88 milhões de não votos, vida que segue

EleicoesHoje não fui ao Maracanã, fui votar. Não foi meu time que perdeu um título, mas meu candidato que não se elegeu. Também não perdi nenhum parente ou amigo querido. Estou triste, muito triste, mas não estou de luto. Também não vou deixar de comer pão de queijo, tapioca, tutu ou camarão na moranga. Quem perde sou eu, ora bolas.

Não votei no PT, não gosto do PT porque o modelo de estado que seus integrantes tentam construir não é o que penso melhor para o meu país, para o meu futuro e –mais importante do que qualquer coisa – para o futuro das minhas filhas.

Não odeio Dilma ou Lula, nem mesmo Dirceu ou Genoíno, os bandidos condenados que eles tentam transmutar em heróis da pátria. Tenho, sinceramente, mais o que fazer e com o que me preocupar.

No entanto, e isso é o que me preocupa, eles têm em seu programa (basta lê-lo), em seu ideário (basta se debruçar sobre as relações externas a que eles se dedicam), um claro perfil totalitário, com diminuição paulatina das liberdades individuais e claro controle dos meios de comunicação, e a pretensão de se implantar o que chamam por aí de “democracia direta”, plebiscitária. O próprio discurso da vitória da moça já foi recheado de recados, em sua sombra estão as diretrizes do Foro de São Paulo.

Definitivamente não é isso o que quero, tenho mesmo medo.

Sua eleição é legítima. Já disse isso por aí. O voto de cada um é tão legítimo quanto o meu. O grau de consciência de cada um, do mais ao menos formado, do mais ao menos informado, não pode ser motivo de chacota e ofensa.

Venceram por um fio, 3,5 milhões de votos em 142 milhões de eleitores. Sem contar que mais de um quarto deles não votou, escolhendo branco, nulo ou nem aparecendo diante das urnas. Ao todo, mais de 88 milhões de eleitores não votaram em Dilma. E é bom ela lembrar que será a presidente desses também.

Mas venceram e o que me incomoda, me ofende na verdade, a maneira encontrada por esse partido para chegar à vitória na eleição.

Uma campanha baseada em mentiras e ofensas, uma campanha que se ocupou de produzir uma luta de classes, um nós contra eles virulento e que contaminou todos os níveis de relações, uma campanha que cuidou de disseminar o medo e de manipular informações.

O país está parado, a desigualdade voltou a crescer, nossos resultados na educação são pífios, o incentivo à pesquisa é ridículo, o índice de pleno emprego já está mais do que comprovado que é fictício, a infraestrutura do país é vergonhosa e tantos mais problemas que são esfregados nas nossas caras diariamente. E não é possível que eles sigam entocados em sua ostra infinita, dizendo por aí que toda a imprensa é o Grande Satã e/ou a mídia golpista. Que golpistas são esses que aceitam como legítimo o resultado das urnas?

Mas eles estão eleitos. Reeleitos para seu quarto mandato.

Nos resta, agora, muito mais do que torcer, trabalhar, exercer a tão propalada cidadania e cuidar, muito além dos 20 centavos, para que a oposição seja de fato oposição e para que nossas instituições sejam realmente fortes e independentes o suficiente para cuidar do que importa.

Estamos às margens da maior crise política da nossa história, basta que tudo seja realmente investigado e colocado às claras. E não, isso não é uma brincadeira, terrorismo ou superlativo de derrotado. Prestem atenção ao que acontece um palmo diante de seu nariz. Mas tenho muito medo de que a estrutura, mais que viciada a essa altura, impeça que tudo venha a um termo justo.

Tenho muito medo do que possa acontecer com o Brasil nos próximos anos. Mas, por mais paradoxal que possa parecer, também tenho muita esperança. Porque é possível que desse processo eleitoral que mais pareceu uma guerra entre persas e espartanos, é possível que dos resultados dessa eleição surja uma estrutura partidária mais robusta, com a fusão de alguns partidos e o surgimento de novos. Será que a Rede será real depois de mais uma derrota de Marina? Será que o Novo, que está em gestação, quase parido, será algo relevante de fato, como eu espero? Ainda não dá pra saber.

O país maravilha da propaganda oficial não existe, tanto quanto o caos da propaganda eleitoral dos seus adversários. O que é fato consumado é a dificuldade que teremos pela frente, os próximos anos serão muito duros. Será com Dilma, seria com Aécio. Ideologia à parte, pois, e absolutamente incrédulo, torço sinceramente para que a presidente se cerque de gente capaz de melhorar as coisas.

Agora, por favor, vamos parar de nos ofender, de querer nos matar. Não é possível que não tenhamos mais o que fazer. Eu, por exemplo, preciso trabalhar para pagar pelos meus luxos pequeno-burgueses, como a escola e o plano de saúde das minhas filhas, a compra do mês, contas de luz, gás, telefone, prestação, condomínio e, de vez em quanto, uma pizza e uma cerveja. Vida que segue.

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Nos trilhos

Estrada de FerroSabem por que ando entediado? Porque no final das contas, todas essas confusões políticas apontam para a mesma direção. E no final das contas, ficamos (a massa que ainda depende da mídia tradicional e ainda é maioria no país) à mercê de como as coisas são noticiadas.

Por exemplo, a história da Siemens e do cartel em São Paulo, em que tentam arrastar até os mortos para o pântano.

Agora, vejam que curioso: o mesmo problema aconteceu no Distrito Federal, e isso – definitivamente – não anda sendo explorado.

Em mais uma obra com problemas, dessa vez em Fortaleza. O metrô com superfaturamento comprovado, que custou o triplo do estimado no projeto e que foi pago com dinheiro federal, foi realizado por um consórcio formado pelas seguintes empresas: Siemens, Alstom, Bombardier e Balfour Beatty. Reconhecem?

E ainda há o estranho caso do consórcio formado por Alstom e CAF. Em Belo Horizonte, numa licitação da CBTU (federal), a primeira ficou com 90% do negócio e a outra com 10%. Já em Porto Alegre, em licitação da Trensurb (federal), as proporções do negócio foram invertidas. Em ambos os casos, não houve concorrentes nas licitações e as compras de trens não foram canceladas. Estranho?

Pra mim, estranho de verdade é não ver essas histórias maciçamente noticiadas. Mas tenho certeza que isso não é de propósito, é apenas porque não cabe tudo nos telejornais.

Bom, mas eu falava de tédio e mais do mesmo. Então, hoje haverá manifestação em São Paulo, convocada pelo MPL, aquele Movimento Passe Livre. Afinal, o último escândalo é sobre trens e metrô, imaginem se perderiam a chance. Pois é bom não esquecer que o MPL é parceiro histórico do PT. E se há manifestação, estarão lá o Black Block (é assim que escreve?), para provocar e se bater com a polícia, e a Mídia Ninja, aquela turma independente que anda de braços dados com o Capilé.

Em compensação, nos outros lugares em que o governo federal ou suas estatais pagaram pelas obras com os mesmos problemas de São Paulo, ninguém fala nada, ninguém faz nada.

E tudo isso é mesmo um tédio, porque continuamos (e continuaremos, pelo visto) falando de manutenção (no caso do governo federal e alguns de seus aliados) e conquista de poder (o estado de São Paulo sempre foi a jóia da coroa dos sonhos do PT).

Só um detalhe: o contrato de Porto Alegre foi assinado pela própria Dilma. Mas quem se importa, né não?

Horizonte, cenário, contexto…

Metrô

Inflação: já mandaram a conta da rebelião para o povo

O crescimento da inflação / Imagem: Jeremias

Usam as conquistas da sociedade como desculpa para as dificuldades econômicas que produziram com a incompetência, a corrupção e o desprezo pela população.

A rebelião dos brasileiros é vitoriosa. Não interessa se vai durar mais um dia ou um ano. Ela surgiu numa grande explosão, como uma estrela, sem pedir licença, e vai se apagar também como uma estrela, também sem pedir licença. Não deve satisfação.O Brasil já mudou para melhor. A sociedade não está mais calada e os que estão no poder estão tendo de ouvir e mostrar serviço. Esta é a grande conquista da rebelião. O desafio agora é resistir ao retrocesso.

Surpreendido no começo, o poder aposta no controle da rebelião e no retrocesso. Quer nomear lideranças para poder capturá-las. Lança manobras diversionistas, como pactos, constituinte e plebiscito. E executa a operação mais cruel e covarde: mandar a conta da rebelião para o povo na forma de inflação.

Depois de dez anos de governança ruim, de corrupção generalizada e de privilégios bilionários por conta do Tesouro, dilapidando a estabilidade econômica conquistada pela sociedade, o governo insinua agora que a inflação é o preço a pagar para reduzir tarifas e humanizar os serviços públicos.

Querem usar a rebelião como desculpa para as dificuldades econômicas que produziram. Que tratem de roubar menos, de cortar privilégios e de governar sem desperdícios. Este é o corte de gastos que têm de fazer. É assim que se controla o déficit público e se combate a inflação sem mandar a conta para o povo.

Altamir Tojal

Verbetes e expressões (29)

Diversionismo

(di.ver.si:o.nis.mo)

sm.

1. Manobra us. nos órgãos legislativos ou deliberativos, consistente em desviar a atenção de seus membros para assunto diverso daquele que se discute, a fim de impedir-lhe a aprovação.

2. P.ext. Qualquer recurso us. para despistamento; cortina de fumaça.

[F.: diversão + –ismo, seg. o mod. erudito.]

Fonte: iDicionário Aulete

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https://gustavosirelli.wordpress.com/2013/06/27/pt-e-dilma-voce-ainda-se-surpreende/Esse plebiscito é uma piada. Péssima, por conta de tudo o que o envolve e desde a maneira como surgiu.

Desde que as manifestações começaram, via-se de tudo nos gritos confusos e cartazes criativos ou não que circularam pelas ruas. É verdade que tinha até gente falando do assunto e é claro que a reforma política é algo de suma importância num país em que existe uma crise de representatividade gigantesca.

Primeiro é preciso lembrar a maneira como a presidente se apresentou. No primeiro pronunciamento, 10 minutos de elucubrações sem assumir qualquer compromisso claro. Depois, armou uma enorme cena para jogar sobre o país as resoluções de um congresso de seu partido, sem qualquer tipo de acordo ou aviso prévio àqueles que estava com ela à mesa.

Por fim, o tal plebiscito, o que sobrou do vexame da constituinte específica. Como já disse, a reforma é sim importante, mas nem de perto o tema mais grave e mais urgente para se tratar neste momento. Além disso, apesar de previsto na nossa Carta (como os referendos), expõe um modelo de governo já praticado em alguns de nossos vizinhos (Hugo, Evo e Rafael sabem bem o que é isso) e que fragiliza sobremaneira um dos poderes nação, pilar da democracia. Que Congresso que teria coragem de ir contra a “voz das ruas”?

Pombas, mas todo o poder emana do povo, qual o problema em se acatar a “voz das ruas”? O problema é que hoje o governo federal, não satisfeita com sua maioria construída como todos sabemos, tem um cabresto que parte de mais ou menos 20 milhões de votos. O problema é que, da maneira que a coisa está sendo feita, a toque de caixa, não haveria tempo hábil para se educar a população sobre os principais pontos da tal reforma. O problema é que a reforma que se desenha (com todo o suporte da máquina) privilegiará a manutenção do poder pelo grupo que está aí (voto em lista, financiamento público, manutenção do voto obrigatório), ao contrário do que deveria acontecer, fortalecendo a democracia com chances reais de alternância de poder e aproximação entre políticos e população, representantes e representados.

E o resultado é que os problemas básicos do Brasil não estão sendo atacados enquanto estamos todos, compulsoriamente, discutindo o tal plebiscito.

PT e Dilma: você ainda se surpreende?

Resoluções do 3º Congresso do PT / Reprodução

O chamado ‘pacto da reforma política’ proposto ao País pela presidente DIlma Rousseff não passou de vigarice oportunista do PT para impor um velho projeto político ao País: o de isolar o Congresso para levar a uma reforma política nos moldes das pretensões do partido.

De acordo com uma ‘insuspeita’ fonte da ala golpista do PT, o jornalista Paulo Henrique Amorim, foi o ex-ministro da Comunicação Social Franklin Martins quem levou a ideia da dobradinha pacto-constituinte à presidente.

Endossada por Dilma, a proposta acabou se transformando no maior vexame político da década, obrigando a primeira-mandatária a um recuo vergonhoso menos de 24 horas depois de apresentá-la à sociedade.

O projeto está descrito de maneira pormenorizada no documento “O Brasil que queremos”, produzido ao final do Terceiro Encontro Nacional do PT, em 2007.

Na página 45 desse documento lê-se que “a reforma política não pode ser um debate restrito ao Congresso Nacional, que já demonstrou [ser] incapaz de aprovar medidas que prejudiquem os interesses estabelecidos dos seus integrantes. Ademais, setores conservadores do Congresso pretendem introduzir medidas como o voto distrital e o voto facultativo, de sentido claramente conservador”.

Ainda que não se possa afirmar que o PT está na origem dos movimentos de protesto que eclodiram no País, é lícito concluir que o partido tentou tirar proveito das manifestações a partir da leitura do seguinte parágrafo de “O Brasil que Queremos”:

“(…) a reforma política deve assumir um estatuto de movimento e luta social, ganhando as ruas com um sentido de conquista e a ampliação de direitos políticos e democráticos”.

A tática e a estratégia estão descritas no parágrafo seguinte. “A reforma política (…) só virá se for conquistada pela soberania popular. O caminho para isto é o desencadear de uma campanha pela convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva, com mandatos eleitos especificamente para promover a reforma das instituições políticas do Estado nacional”.

Se havia alguma dúvida sobre o sentido da expressão “constituinte exclusiva”, objeto de uma controvérsia semântica para justificar o erro e o recuo da Presidente, ela já não existe mais. O conceito de constituinte exclusiva está muito bem descrito, sem licenças polissêmicas, no documento petista.

Toda agremiação política tem programa, metas, doutrina, táticas e estratégias. É lícito que o PT tenhas as suas.

O que não é possível é admitir que a Presidente Dilma Rousseff tenha se valido do momento mais conturbado da história recente para impor o projeto partidário como “pacto”, desgastando ainda mais essa palavra, cujo sentido foi esvaziado ao longo da lenta agonia do governo Sarney. Ou que tenha sido induzida a esse erro colossal pelos fundamentalistas de sua legenda — e não tenha se importando de passar adiante a empulhação.

Com conselheiros desse naipe, é bem provável que Dilma Rousseff não precise de inimigos externos. Oportunistas e soberbos, mas sobretudo burros a ponto de não entender sequer o que se passa do outro lado da janela da institucionalidade, esses petistas antidemocráticos conseguiram levar o governo de todos os brasileiros a mergulhar na sua própria inconsistência.

Não admira, portanto, que o Palácio do Planalto apareça aos olhos da Nação tão perdido, lerdo e errático num momento tão grave e importante da história.

É o que o universo da política reserva aos espertos que são regidos pelo oportunismo dessa universal Lei de Gerson, que parece ser o norte de quase toda ação petista.

O documento “O Brasil que Queremos” pode ser lido em formato PDF no site do PT. O link para acessá-lo está aqui: http://www.pt.org.br/arquivos/Resolucoesdo3oCongressoPT.pdf .

O trecho ao qual me refiro está entre as páginas 44 e 47.

Fábio Pannunzio (Facebook)

P.S. 1: Alguém reparou no silêncio de Lula desde que a bagunça começou? No melhor estilo “o silêncio que precede o esporro”, é bom abrir os olhos.

P.S. 2: Alguém realmente acredita que voto em lista e obrigatório são instrumentos realmente democráticos?

Como será?

Manifestação tomou a Av. Presidente Vargas no dia 20/06  /  Foto:  UOLAlguém pode dizer que é errado ver a sociedade mobilizada e se manifestando por condições melhores de vida, por menos corrupção etc etc etc? Pois é. Mas o que vai acontecer agora, como será?

A moça foi ao ar na sexta-feira e durante 10 minutos de um discurso vazio em sua essência, não assumiu nenhum compromisso claro sobre quaisquer das muitas reivindicações que foram gritadas a plenos pulmões pelos quatro cantos do país.

Ainda assim, há analistas de balcão tentando nos convencer que a coisa arrefeceu. Desculpem, mas discordo. Há que se lembrar que a semana foi muito intensa, com a quinta-feira chegando ao cúmulo de ter mais de 100 cidades de todos os tamanhos na rua ao mesmo tempo.

Seria mais que natural, portanto, que o fim de semana fosse mais ‘devagar’. Mesmo assim, 70 mil foram pra rua em BH; em muitas cidades – capitais ou não – houve caminhadas de crianças; no Rio, quatro ou cinco mil (com tempo muito ruim) correram a orla contra a PEC 37 (não se pode esquecer da 33) e ainda houve a vigília na porta do governador. E ainda há outros muitos exemplos.

Também já estão marcadas manifestações para Belo Horizonte e Fortaleza, quarta e quinta-feira, dias e locais das semifinais da Copa das Confederações. Em BH, como o objetivo é abraçar o Mineirão, já se sabe de antemão que o pau vai comer de novo.

A falta de lideranças formais (admitidas e reconhecidas), uma das marcas do que aconteceu até hoje, tende a acabar e alguns grupos e organizações devem começar a se apresentar e tentar tomar as rédeas. Muitas reuniões foram marcadas para essa semana em tudo quanto é lugar. Só eu recebi convite para duas hoje, minha moça foi avisada de uma terceira.

Em contrapartida, o governo federal – o mais atingido pelo tipo de reclamação feito até agora – já começou a se mexer. Há alguns dias, foi iniciada uma petição de apoio à presidente Dilma. Eu sei que gramaticalmente não faz qualquer sentido, mas a questão é chamar a atenção para qualquer tom positivo.

Além disso, em São Paulo, o MPL (Movimento Passe Livre)– que sempre foi apoiado pelo PT – disse que se retiraria das ruas e avaliaria sua participação em outros movimentos, ao lado de seus parceiros (todos eles, e mais alguns, apoiados pelo mesmo PT): MPST (Movimento Popular dos Sem Terra), MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra), Ocupação Mauá e Periferia Ativa. Não por acaso, o MPL será recebido hoje por Dilma Rousseff. Hummmm

Mas não é só isso, claro. Na quarta, Ruy Falcão, presidente do PT, já havia convocado a militância do partido, além de ONGs e coletividades (eles adoram isso) amigas, como o próprio MST, a tomar parte nas grandes manifestações. Dá pra imaginar no que daria ou vai dar, com essa turma participando. Vão gritar contra o governo? Ahã…

Outro caminho é publicação de textos e mais textos acusando a turma que está na rua de ‘elite burguesa e golpista’. Não sei se é desconhecimento da língua, se é mau-caratismo assumido ou os dois.

A melhor frase que li nesses dias esta em um texto da Cora Rónai: “quem não está confuso, está mal informado”. Pois eu estou muito confuso. E com medo também, confesso. O cenário que se desenha à minha frente não é belo. Tomara que eu esteja errado.

Burrice pouca é bobagem

Yoani Sanchez / Foto: Ueslei Marcelino - ReutersEstou realmente impressionado com a bagunça que anda acontecendo por conta da visita de Yoani Sánchez ao Brasil. Estou mesmo de boca aberta com a reação do PT e PC do B, esses grandes representantes da democracia brasileira.

Os ataques virulentos de militantes na Bahia e a reação dos deputados à sua visita ao nosso congresso nacional são absolutamente incompatíveis com o que representa a blogueira.

Como sou um sujeito prático demais, é provável que não consiga alcançar – filosófica,  sociológica ou antropologicamente – a real importância dessa moça nem perceber sua dimensão histórica. Então, vou tentar – bem aos pouquinhos – ser claro sobre tudo o que penso a respeito de todo o imbróglio.

Primeiro de tudo: parto do princípio que Cuba é uma bosta. Porque considero toda e qualquer ditadura uma grande bosta. Sim, eu sei que há uma série de boas coisas por lá. Mas por aqui também havia quando do regime militar. E nem por isso podemos dizer que a ditadura fez bem ao Brasil. É o mesmo caso, que me perdoem os xiitas de plantão.

Yoani explodiu na mídia quando, em 2007, criou o blog Generatión Y, de oposição ao regime cubano. Notável, uma vez que se opor ao governo dos irmãos Castro, em Cuba, é proibido. E isso, seus posts pela liberdade de expressão, o fim do embargo econômico e da possibilidade de ir e vir a qualquer lugar na hora que bem entender, é corajoso e digno mesmo de muitos elogios. Então, parabéns.

E daí? Daí que todo o resto sobre o que fala, como a implantação de um certo ‘capitalismo sui generis’, não tem bases sólidas nem argumentos fortes o suficiente para lhe dar o cartaz que tem. Yoani, em regra, é fraca, pueril. Na verdade, seu blog é até curioso do ponto de vista de um certo olhar sobre o dia a dia na ilha. Mas não mais que isso.

Na verdade, Yoani não chega nem a ser um problema real para o governo cubano, não tem força para interferir em nada no país. Na verdade, a expressão ‘para inglês ver’ cai sobre ela como um luva.

Mas aí a moça consegue sair da ilha e prepara uma espécie de turnê mundial, iniciando pelo Brasil. E aí, os nossos grandes democratas – aliados ferrenhos do governo – fazem o quê? Merda. Desculpem, mas não cabe aqui outro termo.

Em tese, ao menos por enquanto, vivemos no Brasil um estado democrático de direito. E quais são os princípios básicos da democracia? Liberdade individual e de expressão. Não é característica da democracia ver a maioria ganhar uma discussão na marra, mas o direito de todos (principalmente as minorias) apresentarem seus argumentos. A existência da divergência é fundamental para o fortalecimento da democracia. E definitivamente não é isso que andam praticando o PT e o PC do B, e seus militantes.

O que aconteceu na Bahia é absurdo, inaceitável. E o que houve hoje no congresso é vergonhoso. Além de ir contra a nossa constituição (que beleza de partidos, heim?), são atitudes e posturas tão burras que acabam dando à moça mais cartaz e notoriedade do que ela teria se tudo acontecesse dentro da normalidade. Ou seja, apenas mais argumentos para todos que descem o pau em Cuba.

P.S.: andaram perguntando a moça quem é que paga sua viagem. E ela nunca escondeu que tem lá suas fontes de receita, como a contribuição de várias ONG – inclusive a Anistia Internacional. Pois eu queria muito saber quem e como são pagos os militantes que, perseguindo a moça, andam fazendo bagunças e piquetes no horário que deveriam estar trabalhando. Porque nem relógio trabalha de graça, não é?