Entre clichês e paixões

Ontem fez 20 anos que Senna conquistou seu último título mundial, o terceiro. Na segunda, outra data importante para quem gosta de corridas, principalmente no Brasil: trinta anos do primeiro título do Piquet.

Mas a semana que começou no domingo teve duas notícias relevantes, para dizer o mínimo. A primeira, dadas as circunstâncias, menor. A nova vitória de Vettel no GP da Coréia do Sul e a conquista mais que esperada do bicampeonato de construtores pela Red Bull.

A outra nova, tão importante quanto trágica, a morte de Dan Wheldon no oval de Las Vegas, pela Fórmula Indy. Tão estúpida e desnecessária quanto qualquer morte que não seja por causas naturais, quanto qualquer morte por bala perdida ou explosão de botijões de gás.

Mas, assim como aconteceu com Senna e tantos outros pilotos, nos choca. Afinal, além de jovens e de sucesso, morrem ao vivo. Praticamente esfregada na nossa cara num momento em que estamos ali, diante da TV, assistindo a algo que pretendia nos divertir, nos fazer sorrir.

Já não assisto à Indy como antigamente, na época da CART, não sei dizer quanto bom ou ruim era Wheldon. Mas li e ouvi muitas referências à sua qualidade, ninguém é campeão de nada por acaso, ninguém vence duas vezes em Indianápolis – entre outras – à toa. Mas o que mais impressionou foi a reação de muitos e muitos pilotos, entre outras tantas pessoas mais ou menos envolvidas com o momento, desabando em lágrimas por ele. Não são atitudes, apenas, de respeito por um bom colega de profissão. Reações pela perda de um amigo.

Algo me deixou muito impressionado nas imagens que vi de Wheldon: em todas as fotos que encontrei, mesmo nas nitidamente não preparadas, ele estava sorrindo. Não deve ser por acaso e talvez ajude a explicar as reações gerais.

Mas, afinal, por que continuamos assistindo e dando valor a algo que é definido pelo clichê ‘esporte de alto risco’? Porque se é verdade que Senna foi o último a morrer na F1, muitos pilotos continuam morrendo (ou quase) todos os anos andando sobre duas ou quatro rodas por aí.

Um pouco sobre isso, talvez tentando uma explicação, André Forastieri escreveu artigo que vale ser lido inteiro. Segue um trecho:

Quem corre, corre risco de morte. É grande parte da sedução deste “esporte”. É por isso que atrai grande audiência, e corrida de kart ou bicicleta, não. No risco de acidente está a grana, o patrocínio, o faturamento. É para isso que pagam um dinheirão para os pilotos.  É por isso que Wheldon, ex-campeão, receberia dois milhões de dólares pela participação na corrida em que morreu.

Enfim, automobilismo é algo que nos apaixona. Talvez ou apesar, não sei, justamente pelo risco de morte. Como gosto de textos passionais, encontrei mais dois que valem muito a pena. O primeiro, do Victor Martins:

Duro, mesmo, é quando a gente não espera. Duro é quando se bate à porta, assim, como intrusa. Maldita oficiala de justiça, sem justiça, com a intimação do despejo em punho e que só dá o direito de levar a roupa do corpo e nada mais. Em vez de esperar, ela busca. A única certeza é cruel e invencível.

O outro, do Verde:

Vi as primeiras voltas nervoso, ciente de que um acidente violento era inevitável naquele oval de absurda inclinação de 20°. Em poucos minutos, ele aconteceu. Peças voando. Fogo. Tensão. Um piloto não está bem. Vamos aos comerciais. Retornamos. Dan Wheldon está morto. Perplexo, saio da sala. Vou ao quarto. Não costumo chorar por mortes, sou meio frio com essas coisas e, estupidamente, costumo pensar que chorar por um desconhecido é patético. Mas mandei a filosofia barata à merda.

Abstinência sem crise

É curioso, irônico talvez, que um dos piores circuitos da Fórmula 1 tenha sido a casa daquela que é considerada a maior ultrapassagem da história da categoria: Piquet sobre Senna, por fora. Se nunca viu, vale a pena procurar por aí, não é difícil de achar. Reza a lenda, inclusive, que ao final da manobra, Nélson teria colocado a mão para a fora e acenado com o dedo médio levantado. Vale pelo chiste.

Se você gosta de corrida, já sabe como foi a prova na Hungria, já leu um monte de comentários, já ficou cansado de ler todas as manchetes que exaltam a grande capacidade de Button em guiar em situações adversas e como ele é mágico ao cuidar de seus pneus. É claro que ele não é um piloto comum, ou não seria campeão do mundo mesmo com um carro imbatível nas mãos (ahhhh Rubinho…), mas descontem os exageros.

A corrida foi excelente graças à indefinição climática e condições de pista que variaram muito durante todo o tempo. E foi decidida pelo erro de avaliação cometido pelo conjunto McLaren/Hamilton. Uma bela duma cagada, na verdade, que jogou no colo de seu outro piloto a vitória em dia bem especial para ele: comemorava suas 200 largadas. E, bela coincidência, foi justamente no circuito magiar, em condições parecidas, que ele conquistou o primeiro de seus 11 troféus de vencedor.

Ao final da corrida, apesar de não estar no alto do pódio pela terceira vez consecutiva, Vettel tinha ainda mais vantagem sobre o segundo colocado no campeonato, seu companheiro Mark Webber. E ainda tem gente que não percebe que o campeonato está decidido.

Agora, férias. Serão quatro semanas de abstinência, um período pior que o intervalo entre o final de uma e o início de outra temporada, pois que temos as festas de final de ano e os primeiros testes de pré-temporada para nos entreter. Agora, dificilmente haverá até boatos.

A próxima próxima acontecerá na Bélgica e é claro que todas as equipes aparecerão com muitas novidades. E saberemos quem e como evoluiu mais. Para McLaren e Ferrari, a possibilidade de um último suspiro. Para a Red Bull, a percepção de que ainda são os melhores ou que devem colocar suas barbas de molho. Uma vez que a recuperação rápida e acentuada das rivais neste ano deverá ter resultados concretos no ano que vem.

Como será o amanhã?

Como adaptar a expressão “o que não tem remédio, remediado está” quando se espera uma decisão que não veio? Pois na primeira prova do ano, o GP do Bahrein, estarão alinhados quatro carros Lotus, dois pretos e dois verdes. Por que o julgamento que começaria hoje e terminaria amanhã foi adiado pela justiça inglesa para o dia 21 de março, uma semana depois da primeira corrida da temporada, uma semana antes da segunda, na Austrália.

E aí, o que esperar. Será que uma decisão judicial obrigaríamos a conviver com uma equipe com dois nomes diferentes no mesmo ano? Depois de iniciado o campeonato, um dos times poderia alterar seu nome oficial? Não acredito, sinceramente.

E o que não tem decisão, decidido está.

Então, aproveito o gancho para indicar o especial sobre Colin Chapman produzido em parceira entre o Faster F1 e o Café com F1 (já adicionado à lista Na pista – Notícias aí na barra lateral). Essa boa parceria está funcionando desde o final do ano passado e, até chegar ao criador da Lotus, já produziu excelente material sobre Bernie Ecclestone, Ron Denis, Frank Williams e os 30 anos de aniversário do primeiro título de Nelson Piquet. Se você ainda não viu, vale entrar em um ou outro site e encontrar as séries de cinco capítulos sobre cada um desses personagens.

Observações sobre um jubileu de prata

E ontem eu consegui uma coisa que havia tempo não fazia. Assistir ao vivo a uma corrida inteira de F1. E eu cheguei a praguejar contra o senso de humor mórbido do que costuma-se chamar de destino que, fazendo das suas, reservou o GP da Hungria, um dos mais chatos e previsíveis de toda a temporada para o meu retorno. Ledo engano…

Como aconteceu bastante coisa interessante, vou por partes para tentar ser mais curto.

– Alguém precisa, urgentemente, calar a boca do Galvão. Além da chatice de sempre e de várias trocas de nomes de pilotos (também habitual), tentar comparar Vettel a grandes nomes da história é uma covardia com o garoto e mais um dos muitos desserviços que ele presta a quem assiste F1. E por causa dele, muita gente até agora não entendeu que Vettel não ultrapassou Alonso por falta de coragem ou habilidade. Sem que o espanhol cometesse qualquer tipo de erro, era simplesmente impossível ele se aproximar do carro da frente dentro da curva para forçar a ultrapassagem na reta. Pelo contrário, ao tentar se aproximar, quase saiu da pista duas ou três vezes e o mesmo aconteceria com qualquer um.

– Weber deu um show de habilidade e precisão, andando muito forte e sem cometer erros. Soube usar e abusar do fato de ter um carro equilibrado para consumir pouco pneu e – graças à punição de Vettel – vencer e assumir a liderança do campeonato.

– Será que as férias de verão ajudarão a McLaren a voltar ao campeonato. Do jeito que está, é melhor pensar no carro do ano que vem.

– Apesar da vergonha da semana passada, a Ferrari confirmou o bom momento e o fato de – por hora – ser o único time com alguma chance de lutar contra a Red Bull. Mesmo assim, a impressão é de que o time das latinhas mais perde pontos do que os outros ganham.

– Depois de cumprir a ordem da equipe na semana passada, Massa deu entrevista dizendo que enquanto houver chances matemáticas o fato não se repetirá, que o seu país é o mais importante pra ele, que isso e aquilo e coisa e tal. Mas para não dar passagem a Alonso, com ou sem ordem, é preciso estar à frente do espanhol, o que raramente conseguiu este ano. Depois de toda a confusão da semana passada, deve tomar um chá de sumiço durante as férias que só terminam no último final de semana de agosto, em SPA.

– Ao ver as cagadas de Renault e Mercedes nos boxes, não conseguir ficar sem cantarolar a musica dos trapalhões. Há muito tempo não via tamanha incompetência em um espaço de tempo tão curto.

– Antes de elogiar o brasileiro e meter o pau no alemão, é preciso entender porque Barrichelo conseguiu ultrapassar Schumacher, enquanto Vetel gramava atrás de Alonso. Rubens andava muito mais forte, com pneus novos e macios; Michael tinha problemas de equilíbrio e pneus desgastados, o que provocou uma pequena rabeada na entrada da curva que leva à reta dos boxes de Hungaroring. Por conta disso, Rubens conseguiu sair da curva embutido, apesar da turbulência, pegar o vácuo e colocar de lado para ganhar a posição e o pontinho que lhe coube.

– Ficar surpreso com a atitude de Schumacher é uma parvalhice. O sujeito tem a maior coleção de polêmicas e punições da história da F1. Some-se seu estilo Dick Vigarista à relação nada amigável com Barrichelo, e pronto. Agora, a punição que lhe foi dada é uma vergonha, não diz nada a ninguém.

– A ultrapassagem de Barrichelo foi sensacional, mostrando mais uma vez que é sim um grande piloto e não está na categoria até hoje por acaso. Uma pena apenas a sua postura e discurso (que a emissora oficial adora) depois da corrida, com lágrimas etc.

– Coincidência que ao comemorar seu jubileu de prata, o grande prêmio magiar tenha visto, como na primeira edição, um brasileiro a bordo de uma Williams ser o grande personagem da prova? A diferença é que em 86, Piquet fez sobre Senna a que é considerada a maior ultrapassagem da F1 moderna para vencer a corrida. Ontem, Rubens brigou para chegar em décimo. Sinal dos tempos.

Fórmula 171

Eu devia ter uns cinco ou seis anos quando ganhei um carro de fricção, preto com detalhes dourados, com duas asas. Provavelmente já sabia que aquilo era um Fórmula 1, o que não significa que entendesse o significado disso. Gostava do carro porque cruzava a sala de ponta a ponta, em alta velocidade.

Com o tempo, aquele carro ficou de lado e, acompanhando as corridas de Nélson Piquet, comecei a entender o que eram aquelas corridas e tive até a dimensão de quem foi Emerson Fittipaldi e o que era aquela Lotus.

Torci pelo Piquet. Mas me apaixonei mesmo pelas corridas. E com o tempo entendi como funcionava aquele negócio, a disputa dos pilotos e escuderias, o que era o jogo de equipe, quem eram os grandes ases e quais eram os grandes times. E com a aposentadoria de Nélson, deixei de ser um torcedor de pilotos e passei a querer assistir grandes corridas.

É claro que sempre se simpatiza com um ou outro, mas sempre olhei para os caras que ficavam atrás dos volantes sem me preocupar com o lugar onde tinham nascido. Nunca torci pelo Senna, por exemplo, apesar de apreciar seu arrojo.

Até que um dia apareceu um certo alemão que, com status de primeiro-piloto-praticamente-dono-da-ferrari, ao lado de Jean Todt e Ross Brawn, extrapolaram o conceito de jogo de equipe. O ápice foi o GP da Áustria de 2002, em que Rubens Barrichelo jogou a merda no ventilador ao quase parar seu carro a poucos metros da linha de chegada, permitindo a vitória do alemão. Foi um escândalo. E por conta disso, até novas regras foram criadas pela categoria.

2010 tem sido um ano especial na categoria. Apesar das dificuldades em se ultrapassar, pelas características de carros e pistas atuais, grandes duplas de equipes têm protagonizado disputas inesquecíveis, o caso de Vettel e Webber na Red Bull, Hamilton e Button na McLaren. E o mesmo se esperava de Alonso e Massa na Ferrari.

Até que o time italiano (Domenicalli à frente), o espanhol mimado e de caráter duvidoso, e o brasileiro fraco, sem atitude, sem hombridade, estragaram tudo.

Para mim, nos dois episódios, mais grave do que o jogo de equipe extremo foram as posturas dos dois brasileiros. Barrichelo expôs a farsa ao freiar quase na linha de chegada, mas depois se agarrou no discurso do “só um brasileirinho contra o mundo”. Massa, a despeito do que todo mundo viu e ouviu, primeiro fez cara de emburrado para depois dizer que foi uma decisão sua.

Não acho que a Fórmula 1 acabou ou vai acabar por causa disso. Assim como eu, milhões de pessoas continuam gostando das corridas. Mas episódios como o de domingo confirma a tese de que, mais do que um esporte, a F1 é um negócio. Um negócio que pode ser divertido para quem assiste.

Mas o que a Ferrari fez (de novo) pode sim espantar uma boa parcela de público, mesmo que temporariamente, que espera por disputas limpas e reais. Isso pode espantar patrocinadores que pagam as contas que garantem os carros na pista e tudo pode ficar muito mais difícil. Mas depois passa, como sempre.

E se você quer continuar ou começar a assistir corridas de F1, não esqueçam de não torcer por ninguém. Apenas apreciem o espetáculo. Porque da mesma maneira que nossa seleção não é a pátria de chuteiras, os pilotos brasileiros não são a pátria sobre rodas. Ou vão se decepcionar…

Deixem-no em paz

Se estivesse vivo, Senna teria completado 50 anos no último domingo. E como deixei pra falar do tema depois de passado, todo mundo já viu em todos os sites, portais, TVs, jornais e o diabo a quatro, especiais sobre o ídolo contando pela enésima vez as histórias da sua vida, de suas vitórias, suas poles, vários detalhes inéditos e tal e coisa.

Como já escrevi antes, descobri a F1 e me apaixonei por ela no início da década de 80, acompanhando o primeiro título de Nélson Piquet. Por causa disso, nenhum argumento técnico vai me convencer que houve carro mais bonito que a Brabham BT 49C. Claro que há menções honrosas para a Lotus 72 preta e dourada de Fittipaldi e a Matra azul que Jack Stewart pilotou em 1969.

Quando Senna chegou à F1, para um garoto que mal tinha ultrapassado a marca de dez anos de idade, era só mais um piloto brasileiro para quem torcer, até a lendária corrida de Mônaco, em que – a bordo da Toleman – apavorou o ‘professor’ Alain Prost pela primeira vez. Sem falar, claro, de outras corridas históricas por Lotus e McLaren.

Mas, acostumado com o constante ‘troféu limão’ de Piquet, por não ter papas na língua e nunca puxar o saco de jornalistas (principalmente da TV oficial), sempre me incomodou o jeito muito certinho do piloto, que pensava em cada vírgula de cada frase que falava. Me incomodava sua relação com a Globo, me incomodava o jeito marqueteiro de levantar bandeirinhas do Brasil a cada vitória, a história muito mal contada da sexta marcha em sua primeira vitória no Brasil.

É inegável que Senna foi um dos maiores pilotos de todos os tempos. Imbatível em voltas voadoras, conseguiu poles com carros que – nas mãos de pilotos comuns – provavelmente não largariam entre os seis primeiros, além de uma série de outras qualidades. Ninguém é tricampeão mundial de qualquer esporte se não for um sujeito especial.

Só que para definir alguém como o melhor de todos os tempos, principalmente em função da impossibilidade de comparação de tecnologias, épocas etc etc etc, só há dois critérios: números ou gosto pessoal. Pelo primeiro, Schumacher é imbatível. Pelo segundo… Nélson foi muito mais completo que Ayrton. E esse é apenas o meu ponto de vista, sem querer fazer qualquer provocação aos apaixonados (e muitas vezes xiitas) torcedores de Senna.

Se não tivesse morrido em 94, provavelmente conquistaria mais um ou dois títulos e Schumacher não teria os números que tem. Talvez se aposentasse após a quinta conquista, após ter igualado Fangio. Hoje seria, muito provavelmente, um empresário de sucesso, talvez ligado ao automobilismo.

Se não tivesse morrido em 94, da maneira que morreu, com imagens transmitidas para o mundo inteiro, dificilmente moveria ainda hoje as multidões. Provavelmente seria reconhecido como o grande campeão que foi, mas sem a histeria que sucedeu seu falecimento.

Não estou escrevendo nenhuma novidade, muita gente já falou sobre isso. Mas tentem, só por alguns momentos, imaginar como seria Senna sem o histrionismo de Galvão Bueno, sem a batida na Tamburello. Só por um minuto, imaginem como seria sua vida sem a melodramática memória daquelas manhãs de domingo, sem o tema da vitória executado em modo fúnebre de novela mexicana.

Não faz sentido dar parabéns a quem já está morto. E seria bom tê-lo visto correr mais um pouco. Mas ele já foi, como todos nós vamos um dia. Então é obrigação de todo mundo deixar o moço em paz enquanto continuamos por aqui.

Pouca gente lembra, mas naquele mesmo final de semana de 94, Rubens Barrichelo quase morreu na sexta-feira, ao decolar na variante Bassa e praticamente picotar sua Jordan na tela de proteção. Roland Ratzenberger morreu no sábado, ao encher o muro da curva Villeneuve com sua Sintek. Ayrton, no domingo. E é bem provável que a sua morte – a última de um piloto de F1 em treino ou corrida, um tricampeão morrendo ao vivo – tenha sido o grande legado de sua vida. Pois de lá pra cá, o investimento em segurança foi absurdo, tanto nos carros de corrida (de todas as categorias) quanto nos de rua.

Senna, Prost, Mansell e Piquet

Então, independente de qualquer coisa, sem responsabilizá-lo pela alegria de ser brasileiro, por continuar aproveitando as manhãs de domingo, sem lágrimas forçadas de crocodilo, a imagem que faço questão de guardar do sujeito é desta foto aí: um grande piloto que brilhou entre outros grandes pilotos.

Reminiscências

Tive infância e adolescência das mais agradáveis, vividas entre o final dos anos 70 e o início dos 90. Joguei bola na rua, bolinha de gude, soltei pipa e papagaio, futebol de botão, andava de bicicleta em volta do quarteirão, joguei Atari e Odissey, Detetive e War. Freqüentei os cines América, Carioca e Art Tijuca, comprando ingresso antes das 3 da tarde para pagar apenas 10 dinheiros da época (sinceramente, não lembro se era Cruzeiro ou Cruzado, novo ou velho), contra os 20 do horário normal. A economia era gasta no Bob’s.

Rádio Fluminense (a maldita), Paralamas do Sucesso, Mamute, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Robin Hood, Os Titãs do Iê-iê-iê (assim que escreve?), Rock n’ Rio, Blitz, Alternativa Nativa, Barão Vermelho (com e sem Cazuza), Hollywood Rock etc etc etc.

O urso Misha chorando em Moscou, Carl Lewis e Joaquim Cruz, Bernard e sua jornada nas estrelas no Maracanazinho, Piquet tricampeão, tragédia do Sarriá, Magic Johnson e Larry Bird.

E o Maracanã.

Fui apresentado ao maior do mundo pelo meu pai. Tricolor. Não lembro quantos anos eu tinha exatamente, seis ou sete, quando fui ao estádio pela primeira vez. O Flamengo ainda não era campeão brasileiro e, num tempo em que quase todos os grandes clubes tinham grandes times, não eram raros os jogos com mais de cem mil pessoas. E meu pai se preocupou em começar a me levar em jogos ‘menores’, com pouco apelo de público, para que eu me acostumasse com o negócio. Na minha primeira visita, América 3, Inter 0.

Aos poucos, foi me levando aos jogos maiores. E como um bom pai, tentou me fazer torcer pelo seu time. E se é verdade que há fotos em que estou vestido com camisa do Fluminense ao lado da minha Monareta (quem não lembra, descubra no Google), não lembro de grandes reclamações quando cheguei em casa e disse que meu time, a partir de então, era o Flamengo.

Pelo contrário. Não foram poucas as vezes que me levou ao Maracanã para ver os jogos do Mengão. Como não foram poucas as vezes que lhe acompanhei aos jogos do Fluminense. E, assim, aprendi que ir ao Maracanã era bom, mesmo que não fosse para torcer pelo meu time.

E entre tantas e tantas lembranças, duas são guardadas com carinho especial: numa quarta à noite, um jogo que não valia muita coisa, em um início de campeonato, fomos parar na arquibancada para ver o Flamengo ganhar do Vasco por 2 a 0, seguindo sua lógica de que devia me acostumar com os grandes jogos aos poucos. Foi um dos primeiros clássicos que assisti.

Em 1984, Flamengo e Fluminense estavam nas quartas de final do Brasileirão e poderiam se enfrentar na semifinal. Bastava que um e outro passassem por Corinthians e Coritiba, respectivamente. Sistema mata-mata, o primeiro jogo do Fla foi no Maracanã e, da arquibancada à esquerda das cabines de rádio, vimos a vitória por 2 a 0. Em Curitiba, o Flu empatou em 2 a 2. Tudo bem encaminhado.

No domingo, início de maio, retribuí a companhia e voltamos para o Maracanã. Enquanto víamos o Fluminense construir sua goleada de cinco a zero, acompanhávamos o jogo do Morumbi pelo placar eletrônico. Quando o Corinthians fez 2 a 0, “calma que ainda falta muito, só precisa de um gol”. Que saiu e “não falei que ia dar tudo certo?”. Enfim, o jogo em São Paulo terminou 4 a 1 e, ao perder a chance de ver o Flamengo campeão brasileiro da arquibancada pela primeira vez, lembro da sua mão na minha cabeça e um “não chora, ano que vem tem outro campeonato” ou algo parecido.

No último domingo, fui ao Maracanã e lembrei do meu pai. Que, como eu, não tem mais paciência graças às filas, violência e ao futebol chinfrim que se assiste com uma freqüência enervante. Lembrei do meu pai ao ver a enorme quantidade de pais e filhos que foram ao “maior e mais bonito estádio do mundo”, em um dia que o futebol foi uma festa, dia de arquibancada cheia mas sem confusão, como quando íamos juntos. Dia de homenagem ao Washington, metade do Casal 20 que deu ao Flu aquele brasileiro de 84. Dia de Zico, Junior, Andrade, Adílio, Nunes e Tita, que formaram no maior time de todos os tempos e me fizeram apaixonar pela camisa vermelha e preta.

Lembrei do meu pai que, sem eu me dar conta, usou o Maracanã para minha primeira aula sobre democracia e uma das muitas sobre respeito, ao comemorar um gol abraçado a quem está ao seu lado não importando quem é, ao bater palmas para um lindo lance não importando a camisa que se veste.

Lembrei do meu pai, porque foi um dia como aqueles em que íamos ao Maracanã mesmo que nossos times não estivessem jogando, porque valia a pena estar juntos para ver futebol. Porque futebol bem jogado é bom de ver, não importando a idade de quem assiste ou, como no domingo, de quem joga.