Quase C.Q.D.

Imaginem a cena: sentado no sofá, feliz com o 2 a 1 estampado no placar e com o time jogando de forma consistente, vendo amadurecer o terceiro gol. Bola pra cá, bola pra lá, vejo que Deivid já está sozinho apenas esperando a pelota chegar para fechar o caixão. Nesse ponto, já estou de pé e fazendo algum barulho quando, simultaneamente, nosso grande centroavante dá sua pixotada habitual e Helena, com seus quase dois anos e prestando atenção em tudo o que gente fala para tentar copiar, chega à sala.

Com todos aqueles palavrões de última categoria engasgados na garganta, vejo a pequena me olhando quase assustada enquanto tento arrancar os cabelos e solto a pérola:

– Bobo, feio, chato!!!

E ela, com cara de mau, entra no coro:

– Bobo, fêo, cato!!!

Ainda gargalhava com ela no sofá, quando Damião fez seu golaço (aquele papo de quem não faz, leva).  Passei a mão na cabeça e soltei um ‘putz’. E ouvi, outra vez:

– Bobo, fêo, cato!!!

Pronto, o empate quase com sabor de derrota valeu pela bela lição que não precisei ensinar à moça.

Sobre o resultado em si, o gol perdido por Deivid serviu apenas para confirmar a tese de que a derrota que sofremos, para o campeonato, não mudava nada e que logo logo recuperaríamos os pontos fora de casa. Quase como queríamos demonstrar. E no final, nem foi tão ruim. Afinal, empatamos com um (teoricamente) postulante ao título na casa dele. Então é bola pra frente, que domingo tem aquele encontro com a freguesia tradicional do boteco.

Faltam só 20 jogos para o hepta, abramos nossos sorrisos. Afinal, o gol de nosso camisa 10 (com o providencial empurrão do Messi que marca) e a jogada do segundo gol foram tão ou mais bonitos que a bicicleta colorada.

Viúvas

Logo após o lance bisonho de nosso magnífico centroavante, e mais ainda após a partida, vi muita gente por aí esperneando com frases do tipo “ah, se fosse o Adriano”, “o imperador não perdia essa” e outras semelhantes.

Sou daqueles que deu graças pelo cara não ter vindo, mas – se vale como resposta – lembro que se fosse o Adriano ia dar no mesmo. Porque o cara não jogou até hoje, machucado que está, e Deivid (que não seria mandado embora) estaria em campo para perder o gol da mesma maneira.

Como milhares, já reclamei muito do sujeito. Mas é preciso lembrar que, mesmo perdendo tantos gols absurdos, o cara está brigando pela artilharia do campeonato. Então, que tal – só pra variar – começarmos a bater palmas pro sujeito em vez de tentarmos arrancar sua cabeça. Quem sabe, com um pouco de apoio, ele não passe a render melhor? Sei lá, só uma sugestão.

Panela no fogo

Sempre manifestei meu descontentamento com a vinda de Vanderlei Luxemburgo para o Flamengo. Sempre achei que toda sua ‘estrutura’, com seus planos de ser um manager, com sua postura de profexô seriam ruins para o Flamengo.

Mas ele veio e é o técnico do time. E tenho críticas ao trabalho dele, claro. Daí a querer a saída do sujeito a essa altura do campeonato, vai uma distância enorme.

Só que a pinimba com Adriano parece que vai custar mais caro do que todo mundo pensava, nem parece que no mesmo Flamengo ele foi demitido porque se desentendeu com Romario. Aí, a torcida começa a fazer cobranças porque perdeu o Imperador (eu achei ótimo), aí – apesar de estar invicto no ano – empata três jogos seguidos no carioquinha, aí dá declarações infelizes sobre torcedores que teriam recebido “uma graninha” para protestar (todo mundo sabe que isso existe, mas é coisa que não se fala pois alguém ou alguéns na diretoria vai dar um jeito de arrumar uma briga), aí – apesar dos resultados positivos – o time ainda não tem padrão de jogo nem time titular, aí…

Aí, no maior portal de comunicação do país, aparece uma matéria com o trecho abaixo. Reparem que nem é preciso encontrar o subtexto, está na cara mesmo.

– O esquema de jogo não está funcionando, o time não consegue criar. Se temos dificuldades no Carioca, imagina quando jogarmos o Brasileiro, contra equipes mais fortes? Só que não adianta, ele (Luxemburgo) quer do jeito dele – disse um dos jogadores.

Vanderlei pensa grande. Olha para a invencibilidade e considera que a marca o credencia a sonhar com a repetição de um feito que alcançou no Cruzeiro, em 2003: a tríplice coroa, com as conquistas do Carioca, Copa do Brasil e Brasileiro. Os atletas relatam que há obsessão pelo tema.

Como podem ver, o óleo já está bem quente e a fritura já começou. Alguém duvida que o sujeito vai cair?

O que realmente importa?

O Flamengo empatou com o Madureira ontem. Pela maneira que foi, tem um certo ar de ‘graças a Deus’ nisso, pois chegou a estar perdendo por 3 a 1. E eu pergunto: e daí? Daí, nada. Não muda nada no campeonato. Apesar de estar em quarto no grupo, os três da frente estão com 10. Ainda faltam três rodadas: Duque de Caxias, Botafogo e Macaé. Basta vencer os dois menores que não precisa nem ganhar o clássico. Porque eles vão tropeçar.

Mas, mesmo que dê tudo errado, o Flamengo já está na final do campeonato. Então, não há com o quê se preocupar. Aliás, o que deve nos preocupar é essa tal invencibilidade. Todo mundo sabe que não existe time imbatível. Então, é lógico que quanto mais tempo invicto, mais perto estamos da primeira derrota. E eu nem ligaria se perdêssemos um dos três joguinhos que faltam no segundo turno.

É possível ser campeão invicto? Claro, o próprio Flamengo já foi quatro vezes (a última em 1996). Mas é provável? Esse é que é o problema. Então, é melhor perder logo agora, do que na final. Agora, o fato de ser capaz de fazer essa análise absolutamente racional, não significa que vou torcer para perder qualquer jogo. Até porque, com o time que tem (apesar da defesa instável), o Flamengo não podia perder nem ponto nesse campeonato.

Deixando um pouco os jogos de lado, algumas coisas já estavam me incomodando e ontem fiquei mesmo irritado.

Estamos invictos, mas estamos jogando bem? Fora uma ou duas partidas, não. E não estou preocupado com espetáculo não. Mas um time que joga bem tem muito mais chance de vencer do que o que joga mal. Estou maluco? Pois é inadmissível que no final de março, trocentos jogos depois de começar o ano, o profexô ainda faça experiências em jogos oficiais. É inadmissível que nosso time ainda sofra de desentrosamento.

Outra coisa que me deixou meio puto foi ver torcida xingando técnico e gritando o nome de Adriano. Vamos esquecer o sujeito, ele não vem. E mesmo que viesse, não estaria em campo pelos próximos dois meses. Então, não faria nenhuma diferença no jogo de ontem ou nos próximos. E enquanto neguinho, branquinho, azulzinho e amarelinho grita pelo imperador aposentado, nossa defesa leva três gols ridículos do Madureira. Ou seja, estão perdendo tempo e dinheiro com a coisa errada: nossos zagueiros são fracos e não temos lateral esquerdo. Alô presidenta, alô profexô, dá pra resolver a pendenga?

Por fim, já falei sobre isso aqui. Sei que ontem havia desfalques, mas nosso profexô continua armando o time errado. Se é verdade que não temos um grande homem gol no elenco, também é verdade que os meninos que andam por lá não deixam a dever nada para a grande maioria dos times do país. O que não dá é pra ficar aturando o sujeito fazendo invencionices e dando razão pra grito de Adriano na arquibancada. Pombas, será que é tão difícil assim fazer o simples ou ele precisa inventar sempre pra chamar a atenção da mídia?

Varrendo as cinzas do salão

E, afinal, estamos no país do carnaval. Se oficialmente a festa terminou ontem, domingo será o último dia de folia de verdade. Tanto é assim que o nosso congresso, que já não gosta mesmo de trabalhar, só volta a funcionar de verdade, a votar alguma coisa na terça. Ziriguidum, telecoteco, esquindô lelê!!!

A verdade é que estamos tão acostumados a ver nossos representantes batendo ponto só de terça a quinta (enquanto boa parte dos pobres mortais brasileiros são obrigados a cumprir expediente em semana inglesa), que foi até uma surpresa ver estourar o escândalo de Jaqueline Roriz. Não por ver o sobrenome Roriz envolvido em confusão, claro, mas pela notícia ganhar o país em uma quarta-feira de cinzas.

A cobertura do carnaval em todos os cantos é tão massacrante que temos a impressão de que todo o mundo fica parado à espera do resultado da apuração das escolas de samba. Quem não se dedicou a ver, ouvir ou ler algo além das manchetes, não ficou sabendo que os grandes aliados (capitaneados por Obama, vejam só) já cogitam intervenção militar na Líbia de Kadafi, um governante conhecido por sua delicadeza e que lançou ataques aéreos contra rebeldes armados com bodoques ou pouco mais que isso.

Sou contra qualquer tipo de intervenção, eles que são brancos, pretos, azuis ou amarelos. Que se entendam. Depois, forças tarefas das nações unidas ajudam como puderem. Mas sabemos que não é simples assim, há muitos interesses envolvidos num conflito desses, como dinheiro por exemplo. O que me deixa meio puto é que neguinho usa os tais direitos humanos com desculpa para se meter onde não deve. Acho engraçado porque, na minha cabeça, se um sujeito resolve fazer uma guerra, seja contra seu vizinho ou contra seu governo, ele sabe os riscos que corre. Então, não deveríamos precisar ouvir esses discursos ‘bons-mocistas’.

No resto do mundo árabe que entrou em conflagração, inspirado pelo sucesso dos gritos na Tunísia e no Egito, as coisas começaram a se assentar. Acordos vão sendo feitos aqui e ali, e o barulho prometido há algumas semanas não será tão grande quanto pensávamos.

E enquanto os incêndios ao sul do mediterrâneo começam a ser apagados, a grande notícia da Europa foi a capacidade de Kate Middleton (a noiva do prícipe William que estão tentando transformar em nova Lady Di) virar panquecas no ar.

Na bola, a grande novidade do reinado de Momo foi a rescisão do contrato entre Roma e Adriano. Fiquei muito, muito surpreso com esta notícia. Afinal, segundo o clube italiano, Adriano chega sempre atrasado e não se apresenta quando deve, está acima do peso, bebe, quase nunca joga… O pior é que já há gente no Flamengo querendo ele de volta.

Imaginem, justo na hora em que o clube tem um ídolo que chega na hora pra treinar, que está sempre à disposição, que não falta, que é sempre o último a sair do treino, que não abusa de privilégios… Não seria excelente trazer o Adriano? Como ficaria o clima? Pois sou da teoria que se o sujeito voltar ao clube, nossa presidente deveria se afogar na Lagoa.

Pra terminar, a Fórmula 1 está fazendo sua última bateria de testes de pré-temporada. Enquanto pilotos seguem reclamando dos botões no volante e do desgaste acentuado dos novos pneus, o que fica claro que é que a Red Bull é mesmo o carro a ser batido; Ferrari poderá competir de igual para igual em algumas circunstâncias especiais; Mercedes não fará muita farofa; as brigas no meio do grid, entre Lotus Renault (a preta), Sauber, Williams e Toro Rosso deverão ser muito interessantes; e a McLaren, que lançou um carro diferente, arrojado, com vários novos conceitos e que eu mesmo apostei ser um bólido vencedor, está fazendo água. Já se diz até que o que a equipe precisa mesmo é de um carro novo. Faltam duas semanas para a abertura da temporada. Será que alguma coisa mudará até lá?

No mais, está começando aquela fase do ano que é quase inútil, entre o carnaval e o réveillon. Boa sorte pra todos e paciência, falta menos de nove meses.

Caneleiros FC

Ontem, chegando ao trabalho, cumpri a rotina e fumar o último cigarro antes de entrar enquanto lia as manchetes dos jornais de folha pendurados na banca. E fiquei feliz, comemorei com os outros rubro-negros que trabalham comigo. O Flamengo estava se reforçando para o segundo semestre. Afinal, Adriano e Mezenga vão embora.

E de repente surge a notícia que a opção para nosso ataque é Washington, um dos maiores caneleiros do velho e violento esporte bretão, um sujeito que – como diz o Octavio – deveria ser estudado como case.

Só posso imaginar que há alguém de sacanagem na diretoria do Flamengo. Porque, caneleiro por caneleiro, já temos um PhD no elenco. Luluzinha, vulgarmente conhecido como Denis Marques.

Com esse tipo de contratação, com essa maneira torta de enxergar futebol, não há qualquer resquício de luz no fim do túnel. Muito pelo contrário, futuro negro paira sobre a Gávea.

Vida que segue

Na verdade, aconteceu o que era previsto. Depois de entregar a rapadura dentro de casa, depender de um jogo especial, de uma noite inspirada, não é algo em que se possa confiar. E o que me deixa puto nem é a eliminação, ganhar e perder faz parte do jogo. O que me deixa puto é saber que se os caras tivessem jogado no Maracanã com a metade da vontade de ontem, estaríamos classificados sem sofrimento algum.

O time do Flamengo não é ruim. Pelo contrário, o elenco rubro-negro está entre os melhores do país. Mas há tanta coisa errada no clube que, se pensarmos bem, as coisas não poderiam dar certo mesmo. Desde uma autosuficiência irritante, quase um salto alto, até todas as confusões do Adriano, passando pela falta de pulso do Andrade, a permissividade do Marcos Braz, a demissão de toda a cúpula do futebol, a manutenção de Isaías Tinoco (que não serve pra nada) e a falta de um vice de futebol (já faz um mês que o cargo está vazio) capaz de organizar a bagunça.

Se o Flamengo estivesse jogando, desde o início do ano, com metade da vontade que mostrou ontem, teríamos conquistado o carioquinha, nadado de braçadas na primeira fase da Libertadores e, claro, tudo seria diferente. Poderíamos ser eliminados da mesma maneira, mas não teríamos a sensação de bancamos os bobos.

Apesar de tudo isso, eu realmente acreditava que voltaríamos do Chile classificados. Por todas as questões emocionais que envolveram o time nos últimos dez dias, desde a não convocação óbvia de Adriano até a provocação desnecessária do técnico adversário. E se olharmos apenas para o jogo de ontem, 2 a 1 foi muito pouco. Mas o ‘quase’ de ontem foi apenas a cereja do bolo, apenas o enfeite que faltava para encerrar o semestre perdido.

No final das contas, temos uma geração (Leo Moura, Bruno, Juan, Angelim, Toró e outros menos cotados) que estão entrando para a história do clube por algumas conquistas e pelas oportunidades perdidas e inúmeros vexames dentro de casa. Libertadores foram três, além de uma Copa do Brasil e outras competições menos votadas. Mesmo assim, ainda terão uma nova chance depois da Copa do Mundo. O Flamengo está na Sulamericana que, a partir deste ano, dá ao campeão a vaga na Libertadores do ano seguinte. E, claro, há o Brasileiro

Outra história que marcará esse time é a queda do Império do Amor, mais um ataque de grife que passou pela Gávea e não conquistou nada. Injustiça com Vagner Love, que sempre entrou em campo para honrar a camisa, correndo como louco e se entregando sempre, mesmo quando jogava mal. Sobre Adriano… Não adianta, nunca gostei dele e acho que ele não faz bem a clube nenhum. Mas hoje ele é jogador do meu time e isso me incomoda.

O que se espera é que Patrícia Amorim tome as devidas providências para que o ano inteiro não vá por água abaixo.

E o que acontece daqui pra frente? Seremos zoados por alguns dias por toda a torcida arco-íris, teremos cinco jogos pelo Brasileiro antes da parada para a Copa. Se tudo acontecer dentro do normal, vamos perder os próximos dois ou três, com o time abalado pela eliminação. Perderemos alguns jogadores para o segundo semestre, outros serão contratados e vida que segue.

O manto, será sempre sagrado. Eu, sempre (e cada vez mais) rubro-negro. E a turma da torcida arco-íris seguirá sendo mais feliz pelos pequenos tropeços do Flamengo do que por suas efêmeras conquistas.

Taquipariu

Essa foi a palavra que mais ouvi ontem, enquanto assistia o jogo do Flamengo no boteco que fica embaixo da minha janela. É, não estou maluco não, é uma palavra mesmo. Não sei de outros lugares, mas usar a expressão completa – aquela que deu origem ao termo acima – no Rio, só em casos especialíssimos. Tão raro que vale até falar separando as sílabas.

E vamos combinar que ver o Flamengo pagar vexame na Libertadores, em pleno Maracanã, já não tem nada de especial. Aliás, está quase virando rotina.

Eu queria entender algumas coisas, entrar nas cabeças dessas sumidades que jogam bola por aí. Porque o Flamengo não entrou em campo como quem disputaria uma partida eliminatória da competição mais importante do continente. Mais parecia que se divertia em um jogo de solteiros contra casados, todos vestidos de mulher e de salto, em pleno carnaval.

E eu ainda me impressiono. Se há a máxima de há coisas que só acontecem ao Botafogo, o que dizer do meu time? Que há coisas de que só o Flamengo é capaz? Taquipariu… E ainda vem o Rogério dizer que ‘estamos feridos mas não estamos mortos’? Taquipariu!!!

A defesa do Flamengo fez um jogo bisonho, Léo Moura apagadíssimo, Juan deveria ter sido expulso quando simulou a falta ou o pênalti. É isso mesmo, não importa se ele fez o segundo gol. Como é que um sujeito corta o zagueiro, tem a área inteira à sua frente e, em vez de fazer a jogada, se joga? Kleberson uma nulidade, Rômulo uma zebra, Michael ninguém viu, Love e Adriano perderam gols que a mãe do Tadeu Schmidt faria, Pet não adiantou e Denis Marques… Como é que alguém coloca o Denis Marques pra jogar profissionalmente? E pensar que um dia eu reclamei do Kita…

Cacete, o Flamengo jogou de maneira tão absurda que foi dominado por um time pior e com dez jogadores em campo durante o segundo tempo inteiro? Agora, tem que ganhar de 2 a 0 lá. Dá? Claro que dá, mas vai ter que jogar sério. E bem. Será que consegue?

Uma besta bestial

Detesto essa história de que, pra ser bom, tem que ser sofrido. Mas parece que o Flamengo é a encarnação, a prova cabal da assertiva.

A leitura do jogo de ontem era simples, básica. Precisando ganhar por dois gols, o Corinthians sufocaria o Flamengo e, assim, nos daria espaço para o contra-ataque. Ou seja, o Flamengo precisaria entrar em campo preparado para uma blitz alvi-negra, ,com um meio campo capaz de manter a posse de bola e tocá-la com qualidade suficiente para aproveitar as poucas chances que poderiam surgir.

E o que fez o a até ontem técnico interino e agora efetivo Rogério Gonçalves? Entrou em campo com três volantes e Vinícius Pacheco como único armador. Sabendo-se que o rapaz corre muito, mas só acerta dois passes por ano, estava sob a responsabilidade dos nossos laterais a criação do time.

Resumindo: quase entregou o jogo.

Além da escalação errada, jogadores – no primeiro tempo – pareciam estar atuando em uma pelada de final de ano, regada a chopes e acepipes. Estático, lento, desconcentrado, nem aí para o mundo…

Com dois a zero ao fim dos primeiros 45 minutos, o Flamengo só precisava de um gol. E vocês não tem noção de como eu xinguei o Rogério quando ele tirou Vinícius para colocar Kleberson. Porra, precisando fazer gol ele resolve jogar com quatro volantes?

Mas entrou aí o ‘fator Chicabon’ (“O sujeito, quando não tem sorte, é atropelado na calçada chupando um chicabon”- Nelson Rodrigues). É claro que o filho de Kleber é melhor que Pacheco, mas alguém esperava que na sua primeira jogada ele colocasse Vagner Love na cara do gol?

Da besta ao bestial em quatro minutos.

Com o gol e alguém em campo capaz de segurar ritmo do jogo, o time mudou. E como o Corinthians precisava de mais um gol, mas já não tinha o mesmo gás (jogou e correu muito no primeiro tempo), os espaços estavam abertos voltaram a aparecer e o Flamengo começou a perder gols, vários na cara do gol.

Mas tinha que ser sofrido (Por quê, por quê???).

Não fizemos e quase levamos. Aos 46, o Bruno tirou a bola praticamente de dentro do gol, em linda cobrança de falta de Chicão. E estamos nas quartas.

A melhor parte dessa vitória, pelo menos até aqui, é ver que a imprensa está fazendo seu carnaval tradicional, mas time e torcida continuam no clima de Andrade: no sapatinho. Como diria Zagalo, ainda faltam seis jogos. E todo mundo sabe que, pra chegar lá, vamos ter muita carne de pescoço pela frente.

P.S.: Enquanto vou mordendo a língua por ter sido contra a contratação de Love, ele segue jogando demais desde que estreiou. Mesmo quando não está em um bom dia, se entrega completamente, correndo sem parar e lutando até fim. Em compensação, Adriano continua como um poste e sem poder de decisão em jogos como o de ontem.

Para salvar o ano

Como já contei aí embaixo, não vi o jogo. Apaguei e acordei aos 43 do segundo tempo. Ainda vi duas ou três chances de empate do Flamengo. A essa altura, claro que já vi os gols e pênalti perdido por Adriano.

É claro que nem posso tentar analisar o jogo, mas seria bom fazer algumas observações sobre o que está acontecendo com o time. E não é de hoje.

Sobre o resultado, parabéns ao Botafogo. Título vencido, título a ser muito comemorado. Afinal, já virou tradição que o clube da estrela solitária só ganha jogo decisivo do Flamengo de 21 em 21 anos. Mas é bom tomar cuidado, pois quem nunca vê melado, quando come se lambuza. E isso pode fazer mal.

Já tinha dito aqui que o Flamengo corria o sério risco de um vexame na Libertadores. Pois bem, estamos a caminho. E se o Botafogo, mesmo sendo um time mequetrefe, é muito melhor que as universidades chilenas, a derrota de ontem era previsível.

Outra questão que já havia levantado era a capacidade de Adriano decidir as coisas. Como assim, a estrela do time, o cara, o imperador, perder pênalti em final de campeonato porque bateu fraco, um sujeito que é reconhecido mundialmente por sua bomba de canhota?

Em resumo: desde o início do ano Andrade está acometido por uma diarréia mental e não consegue escalar bem o time; os jogadores estão nitidamente enfastiados, salvo raras exceções; brigas entre jogadores; qualquer problema interno vaza para a imprensa. Poderia continuar elencando problemas aqui, mas o tempo é curto para a quantidade. E presidente, vice de futebol, gerentes e supervisores não tomam qualquer providência sobre as cagadas feitas no departamento de futebol.

Verdade seja dita, Vagner Love – entre muito poucos – tem feito o que dele se espera. Gols, muitos, e se dedicado ao time. Eu que já reclamei muito dele, retiro o que disse.

O Flamengo está a um passo de jogar o primeiro semestre fora. Então, faltando três semanas para a estréia no Brasileirão, faço uma sugestão para tentar salvar o ano. Independente do resultado de quarta-feira (Flamengo X Caracas), classificando-se ou não para a próxima fase do torneio continental, o time deveria ser internado em um centro de futebol qualquer bem longe do Rio, para fazer uma espécie de nova pré-temporada, com espaço e tempo para se preparar devidamente no campo e na academia, além de convivência  suficiente para resolver problemas internos.

E é bom descobrir logo quem é o alcagüete safado que fala o que não deve por aí. Há que se expurgar sujeitos assim.

Sem hipocrisia

Há poucos dias escrevi sobre o cacete que é ter que se adaptar, ou melhor, sucumbir à ditadura do politicamente correto. Que no final das contas, acaba escondendo um monte de coisas que deviam, na verdade, estar superexpostas e gerando discussões. Aí, logo depois de mais uma confusão de Adriano (que apesar de ter todos os seus problemas e hábitos mais do que conhecidos, teve espaço no Fantástico para negar várias coisas, abrir seu sorriso etc etc etc), aparece um vídeo de Wagner Love circulando em um baile funk na Rocinha, devidamente escoltado por traficantes.

Apesar de uma série de detalhes que acho tristes no episódio (não se pode esquecer que é uma figura pública e alguém que pode servir de exemplo bom ou ruim), uma coisa me agradou: a entrevista do artilheiro do amor, dizendo o óbvio, sem sequer alterar voz ou fisionomia. E aí, passeando por aí, visitei o Urublog e encontrei o texto abaixo, com o qual concordo da primeira à última letra, incluindo minha desconfiança e, até, insatisfação com a contratação do moço pelo Flamengo.

Em 1970 e uns quebrados, Pete Townshend, gênio que um dia será lembrado como Ludwig Van Beethoven e Amadeus Mozart, escreveu a ópera-rock Quadrophenia, uma espécie de obra pós-Tommy, o tal rapaz que não enxergava, não ouvia e não falava, uma parábola de uma juventude do pós-guerra, sem expressão, marginalizada, e que de repente é “libertada” por uma contracultura do fim dos anos 60, à base de ácido, maconha, bebida, sexo e revistinhas suecas. Quadrophenia, musicalmente, mostra um The Who mais amadurecido, ainda que Tommy tivesse no setlist alguns de seus eternos hits, como Pinball Wizard, Eyesight to the blind e We’re not gonna take it.

Em Quadrophenia, Jimmy, o personagem principal (bem descrito na magistral “Doctor Jimmy”) é apenas uma face de um esquizóide, uma esquizofrenia quádrupla, como diz o nome-trocadilho. O personagem Jimmy se mostra em quatro versões, todas elas reflexos dos mods farristas dos subúrbios de Londres: o cara de cintura dura, metido a machão, derivado do cantor Roger Daltrey, o mela-cueca inspirado no hoje falecido John Entwistle, o louco – como sempre – inspirado em Keith Moon, e o hipócrita, que Townshend baseia no seu próprio cinismo. Para o perfil cínico, Townshend comete uma das mais belas músicas da história do rock universal: Love reign over me.

Love reign on me é a resposta de Pete a sua própria hipocrisia. “Eu preciso de um drinque da mais pura água fria”, canta, ao fim da música. “Only Love/Can make it rain/The way the beach is kissed by the sea”, anuncia, no início. Somente Love pode fazer chover do jeito que o mar beija a praia, meus amigos.

Love, que reina, não em mim, mas sobre nós, é a resposta não de Townshend, mas, 40 anos depois, é a resposta rubro-negra à hipocrisia que parece ter tomado conta de nossa grande imprensa e também de nossa pequena mentalidade. Reparem que, à maneira de um mod bagunceiro, Love é irascível porque confia em seu próprio poder. Tem o romantismo dos que desconhecem a própria mortalidade. Não é um quadri-esquizofrênico – muito pelo contrário. Como dá o sangue pelo Flamengo, como se esforça dentro de campo, não vê a necessidade do cinismo. Somente o amor que ele desperta no legítimo rubro-negro pode fazê-lo ter o poder de não mentir. De não ter frases feitas. De não invocar um Deus mais relativo do que absoluto. Love reina no camarote da avenida, e diz que está lá bebendo cerveja. Reina no baile do tráfico e admite, sim, tem gente armada, todos vocês sabem disto e para quê eu iria ser o hipócrita de negar?

Nunca fui grande fã e nem fui um dos defensores de sua contratação a qualquer custo. Mas a cada dia que passa o cara manda melhor. Além de jogar com muita raça e amor ao Manto Vagner Love tem se mostrado um rubro-negro de primeira categoria. Com papo sempre reto, sem adotar posturas politicamente corretas pra agradar à opinião púbica Vagner Love sempre manda a real sem ficar se protegendo atrás de Deus, a palavra mais vulgarizada pela boleirada profissional. E digo mais: até onde se sabe, mesmo bebendo sua cerveja ele nunca faltou ou se atrasou a um treino na Gávea.

O atual caso em que tentam enquadrar o artilheiro é sintomático: a Rocinha é pródiga em políticos, vereadores, deputados, gente do Executivo, filhos de gente rica, artistas, todos ali felizes. Um famoso rapper já apareceu em um documentário da TV inglesa com fuzis ao fundo, já teve até ministro no mesmo espaço ocupado pelos caras do “movimento” – tudo isto em nome do comício.

Vagner Love é sim, marginal. Mas porque está à margem desta sociedade quadri-esquizofrênica, que hora defende o romantismo do bandido, ora manda a polícia subir e executar sem julgamento. É marginal porque não fala no Deus que volta e meia está na boca dos que querem sempre 10 por cento – ou na boca de quem doa grana todo mês para pastores presos.

É marginal porque assume seus gostos, paixões, e não porque descumpre a lei.Vagner Love, em campo, é sim, mainstream, porque faz o que se espera de um jogador de futebol. Talvez vire alternativo, já que quase todos estão correndo da raia. Love, não: o time tá com 10? Vamos correr atrás com 10. No dia seguinte, é direito dele beber a cerveja que ele paga com dinheiro do próprio bolso. E é direito – e dever – dele não MENTIR.

Talvez nós estejamos cada vez mais nos encaminhando para um sistema, uma sociedade, em que mentir seja necessário. Aí, o amor não reina. O que manda é a esquizofrenia dos julgamentos relativos e sem júri.

Love, reine sobre nós.

Gustavo de Almeida