Uma boa pergunta

Metro São Paulo - David BowieJá faz uma semana que recebemos a notícia. E ontem tive uma conversa pra lá de interessante, sobre o peso das coisas e o tamanho das pessoas. Muita gente ficou muito impressionada com a dimensão da cobertura, do espaço dado à morte de Bowie.

Flavio Gomes, por exemplo, escreveu pouco mas escreveu muito a respeito: “David Bowie preparou a morte, imaginou a morte, cantou e filmou a morte. Foi artista até o derradeiro segundo, fez da morte, arte.” Se referiu a Lazarus, claro. Mas falou muito sobre o que Bowie foi.

O irmão Ricardo Santos fez o diagnóstico preciso: “A variedade de músicas postadas para homenagear Bowie prova seu apelido”. Mais do que o apelido, se referiu à capacidade e à variedade criativa que fez com que alcançasse o público absolutamente diverso que tinha.

E há por aí, fomos inundados na verdade, por uma infinidade de textos sobre o sujeito que era mesmo fenomenal.

Mas, voltando ao que importa aqui, a tal conversa de ontem começou com o espanto: “quase um bloco inteiro do Jornal Nacional!”… “Capa de Veja!”… Veja, na verdade brilhante, fez 12 capas diferentes. Mas não foi só isso: não houve jornal ou portal ao redor do mundo que não desse destaque ao sujeito. Mas a partir dessa constatação, veio a melhor pergunta da noite:

“- O que vai acontecer com a imprensa, qual vai ser o espaço, o que o mundo dirá quando caras como como McCartney, Clapton, Jagger e Richards, Wonder, Page, Waters e Gilmour, Van Halen morrerem? E no Brasil, quando o Roberto Carlos morrer?”

Sinceramente, não sei responder. E sim, é uma boa pergunta, que vai muito além de gostar ou não gostar do artista tal. A questão é perceber sua relevância. Alguém se arrisca a dar um palpite? Alguém se arrisca a aumentar essa listinha?

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Crônica de uma morte anunciada

Cinegrafista

Acabei de ver a notícia, Santiago Andrade teve morte cerebral. E agora?

É curioso que até este trágico fim de semana, trágica segunda-feira, toda a cobertura da imprensa (com as exceções de praxe, o grande satã conservador) tecia loas às manifestações e até aos confrontos. E flertavam perigosamente com o bando de marginais mascarados, sempre mascarados, dando-lhes destaque e até voz. E agora?

Colunistas, articulistas, filósofos, antropólogos e bostólogos – Caetano à frente, lembram? – reconhecidos batiam palma pra todo mundo que colocava uma máscara e partia pra dentro de tudo e de todos. E agora?

Toda a culpa de tudo de ruim era sempre da polícia (que fez mesmo um monte de cagadas), não importando a realidade. Até um imbecil da Globo News disse que tinha visto que o morteiro assassino era uma bomba jogada pela polícia. E agora?

Infelizmente, o que aconteceu era previsto. Quantos carros de imprensa foram depredados, quantas tentativas de agressão contra jornalistas foram documentadas? E porque as grandes associações da classe aceitavam essa situação, que chegou ao cúmulo de ver os profissionais trabalharem disfarçados para não apanharem? Algumas soltaram – antes e agora – notas ridículas em que tentavam morder e assoprar, absolutamente em cima do muro, divididas entre o que é/era correto e suas posições/origens esquerdopatas. E agora?

E a OAB que, pelo menos no Rio, virou babá de black bloc, esse pobrezinhos que angelicalmente arrebentavam tudo e qualquer coisa que encontravam à frente. E agora?

Pois pela sequência de imagens que vi, o sujeito que colocou o morteiro no chão, a dois ou três metros do cinegrafista, não estava tentando acertar a polícia não. É nítido. Ele queria mesmo era acertar a equipe de reportagem. Democratas que adoram a liberdade de expressão e de imprensa, desde que se concorde com eles. Controle social da mídia, na base da porrada, do sangue e, agora, da vida. Reconhecem o padrão de comportamento? Ainda acham que é por acaso? E agora?

Agora, todas juntas, pedem punição. Pateticamente, o óbvio. Mas, fora o ululante, e agora?

Agora, infeliz e tragicamente, resta chorar o morto e – dentro do possível – apoiar sua família.

Verbertes e expressões (30)

Censura

s.f.
Exame crítico de obras literárias ou artísticas; exame de livros e peças teatrais, jornais etc., feito antes da publicação, por agentes do poder público.
P. ext. Órgão que realiza esse trabalho.
Condenação eclesiástica de certas obras.
Corporação encarregada do exame de obras submetidas à censura.
Condenação, crítica.

Fonte: dicionário online de português

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Censura / Ilustração: Eric DrookerEstava vendo essa tal discussão e jurando que não ia meter o bedelho no assunto, tão surreal é sua simples existência. Mas não resisti. Falo das biografias, claro, e essa tentativa de proibi-las. Me refiro às biografias sérias, documentos históricos sempre interessantes e muitas vezes fundamentais para entender melhor o mundo em que vivemos.

Millôr disse, todos sabem, que “imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. No mesmo espírito, digo que biografia com autorização prévia – seja lá de quem for – é autopromoção.

E porque essa enorme discussão que tomou de roldão a nossa imprensa é absolutamente surreal? Primeiro é preciso não tentar dourar a pílula como já vi em alguns artigos nos últimos dias: o que estão tentando fazer é instituir a censura sim.

Agora, vamos à Constituição:Promulgação da Constituição, em 1988

– Art. 5º, IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

– Art. 5º, V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

– Art. 5º, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

– Art. 5º, X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

– Art. 5º, XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.

Se não bastasse a Carta Magna, que garante tanto a liberdade de expressão quanto a penalização de quem abusa desse direito, o Código Penal é bem claro quanto aos crimes de calúnia (artigo 138), difamação (139) e injúria (140).

Minha pergunta, com tudo isso, é: pra quê uma lei específica pra tratar de biografias (que em sua essência é jornalismo), criando a censura prévia (proibida pela constituição) e só permitindo a publicação de obras previamente autorizadas? A desculpa é a defesa da privacidade. Mas, caramba!, pra isso já temos texto legal. Aí, Djavan solta a pérola:

– A justiça é muito lenta.

E um amigo com quem trabalho (que se quiser se identifica nos comentários) acerta na mosca em uma possível resposta:

– Ok, suas músicas também. Mas a justiça podemos reformar.

Bingo!

Não bastasse a questão legal, há o surrealismo conceitual. Vejam que não é o Jair Bolsonaro ou a família do ex-presidente Médici que inventou esse negócio. À frente do movimento, os mais notáveis são Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil (prefiro não comentar sobre Paula Lavigne – quem?! – e Roberto Carlos).

Esses três caras vivem até hoje às custas de uma obra (grande e bela, sim), que nasceu e ganhou visibilidade justamente no tempo da ditadura, quando os três davam voltas pra ludibriar a censura em suas canções. Tempo em que, oficialmente, lutavam por democracia e liberdade de expressão. Curioso, né? Não consigo pensar nesse cenário sem a estranha sensação de que no dos outros é refresco…

Pra encerrar o assunto, outro amigo me enviou o texto brilhante de Márvio dos Anjos. Seguem trechos:Chico Buarque / Divulgação

Já joguei bola com Chico Buarque, no campo do Politheama, no Recreio, zona oeste do Rio. (…) Logo na entrada havia uma proibição expressa contra a entrada de jornalistas e chatos em geral. Naquele campo, propriedade privada, fazia sentido.

(…)

Às vezes, eu me dava conta de que estava jogando ao lado daquele Chico, aquele poeta de tantas canções vigorosas, ídolo de meus pais, formador da identidade de tantas mulheres, burlador da ditadura, exilado político, referência minha para letras de música. “Caralho, é o Chico”, a mente me gritava.

(…)

O Politheama era uma panela típica, clássica de quem é o dono da pelada: Chico, Carlinhos Vergueiro e Vinicius França formavam a espinha dorsal, que se reforçava da melhor juventude disponível (um pouco como a carreira musical de Caetano, o que não reprovo: reciclar-se é uma arte). (…) E sim, os Politheamas saíam sempre felizes. Porque o Politheama é árbitro inconteste em seu próprio gramado. Todas as marcações são a favor deles, a fim de manter a lendária invencibilidade. Meu Deus, COMO roubam.

(…)

Escrevo sobre Chico Buarque porque a polêmica das biografias precisa ser situada também no espírito esportivo que favorece o espírito democrático. E porque sempre que tocarmos neste assunto falaremos da proibição estúpida que limitou por anos o acesso ao magnífico “Estrela Solitária”, relato de Ruy Castro sobre Garrincha. (…) Em suma, o país perde o direito à análise e à memória imediatas por caprichos de filhos, gente que, muitas das vezes, divide apenas DNA e olhe lá. Para mim, é o pior lado da nossa atual legislação das biografias. E é isto que Chico considera justo.

(…)

E claro, sou da opinião que a pelada revela o homem. Tudo que alguém é capaz de fazer por vontade de vencer numa partida amadora é reveladora do caráter, das posturas, do espírito nobre sobre o qual Coubertin estabeleceu as fundações dos Jogos Olímpicos.

Pra terminar, agora de verdade, é bom lembrar que todos esses grandes democratas da vida alheia sempre apoiaram as causas, grupos e partidos de esquerda, inclusive o que está no governo. Os mesmos que querem implantar o marco regulatório da internet e o controle social da mídia. Mas isso é apenas coincidência, só coincidência…

Ah, a mídia golpista…

Reprodução: NewseumSempre disse que no Brasil a mídia, os meios de comunicação de massa ao menos, é oficialista. Ao contrário de outros países, com democracias um tantinho mais evoluídas, nossos jornais não assumem o que são e o que querem de verdade, escondendo-se atrás de uma máscara de isenção que é, simplesmente, impossível de praticar. Simplesmente porque todo mundo tem opinião.

Caso raríssimo foi o do Estadão, que na eleição passada assumiu em editorial o apoio a José Serra. Sempre achei que o ideal é que todos fizessem o mesmo: apoio isso ou aquilo por acreditar que isso ou aquilo é melhor para o país, estado, cidade ou seja lá que raio fosse.

Essa falta de posição provoca desvios absurdos. Por exemplo, temos hoje – como sempre – os órgãos oficialistas como sempre cada vez mais pressionados (e atendendo à pressão) pelo discurso da mídia golpista.

Pois quando fiz faculdade, a disciplina ‘Leitura de Jornal’ (dependendo da instituição, leitura comparada ou leitura crítica ou coisas do gênero) era obrigatória. Hoje parece que é eletiva e não das mais concorridas, infelizmente.

E daí?

Daí que, apenas como exemplo, vejam a manchete e subtítulo do Globo de hoje: “Renda média sobe mas desigualdade para de cair – Analfabetismo também deixou de registrar queda depois de 15 anos”. Por quê não escrever de forma reta, direta? Por exemplo: “Renda média sobe mas desigualdade aumenta – Analfabetismo cresce depois de 15 anos em queda”.

Pode parecer besteira, mas o efeito é completamente diferente. Ou será que estou louco?

Pois bem, leiam as manchetes de cinco dos principais jornais do país neste sábado e tentem reescrevê-las de modo mais objetivo. E analisem a quem favorece esse ou aquele jeito de escrever.

Depois, lembrem-se que o maior adversário de Dilma, hoje, é Lula. Ele já anunciou que está de volta ao jogo e os petistas chegam a babar de prazer com a possibilidade dele ser o candidato. E a moça, apesar de voltar a subir nas pesquisas, não está lá muito segura na cadeira, por conta de tudo isso que está aí, como diria – se vivo – Leonel Brizola.

Ah, a mídia golpista… Fico me perguntando: golpe contra quem?

Princípios editoriais

Romario chega na CBF ao lado de Ivo Herzog com a petição pública que pede a saída de José Maria Marin / Foto: Julio Cesar de Moraes/UOL EsporteQualquer um que acompanha um pouquinho do que acontece no país do futebol, sabe que rolou a petição Fora Marin. O objetivo é tirar o sujeito da presidência da CBF e – principalmente – do COL, o comitê organizador da Copa do Mundo.

Em que pese, nos dois casos, falarmos de empresas privadas, há bons argumentos para que o público e até esferas de governo se metam no assunto.

Sobre a confederação, o deputado Romário (sim, ele mesmo) lembra que o time da CBF roda o mundo carregando o nome do país e usando nossos símbolos, como o Hino Nacional. Então, o mínimo a se esperar, seria uma gestão clara e transparente sobre os milhões que a entidade recebe de trocentos patrocinadores para cuidar do principal símbolo e representante do futebol brasileiro, patrimônio cultural desse nosso estranho país.

Sobre o COL, a questão é muito mais grave. Afinal, para realizar as copas (Confederações e do Mundo), há fabulosas quantias de dinheiro público envolvidas (ou escoando pelo ralo, se você preferir).

Pois bem, a tal petição que alcançou 54 mil assinaturas, foi entregue agora a tarde na CBF. Por Romário (PSB-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Ivo Herzog – autor da petição e filho de Vlado, o jornalista que foi suicidado pelo regime militar em São Paulo, poucos dias depois de discursos inflamados na assembléia legislativa, em que deputados estaduais pediam providências contra a TV Cultura – Vlado era diretor -, inclusive Marin).

Nenhum cartola recebeu a comitiva, algo mais do que esperado. Mas a entrega foi protocolada. E havia imprensa cobrindo o fato.

A entrega foi feita pelas 15h. Vinte minutos depois já havia notas começando a pulular aqui e ali, em portais como UOL e Lancenet!.

Mas não é curioso o fato dessa notícia não ter sido publicada na Globo.com (maior portal de notícias do país), G1 ou o site do Globo? Será por causa da histórica e – pelo visto – eterna parceria das Organizações Globo com a CBF? Será que é por acaso?

Será porque já começou a operação abafa, até com a contratação de Ronaldo como comentarista, um dos expoentes do COL e cotado para assumir a presidência do comitê em caso de afastamento de Marin?

No dia 6 de agosto de 2011, fizeram um carnaval com a publicação dos Princípios Editorias das Organizações Globo. Menos de dois anos atrás. Nesse caso, só resta uma pergunta: e aí?

Para constar, são 17h20 quando escrevo, mais de duas horas depois da entrega da petição. E a notícia não está no ar. Na Globo, claro.

Verbetes e expressões (28)

Espetáculo

s.m. Tudo aquilo que atrai o olhar, a atenção: o espetáculo da natureza.
Contemplação. Representação teatral, cinematográfica etc. Servir de espetáculo ou dar espetáculo, ficar exposto às críticas do público; ser objeto de escândalo, de zombaria.

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O maior espetáculo da TerraSão, no mínimo, interessantes as notícias que chegam de Roma. Ou a falta de notícias que requenta sem parar as especulações.

Os cardeais estão se reunindo há dias, em preparação para a grande eleição. Mas que preparação é essa, o que eles andam discutindo, se os documentos importantes estão presos em um cofre e só serão entregues ao eleito?

O conclave começa hoje (a essa altura, já começou) e os caras vão ficar trancados lá sabe-se lá quanto tempo. Mas não é interessante a declaração do porta-voz do Vaticano de que não teremos a fumaça branca que indica a eleição no primeiro dia? Se todo mundo já sabe disso, por quê o suspense?

Há mais de cinco mil jornalistas do mundo inteiro credenciados para acompanhar o bagulho. Acompanhar o quê? Se os caras ficam trancados lá e ninguém pode falar nada (até ascensorista fez juramento de segredo), tá todo mundo credenciado pra ficar plantado na praça, num frio do cão, a um custo absurdo, esperando por uma fumacinha?

Na verdade, o que faz (ou deveria fazer) pensar é a espetacularização de tudo, até da não-notícia, que estamos vivendo hoje. E esse conclave é excelente material pra isso. Se não sabe do que estou falando, abra qualquer grande portal de notícias, dê uma boa olhada em todas as manchetes e aponte – com sinceridade – o que é notícia de verdade. E pense na expressão panis et circenses.

Um recado de Eça aos modernosos do século 21

Só hoje me dei conta de que abandonei o blog há mais de um mês. Nada como o trabalho para atrapalhar a vida de alguém, né não? Enfim, volto tratando de um tema que me é muito caro: linguagem.

Já faz tempo que implico com o ‘corporativês’ adotado no Brasil. Na verdade, um jeito pernóstico de falar, uma espécie de portinglês inventado e adorado – geralmente – por administradores e profissionais de comunicação, mas que rapidamente se espalha por empresas, congressos, fóruns etc. Afinal, é preciso parecer antenado e descolado, ser in, estar up to date. Mesmo que tudo se resuma a aparências.

Vejam, não estou me referindo a jargões específicos de profissões (que sempre existiram) ou termos técnicos. Mas expressões desnecessárias, sempre com um equivalente em português que facilitaria a comunicação.

De certa forma, trabalhando em comunicação empresarial, acabei sublimando esse incômodo e aprendi a conviver com os afetados ao redor. Até que me surpreendi quando lia uma revista.

Deveria ser óbvio, mas muita gente parece não saber que há diferenças brutais entre o que falamos e o que lemos. Pelo menos, deveria ser assim. Aquele papo de norma culta, alguém se lembra? Pois bem, cabe aos meios de comunicação manter a compostura, usar a tal norma culta e, principalmente, escrever em português. Mas aí… Vejam o texto abaixo.

…estrategista da prática de digital e social media da agência. Segundo ela, a empresa se prepara para montar no país uma sala de comander center, a exemplo do que já existe em Washington…

É muito pouco texto para tanta coisa escalafobética. O trecho acima foi publicado na página 25 da revista Valor Setorial – Comunicação Corporativa de novembro de 2011 (sim, minha leitura está bem atrasada). Está lá assim, sem qualquer grifo nas palavras em inglês, com redundâncias em dois idiomas. E com que objetivo?

Por quê digital e social media? Não bastasse estar errado em inglês (deveria ter and no lugar de e), por que não dizer ‘mídia digital e social’? Depois, o que dizer de sala de comander center? Além de também estar errado em inglês (o correto é commander), poderia simplificar a vida do leitor usando expressões como sala de comando ou centro de comando.

Como podem ver, tudo bullshit. E se em apenas algumas linhas já vimos isso, imaginem o resto da revista… E é claro que isso deve se repetir em muitas outras publicações.

Por conta da revista, lembrei do texto abaixo, citação do livro A imprensa e o caos na ortografia, de Marcos de Castro. Um comentário de Eça de Queirós (1845-1900) sobre a cobertura, na imprensa portuguesa, de uma visita que D. Pedro II fez a Alexandre Herculano em 1872.

Sua Majestade Imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão acordes, e a História, tranqüila. No que porém as opiniões radicalmente divergem é acerca do lugar em que se realizou a visita do Imperador brasileiro ao historiador português.

O Diário de Notícias diz que o Imperador foi à mansão do Sr. Herculano. O Diário Popular, ao contrário, afirma que o Imperador foi ao retiro do homem eminente que… O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o Imperador foi ao tugúrio de Herculano (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o Imperador esteve realmente na tebaida do ilustre historiador que…). Uma correspondência para um jornal do Porto afirma que o Imperador foi ao aprisco do grande… etc. Outra vem todavia que sustenta que o Imperador foi ao abrigo desse que… Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que Sua Majestade foi ao albergue daquele que… Outros contudo sustentam que Sua Majestade foi à solidão do eminente vulto que… E um último mantém que o imperante foi ao exílio do venerando cidadão que…

Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que Sua Majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano.