Hora da escola (6)

Uma escola diferente não se faz apenas dentro de sala de aula, mas em todas as suas dimensões. Não adianta, por exemplo, discursos lindos ou projetos político-pedagógicos que, bem escritos em seus sites, não passam de publicidade ruim se não são colocados em prática em todos os níveis.

Felizmente há cada vez mais escolas tentando praticar essas “novidades”. É o caso da escola das minhas mocinhas, a Oga Mitá. Ela faz isso há 38 anos. Só.

Não, isso não quer dizer que seja perfeita. Isso não existe. Mas quando o discurso é colocado em prática, as coisas realmente acontecem. É o caso do reajuste zero, pelo segundo ano seguido. Dá pra imaginar como seria aguentar as mensalidades, mesmo com algum desconto, se tivéssemos acompanhado a inflação de mais ou menos 20% nesses dois anos?

Já contei em outros posts (a série completa está aqui) como funcionam as coisas por lá, a comissão de planejamento, as assembleias, a participação dos pais em todos os temas da escola. Porque a educação dos nossos filhos não pode se restringir a entrega-los e busca-los no portão. Precisamos nos envolver. E precisamos ser parceiros, trabalhar juntos. E muitas vezes é muito trabalho. Mas vale a pena, é mais um pedacinho do legado que vamos deixar para nossas crianças.

E a experiência mostra que a relação não pode ser Pais/Responsáveis contra a escola, mas Pais/Responsáveis COM a escola. Se a instituição em que seus filhos estudam não permitem isso, será que não está na hora de buscar alternativas? Pense a respeito.

Andamos falando tanto de mobilização, de democracia… Que tal praticar?

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Hora da escola

O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2010. Mas até hoje ele é disparado o post mais visitado, mas lido e comentado do blog, com mais de 5 mil visitantes únicos. E é por isso que resolvi republicá-lo, não por acaso na época de busca por escolas, de matrículas e rematrículas.

Na época procurávamos a primeira escola da Helena. Hoje, ela e Isabel seguem felizes suas vidas escolares. E é bem fácil deduzir que a Oga Mitá foi a escolhida.

Esse texto tem quatro filhotes e vocês podem encontrar todos eles clicando aqui e espero que sejam todos úteis.

E aos que decidirem visitar a escola, tenham a certeza que – além de serem muito bem recebidos – vão se surpreender. Basta estarem dispostos. E não esqueçam de dizer como chegaram à escola, que foi uma indicação do Gustavo, pai da Helena e da Isabel. A casa agradece de joelhos  ;).

Sabe aquela frase sobre o futuro de nossas crianças que já virou clichê: “não importa que mundo vamos deixar para nossas crianças, mas que crianças vamos deixar para o mundo”. Pois é, foi uma semana bem interessante essa que passou. Já peço desculpas antecipadas pelo texto longo que escrevi, mas achei que dividir essas experiências seria importante.

Já há alguns meses desde que a Mari começou a visitar escolas próximas de casa em busca de um bom lugar em que Helena comece sua vida acadêmica. E nesta semana fizemos um pequeno roteiro juntos. Como estou muito longe de ser um especialista em educação, minhas impressões refletem – simplesmente – o que percebi como pai em função do que gostaria para minha filha.

Construção

Foram cinco visitas nos últimos dias, teremos mais uma na segunda-feira. E em cada uma delas, olhos e ouvidos atentos às qualidades e defeitos. Como quando o ano letivo começar, em fevereiro, ela terá um ano e quatro meses, além de entender como é o processo pedagógico de cada uma, muita atenção às pessoas que possivelmente lidarão com nossa menina e com a estrutura oferecida, instalações etc.

A primeira visita foi à Oga Mitá. E algumas coisas interessantes chamaram muito a atenção. O primeiro ambiente, logo após passarmos o portão, é a biblioteca. A partir daí, não deveria ter sido surpresa encontrar, no sofá próximo à secretaria, uma menina confortavelmente instalada e concentrada no livro em suas mãos. Em horário de aula! Ao mesmo tempo, na pequena quadra, meia dúzia de quatro ou cinco crianças jogavam bola. A essa altura, Helena já andava pra lá e pra cá. E quando fomos fazer a visita propriamente dita e conversar com a coordenadora, ela já tinha se enturmado com as crianças de sua idade e ficou junto com a turma. Hummm…, foi o que pensei.

A linha de atuação da escola é baseada no construtivismo, o que – entre muitas outras coisas – incentiva a autonomia das crianças.

Hummm, continuei ruminando, quer dizer que é possível incentivar minha filha a pensar para que serve a tabuada ao invés de simplesmente fazê-la decorar que 7 X 9 = 63? É possível, mais do que ensinar, incentivar minha filha a decidir o que é certo para ela? Hummm…

Muitas questões

A segunda visita foi à Meimei, outra escola muito bem conceituada e que, em tese, também segue uma linha progressista. Fomos muito bem recebidos por todos e Helena, rapidamente, já estava mais uma vez entre as crianças. A estrutura da escola é bem legal, todas as pessoas muito simpáticas e tal, crianças nitidamente muito bem educadas, mas sabe aquela sensação de que algo não bate?

O que me incomodou foi um certo artificialismo, presente principalmente no discurso da coordenadora que nos recebeu. É que para ela tudo era uma questão. A questão do leve e pesado, do doce e salgado, do quente e do frio etc etc etc. Eram tantas questões e nenhuma resposta que fiquei ensimesmado. Alguém poderia dizer que o problema, então, não era a escola mas aquela pessoa. Mas, como lembrou a Mari, quem colocou aquela moça ali?

Três sapos

A sexta-feira foi bem movimentada, com visitas a três escolas. A primeira foi à J’Alevi. Mari já tinha visitado essa antes e, de certa forma, gostado. Na verdade, uma pequena escolinha tradicional, onde tudo funciona bem, profissionais simpáticos, crianças sorridentes e bem educadas. E bem perto de casa, pra ir andando. Mas aí, quem implicou fui eu. Um sobradinho acanhado, onde tudo é apertadinho e cheio de escadas. Pra mim, coisas que não combinam com crianças.

Logo depois, andamos mais 50 metros e chegamos à Sindicato da Criança. Fomos muito bem recebidos por uma das sócias da escola. A visita não ia mal não, muito pelo contrário, estava gostando mesmo do que via. Tudo muito simples, mas tudo bem feito e resolvido, até que entramos em uma sala e… “Haviam (sic) três sapos”.

A frase estava lá na parede, em um quadro em que as crianças, aparentemente, estavam aprendendo as primeiras noções de matemática. Depois dessa, precisa dizer mais alguma coisa?

Grande empresa

A última visita foi ao Mopi. É bem possível que, lá em 1973, quando a professora Regina Canedo fundou a escola, sua proposta fosse realmente brilhante. E se é inegável que a escola é conceituadíssima e acumula muitos bons resultados em sua história, minha impressão é de que – em algum momento de seus 37 anos – algo saiu dos trilhos.

Tudo é superlativo, o gigantismo é característica que grita aos olhos de quem circula pela escola. À primeira vista, a estrutura é sensacional e apesar de ser uma “escola vertical”, há espaço pra tudo. Mas como em tudo o que é grande demais, é nítida a impessoalidade no lidar com as pessoas. Sabe a diferença entre viajar e ficar numa pousada ou no Hilton? Foi o que senti.

Listo alguns detalhes que chamaram nossa atenção, infelizmente, sempre negativamente. Das escolas que visitamos juntos, foi a única em que Helena não conseguiu interagir com outras crianças. Foi a única em que vimos crianças correndo pelos corredores estabanadamente, esbarrando nos outros e sequer se preocupando em olhar pra trás para ver se estava tudo bem (pedir desculpas, então, nem pensar). Foi a única em que, antes mesmo de avaliar o desenvolvimento de Helena, já fomos avisados que ela teria que repetir a série (maternal 1 ou algo assim) em função de sua idade (porque ela teria 1 ano e quatro meses e o certo seria um ano e seis). Não fomos apresentados e não vi biblioteca, simplesmente não sei se existe. Funciona como uma grande corporação, terceirizando serviços como a alimentação, aulas de laboratório de ciências, aulas de inglês e sei lá mais o quê. É a única que em todas as suas salas há instalado um quadro board (primeira vez que vi uma redundância bilíngüe), usando a tecnologia como grande bandeira mas esquecendo que ela deve ser ferramenta ao invés de princípio.

Por fim, além de não encontrar qualquer coisa positiva, ainda é a escola mais cara.

O que queremos?

Nos recusamos a participar da neurose que tem tomado conta de muitos e muitos pais de nossa geração e escolher a escola em que Helena entrará com menos de um ano e meio imaginando em como isso se refletirá em sua colocação no vestibular. Também não queremos uma grife.

Em compensação, fazemos questão de um ambiente que seja agradável a ela, em que ela se divirta e aprenda de maneira natural, em que seja tratada como gente e não como a criança número 9 da lista de chamada.

Ainda lembro de uma troca de cartas entre meu pai e uma professora de português na minha quinta série, sobre uma questão de prova. Não acho que esse distanciamento funcione, não quero passar por algo parecido. Procuramos uma escola à qual tenhamos acesso, em que participemos ativamente do processo de educação de nossa moça, como parceiros que devemos ser, ao invés de entregá-la e buscá-la nas horas marcadas e vocês que se virem.

Ainda não tomamos qualquer decisão, ainda há outras escolas para visitar e algum tempo para pensar. Mas, como vocês podem ver, eliminar opções tem sido bem fácil.

Abstinência

cigarroA pior coisa que um não fumante pode dizer a um fumante é algo como “você não sabe como isso faz mal…” Sinto muito por estragar sua expectativa de superioridade sobre os pobres fumantes, mas se há alguém que sabe como o cigarro faz mal, é o fumante. Sim, todos.

Histórias trágicas também não surtem efeito e ainda pode servir para afastar as pessoas. “Dos meus 12 irmãos, 11 morreram por causa do cigarro”. O fumante dá no pé porque não quer ouvir esse tipo de história, o contador de causos se afasta porque se sente desrespeitado em sua dor.

Mas ninguém é pior do que o ex-fumante. Porque esse já passou pelo perrengue de parar de fumar e precisa contar pra todo mundo o que fez, como fez e como passou a se sentir maravilhosamente bem depois de largar o vício. E sempre tira uma puta onda de como foi fácil.

No momento em que escrevo, sinceramente não sei se sou um fumante, um fumante tentando parar ou um ex-fumante. Porque não sei se vou aguentar, juro. Na verdade, estou escrevendo pra tentar lidar com a ansiedade que está nas nuvens e com a abstinência, aquela coisa de tentar se ocupar pra não pensar no assunto.

Hahahahahahahahaha!!!

A motivação é puramente econômica (7,50 X 30 dias) e o negócio começou na quarta-feira da semana passada, aproveitei uma espécie de janela de oportunidade quando o cigarro acabou no fim do dia e eu resolvi não comprar outro maço. E apenas uma pessoa sabia o que estava acontecendo, o que eu estava tentando fazer, porque a pior coisa que podemos enfrentar numa hora dessas é a patrulha né: “pô, mas você não parou?”

Enfim, na quinta consegui empurrar o primeiro cigarro do dia até umas quatro da tarde, quando já não aguentava mais a dor de cabeça, fora a ansiedade de sempre. Ao fim do dia, foram três ou quatro cigarros e até consegui manter a média por todo o fim de semana, até segunda-feira. Até que ontem, primeiro dia inteiro em casa depois de alguns dois ou três meses, eu perdi a mão e disparei a fumar e destruí o pouco mais de meio maço que tinha em mãos.

Mas bateu aquela culpa de jogar fora o esforço dos dias anteriores e, às cinco da tarde, quando acendi o último cigarro do maço, decidi que não compraria mais.

Junte a ansiedade natural com um dia de notícias profissionais bem mais ou menos e uma noite bem difícil em família. Pelas 10 da noite estava com uma baita duma dor de cabeça. Dor que me acordou três vezes pela madrugada. E que está aqui comigo agora, forte, bem forte. Enjoado que só, já vomitei duas vezes. E já fui ao banheiro três vezes. Tudo isso em pouco mais de duas horas acordado.

Está uma bosta, uma grande bosta! E pelo jeito vou ter que conviver com isso por algum tempo ainda, já vi por aí que pode até piorar um pouco. Chama-se abstinência. Neste momento, se alguém me entregasse um maço, eu colocaria os vinte cigarros acesos na boca ao mesmo tempo.

Aquela história de que a gente sabe que tem uma conta pra pagar. E que conta. E o corpo cobra. Comecei a fumar com 16 anos, hoje já estou quase nos 43, façam as contas aí. Houve períodos de fumar mais de dois maços por dia. Então, é claro que tá difícil. Bagarai!!! Mas vamos ver onde isso vai dar…

Hora da escola (5) (ou meus 11 segundos de “não-fama”)

UbuntuHoje apareci no Jornal Nacional. “Xique núrtimo!” E já comecei a imaginar como os paparazzi vão andar atrás de mim quando estiver pelo Leblon. Mas essa história vem depois. Quero mesmo é contar pra vocês a experiência que tivemos neste ano e que acabou virando pauta de um monte de lugares. Inclusive da turma do Bonner.

Falo da gestão participativa da escola das moças. O negócio funciona mais ou menos assim. Há uma comissão de planejamento, que conta com a participação de pais, diretores, funcionários e professores. Um fórum que se reúne todos os meses para discutir todos os temas que envolvem a escola, desde questões pedagógicas até as financeiras.

Dessas reuniões da comissão, saem os temas que serão tratados na assembleia geral, que por sua vez tem caráter decisório. Isso mesmo, o que é discutido e votado na assembleia está decidido e será adotado pela escola.

Naturalmente, um dos temas mais importantes tratados todos os anos (para muitos, o mais importante), é o valor da mensalidade/anuidade. E em 2015 vivemos algo que só ouvia contar como história.

E aqui abro um parêntese: a comissão de planejamento e a assembleia geral fazem parte do projeto político-pedagógico da escola e nela existe desde sempre. Sim, é democrático e, para ser assim de fato, exige participação. É, galera, dá trabalho. Mas é justamente este caráter participativo, o conceito colaborativo que permeia todas as dimensões da escola que nos dá a segurança de acreditar que estamos no lugar certo, que nossas filhas estão no lugar certo.

ComissaoPlanejamento

Reunião da Comissão de Planejamento sobre as propostas de reajuste para 2016

Voltando à história… Eu sou um dos pais que fazem parte da comissão. E quando começamos a preparar a assembleia, ficou claro – por todas as circunstâncias que estamos vivendo no país – que a mensalidade de 2016 seria a questão dominante, até a única. E a mecânica é a seguinte: a escola apresenta suas necessidades e algumas propostas de reajuste para que tudo siga normalmente, sem a perda da qualidade que temos, sem a diminuição dos investimentos e – especialmente – sem cortes dos projetos de formação continuada do quadro de professores.

E a primeira proposta era um reajuste médio de 10%, apenas para repor a inflação. E foi daí que começamos a trabalhar, a botar a cachola pra funcionar. A escola precisa de um reajuste ou de um aumento de receita da ordem de 10% para ser sustentável?

Alguns dos pais que fazem parte da comissão são especialistas em contas: economistas, administradores, contadores etc. E se debruçaram por cerca de duas semanas sobre todos os números da escola. E os doidos (com todo o carinho aqui, por favor) apresentaram seis cenários possíveis para resolvermos a questão. Entre eles, a proposta que foi aprovada pela assembleia geral.

Reajuste 0

Assembleia Geral

O momento em que a proposta de reajuste 0 foi aprovada pela Assembleia Geral

É isso mesmo, reajuste de 0% nas mensalidades de 2016. E isso será possível se algumas tarefas forem cumpridas, tanto pela escola como pelos pais. A primeira e óbvia, o esforço da escola no corte de custos, com economia de água, energia, telefone etc. Também foi aprovado um corte de 2% em todos os descontos praticados pela escola. Além disso, a escola passa a ter, além da comissão de planejamento, uma comissão de sustentabilidade (formada por pais, funcionários, diretores e professores) que será responsável por implantar ações que diminuam outros custos além dos serviços óbvios.

Mas a maior parte do ganho de receita está baseada na média histórica de crescimento de 5% no número de alunos. E para isso, algumas ações estão em andamento, como a abertura de novos convênios entre a escola e empresas, associações e clubes, e o compromisso dos pais em colaborar diretamente na captação de alunos. E aqui chegamos aos meus 11 segundos de “não-fama” lá do início.

Como incentivo para os pais realizarem essa “tarefa”, criou-se uma “promoção” em que para cada aluno novo, os pais que o indicaram não pagam uma mensalidade. Assim, se alguém consegue trazer 12 alunos novos, fica sem pagar mensalidade o ano inteiro. Boa ideia? Eu acho, de verdade. E essa foi uma das coisas que disse durante a entrevista.

Jornal Nacional

Mamãe, tô na Globo!

Mas vejam só que maravilha. A escola foi uma das que entraram em uma matéria do Jornal Nacional de hoje (29 de setembro) sobre os reajustes escolares em tempos de crise. E em que pese tudo isso só ser possível graças à política da escola, à participação de todos, ao fato de transcender a relação entre prestador de serviço e cliente para ser de verdade uma comunidade escolar, as únicas coisas que saíram na matéria foram o corte de gastos e a “promoção”. Os tais 11 segundos que fecham a reportagem. Desse jeito, falando de promoção, nunca que eu vou aparecer no Ego…

Sim, eu sei como funciona uma pauta, a construção de uma matéria e, especialmente, o tempo da TV. Mas é impossível negar que hoje eu tive o meu dia de xingar a Globo, de dizer que eles manipulam tudo o tempo todo, que são o Grande Satã culpados de tudo de ruim que acontece no Universo.

Depois, com calma, vendo e revendo a matéria, lembrando de todas as limitações, chega-se à conclusão de que ficou legal. Sem contar o reconhecimento de que os caras só apareceram por lá porque somos realmente diferentes.

Ubuntu

Esse é o quinto texto da série Hora da escola, que começou quando ainda estávamos procurando a primeira escola da Helena, em 2010. Hoje, ela e Isabel estão na Oga Mitá. A quem me pergunta, digo claramente que só pretendemos sair de lá por uma questão financeira.

É claro que há problemas. Como canso de dizer, não há escola ideal (existe alguma coisa ideal?). Mas até a maneira de encarar os que aparecem, mesmo com alguns tropeções, é diferente. Então, para nós aqui de casa, o slogan da Oga é a tradução perfeita do que vivemos por lá: Eu sou porque nós somos!

P.S.: Como quem não chora não mama, não custa lembrar que se você leu tudo isso, se chegou até aqui e está pensando em matricular seu filho na Oga, diga que foi indicado pelo Gustavo. 😉

O idiota e a maioridade penal

menor_infratorNão, não falo do Eremildo. Me refiro a mim mesmo. Isso, isso, Gustavo, o idiota. Vejam se não estou certo. Depois de tanto tempo sem dar as caras por aqui, resolvo aparecer para falar dessa tal maioridade penal que gerou uma bela guerra e, de quebra, uma estúpida manobra do presidente da Câmara.

Vamos em frente. Minhas experiências nos últimos anos me ensinaram a tomar algumas decisões de forma muito simples: um esquerdista é contra, seja a favor; se ele é a favor, seja contra. E no fim, eu estarei certo. Saibam que a prática se mostrou mais que certeira. Mas nesse caso, a coisa é um tantinho mais complexa.

Eu, por exemplo, pelo que vejo e ouço por aí, desconfio que discordo de tudo e todos. Ou quase isso. E olhem que ser o outrista nunca foi uma ambição…

Antes de falar propriamente da “maioridade penal”, trato dos jovens de 16 anos, aqueles que cometem crimes ou não. No Brasil, eles podem votar. Como eu acredito que numa democracia não há direito (dever, no nosso caso) mais importante do que esse, defendo que todos os jovens a partir dos 16 anos tenham todos os direitos e deveres que qualquer um. Ou seja, aos 16 anos o sujeito é maior de idade.

Agora, imagine que um garoto, de 14 anos, descole uma arma (branca ou de fogo) e decida fazer uns ganhos por aí. No meio de um dos assaltos, ele mata alguém. Desculpem, mas não acho que ele devesse ser julgado e punido em função da sua idade, mas do crime que cometeu.

E então reproduzo, porque assinaria embaixo, trecho do artigo de Contardo Calligaris publicado no dia 25 de junho.

Acredito que há crimes que são, por assim dizer, próprios da adolescência, de sua rebeldia, de sua inconsequência e mesmo de sua estupidez. E há crimes que são crimes, e basta. O critério não é só a gravidade, mas também a motivação, as circunstâncias, os precedentes, ou seja, fatores que dificilmente podem ser enumerados num Código Penal. Por isso, acho que um juiz ou um júri deveriam decidir, em cada caso, se um acusado será julgado como menor ou como adulto.

Aparte: se não confiarmos em juízes e júris, melhor desistirmos da própria ideia de poder judiciário, não é?

Por mim, a partir dos 12 ou 14 anos, todos deveriam passar pelo crivo de juízes e júris para decidir como seriam julgados: se com critérios para penas “infantis” ou adultas.

Mas e aí, jogaríamos todos nas mesmas cadeias? Bem, talvez eu até seja radical em algumas coisas, mas louco ainda acho que não. Por mim, há que se ter instituições preparadas para receber jovens e adolescentes infratores separados dos adultos, independente de crimes e penas. E acho até que não os juntaria a partir dos 18, mas dos 21 anos. Ou seja, se condenado, o jovem cumpre parte da pena em uma instituição e, a partir da idade definida como limite, segue para a outra.

E isso resolveria a questão da violência? Claro que não, eu não sou estúpido. Seria apenas um caso, um modo diferente do que temos hoje de se aplicar a justiça para quem comete crimes. Punir correta e duramente quem precisa ser punido.

Mas aí vamos explodir o sistema carcerário que já está mais do que ultrapassado e superlotado.

Também tenho uma ideia sobre isso. Não necessariamente boa, mas é minha ideia. E sinceramente acredito ser mais efetiva do que o que temos hoje. Todas as unidades do país deveriam ser federais, privatizadas e necessariamente colônias de trabalho. Agrícolas, para o autossustento, ou não. E educacionais para os jovens.

Trabalhar e estudar não seria uma opção para os detentos, mas obrigatório. Então, da mesma maneira que cada dia de trabalho (com medidas de desempenho) reduz um pouco da pena, cada nota acima de 7 faria o mesmo pelos jovens.

Pois é, demorei a escrever ou mesmo a dar opiniões por aí sobre o tema porque não achava que valia a pena entrar em discussões sem fim e, ainda por cima, correr o risco de ser xingado. Mas não resisti. Então, se você discordar de mim, basta discordar e conversar, argumentar ou mesmo deixar pra lá. Porque, no final das contas, ser educado é sempre melhor.

Cultura, educação, acomodação, medo, desonestidade… Sei lá, mil coisas

PetrobrasEm janeiro de 1962, o ex-presidente Juscelino estava nos Estados Unidos e foi convidado para fazer uma conferência em Harvard. Fim da palestra em que falou de seu governo, suas realizações, a construção de Brasília e deu lá seus pitacos sobre o futuro do Brasil, uma senhorinha no fundo do auditório o interpelou. Segue o diálogo entre a Sra. Benjamin Stimson, de Cambridge, Massachussets, e JK (a tradução é de Mário Ferreira, português que serviu de intérprete).

– Senhor Presidente, me diga, o governo do Brasil é Comunista?

– O governo brasileiro não tem nada de comunista. Pelo contrário, a democracia no Brasil funciona normalmente, com todas as liberdades públicas e individuais asseguradas.

– Bem, Sr. Presidente, se o governo do Brasil não é comunista, como o senhor diz, como então seu país desapropriou minhas ações da American & Foreign Power Co.? Idsso foi em maio de 1959, e até hoje o governo brasileiro não me pagou.

Para quem não lembra da história, o ‘grande democrata’ Leonel de Moura Brizola, quando governador do Rio Grande do Sul, estatizou algumas empresas que atuavam no estado. Em tese, até aí, nada demais. Desde que tivesse ressarcido os donos e acionistas das tais empresas. Como se vê, não foi isso o que aconteceu.

E por que conto essa história, registrada no livro Juscelino, uma história de amor, de João Pinheiro Neto? Por conta do que está acontecendo com a Petrobras, das ações coletivas (sim, no plural) abertas nos Estados Unidos.

É claro que são situações absolutamente distintas, não sou louco. Usei o exemplo da Sra. Benjamin Stimson para falar dos brasileiros e das diferenças culturais que sempre existiram. Nos EUA, os direitos dos cidadãos são sagrados, bem como os direitos do consumidor. E muitas vezes eles se confundem. O americano médio é forjado para defendê-los sempre e acima de qualquer coisa. Nós não somos assim, não fomos criados assim.

Às ações abertas nos EUA, e no Brasil pelo Almeida Law Advogados, qualquer um pode se juntar, incluindo aí os nossos fundos de pensão e qualquer um entre as centenas (ou milhares, sei lá) de brasileiros comuns que usaram seu fundo de garantia para comprar ações da empresa. Será que vão?

Sinceramente, acho muito difícil. No caso dos fundos de pensão, muitas vezes controlados por vassalos do governo, é mesmo improvável. Imaginem se vão arrumar confusão com seus amiguinhos poderosos… Ficaria aí a dúvida em como explicariam o prejú para seus beneficiários ou como (e se) seriam cobrados por eles.

E dos investidores individuais, aqueles do FGTS, o que esperar? Não muito, na verdade. Porque a grande maioria deles é funcionário da própria Petrobras ou de outras estatais. Então, não abrirão processos para não sofrer retaliações internas e/ou porque compactuam com a maneira de fazer negócios e negociatas da turma do andar de cima.

Não importa, pois, se foram enganados. Não importa se no período que compreende as ações a companhia perdeu mais de R$ 100 bilhões em valor. Não importa se os balanços e todo o resto estavam errados e maquiados justamente para esconder o tamanho da corrupção que grassava na empresa.

Muitas vezes, pelas atitudes absurdas que o governo tem na defesa da companhia e dos seus diretores, tem-se a impressão que não se deram conta do tamanho da enrascada. Pois eu desconfio que eles sabem exatamente o tamanho da merda em que se meteram e à maior empresa do país. E já contam com o prejuízo diminuído pela turma do “Brasil de que me ufano” e pela falta de cultura de defesa dos seus direitos dos brasileiros médios, pelo discurso de que bolsa de valores é risco, pela realidade da piada pronta no slogan ‘Brasil, um país de tolos’.

Só esqueceram de explicar que o risco deveria ser calculado seguindo as regras. E a gente sabe que não foi assim

Conversas

Conversa / Fonte: Blog do Eloi ZanettiTive algumas conversas deveras interessantes nas últimas semanas e resolvi contar alguns trechos de algumas delas.

 

1

Fui dar entrada no Seguro Desemprego. Depois de amargar meses tentando fazer o tal agendamento, fui atendido às 17h50 de uma sexta-feira no Centro. Lá a coisa toda aconteceu a contento, atendimento rápido e eficiente. E simpático, vejam vocês. Quando estava quase tudo pronto e a mocinha (funcionária pública do Ministério do Trabalho) já me devolvia os documentos, a coisa se desenrolou assim:

– Só isso, simples assim?

– É

– Olha que quase dá vontade de votar na Dilma…

– Você não vai fazer isso, vai?

– Não, claro que não, nem por decreto e com a guarda em forma

– Ah bom…

– Tá feia a coisa né?

– Ô… E essas oposições não dão as pauladas que têm que dar, parece que têm medo

– É, mas aos poucos as coisas vão mudar, tem coisa nova aparecendo por aí

– Será?

– Você já ouviu falar do Novo?

– Já, claro. Legal né? Parece que os liberais finalmente estão querendo sair do armário

– Então, o negócio é não desistir e participar

– Você já foi a alguma reunião?

– Ainda não, sempre acontece alguma coisa na última hora e eu furo. Mas estou tentando encontrar um espaço pela Tijuca pra propor um encontro, ainda não teve nenhum por lá.

– Ah, legal. Mais cedo ou mais tarde a gente vai se encontrar de novo então.

 

2

Estava no metrô, voltando de uma reunião, com um livro na mão. Sou meio que ímã pra malucos, tagarelas e congêneres. E apesar de estar com um livro aberto, o sujeito que sentou ao meu lado não teve dúvidas.

– Rapaz, tô impressionado com essa campanha.

– Ahã…

– Os caras insistem nessa história de luta de classes, de que rico tem raiva de pobre, que pobre tem raiva de rico. Agora tão inventando até que pobre tem raiva de pobre.

– Ahã…

– Esse negócio de avião e aeroporto, por exemplo. De vez em quando aparece um grã-fino torcendo o nariz pra galera. Isso não é lenda urbana não, só pra colocar medo no povo? E não é o rico que é dono de avião, de hotel, de loja? Por que os caras vão torcer o nariz se vendem mais passagem, se o povo viaja mais?

– Ahã…

-E carro então? Todo mundo reclama que o trânsito tá uma merda. Aí inventaram esse negócio de IPI e venderam mais carro ainda. Quem é que vende carro? Como é que vão reclamar então? E churrasco na laje? Quem é que vende carne? Pergunta lá pro dono da Friboi se ele reclama que pobre compra mais carne!

– Hummm

 

3

Chope de amigos de antão, daqueles que se encontram uma vez por mês pra falar besteiras e matar as saudades. Um deles voltava de férias e esteve no Uruguai. Enquanto discutíamos acaloradamente e resolvíamos o Brasil entre uma tulipa e outra, ele contou uma passagem interessante. É claro que o conhecendo bem, ficamos todos imaginando o portunhol macarrônico em que ele tentava se comunicar. Mas segue o relato já traduzido pelo próprio.

– Entrei num táxi e não teve jeito, não resisti e perguntei do Mujica

– É um bom presidente

– Mas e esse negócio dele morar no sítio, andar de Fusca, ser gente como a gente?

– É pitoresco

– No Brasil ele é tratado como ídolo por muita gente

– Bobagem

– Como assim?

– É um bom presidente e isso é importante. Mas o mais importante é a alternância.

 

4

Sala de casa, último debate presidencial, menina de cinco anos que torce para o América tentando entender o mundo ao redor. Dilma e Marina nos púlpitos.

– Papai, por que elas têm que andar até aquela mesinha pra falar?

– Porque elas vão falar coisas importantes e precisam aparecer bem, destacados dos outros que estão calados.

– E por que essa aí tá falando com soluço?

– Ela não está com soluço

– Mas parece

– É porque pra não falar besteira, tem que pensar antes

– Então ela pensa devagar né?