Trilha sonora

O fim de semana foi dos melhores. Muito choro no sábado e domingo especialmente dedicado a Jackson do Pandeiro (depois, outro dia, explico isso). Aproveitei que o Ron Groo me lembrou do Vanguart e usei a segunda e a terça pra mudar de ares, digamos assim. Porto Alegre, São Paulo, Patos de Minas e Cuiabá. Esse foi o resultado do giro, por enquanto.

O que tem de música boa sendo feita por aí não está no gibi. Mas é preciso se dar ao trabalho de, vez em quando, procurar, fuxicar. Ou, vá lá, contar com um tanto de sorte de algo realmente novo aparecer nas listas de “descobertas” da semana dos seus aplicativos favoritos. Mas vamos ao que interessa.

Comecei com a lembrança do Groo, Vanguart. Os caras são de Cuiabá e já tiveram momentos de alguma badalação, apareceram em uns programas Globo e até gravaram disco do Multishow. Lançaram agora há pouco, junho, um disco que prometia muito mas entregou pouco: Vanguart sings Bob Dylan. Concentrado nos primeiros 15 anos da obra do bardo, a coleção de 15 faixas é incrível, mas no fim das contas o disco não ultrapassa a homenagem correta. Respeito demais, originalidade de menos. O que não combina com seus três discos autorais: Boa parte de mim vai embora, Muito mais que o amor (pra mim, o melhor) e Beijo estranho. Se for curioso, escute também o disco solo do vocalista Hélio Flanders, Uma temporada fora de mim. Hélio canta bagarai, apesar de ser dramático demais, às vezes.

Depois “fui” a Porto Alegre ouvir um disco que adoro: Maravilhas da Vida Moderna. Tristemente, o Rio Grande do Sul tem tradição de muito boa música pouco reconhecida, apesar do Humberto Gessinger. Fazia tempo que não ouvia Dingo Bells, a ponto de não saber que tinham lançado, no ano passado, seu segundo disco. Todo mundo vai mudar é muito bom, mas o “Maravilhas” é tão tão foda que, ao caírmos na armadilha da comparação, corremos o risco de não lhe dar o devido valor. E se você é meio vintage, que gosta de ter o CD em casa, vá à loja da banda, porque os álbuns não se resumem aos discos. Vêm numa embalagem diferente e com projeto gráfico de bater palmas.

O terceiro passo desses dois dias foi em São Paulo. Se você diz que gosta de rock ou, vá lá, indie e não conhece O Terno, sinto muito. Mesmo. Até agora, são quatro álbuns – além de aparições em um monte de outros discos, incluindo Lulu Santos e Tom Zé. O último, <atrás/além>, lançado agorinha há pouco, é bom demais. Meu preferido é o terceiro, Melhor do que parece. Agora, ouvir os quatro em sequência é algo muito legal, porque é quase tátil a evolução nas composições e na sonoridade.

Aí lembrei de O Berço e me mudei para Pato de Minas. Em 2014 lançaram Alto do Vale. E se você gosta da psicodelia setentista, entre outras influências, é um disco imperdível. Gosto muito. O problema é que a banda acabou. Dois dos integrantes originais saíram do Brasil e o que era pra ser um hiato virou o fim. Mas… Sim, há um mas. À turma que sobrou por aqui, se juntaram novos músicos de Patos e da região para fazer nascer uma nova banda: Pássaro Vivo (sim, o nome é ruim, mas lembrem-se que já tivemos Miquinhos Amestrados e Abóboras Selvagens). Por enquanto, o que temos é um EP com sete faixas, Sobre Asas e Raízes. Pro meu gosto, de médio pra fraco, uma pena.

No fim das contas, estou mesmo curioso sobre o que vai aparecer de sugestões depois de ouvir tudo isso em sequência, uma espécie de overdose no algoritmo.

Agosto

Acho engraçado as reclamações e lendas e sei lá mais o quê. O “mês do cachorro louco”, “o mês interminável”… Bom, isso ele é mesmo. 31 dias, sem feriados. A partir do momento que o sujeito tem de trabalhar e pagar contas, isso tem o peso do mundo.

Por outro lado, tenho mãe aniversariante em 1º de agosto. Ou seja, meus caros, sem agosto eu não existiria. Salve agosto! Ave agosto!

O agosto de 2018 tem um quê a mais para se reclamar, pois não ganhamos a Copa e ainda temos eleições. E que eleições, não é mesmo? E que candidatos…

Mas vamos ao que importa. Lendo Xico Sá, fui parar em Caio Fernando Abreu. E reencontrei o texto que, à moda da época, viralizou. E ele está aí embaixo, vale a leitura. Publico, a 24 dias de terminar o mês, um texto que já tem 23 anos. Saiu (ainda era a época em que as coisas saíam no jornal) originalmente no Estadão, no dia 6 de agosto de 1995. Então é bom lembrar que a internet (mal) engatinhava e tudo o mais que se torno possível por conta dela.

Também, pela data, a referência a FHC. A ele, nos dias de hoje, somaria uma renca de gente: Temer, Lula, Aécio, Moro, Mendes, Dilma, Renan… A lista é praticamente infinita, com destaque especial para Bolsonaro. Ah Brasil, onde foi que lhe metemos?

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso, antes de mais nada, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso, quem sabe, ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente “ah!”, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros angúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções – úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancun ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem se vingar, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

Sonho meu

Na quinta-feira, no RiR, assisti aos shows ao lado de um garoto de 11 anos. Amigo da filha de um amigo que estava lá com toda a família. O moleque, que já toca guitarra há três anos, violão há quatro e ainda estuda piano.

Foram quatro shows ao lado dele, Escalene, Alice Cooper (que merecia o palco Mundo), Def Leppard e Aerosmith. No fim da noite, depois de assistir suas reações aos quatro, ainda tive a oportunidade de ouvi-lo dizer: “os velhinhos arrebentam…”

Ontem vimos o que vimos com o The Who. E Guns. Putz… Axl, que lixo.

E fico pensando nas bandas fantásticas que estão por aí e que – sei lá porquê – parecem não ter perfil para o RiR. Fica parecendo que há um enorme vácuo geracional entre as bandas, que de fato não é real. E desconfio que o Groo e o Ricardo tendem a concordar comigo. Porque nem é preciso muita força ou muita pesquisa pra encontrar tanta gente de qualidade.

Porque esses caras não vêm? Porque o Lollapalooza consegue reunir um monte de bandas “novas” de qualidade e o RiR segue pagando os vexames que paga? Se vestiu da aura de “maior festival de música e entretenimento” do mundo e só aceita o que é (ou aparenta ser main stream)?

Sim, eu sei que – de certa forma – comparo alhos com bugalhos, falo de dois festivais de perfis muito diferentes. E que também há um monte de detalhes como calendário e agendas de músicos e bandas, fora o resto. Fora o apelo comercial para a venda de ingressos, mas que, com a máquina de comunicação que é o RiR, seria até fácil resolver.

Resumindo: cacete, como eu gostaria – só uma vez – de ser o responsável pela escalação do RiR. E olha que nem penso em acabar com a diversidade de estilos não.

A carta

fogoQuando Ana e Zé se viram pela primeira vez o garoto ainda não tinha chegado aos 20 anos. Mal começara a faculdade e nem carteira de motorista tinha. Ana, em compensação, já morava sozinha nos seus vinte e poucos, trabalhava, sabia bem o que queria (ao menos era o que ela pensava…).

Se conheceram por acaso, em um evento em que os dois estavam trabalhando. Ele, estagiário. Ela, coordenadora. Ele tentando descobrir o mundo, ela já se achando dona. E mesmo assim rolou aquele clic. E daquele tal evento que duraria vários dias, o esbarrão foi logo nas primeiras horas. Enquanto davam conta, cada um do seu trabalho, se viravam para se encontrar. Fosse para almoçar, fosse para brincar no parquinho mequetrefe que existia nos fundos do pavilhão onde estavam. Ele, que até hoje morre de medo de altura, querendo impressionar, criou coragem para uma volta na montanha russa que tinha ares de filme B.

Hoje não lembram mais se o primeiro beijo foi logo ali ou depois do passeio nada assustador no trem fantasma. Mas engataram o namoro, quem diria? Tudo isso já faz quase 25 anos. E enquanto se sentia meio que o Eduardo, Zé se apaixonava. Mas Ana não era Mônica. E apesar de grandes momentos e até algumas aventuras, o casal nem chegou ao Natal daquele ano. Vida que segue, pois.

E os anos passaram como pra todo mundo. E vieram os casamentos e os filhos. Mas de uma maneira, talvez estranha, certamente inesperada, mantiveram contato. Falavam vez em quando e – vá lá – podiam até se dizer amigos.

 

Demorou mais de dez anos para que se reencontrassem, finalmente dispostos e disponíveis. Ela linda como sempre, morena de olhos verdes e sorriso infinito. Ele já achava que era homem, barba bem feita e um bom emprego. E chegaram a sair algumas vezes, sem e com filhos. Programas a dois e a muitos. E do alto da sua prepotência, “agora ela é minha”, abriu a guarda. E entrou pelo cano. De novo. Dessa vez, sem aviso, sem conversa, sem abraço. Ele esperando. Ela sumiu.

E nenhum cataclismo aconteceu, muito pelo contrário. Vida que segue, de novo, pois.

E a moça casou de novo. E ele teve bandas. E ela lançou livros. E ele deu a volta ao mundo. E ela pintou quadros. E ele casou de novo. E ela compôs belas canções. E ele também. E os dois descasaram. Ambos mais de uma vez.

A moça, virava e mexia, lhe aparecia na lembrança. Mas não era amor nem paixão nem abandono, nada além da sensação estranha de algo inacabado. E não é que um dia, o sujeito tranquilo em casa, piscou a janela de mensagens da rede social? Justo no momento em que tentava descobrir como recomeçar a vida depois de mais um casamento desfeito, quarto ou quinto a essa altura, vá saber.

– E aí, tudo bem?

Não, não estava tudo bem. Sozinho de novo, perrengue no trabalho, em crise até com os filhos, “vou virar eremita no Nepal”.

– Tudo ótimo, e por aí? Novidades?

E seguiram nessa lengalenga por dias, semanas, sem maiores escaramuças ou provocações, até criarem a coragem pra se ver. Encontro protocolar em boteco com mesas de plástico. Mas a cerveja, pelo menos, era gelada. E depois de muitos goles, finalmente cumpriram o inevitável. E se acreditando sem cobranças ou compromissos, se aproveitaram. Não sabiam ao certo se estavam tirando o atraso, recuperando o tempo perdido ou vivendo uma nova história. Mas sorriam, como sorriam…

 

Mas tem coisas que não são pra acontecer. E, de novo e do nada, a moça silenciou.

– Podemos nos ver hoje à noite?

– Não, não podemos. Não quero casos, amantes ou namorados. Não quero me sentir presa.

 

Quando o sujeito já acreditava que não a veria mais, quando decidiu que tinha tudo chegado ao fim, mesmo achando que não existia um fim, a tal caixinha de mensagens piscou na tela à sua frente.

– Em 2025 te conto porque não deu certo dessa vez. Tudo anotado.

– Se está tudo anotado, fala logo. Dez anos é muito tempo.

– Nos encontramos no lugar de sempre, pra não ter dúvidas. E se não quiser esperar, azar o seu.

Conversa estranha justo no dia do aniversário dela. À noite ele não apareceu. Nem flor, nem recado, nem bombom. Pra quê?

 

Alguns meses depois, foi atingido. Bala perdida quando saía de um boteco no Grajaú. Não resistiu. Ela soube, mas faltou coragem de aparecer pra se despedir pessoalmente. Sozinha na varanda, entre as tintas, telas e os violões encostados na parede, abriu uma cerveja e escreveu uma carta. Sem lágrimas, sem rasuras. E depois do último gole, queimou aquelas folhas de papel com a história que não seria contada dali a dez anos.

Uma boa pergunta

Metro São Paulo - David BowieJá faz uma semana que recebemos a notícia. E ontem tive uma conversa pra lá de interessante, sobre o peso das coisas e o tamanho das pessoas. Muita gente ficou muito impressionada com a dimensão da cobertura, do espaço dado à morte de Bowie.

Flavio Gomes, por exemplo, escreveu pouco mas escreveu muito a respeito: “David Bowie preparou a morte, imaginou a morte, cantou e filmou a morte. Foi artista até o derradeiro segundo, fez da morte, arte.” Se referiu a Lazarus, claro. Mas falou muito sobre o que Bowie foi.

O irmão Ricardo Santos fez o diagnóstico preciso: “A variedade de músicas postadas para homenagear Bowie prova seu apelido”. Mais do que o apelido, se referiu à capacidade e à variedade criativa que fez com que alcançasse o público absolutamente diverso que tinha.

E há por aí, fomos inundados na verdade, por uma infinidade de textos sobre o sujeito que era mesmo fenomenal.

Mas, voltando ao que importa aqui, a tal conversa de ontem começou com o espanto: “quase um bloco inteiro do Jornal Nacional!”… “Capa de Veja!”… Veja, na verdade brilhante, fez 12 capas diferentes. Mas não foi só isso: não houve jornal ou portal ao redor do mundo que não desse destaque ao sujeito. Mas a partir dessa constatação, veio a melhor pergunta da noite:

“- O que vai acontecer com a imprensa, qual vai ser o espaço, o que o mundo dirá quando caras como como McCartney, Clapton, Jagger e Richards, Wonder, Page, Waters e Gilmour, Van Halen morrerem? E no Brasil, quando o Roberto Carlos morrer?”

Sinceramente, não sei responder. E sim, é uma boa pergunta, que vai muito além de gostar ou não gostar do artista tal. A questão é perceber sua relevância. Alguém se arrisca a dar um palpite? Alguém se arrisca a aumentar essa listinha?

A ciranda da vida…

…Que gira e faz girar a roda da vida que gira.

É, eu poderia pegar trechos das canções do cara, escrever, reescrever, talvez até transmutar em algo razoável, mas que nunca chegaria a ficar bom. Porque se você reparar, ouvir com cuidado, tudo o que precisa ser dito já está.

Feliz 2015!

Bobeira, acaso e música boa

VitrolaSão 4h35 da manhã e devia estar trabalhando, aproveitando que a turma toda está dormindo. Estou trabalhando, preparando aulas, e resolvi dar uma parada pra refrescara a cabeça. Fui dar uma zapeada e dei de cara com o programa Live@Home.

Sou do tempo em que, para descobrir sons novos – mesmo que antigos – tinha que gastar algumas horas em um loja de discos. Muitas vezes não dava pra ouvir na hora, você tinha que arriscar, ou acreditando na indicação do vendedor (nas boas lojas, os vendedores entendiam de música), ou acreditando que a capa era uma espécie de prólogo do que vinha por aí.

Foi assim, por exemplo, que descobri o Artie White, comprei o CD porque o cara estava em pé na capa, sozinho, envergando um discretíssimo terno azul turquesa, com chapéu e tudo. Pensei que “esse negão tem que ser bom”, e não me enganei.

Também foi assim, se lembro bem da história, que o Caius resolveu comprar o primeiro CD do Jota Quest, os caras de terno e perucão black power sobre uma base psicodélica. Funk-soul total. Ele que apareça pra confirmar ou não minha memória. O que é certo é que não se enganou e me apresentou. Infelizmente os caras não mantiveram o nível de produção nos discos seguintes.

Como se vê, as indicações sempre foram uma boa fonte. Foi assim que conheci a Joss Stone. Um dia meu pai me ligou pra confirmar se ia passar na casa dele no fim de semana. Avisou: “se prepare pra ouvir uma garota de 17 anos que é espetacular”. O pagamento só veio a pouco tempo, quando coloquei ele pra ouvir o Alabama Shakes, que descobri sozinho.

A última indicação que recebi e valeu muito a pena foi da Carlinha, The Lumineers. Como quase sempre, a música dos caras que estourou por aí era a pior do disco. Mas os caras são muito, muito bons.

Acaba sendo cômico, pra não dizer trágico, que eu que passo a maior parte dos meus dias em frente ao computador acabe não gastando muito tempo pra garimpar sons diferentes, coisas novas ou que o valha. E como nunca me preocupei muito em ser o primeiro a descobrir talentos, a estar na crista da onda e coisas do gênero, sigo em frente sabendo que perco um sem número de oportunidades de ouvir boa música. Acabo contando com o acaso.

E voltamos ao programa de TV. Encontrei com Jamie Cullum. Potaquéoparéu!!!! Como é que nunca prestei atenção ao cara que já estava lá atrás, na trilha da Bridget Jones? Nos dois filmes!!! O cara já lançou cinco álbuns e virou referência no jazz. E eu dando essa bobeira. Enfim, não dou mais.

Se você é que nem eu, meio desligado, meio atrasadinho, taí embaixo o programa com o cara. Também vale dar um pulo no Grooveshark e ouvir suas gravações originais. Acho difícil não se apaixonar.

E se tiver alguma boa dica, não se acanhe. Vale qualquer estilo, juro. Só não vale música ruim.

Os cocares do Dalí

Salvador DalíE aí caímos na esparrela do viradão do CCBB e fomos pra lá ver o Dalí. Afinal, é o último fim de semana da exposição.

Primeiro, vamos ao mais importante. A exposição é muito boa, uma bela coleção que veio ao Brasil, com um belo espectro da obra do sujeito em todas as suas fases. Algumas obras muito conhecidas, outras nem tanto o que é sempre muito bom. Eu, entre outras coisas, não conhecia suas ilustrações para alguns livros e me encantei, me apaixonei na verdade, pelas gravuras para O Velho e o Mar.

O grande problema da exposição, e eu bem fui avisado pelo meu pai, é a iluminação das obras. As salas a meia luz, com pequenos spots apontados para cada um dos quadros. Algo curioso, que não se vê quando visitamos os melhores museus do mundo. De quebra, e como bem lembrou minha consorte, quando o sujeito pintou o quadro, ele pintou o quadro e ponto. O que ele queria mostrar está ali na obra, sem especificações de iluminação ou qualquer coisa do gênero. E quando o curador resolve fazer uma coisa dessas, ele interfere na obra. E isso tem sido comum nas exposições que aportam ao sul do equador.

Agora a roubada. Não sei também com que objetivo, mas armaram uma tenda com DJ na porta do CCBB. Na única porta disponível. Estava um caos. Entrar e sair era uma luta. E nós levamos as crianças, Helena pediu pra ver a exposição e quando ela se deu conta de que estávamos chegando, bateu palmas e deu vivas.

Demos nosso jeito. Entrar até foi mais fácil. Sair, só aos empurrões. A fila nem estava das maiores, mas o barulho e a circulação de um público que foi até lá para curtir a balada e nem aí para a exposição tumultuou demais. Se pra nós foi difícil e desconfortável, imaginem para os idosos (e havia vários) e deficientes, cadeirantes ou não.

Na porta, naquela única, só havia um segurança que apesar da sua boa vontade era incapaz de organizar a entrada e saída das pessoas. Resumindo: se a ideia, de forma geral, era boa, o planejamento e execução foram trágicos. Uma zona pela qual não me arrisco de novo a passar, mesmo sem as crianças.

Helena também pediu pra ver o Miró, nós também queremos ir. Pelo jeito, a solução será matar um dia de aula, assim no meio da semana, pra não entrar em outra roubada. Porque minha sensação é que voltei pra casa com alguns cocares na cabeça.

Tóis

Então chegou definitivamente a hora de virar a página. Ainda não me acostumei, mas a Copa acabou de verdade e há coisas mais importantes a fazer agora. Afinal, outubro e as eleições já estão chegando. Só pra dar um exemplo, claro.

Então, pra encerrar com chave de ouro o assunto (pelo menos até que o novo técnico da Seleção seja anunciado), segue a crônica esplendorosa publicada na segunda-feira pelo Joaquim Ferreira dos Santos.

Logo depois, os dois grandes vídeos de encerramento das coberturas da ESPN (internacional) e da BBC.

O fim de Tóis

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados

Dedo de Deus, Teresópolis / ReproduçãoÉ pau, é pedra, é o fim do caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível. Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das batalhas — e se julgavam mais motivados.

Ninguém sabia onde queria chegar aquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à mostra. Diziam-se uma família.

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.

Durante um mês, estes 23 soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa sobre futebol, pois já de tudo sabiam.

Os guerreiros de Tóis eram os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano. Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.

Antes das pugnas, os meninos de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na taça.

Os guerreiros de Tóis chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra. Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

Definitivamente, o ar rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.

As ordens com que administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.

Os guerreiros de Tóis se achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.

Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam.

Tóis era a reunião de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado. Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde estava tatuado “Tudo passa”.

Nada passa, tudo fica — e fez-se o apagão eterno em Comary.

Nunca mais Tóis.

 

Crônica de sexta-feira (22)

Meu fornecedor de crônicas de sexta-feira sumiu. Deve estar de férias, talvez esteja na França, a caminho de Le Mans. Será? Por hora, o que importa é que lembrei do Literatofonia. Já publiquei uma crônica de Thiago. Como é bom, está de volta. E a trilha sonora está aqui. Uma canção que, sei lá por quê, não sai da minha cabeça há dias. E combina com o dia.

A menina da poltrona catorze

Como quase sempre, escolhi um assento no meio da última fileira.

Ela chegou quando todas as luzes já estavam apagadas e, quando fiz menção qualquer em oferece-la passagem, ela foi sutil:

– Não se preocupe, moço, não vou passar. Vou sentar aqui ao seu lado, obrigada.

Catorze palavras depois, ela se acomodou em silêncio perturbador. Poltrona catorze. A voz e o perfume assaltaram meus sentidos, quase adormecidos até aquele instante que precedia o início do filme. Pude senti-la intensa e imediatamente, mesmo que só por duas frases impessoais e pelo frescor aldeído que a pele emanava. A voz, mais delicada. O perfume, mais agressivo. Ambos doces e paralisantes.

Não consegui assistir ao primeiro minuto e meio. A silhueta da moça insinuava traços perfeitos, mas o contorno do rosto e o nariz ainda insistiam nalgum mistério. Indiscreto e ressabiado, reclinei o pescoço e desviei os olhos como se o drama estivesse projetado sobre o corpo secreto à minha esquerda.

A Menina que Roubava Livros me pegou pelas mãos e me levou ao passado nazista de uma terra distante que só conheci depois da barbárie. Liesel me encantou, logo me deixou esquecer da menina que habitava a poltrona vizinha. Na verdade, estávamos nós dois passeando por uma Alemanha de ruas cinzentas – povoadas pela suástica e a bola de capotão; a guerra e o futebol. Alemães, judeus, soldados e comunistas. Crianças. Perseguidos e perseguidores. Fogueiras. Sorriso de acordeão. Clandestinidade. Cenas e frases sublimes. “Palavras são vida. Se seus olhos falassem, o que diriam?”.

Os olhos dela não falavam, mas, ainda que escondidos no breu do cinema, diziam muito. Lacrimejavam. Tímidos, primeiro. Depois transbordavam, navegando entre a crueldade hitleriana e o amor infantil da literatura. Da poltrona catorze, fez-se mar. A moça cuja beleza eu adivinhava sem pressa agora se desnudava no choro convulsivo feito uma judia a caminho do exílio. Entre um soluço e outro, levou as mãos ao rosto. Sofria mais do que o personagem. Talvez porque fosse descendente daqueles miseráveis condenados ao nada, talvez porque não queria aceitar a advertência de que a morte é inevitável.

Pensei em conforta-la, de repente toca-la nos ombros e manifestar carinho. Não o fiz porque já não sabia medir, àquela altura, a sensatez entre a boa fé e minhas segundas intenções. Retomei o longa-metragem. Impossível não me lembrar da visita a Auschwitz, quatro anos atrás, e em todas as sensações que essas memórias ainda me causam. Chorei – e percebi que ela me olhava pela primeira vez desde aquele par de frases cândidas. Mantive a inércia provocada pelas reminiscências do campo de concentração e não devolvi o olhar, mas tenho certeza que ela se sentiu mais segura ao testemunhar minhas lágrimas.

A voz onisciente da história (ou História?) concluiu que os seres humanos são assombrosos. A trilha sonora ainda ressoava triste e reflexiva quando ela se levantou. Saiu apressada tateando os degraus na ponta dos pés, não sei se para esconder o rosto molhado ou para escrever sobre o nosso breve romance platônico.

Sugeri a mim mesmo alcança-la nos corredores iluminados, coloridos e barulhentos lá fora – mas continuei sentado até que o piano silenciasse depois do último crédito. Caminhei de volta pra casa conformado com a verdade da frase que o filme ecoava: ninguém vive para sempre.

Aquela moça viveu o tempo necessário para que eu a presumisse e a desejasse, mas não a tivesse. A menina da poltrona catorze viveu pouco mais de duas horas e partiu sem rastros. Levou consigo, roubado, o livro que eu gostaria de escrever. Deixou comigo, nesse pedaço tosco de papel, os rabiscos de um romance mudo sem final feliz.

Thiago Crespo