Nas sete rodadas, todos ainda vão perder pontos. E, olhando para quem ocupa hoje a ponta da tabela, ninguém me tira a certeza que o campeonato não está nem perto de se definir.

Cinco pontos para tirar do líder em 21 possíveis e ainda com o confronto direto. Já escrevi também: meu sonho é chegar à última rodada dois pontos atrás do Vasco.

Nossos próximos jogos serão os seguintes: Grêmio, Cruzeiro, Coritiba, Figueirense, Atlético Goianiense, Internacional e Vasco. Ainda acredito que perderemos 3 ou 4 pontos. Mais do que isso é ‘adeus hepta’.

Mas vocês já viram os jogos do Vasco? São Paulo, Santos, Botafogo, Palmeiras, Avaí, Fluminense e Flamengo. Pois o time da colina não vai ganhar nenhum dos clássicos e ainda vai deixar escapar mais um ou dois pontos.

Como descarto Botafogo e Fluminense, restaria a preocupação com o Corinthians. O time do amigo do Lula e do Ricardo Teixeira, o time que ganhou um estádio por conta da Copa, o time do cara que disse que vai sair mas quer fazer seu sucessor, o time do Ronaldo. O único time capaz de impedir que a taça continue morando no Rio pelo terceiro ano consecutivo, onde já se viu isso?

Até a festa de encerramento do campeonato acontecerá em São Paulo e já tem gente dizendo que isso é um sinal claro de que o título não escapa, por bem ou por mal. E a tabela? “É a mais fácil”, todo mundo grita. Vejamos então.

Avaí, América, Atlético Paranaense, Ceará, Atlético Mineiro, Figueirense e Palmeiras. Tirando os dois últimos, que já não querem mais nada com a hora do Brasil, todos os outros clubes lutam desesperadamente contra o rebaixamento. Jogarão suas vidas. Somando isso à pressão pelo ‘título fácil’ (já demonstrada na última coletiva destemperada de Tite), sinto dizer-lhes: já era. Os caras vão tremer e… Se bobear, já chegam na última rodada fora do páreo.

E na base do ‘vamo lá, porra’, seremos hepta. Só faltam sete jogos. O lado ruim é que vamos continuar aturando o Luxemburgo. Mas tudo tem seu preço, né não?

O copo

Daqui a muito pouco o Flamengo entra em campo pela Sulamericana para exorcizar mais um fantasma, a Universidad de Chile. Mais um fantasma mequetrefe, como foi o Ceará no último final de semana. Então, mãos à obra.

Mas o que me importa é que, faltando apenas oito jogos para o hepta, há um certo cheiro de merda pelo ar. Tudo porque o time continua não jogando nada. Pra completar, a expulsão bisonha (e merecida) de Ronaldinho e o amarelo ridículo (e merecido) de Thiago Neves.

No fim das contas, entraremos com meio time reserva no jogo contra o Santos. Mas logo eu, que sou pessimista original, comecei a ver o lado bom da coisa. Sabem aquela história do copo meio cheio ou meio vazio? Pois então.

O Santos vem como franco atirador, pois que não disputa mais nada e apenas se prepara para o mundial no fim do ano. Jogando sem pressão e praticamente completo, pode ser perigosíssimo.

E aí você olha para o bando que vai estará em campo e se dá conta que, se ainda temos de perder algum jogo no campeonato, esse é o ideal. Porque ninguém vai seguir invicto até o final do ano e porque ainda restarão 21 pontos em disputa.

O outro lado da moeda é a possibilidade da vitória. Imaginem que o (arremedo de) time que partirá para o confronto, os onze que farão as vezes de titulares do Flamengo, vença a partida. Imaginem a moral com que vai seguir em frente.

Pois é, tentemos ser otimistas. Torcer, torcer, torcer.

2ª Edição

Que vexame, que vergonha. Sem contar a sensação de que o tal copo está, na verdade, meio vazio.

Insuficiência adjetiva

Menos de cinco minutos. Wellington viu a bola passar a sua frente sem qualquer reação – assim como quem para na frente da TV para ver a oitava reprise de uma comédia. Um a zero pros caras. É claro que fiquei puto, mas o jogo nem tinha começado ainda e dava tempo de virar. Bora pra frente.

Mas aí o bagulho ficou estranho. Eu via o Flamengo jogando muito melhor que o Santos, tocava melhor, chegava mais, mas com menos de meia hora de bola já estava três a zero pros caras. Uma pergunta não saía da minha cabeça: que merda é essa? Sabendo que toda invencibilidade um dia chega ao fim, aquele pessimismo característico do meu eu mais profundo aflorou. Não fazia sentido, mas já esperava a goleada histórica.

Mas aí, aquela história que o dentuço falou quando chegou e que às vezes, nos raríssimos momentos de adversidade que enfrentamos, esquecemos: Flamengo é Flamengo.

Agora, tentem imaginar o cenário. Se conseguirem, aqueles que me conhecem vão entender o quanto eu sofri ontem à noite. Às dez e meia, Helena dormia há menos de 15 minutos, enquanto Adriça e Joana esperavam ansiosas e alertas por qualquer chance para começarem a latir desbragadamente. Ou seja, qualquer ruído ou reação um pouquinho acima de um suspiro provocaria uma reação em cadeia que poderia variar entre o acordar de minha filha que poderia me impedir de assistir a peleja até a expulsão do prédio.

Como é que se assiste um jogo como aquele sem soltar nenhum grito, nenhum ‘ai’, nenhum ‘uhhh’? E aí, a mãe da Helena apegada a um livro, repara na TV e solta um “três a zero, já?” E demos sorte por não poder berrar, porque os impropérios vieram à garganta e, se escapam, o divórcio litigioso seria o mínimo.

Mas não durou muito, porque veio o três a um acompanhado de um olhar sanhudo e de um sentar mais ereto. E veio o três a dois. E sem a possibilidade de soltar os gritos de praxe que ajudam a aliviar – afinal, só 31 minutos jogados –, comecei a delirar enquanto fazia minhas primeiras tentativas de arrancar os cabelos.

E continuávamos jogando muito melhor, apesar dos sustos de praxe provocados por nossa defesa inexpugnável (hahahahaha!). E entre os arroubos e desvarios provocados pela falta dos gritos e xingamentos, ameacei a moça ao meu lado: “saio de baiana, pela contramão na Conde de Bonfim, se o Flamengo não ganhar esse jogo”. E foi só eu calar a boca e Williams, o Messi que marca, empurra Neymar dentro da área.

Bola na marca da cal. Não arrisquei olhar pra ela, mas tenho certeza que enquanto segurava a gargalhada, já fazia as contas de quanto gastaria para comprar a fatiota na Casa Turuna.

Mas Elano fez aquela palhaçada, Felipe fez embaixadinha e no ataque seguinte a partida estava empatada. Naquela altura, enquanto eu sofria para gritar em silencia, batia no peito como um King Kong desengonçado e sem cenário. E já não havia a menor possibilidade de perdermos o jogo.

E o segundo tempo, apesar do susto no início, foi só pra constar. Porque todas as máximas relacionadas aos onze da Gávea valeram ontem: “Flamengo é Flamengo”, “Deixou chegar, f*@#$%” etc. A partida foi moralmente decidida ao empatá-la antes do intervalo.

É certo que o embate de ontem entrou pra história. E basta passar em frente às bancas e visitar os principais blogs e portais para ler as manchetes, todos os adjetivos estão lá. Eu já não os tenho. Só sei que agora faltam apenas 26 jogos para o hepta.

Macaé!!!

Hoje tem jogo, de gente grande. E estou calado sobre o assunto desde o final de semana, tentando superar a frustração com o vexame protagonizado na noite de sábado, na badaladíssima Macaé. E o pior foi ouvir um monte de amigos rubro-negros defender o time. “Nem jogou mal”, “o primeiro tempo até que foi bom”, “só deu azar de não encaixar um contra-ataque no segundo tempo”.

Desculpem aí a falta de educação, mas tem hora que não dá. O time do Ceará é uma bosta e o Flamengo já conseguiu a proeza de empatar duas vezes e perder uma. Só em 2011. Como diria o Caetano, “Alguma coisa está fora da ordem”. Eu diria que há muita coisa fora da ordem, porque um tropeço contra time pequeno é normal, acontece, o futebol é uma caixinha de surpresas (frase nova, diz aí). Mas passou do limite.

Por que não decidiu o jogo no primeiro tempo? Por que recuou tanto no segundo? Por que, na hora de mexer no time, o profexô não empurrou o time para o ataque em vez de aumentar a retranca? Pombas, era o Cearáem casa. Enão foi por falta de Thiago Neves e Ronaldo não. Vexame é pouco.

Cartões

Vamos deixar de hipocrisia né. Desde que o mundo é mundo e o negócio foi incluído no futebol, neguinho força cartão. Pra não viajar porque tem preguiça, pra pressionar o técnico que está prestes a cair e pra não correr o risco de ficar de fora de jogo mais importante. Pois nossas duas estrelas se encaixam em duas das três justificativas. E não estão erradas não, porque pra ganhar do Ceará (o que os caras que ganham salário mais do que razoável não conseguiram) bastava colocar em campo o time pré-mirim.

Imagina se as duas estrelas ficam de fora do jogo de hoje? Não ia estar todo mundo gritando por aí que é um absurdo, como é que dois caras que jogam no ataque tomam tanto cartão etc. etc. etc.? Pois então.

Agora, neguinho toma essa decisão à revelia? Quem é que manda na bagaça? Abre o olho, profexô.

Moleza

Os caras têm o time da moda, os meninos da Vila, além de Elano e a estréia de Ibson. E daí? Basta pensar um pouquinho pra chegar a conclusão que o bagulho é mole. O tal do Neymar não se cria sozinho. Driblador que só ele, pode dar um nó na coluna do Wellington, todo mundo sabe. Então, o negócio é não deixar ele receber a bola.

Pega o Williams e gruda ele no Ganso. Se o cara for ao banheiro, vai junto. E pronto. Para Elano e Ibson (sem ritmo e desentrosado), a marcação comum, por zona, resolve. E também não custa evitar fazer faltinhas perto da área.

Em compensação, com a confusão que arrumaram, nossas prima-donas devem estar a fim de mostrar serviço. Ainda mais contra os badalados praianos. De quebra, nossos laterais não devem ter muito problema para ir ao ataque, porque a defesa deles não das mais seguras.

Encerrando, faltam 27 jogos para o hepta e o placar de hoje será 3 a 1.

Desde 1959

De pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gylmar e Mauro. Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

De pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gylmar e Mauro. Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

E o Robertão e a Taça Brasil, agora, são Campeonatos Brasileiros. Não, não vou ficar de picuinha porque – com essa decisão – o Rio-São Paulo ganhou valor de Brasileiro. Sejamos razoáveis, naquele tempo só existia futebol de verdade nas duas pontas da Dutra.

Mas essa decisão traz algumas curiosidades. Primeiro é preciso entender que a decisão da CBF foi pela equiparação e não pelo reconhecimento. Afinal, os títulos dos dois torneios sempre foram reconhecidos, a eles sempre foi dada a importância devida. O que muda é que, a partir de hoje, Taça Brasil e Robertão valem como Brasileirão.

Com isso, além de passarmos a ter um pentacampeão brasileiro legítimo (Santos de 61 a 65), temos dois octacampeões brasileiros: Palmeiras e o próprio Santos.

Aliás, para a torcida arco-íris que não se conformava pelo fato do Flamengo ter conquistado dois cariocas no mesmo ano (1979), vai fazer o quê? Arrancar as calças pela cabeça? Pois o Palmeiras, com essa decisão, passou a ser bicampeão brasileiro no mesmo ano (1967). E 1968, que passou a ter dois campeões brasileiros: Botafogo (Taça Brasil) e Santos (Robertão)?

Botafogo, que agora é bi e tem Mané e companhia limitada reconhecidos, assim como o Cruzeiro e o time histórico de Tostão e Dirceu Lopes.

O Atlético Mineiro perdeu o posto de primeiro campeão brasileiro (1971) para o Bahia (1959), que agora é bi. Andrade e Zinho deixam de ostentar o orgulho de conquistar o título mais vezes como jogadores (cinco), honra que passa a ser de Pelé, Melgálvio e Coutinho (1961-65 e 1968), sempre pelo Santos.

E agora, a torcida pode gritar a plenos pulmões e com razão, ao contrário de alguns dias atrás, que o Fluminense é tricampeão brasileiro. Parabéns.

Agora, a CBF podia aproveitar o embalo e resolver a cagalhopança que seu presidente e vice, Octávio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid, fizeram ao lado de Eurico Miranda em 1987.

Alma, palma e coração

É claro que existem mil razões para alguém escolher sua profissão. Alguém vai lembrar de uma tal vocação e eu rebaterei. Ela, a tal, pode até existir, mas não for despertada de alguma maneira… A conclusão é óbvia.

Um dia, abri o jornal e dei de cara com o texto de Armando Nogueira. Já não lembro qual das suas muitas crônicas era a do dia, mas sei que foi com a sua leitura que resolvi ser Jornalista. Habituado a ler de tudo desde criança, foi no texto de Armando que percebi que seria possível escrever em jornal, sobre o que se gosta, sem esquecer do cuidado, do carinho que a palavra merece.

A essa altura, mais de 24h depois do falecimento do cronista (entre outras coisas), já não cabe tentar descobrir histórias engraçadas ou curiosas para ilustrar qualquer coisa, todo mundo já fez. O mesmo para seus textos e frases espetaculares. Todo e qualquer jornal que circula hoje, os portais, as TVs e rádios de ontem, todo mundo já estampou suas coleções de palavras de Armando Nogueira.

Nesses tempos em que o tempo voa, não foram raras as vezes que ouvi colegas maldizendo seu texto chato, modorrento. Como em um almoço de família, repetia para mim mesmo o chavão ‘é bom que sobra mais’. Afinal, poderia ler em paz sem ninguém pedir o jornal emprestado, poderia folhear o livro sem a pressa de passá-lo à frente.

Sem o hábito de ligar o computador aos finais de semana, ao menos para escrever ou trabalhar, poderia ter gasto a segunda-feira falando da corrida sensacional da Austrália, em que todo mundo agradeceu à chuva e quase ninguém se deu conta de que pilotos estavam mesmo com vontade, com pista seca ou molhada; poderia fazer a piada da hora sobre o Santos (“Crise no Peixe, vitória só por cinco gols gera tensão na Vila); talvez devesse espinafrar o Flamengo pela atuação medíocre contra o América, apesar da vitória; falar bem do juiz que resolveu multar o Lula pela campanha antecipada; reclamar da prefeitura pela falta de manutenção das rampas de acesso nas esquinas da praça Afonso Pena; ou, finalmente, contar como foi a reunião com o secretário de transportes que não apareceu. Ou qualquer outra coisa que me desse na telha.

Sinceramente, não vi sentido em escrever qualquer coisa ontem. Como ainda hoje, mas há que se viver o luto.

Tenho em casa uma pasta de textos que, em revistas e jornais de folhas, me chamaram a atenção. Entre os muitos retalhos de papel que transbordam daqueles pedaços de plástico que tentam imitar o couro, vários são da lavra de Armando Nogueira. Estão lá frases clássicas, como a bola que pediria autógrafo a Pelé e o latifúndio que um guardanapo era para Mané. Também está lá a homenagem a Zico, no dia de seu jogo de despedida, e o texto sobre a primeira conquista de Guga em Roland Garros, em cita a volúpia das paralelas e o cinismo dos lobs do campeão.

Separei três pílulas, pérolas na verdade. Uma espécie de auto-definição, a lembrança do garoto Denner que morreu em um acidente de carro no Rio e uma crônica completa que, sem nenhuma de suas frases que entraram para a história, apresenta todo o estilo de alguém que nunca deixou a crônica esportiva cair no lugar comum.

Tenho a alma, a palma e o coração de jornalista

A morte o surpreendeu enquanto ele dormia. Se ele estivesse acordado, até ela seria driblada

Peladas

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.

Em cada gomo o coração de uma criança.