Sonho meu

Na quinta-feira, no RiR, assisti aos shows ao lado de um garoto de 11 anos. Amigo da filha de um amigo que estava lá com toda a família. O moleque, que já toca guitarra há três anos, violão há quatro e ainda estuda piano.

Foram quatro shows ao lado dele, Escalene, Alice Cooper (que merecia o palco Mundo), Def Leppard e Aerosmith. No fim da noite, depois de assistir suas reações aos quatro, ainda tive a oportunidade de ouvi-lo dizer: “os velhinhos arrebentam…”

Ontem vimos o que vimos com o The Who. E Guns. Putz… Axl, que lixo.

E fico pensando nas bandas fantásticas que estão por aí e que – sei lá porquê – parecem não ter perfil para o RiR. Fica parecendo que há um enorme vácuo geracional entre as bandas, que de fato não é real. E desconfio que o Groo e o Ricardo tendem a concordar comigo. Porque nem é preciso muita força ou muita pesquisa pra encontrar tanta gente de qualidade.

Porque esses caras não vêm? Porque o Lollapalooza consegue reunir um monte de bandas “novas” de qualidade e o RiR segue pagando os vexames que paga? Se vestiu da aura de “maior festival de música e entretenimento” do mundo e só aceita o que é (ou aparenta ser main stream)?

Sim, eu sei que – de certa forma – comparo alhos com bugalhos, falo de dois festivais de perfis muito diferentes. E que também há um monte de detalhes como calendário e agendas de músicos e bandas, fora o resto. Fora o apelo comercial para a venda de ingressos, mas que, com a máquina de comunicação que é o RiR, seria até fácil resolver.

Resumindo: cacete, como eu gostaria – só uma vez – de ser o responsável pela escalação do RiR. E olha que nem penso em acabar com a diversidade de estilos não.

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O Aurora da minha vida

Comecei a velejar meio por acaso, depois de passar anos dizendo algo do tipo “velejar? Eu? Nunca! Imagina sair de casa pra ficar fazendo força o dia inteiro, justo no dia de descansar”. É, esse negócio de dizer nunca é mesmo engraçado, porque a gente sempre (sempre!!!) paga pela língua, né não. E já faz mais de uma década que comecei nesse negócio. Na verdade, faltam poucas semanas para completar 11 anos desde que pisei em um veleiro pela primeira vez, tentando ser um tico mais exato.

Nesse tempo todo, perdi a conta de quantas regatas participei. Além do bravo Picareta – o Velamar 22 em que disputei estaduais, brasileiros e circuitos Rio – e do Fandango – Schaefer 31 em que corri duas Santos-Rio –, tive a oportunidade de conhecer outros muitos veleiros, incluindo aí o Brasil 1 em 2007, máximo da tecnologia embarcada e de construção da época. Mas nunca tinha estado em um catamarã. E nem foi falta de curiosidade não, só oportunidade mesmo. Até que apareceu o Aurora.

Um tapa

E foi mais ou menos assim:  voltas e voltas da vida, chegou a hora de encarar que o mundo mudou, que empregos como os que conhecemos praticamente não existem mais e tals. Num encontro feliz com dois amigos de décadas, a decisão: vamos dar um tapa na nossa vida. E nasceu a Tapa Digital.

Na hora de colocar o bloco na rua, naturalmente apontamos, primeiro, para os amigos. Avisar que nascemos, algo como “ó, tamo na pista, #vemdarumtapa!”. E depois de 10 anos velejando e construindo relacionamentos nessa nesga de mundo que é a vela, nem foi estranho que o nosso primeiro cliente fosse um velejador. Na verdade, mais que isso, um veleiro. O Aurora.

A experiência

Um dia, num chope com quem quiser, conto a história em detalhes. Mas, basicamente, a Tapa nasceu de manhã e na mesma tarde o sujeito ligou. “Tô realizando um sonho e acho que vocês vão gostar de sonhar junto comigo”.

Como não há forma melhor de comunicar uma experiência do que vivendo a tal, chegou o dia de conhecer e experimentar um catamarã. E tudo o que enrolei até agora foi pra falar sobre isso: como é sensacional estar em um catamarã. E sei que posso falar por mim – que sou velejador – e ao mesmo tempo pela turma que carreguei, que nunca tinha experimentado nenhum tipo de veleiro.

Primeiro, a sensação de paz absoluta. Mar, silêncio, vento. Desculpem, mas se vocês nunca viveram isso, aviso logo: não tem preço. A turma – crianças de 3, 5 e 7 anos, além da moça de quem sou consorte (com muita sorte, na verdade, apesar do trocadilho infame) – se sentiu à vontade e segura desde o início. E experimentaram tudo, desde deitar na proa sentindo os respingos da água salgada até pegar no leme e tocar o barco. E a mistura de sorriso com o dia vivido e a chateação do “ah, já acabou?” na hora do desembarque fala muito.

Da minha parte, velejador “experiente” de barcos que caturram como cavalos de rodeio… Putz, que sossego. A estabilidade (o bicho não balança, é incrível) e a facilidade pras regulagens são um alento. Foi mesmo um dia pra guardar na memória, uma daquelas coisas que você precisa transformar em hábito. Voltar e voltar e velejar e velejar…

Chapa branca

É, estava na dúvida se eu devia escrever isso. Você pode estar aí pensando “claro que ele só vai falar bem do Aurora, é cliente. Ainda por cima, é o primeiro cliente”. Talvez você tenha razão. Mas me convenci com a seguinte impressão: se fosse só um cliente comum, bastava seguir o manual, desenvolver as peças e campanhas, estratégias e tudo o mais. Seria simples, nem daria tanto trabalho.

Mas quer saber de uma coisa? Foi pessoal. É uma experiência pessoal, intransferível e inesquecível. Pra mim, pras minhas filhas e enteada, pra mulher que amo (que vira e mexe pergunta quando vamos voltar, “ó, o verão tá chegando”).

Talvez você leia isso tudo e nem me conheça. Não importa. Se chegou até aqui, me sinto no direito de dar uma ideia: vá conhecer o Aurora, vá #descobrirAurora. E se está na dúvida, se ainda está na dúvida, corra o risco. Aproveita que tá rolando uma promoção, a #primaveraAurora, vai que você ganha. Fica fácil fácil. Do meu cantinho, arrisco afirmar: você não vai se arrepender.

Galeão ou Cumbica

Levantando-voo-e1460306680878Esse papo de redes sociais é mesmo um barato. Ao menos na maioria das vezes. Foi assim que conheci a Camila, que compartilhou o texto do Sergio Pugliese com a seguinte observação: “Para quem é empresário, né?”.

Com a rede, nos descobrimos. Ela já tinha ouvido falar de mim, eu já tinha ouvido falar dela. Moramos relativamente perto um do outro, tivemos oportunidades, mas nada de nos encontrar. E ficou aquela “amizade” via livro de caras, nos falamos algumas vezes e tals.

E um dia, muito por acaso, nos encontramos na frente da empresa em que trabalhava e para a qual eu estava prestando um serviço. Encontro rápido, pouco mais que um reconhecimento mútuo com ar de finalmente, “que legal”, “até que enfim” etc.

Pois há algumas semanas, poucos meses, ela foi saída da tal empresa onde – até onde sabemos – ia muito bem, feliz, com resultados, camisa mais que vestida etc e tals. Chegamos a nos falar, vamos colocar a rede pra funcionar e tentar resolver. Mas que nada, ela foi uma das que deu no pé e aterrissou na terrinha.

Talvez ela tenha razão. Ao menos tenho certeza que tem as razões dela.

E como sabemos, não é a única. Alguns outros amigos se mandaram, vários na verdade. Não só para Portugal, mas vários pra lá. Outro, irmão, vai na semana que vem. Fora uma família de novos amigos de infância que, ele já está e elas partem nesta semana.

O texto do Pugliese é lindo, no melhor clima “não vamos desistir da batalha jamais”. Sei não…

Eu mesmo já pensei na possibilidade de me mandar, pra qualquer lugar. Ainda que não seja pra fora do Brasil, basta ser fora do Rio, da rotina e do abandono da cidade. E não, não é apenas um caso de apenas mais divulgação em tempo real como ele diz no texto. Está pior, muito pior. Mas tenho as amarras que me prendem (e das quais não quero me soltar). Filhas, família, amigos, amor…

Enquanto isso, ainda há uma pergunta que meu pai me fez há alguns dias que não sai da minha cabeça: “você toparia ir trabalhar em Porto Seguro com a fulana?”. A resposta na hora foi “claro que sim”. Afinal já são três anos sem um emprego formal, fazendo frilinhas que quase nunca pagam as contas, dependendo da ajuda da família. E ainda que seja maravilhoso ter uma família capaz de dar o suporte que preciso, não é nada fácil viver assim. Não mesmo.

Mas tenho as amarras… E acreditem, é um sofrimento tentar equilibrar tudo isso.

Hoje, aproveitando o gancho da própria Camila, tento fazer andar minha própria empresa. A Tapa Digital, que graças ao Brasil, suas dificuldades, burocracias e custos, ainda vive na esfera da iniciativa, e nasceu com três amigos de décadas na mesma situação. E estamos engatinhando. É verdade que pouco mais rápido que os passos de um cágado, mas vamos indo.

Será que criei mais uma amarra ou será que, como diz o Ricardo, “nosso trabalho está na nossa cabeça e na ponta dos nossos dedos, vai com a gente pra onde a gente vai”. Não sei responder, de verdade.

Mas o que vejo por aí, andando por aí e conversando muito com todo mundo que posso, é que há um desânimo avassalador, um clima geral de desistência. Com a cidade, com o estado, com o país. Vejo a turma de cabeça baixa e me sinto dando murros em pontas de facas.

Não tenho as respostas. Mas sei que se pudesse carregar minhas filhas e meu amor, dava no pé agora, hoje. Amigos e família dão sempre um jeito, visitas, encontros, as redes. E mesmo que eu não consiga ou não possa dar no pé, tento me estruturar para preparar as mocinhas para voarem o quanto antes. E digo e penso e sinto tudo isso com uma tristeza profunda.

Reza a lenda que a frase é de Roberto Campos, que “a saída para o Brasil é o aeroporto do Galeão ou Cumbica”. Ouço isso desde criança. E foram tantos anos de lutas, de sonhos, de tentativas que em alguns momentos até pareceram estar no caminho certo. E pronto, voltamos a ouvir e até a pensar assim.

Sim, ando triste. Muito. Decepcionado, desanimado, frustrado. E não vejo bons sinais, o horizonte anda curto. Sim, tentamos, insistimos, “vamos dar um tapa na vida”. Será?

Um raio

Ela nasceu há cinco anos. E eu a conheci há quatro anos, nove meses e quatro dias. E por muita sorte, fui o primeiro a pegá-la no colo. E ela me enganou!!! Olhou no fundo dos meus olhos, sorriu e eu me derreti achando que era a última bolacha do pacote.

Demorou pouco pra descobrir que ela fazia (e continua fazendo) isso com todo o mundo ao seu redor.

Olhos que faíscam, covinhas que desarmam qualquer um. Ela é raio, é pura luz que, ao mesmo tempo, inebria e acalenta quem está por perto. E seu coração é maior que o mundo. E não, não há corujice aqui. Porque não é nada de fácil não, tem um gênio que Deus me livre. E quando encrenca, sai de baixo.

Ela é assim. O mundo que se prepare, porque ela vai virá-lo de ponta-cabeça. Esse, aliás, já é um costume seu desde sempre, virou todos os nossos mundos. O meu, por exemplo, é virado e revirado algumas vezes a cada dia que estamos juntos.

Dizem por aí que temos, nós adultos, muito a ensinar às nossas crianças. Sei não, desconfio disso. Porque muito além do concreto, é ela que me ensina, que me faz tentar ser alguém melhor todos os dias; é ela, irradiando seu amor, que me ensina o que é amar. É por isso que agradeço por você estar na minha vida, por ter sorrido e piscado e me enganado. Por permitir que eu seja seu pai.

Parabéns minha filha. Parabéns Isabel.

Hora de plantar

Fotos: Flávia Souza Rocha

Alguns dias, por mais simples que pareçam, entram para a nossa história. Fácil assim. Foi o caso da sexta-feira, feriado de Tiradentes.

A previsão não era das melhores e, a princípio, era apenas um compromisso de trabalho. Descobrir Aurora… Eu iria a bordo cedinho para conhecer o barco, ver o que era necessário fazer e preparar tudo para a sessão de fotos que estamos preparando. Mas aí…

– Armando, e se ao invés de passar lá correndo, déssemos um passeio. É fim de semana de crianças e acho que elas adorariam.

– Claro, vambora.

E lá foi a família tralalá ver o Rio por um ângulo diferente. Com o dia lindo, saímos do clube em direção a Copacabana. Até aí, nada demais. O detalhe é que foi a primeira vez das mocinhas a bordo. E foi incrível.

Depois do encantamento, da surpresa de como é um veleiro por dentro, de dar algumas voltas pelo convés, de se espantarem com o tamanho das velas e até por ver peixinhos ao redor, começaram a colocar a curiosidade pra fora. E foi um tal de “pai, o que é isso?” e “pai, pra que serve aquilo?” que achei que não teria mais fim. Bússola, cabos, anemômetro, estais, âncora, maré, as fortalezas, tudo era descoberta.

E Armando, que durante muitos anos trabalhou com crianças, não se fez de rogado quando Isabel, com seus quatro, quase cinco anos, decidiu: “quero dirigir o barco!”. Colocou a mocinha no leme e começou a explicar, mostrar no que precisava prestar atenção e tudo o mais. E ela aproveitou e ficou por ali quase meia hora. E até discutiu com ele pra que lado ir quando o vento deu uma torcidinha.

Helena também aproveitou a chance e ainda tirou onda com uma mão só na roda de leme, enquanto não parava de se espantar porque “estamos no oceano pai!!!” É verdade, que não ficou tanto tempo no timão, mas estava à vontade que só ela…

No fim do dia o vento merrecou, a maré atrapalhou e não conseguimos chegar a Itaipu pra parar e dar um mergulho. Sem problemas. Antes mesmo de desembarcar, Isabel já avisava que “agora quero correr regata com você” e Helena perguntava, de olho comprido para os optimists que passavam, se “a gente pode voltar toda semana?”.

Se a vida é plantar, a semente foi posta. E, pelo jeito, já está germinando. Agora é só cuidar. Com vento e água salgada, claro.

Poesia mora lá…

bandeira_do_gres_imperio_serrano-800x509O primeiro carnaval de que tenho realmente memória foi o de 1984. Não me refiro aos bailinhos no Vila nem dos bate-bolas no Boulevard. Falo de escolas de samba e do arrastão que a Mangueira provocou, indo e voltando pela nova avenida do samba.

Naquele tempo os desfiles entravam pela manhã e a Portela já tinha deixado todo mundo de boca aberta no domingo (manhã de segunda, na verdade).

Enfim, foi por causa daquele carnaval que me formei mangueirense. E foi por causa destes dois desfiles que me apaixonei pelo carnaval da Sapucaí. Com o tempo, fui aprendendo e entendendo cada escola, o significado de cada uma pra história do carnaval e da cidade.

E depois de um bom bocado de desfiles – no grupo especial e de acesso – e de uns bons anos sem colocar os pés na avenida, ganhei um presente. Daqueles que não dá pra se medir.

Império Serrano.

Não sei se a meia-dúzia que 8 ou 9 amigos, do Rio e de fora, tem a noção do que significa isso. Império Serrano.

Tentei não dar bandeira, fiz força para ficar um tanto blasé, mas fiquei tenso durante todo o dia, especialmente na concentração, como não fiquei nem na primeira vez em que desfilei.

É um símbolo, tem uma aura diferente. E nem se trata de ser imperiano, mas de se dar conta do que representa.

É uma instituição, ao lado da minha Mangueira e da Portela. E pra mim, ao lado da Vila, meu bairro querido onde nasci e me criei, de Noel e de Martinho.

De quebra, vejam só, entrei na avenida comemorando o aniversário do meu irmão, que estava ao lado, da minha comadre querida e dela. Ela, imperiana devota de ficar com o coração disparado só de ouvir o primeiro acorde do cavaco, e que me levou para viver esse presente. Foi a certeza de que meu quintal é maior que o mundo.

Desfilamos no sábado, grupo de acesso em que o Império nunca deveria estar, e estou escrevendo antes de saber o resultado da apuração, antes de saber se, no ano em que comemora 70 anos, o menino de 47 vai voltar ao Grupo Especial. Porque não importa. Porque, como disse aí em cima, foi um presente vivido.

Não sei se será possível – algum dia – lhe proporcionar algo parecido com o que vivi nessa “festa” de 10 meses.

E neste fevereiro sem o dia 29 em que contamos nosso tempo, neste primeiro dia de março, aniversário da nossa cidade, “cantando eu declamo esse amor por você.”

Viver X Aparecer X Viver X Mostrar

HendrixA primeira vez que escrevi sobre isso foi depois do show do Paul McCartney no Engenhão. Falo de maio de 2011, quase seis anos portanto. Fui àquele show com minha irmã e sua turma de amigos e lembro de ter ficado muito impressionado com a quantidade de pessoas que não viu o show porque não largava o celular, fosse para fotografar, filmar ou trocar mensagens. E olha que na época nem existia o WhatsApp.

Ficou na minha cabeça a seguinte dúvida: como é que o cara perde a chance de viver o show pra ficar tentando registrar o que dá e contando vantagens em trocas infinitas de SMS?

É incrível como isso piorou desde então. E nos últimos meses vivi duas situações muito parecidas, apesar de em ambientes bem diferentes. No AquaRio e no Museu Histórico Nacional, hoje, na exposição The Art of the Brick.

No primeiro, foi assustador ver as pessoas que trabalham no aquário se esgoelando em megafones, durante todo o circuito, para que o público andasse ou, ao menos, desse passagem para quem queria andar. Foi assustador ver adultos lutando (e roubando) o lugar de crianças junto aos aquários. E foi surreal perceber que quase ninguém ali estava preocupado em ver o que realmente havia nos aquários e tanques, mas faziam o maior esforço para clicar suas próprias fotos e sorrisos duros com os animais ao fundo. Ninguém realmente olhava para os animais, ninguém se interessava em saber que animais podiam conviver em cada tanque, ler as placas e telas à disposição. Mas era necessário mostrar pro mundo inteiro que estava ou esteve ali.

Hoje de manhã foi igual, talvez pior. O trabalho de Nathan Sawaya é, sob qualquer ângulo, impressionante. É realmente fabuloso o que ele é capaz de fazer com aquelas pecinhas coloridas. Mas as pessoas circulam pela exposição trombando umas nas outras, não para ver as obras, mas para conseguir o melhor ângulo. E a melhor selfie, claro. Ninguém (ou quase, vá lá) olha de verdade para as obras expostas, se permite ficar impressionado, de queixo caído. Quando você vê uma pessoa ou um grupo lendo as placas que explicam cada obra, descobre pela cara de espanto e comentários (sempre gritados) que só estão interessados em quantas peças foram usadas em cada uma.

E se você tenta dar um passo atrás para ver as obras de outra perspectiva ou ficar parado mais de cinco segundos para entender cada uma ou resolve ler as placas, ainda leva uma bronca ou ouve um comentário de mal humor porque está atrapalhando a foto. Foi quando resolvi escrever a respeito e tirei a foto (única) que ilustra o post.

E pelo que ouvi nos últimos tempos aqui e ali, esse nem é um fenômeno nacional não, antes que alguém se anime a gritar emocionado “isso aqui é Brasil!!!”. Cacete, para quê – afinal – as pessoas vão a exposições, museus, shows, teatros ou sei lá mais o quê?

Sim, eu tiro fotos, até faço vídeos de vez em quando, não sou um ET. Mas qual a razão de se fazer as coisas, visitar lugares etc?

Mas pensando no que ando vendo e vivendo por aí… Não deve ser por acaso que, quando uma criança perguntou curiosa o que era aquilo (uma reprodução em 3D da tela The Kiss, de Gustav Klimt), a mãe o puxou pelo braço dizendo que aquilo era “só a moça e o moço”. Também não deve ser por acaso que, quando estava na última sala, ouvi uma outra senhora olhando a última obra, de nariz torcido, enquanto a fotografava (claro!!!), dizendo “ah, isso é coisa de artista mesmo”.