A carta

fogoQuando Ana e Zé se viram pela primeira vez o garoto ainda não tinha chegado aos 20 anos. Mal começara a faculdade e nem carteira de motorista tinha. Ana, em compensação, já morava sozinha nos seus vinte e poucos, trabalhava, sabia bem o que queria (ao menos era o que ela pensava…).

Se conheceram por acaso, em um evento em que os dois estavam trabalhando. Ele, estagiário. Ela, coordenadora. Ele tentando descobrir o mundo, ela já se achando dona. E mesmo assim rolou aquele clic. E daquele tal evento que duraria vários dias, o esbarrão foi logo nas primeiras horas. Enquanto davam conta, cada um do seu trabalho, se viravam para se encontrar. Fosse para almoçar, fosse para brincar no parquinho mequetrefe que existia nos fundos do pavilhão onde estavam. Ele, que até hoje morre de medo de altura, querendo impressionar, criou coragem para uma volta na montanha russa que tinha ares de filme B.

Hoje não lembram mais se o primeiro beijo foi logo ali ou depois do passeio nada assustador no trem fantasma. Mas engataram o namoro, quem diria? Tudo isso já faz quase 25 anos. E enquanto se sentia meio que o Eduardo, Zé se apaixonava. Mas Ana não era Mônica. E apesar de grandes momentos e até algumas aventuras, o casal nem chegou ao Natal daquele ano. Vida que segue, pois.

E os anos passaram como pra todo mundo. E vieram os casamentos e os filhos. Mas de uma maneira, talvez estranha, certamente inesperada, mantiveram contato. Falavam vez em quando e – vá lá – podiam até se dizer amigos.

 

Demorou mais de dez anos para que se reencontrassem, finalmente dispostos e disponíveis. Ela linda como sempre, morena de olhos verdes e sorriso infinito. Ele já achava que era homem, barba bem feita e um bom emprego. E chegaram a sair algumas vezes, sem e com filhos. Programas a dois e a muitos. E do alto da sua prepotência, “agora ela é minha”, abriu a guarda. E entrou pelo cano. De novo. Dessa vez, sem aviso, sem conversa, sem abraço. Ele esperando. Ela sumiu.

E nenhum cataclismo aconteceu, muito pelo contrário. Vida que segue, de novo, pois.

E a moça casou de novo. E ele teve bandas. E ela lançou livros. E ele deu a volta ao mundo. E ela pintou quadros. E ele casou de novo. E ela compôs belas canções. E ele também. E os dois descasaram. Ambos mais de uma vez.

A moça, virava e mexia, lhe aparecia na lembrança. Mas não era amor nem paixão nem abandono, nada além da sensação estranha de algo inacabado. E não é que um dia, o sujeito tranquilo em casa, piscou a janela de mensagens da rede social? Justo no momento em que tentava descobrir como recomeçar a vida depois de mais um casamento desfeito, quarto ou quinto a essa altura, vá saber.

– E aí, tudo bem?

Não, não estava tudo bem. Sozinho de novo, perrengue no trabalho, em crise até com os filhos, “vou virar eremita no Nepal”.

– Tudo ótimo, e por aí? Novidades?

E seguiram nessa lengalenga por dias, semanas, sem maiores escaramuças ou provocações, até criarem a coragem pra se ver. Encontro protocolar em boteco com mesas de plástico. Mas a cerveja, pelo menos, era gelada. E depois de muitos goles, finalmente cumpriram o inevitável. E se acreditando sem cobranças ou compromissos, se aproveitaram. Não sabiam ao certo se estavam tirando o atraso, recuperando o tempo perdido ou vivendo uma nova história. Mas sorriam, como sorriam…

 

Mas tem coisas que não são pra acontecer. E, de novo e do nada, a moça silenciou.

– Podemos nos ver hoje à noite?

– Não, não podemos. Não quero casos, amantes ou namorados. Não quero me sentir presa.

 

Quando o sujeito já acreditava que não a veria mais, quando decidiu que tinha tudo chegado ao fim, mesmo achando que não existia um fim, a tal caixinha de mensagens piscou na tela à sua frente.

– Em 2025 te conto porque não deu certo dessa vez. Tudo anotado.

– Se está tudo anotado, fala logo. Dez anos é muito tempo.

– Nos encontramos no lugar de sempre, pra não ter dúvidas. E se não quiser esperar, azar o seu.

Conversa estranha justo no dia do aniversário dela. À noite ele não apareceu. Nem flor, nem recado, nem bombom. Pra quê?

 

Alguns meses depois, foi atingido. Bala perdida quando saía de um boteco no Grajaú. Não resistiu. Ela soube, mas faltou coragem de aparecer pra se despedir pessoalmente. Sozinha na varanda, entre as tintas, telas e os violões encostados na parede, abriu uma cerveja e escreveu uma carta. Sem lágrimas, sem rasuras. E depois do último gole, queimou aquelas folhas de papel com a história que não seria contada dali a dez anos.

Anúncios

Tóis

Então chegou definitivamente a hora de virar a página. Ainda não me acostumei, mas a Copa acabou de verdade e há coisas mais importantes a fazer agora. Afinal, outubro e as eleições já estão chegando. Só pra dar um exemplo, claro.

Então, pra encerrar com chave de ouro o assunto (pelo menos até que o novo técnico da Seleção seja anunciado), segue a crônica esplendorosa publicada na segunda-feira pelo Joaquim Ferreira dos Santos.

Logo depois, os dois grandes vídeos de encerramento das coberturas da ESPN (internacional) e da BBC.

O fim de Tóis

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados

Dedo de Deus, Teresópolis / ReproduçãoÉ pau, é pedra, é o fim do caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível. Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das batalhas — e se julgavam mais motivados.

Ninguém sabia onde queria chegar aquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à mostra. Diziam-se uma família.

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.

Durante um mês, estes 23 soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa sobre futebol, pois já de tudo sabiam.

Os guerreiros de Tóis eram os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano. Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.

Antes das pugnas, os meninos de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na taça.

Os guerreiros de Tóis chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra. Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

Definitivamente, o ar rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.

As ordens com que administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.

Os guerreiros de Tóis se achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.

Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam.

Tóis era a reunião de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado. Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde estava tatuado “Tudo passa”.

Nada passa, tudo fica — e fez-se o apagão eterno em Comary.

Nunca mais Tóis.

 

Crônica de sexta-feira (22)

Meu fornecedor de crônicas de sexta-feira sumiu. Deve estar de férias, talvez esteja na França, a caminho de Le Mans. Será? Por hora, o que importa é que lembrei do Literatofonia. Já publiquei uma crônica de Thiago. Como é bom, está de volta. E a trilha sonora está aqui. Uma canção que, sei lá por quê, não sai da minha cabeça há dias. E combina com o dia.

A menina da poltrona catorze

Como quase sempre, escolhi um assento no meio da última fileira.

Ela chegou quando todas as luzes já estavam apagadas e, quando fiz menção qualquer em oferece-la passagem, ela foi sutil:

– Não se preocupe, moço, não vou passar. Vou sentar aqui ao seu lado, obrigada.

Catorze palavras depois, ela se acomodou em silêncio perturbador. Poltrona catorze. A voz e o perfume assaltaram meus sentidos, quase adormecidos até aquele instante que precedia o início do filme. Pude senti-la intensa e imediatamente, mesmo que só por duas frases impessoais e pelo frescor aldeído que a pele emanava. A voz, mais delicada. O perfume, mais agressivo. Ambos doces e paralisantes.

Não consegui assistir ao primeiro minuto e meio. A silhueta da moça insinuava traços perfeitos, mas o contorno do rosto e o nariz ainda insistiam nalgum mistério. Indiscreto e ressabiado, reclinei o pescoço e desviei os olhos como se o drama estivesse projetado sobre o corpo secreto à minha esquerda.

A Menina que Roubava Livros me pegou pelas mãos e me levou ao passado nazista de uma terra distante que só conheci depois da barbárie. Liesel me encantou, logo me deixou esquecer da menina que habitava a poltrona vizinha. Na verdade, estávamos nós dois passeando por uma Alemanha de ruas cinzentas – povoadas pela suástica e a bola de capotão; a guerra e o futebol. Alemães, judeus, soldados e comunistas. Crianças. Perseguidos e perseguidores. Fogueiras. Sorriso de acordeão. Clandestinidade. Cenas e frases sublimes. “Palavras são vida. Se seus olhos falassem, o que diriam?”.

Os olhos dela não falavam, mas, ainda que escondidos no breu do cinema, diziam muito. Lacrimejavam. Tímidos, primeiro. Depois transbordavam, navegando entre a crueldade hitleriana e o amor infantil da literatura. Da poltrona catorze, fez-se mar. A moça cuja beleza eu adivinhava sem pressa agora se desnudava no choro convulsivo feito uma judia a caminho do exílio. Entre um soluço e outro, levou as mãos ao rosto. Sofria mais do que o personagem. Talvez porque fosse descendente daqueles miseráveis condenados ao nada, talvez porque não queria aceitar a advertência de que a morte é inevitável.

Pensei em conforta-la, de repente toca-la nos ombros e manifestar carinho. Não o fiz porque já não sabia medir, àquela altura, a sensatez entre a boa fé e minhas segundas intenções. Retomei o longa-metragem. Impossível não me lembrar da visita a Auschwitz, quatro anos atrás, e em todas as sensações que essas memórias ainda me causam. Chorei – e percebi que ela me olhava pela primeira vez desde aquele par de frases cândidas. Mantive a inércia provocada pelas reminiscências do campo de concentração e não devolvi o olhar, mas tenho certeza que ela se sentiu mais segura ao testemunhar minhas lágrimas.

A voz onisciente da história (ou História?) concluiu que os seres humanos são assombrosos. A trilha sonora ainda ressoava triste e reflexiva quando ela se levantou. Saiu apressada tateando os degraus na ponta dos pés, não sei se para esconder o rosto molhado ou para escrever sobre o nosso breve romance platônico.

Sugeri a mim mesmo alcança-la nos corredores iluminados, coloridos e barulhentos lá fora – mas continuei sentado até que o piano silenciasse depois do último crédito. Caminhei de volta pra casa conformado com a verdade da frase que o filme ecoava: ninguém vive para sempre.

Aquela moça viveu o tempo necessário para que eu a presumisse e a desejasse, mas não a tivesse. A menina da poltrona catorze viveu pouco mais de duas horas e partiu sem rastros. Levou consigo, roubado, o livro que eu gostaria de escrever. Deixou comigo, nesse pedaço tosco de papel, os rabiscos de um romance mudo sem final feliz.

Thiago Crespo

Crônica de sexta-feira (21)

Lewis Hamilton foi o líder do primeiro dia de treinos em Melbourne / Foto: Clive Mason/Getty ImagesSabia que o Rodrigo não me deixaria na mão hoje, logo hoje. E o ‘ufa’ dele é sinceramente igual ao meu, ao do Zé, do Ricardo, Luiz Octavio, Davi etc etc etc. e eu poderia ficar fazendo uma lista quase infinita só dos meus conhecidos que esperavam por esse fim de semana pelo mesmo motivo. Gente que passou a última madrugada ou boa parte dela assistindo 22 carros darem voltas no circuito australiano só pra tentar entender o que, como e quanto mudou tudo.

Coisas dessa primeira noite, dois treinos livres, que anotei relevantes ou simplesmente gostei:

– depois de uma pré-temporada pífia, todo mundo dava a Red Bull e Vettel como descartados para o ano. Pois ontem o sujeito ficou só a 0,7s do líder. Estou curiosíssimo para ver a diferença na classificação e se conseguem terminar a corrida. Se conseguirem confirmar a pouca diferença em velocidade e terminarem em boa posição, começarão a temporada europeia em alta e brigarão pelo título. Newey não é Newey à toa e ninguém é tetracampeão por acaso;

– acho que vou na contramão da maioria, mas gostei do ronronar dos novos motores de mãos dadas com o silvo (inspirado, inspirado…) do turbo;

– os pachecos que só estão preocupados em torcer por um brasileiro não gostaram dos resultados da Williams. Culpa da expectativa criada e da falta de explicação da vênus platinada e suas afiliadas. Primeiro é preciso entender que o time não será uma nova Brawn, mas vai sim brigar por boas posições e até vitórias. Ninguém se deu conta que Massa e Bottas fizeram long runs, com quase o mesmo número de voltas e pneus completamente diferentes. É o acerto, tolinho;

– Alonso já está tentando engolir Kimi desde já. Só não sei o finlandês está preocupado ou se vai entrar nessa pilha. Pelos pneus que usou e o número de voltas que deu, desconfio que estava mais preocupado em acertar a F14T para a corrida;

– Lewis largará na pole, Rosberg vencerá a prova;

– foi lindo ver os carros rabeando a torto nas retomadas. Viva o torque!

– Kobayashi merecia mais;

– a pintura da Williams ficou mais bonita na foto do que no vídeo;

– tiraram a Lotus da tomada?

– piada do dia: “Guessing @MassaFelipe19 was shaken, not stirred by that trip on the rocks”, da Lotus no Twitter sobre uma imagem de Massa rebolando numa zebra. Se você não entendeu, é porque não assitiu tantos filmes de James Bond quanto deveria.

E chega. Vamos à leitura que interessa.

A vida volta ao planeta terra

Ufa! Terminou o longo, tenebroso e detestável período anual de ausência de vida, de emoção, de tristeza, de sensação de um vazio chato, incômodo, feio e outros adjetivos piores. Todo ano é a mesma coisa, alguém precisa mudar isso, não pode continuar assim. Nós, humanos, não merecemos isso, ninguém merece sofrer assim, todos os anos, por semanas e semanas.

Nós, aqui nos trópicos, não podemos fazer muita coisa e eu estou contribuindo, faço a minha parte, dedicando uma sexta-feira a este assunto e, se não me engano, não é a primeira vez que escrevo sobre isso. O título “A vida volta ao planeta terra” é simplesmente muito mais que a pura verdade, a mais sincera realidade para mim e para tantos outros cidadãos comuns, em tantos países mundo afora, cada um do seu jeito e do seu modo, mas todos, tenho certeza, aliviados, a partir de hoje, pelo fim do citado período negro e início de mais um tempo florido, belo, emocionante, cheio de vida, motivante, incentivador, exemplar.

A alegria é contagiante, a emoção nos faz arrepiar, todos os sentidos se manifestam ao extremo e às vezes a gente até perde o controle, o corpo e a mente não aguentam, mas isso faz parte do jogo. Se não fosse assim, seria rotina sem graça. A adrenalina faz parte do nosso organismo e de vez em quando penso que o liquidificador que temos dentro da gente deve mesmo dar umas boas sacudidas.

Então, homens, mulheres, crianças, idosos, papais, titios, mamães, vizinhos, sobrinhos, primos e amigos, rejuvenecei-vos, pois 2014, de fato, a partir de agora, nos traz de volta à vida que tanto gostamos, que tanto batalhamos para conquistar, que nos dá tanto prazer, que proporciona aquele brilho nos olhos, os sorrisos de propaganda de dentifrício, os pulos incontidos, as batidas fortes e às vezes exageradas do coração. Agora, sim, voltamos a nos orgulhar por sermos seres humanos, vivendo na graça e plenitude desta benção que Deus nos deu, que é a vida e que, apesar de tanta coisa tentando atrapalhar, a gente, no fundo, sabe que nada, nada pode impedir a nossa incessante busca pela felicidade, pelo amor, pela bondade. Viva! Hip hip urra! Começa mais uma temporada da Fórmula 1!!!!!!!!

Rodrigo Faria

A trilha de hoje não poderia ser outra: George Harrison.

 

Crônica de sexta-feira (20)

Montanhas

MatterhornA inspiração da crônica de hoje surgiu de forma inesperada, por um email que minha filha Junia enviou-me. “Você vai gostar”, escreveu ela. Não só gostei como imediatamente escrevi o texto abaixo, que ficou bem diferente dos outros, mas mesmo assim penso que vale. Diferente por que escrevi pouco e, pela primeira vez, uso recursos de terceiros, via internet, youtube ou seja lá o que for. Sexta-feira moderna, esta. Vocês verão que as palavras terão importância reduzida, as imagens é que irão falar por si.

Um fato que marcou a minha infância – depois ficou fácil constatar que marcou a minha vida inteira e ainda marca –  foi assistir, no Cine Pathé, o filme “O terceiro homem da montanha”, uma produção americana, de 1959. A partir das imagens que vi, eu cresci imaginando subir em todas as montanhas do mundo. A história do filme não foi tão importante para mim, mas a partir daquelas imagens, eu, sem modéstia alguma, me senti legitimamente como as pessoas que vivem fotografando, escalando, pintando, conhecendo, sonhando, caminhando, acampando, admirando e sempre pensando nas montanhas. Até escalei algumas, caminhei em outras, visitei muitas, felizmente. Resumindo, durante toda a minha vida a montanha ocupou lugar de destaque no que diz respeito à admiração da natureza, de aprender os riscos e, principalmente, de saber que somos pequenos demais em relação à elas. Quando estive em Banff, Canadá, com a Junia, fiquei super emocionado, pois é lá que existe uma instituição que se dedica, exclusivamente, ao estudo das montanhas. Algo como Centro de Estudos da Montanha, em português. Tenho que voltar lá um dia.

Tanto é assim que determinei, por vontade própria, que uma montanha seria a minha montanha. Matterhorn, em Zermatt, na Suíça, passou a ser a minha montanha. Só minha. Sim, pode até ser pela sua imagem nas embalagens de toblerone. Mas é muito mais que isso. O seu formato, lindo, de frente para o leste, pontiaguda, alta (4.478 metros), sempre me fascinou e eu sempre dizia: ainda vou nesta montanha. Não só fui como, antes, meus filhos a visitaram, por vontade minha mais que as deles. E já fui duas vezes, pois tive o privilégio divino de realizar o sonho que imaginei aos pés da Matterhorn, quando a vi pela primeira vez: tenho que trazer o Beto aqui! Beto, para os leitores menos chegados, é a minha alma-metade, mais montanhista do que eu, pois é geólogo. E fomos lá, sim. Após as visitas dos filhos, eu e Margareth visitamos Zermatt no inverno de 2004, se não me engano. E alguns poucos anos depois, em plena primavera alpina, lá estava eu, Junia, Beto e sua mulher, Isabel.

Pois é. Vamos deixar que as imagens e os recursos tecnológicos finalizem a crônica de hoje, apenas reforçando que: as montanhas são demais e a minha montanha é única, linda, maravilhosa.

Rodrigo Faria

Crônica de sexta-feira (19)

Carnaval

FantasiasVocês conseguem pensar em um momento mais brasileiro que o carnaval? Calor de verão, alegria, feriados (por tradição e religião), eventos ao ar livre (em sua grande maioria), sambas, fantasias e, principalmente, a ‘coisa’ mais brasileira que existe: gente das mais diversas raças, cores, culturas, classes sociais, idades, sexos e suas variáveis, todas com o objetivo de se divertir. Infelizmente uns poucos estão preparados para outras coisas, mas não vamos, pelo menos hoje, destacar pontos negativos do período momesco que tanto aprendemos a gostar.

Penso realmente que o carnaval é uma das mais fiéis definições da brasilidade e fico muito feliz quando vejo, leio ou ouço que os blocos de rua estão se organizando, os sons automotivos estão sendo proibidos em muitas cidades no interior, o festival de marchinhas no Rio de Janeiro é um sucesso, os desfiles de escolas de samba continuam como grandes destaques turísticos e culturais, e a sociedade ainda fica cada vez mais alerta aos abusos.

Deve e tem que ser assim. Esse período de descanso e isolamento para alguns, e muita agitação para outros, não pode ser caracterizado por coisas desagradáveis. E cabe a cada um de nós fazer a sua parte, esperando que as outras partes também cumpram as suas obrigações, ainda que isso possa parecer pura fantasia.

E por falar em fantasia, eu – que adoro vestir uma e sair por aí – dou minha contribuição aos leitores que talvez ainda estejam em dúvida sobre o que vestir neste carnaval. Seguem dicas para algumas fantasias inéditas e espetaculares, podem acreditar:

Engov (ou Engove, como queiram)
Vista um lençol meio amarelado/prateado, com umas pinceladas de azul, e carregue uma placa de papelão, onde se leia: Já tomou? Não? Então tome!

Homem bomba
Deixe a barba crescer, vista uma túnica, calce chinelos franciscanos, enrole tubos de papelão imitando dinamites e cole-os num grande cinto ao redor do seu corpo. Mas não se esqueça de identificar cada uma das bombas, de um modo que todos possam ler seus nomes: paz; amor; lixo na lixeira; chocolate; se beber, só de táxi; mulher do outro… É do outro (o mesmo para as moças, por favor); endereço e telefone (nessa você coloca uma cópia da identidade e comprovante de endereço, só por segurança). Diga que vai explodir as bombas durante todo o ano de 2014.

Rede social
Enrole-se numa rede de dormir pequena, fácil de carregar, nada daquelas pernambucanas, enormes. Escreva ‘social’ numa faixa e a coloque na cabeça. E você estará pronto para milhares de contatos. Pode ter também uma folhinha de papel pregada no peito: ‘é só clicar aqui’.

Apagão
Vista uma roupa inteiramente negra, até a cueca ou calcinha. Pinte o seu rosto de preto, transforme-se num verdadeiro breu ambulante. Carregue uma lanterna com o recurso de luz intermitente, só pra chamar um pouco mais de atenção.

Por último, nosso gran finale, a fantasia que fará o maior sucesso. No seu carnaval e no dos outros:

Ingresso da Copa do Mundo no Brasil
Vista uma roupa que você usaria pra ver um jogo de futebol e carregue uma bola que possa parecer a oficial do torneio. Armazene comida e bebida para todo o período, tranque a porta e feche as cortinas de todas as janelas de sua casa e… Pronto!!! Não saia nem ouse aparecer nas janelas até as 12h de quarta-feira de cinzas. Não atenda o telefone, não use a internet, não responda se alguém te procurar. Você não existe, é peça de ficção científica, é só uma imaginação de alguns torcedores.

E um bom carnaval a todos.

Rodrigo Faria

E a trilha sonora? Clique aqui. Um clássico e tantinho de liberdade poética sobre o Brasil de hoje e de amanhã.

Crônica de sexta-feira (18)

A trilha sonora de hoje é do Bermuda Acoustic Trio. Quem me fez lembrar deles foi o André Lopes, amigo do tempo do ronca, do tempo em que Dondon era praticamente um recém aposentado do Andarahy.

O vídeo é a reunião de dois shows da turma em sua formação clássica, a que eu gosto mais. Desde 2012, se apresentam com o reforço de percurssão, bateria e a bela voz de Luciana Buttazzo.

O grupo se reuniu por acaso, em 1995 e sua formação original tinha Giorgio Buttazzo e Gabriel Mountains (violões) e Jordan Kamsin Urzino (baixo). Em 2012, Jordan – com problemas de saúde – foi substituído por Andrea Atto Alessi.

Além de tocarem demais, os caras têm um bom gosto para o repertório. Mesmo misturando rock, folk, jazz e blues, com referências que vão do flamenco ao clássico, passando por trilhas clássicas de todos os estilos e especial deferência a Enio Morricone, os arranjos – mesmo com espaço para algum exibicionismo – não deixam ninguém cansado. Muito pelo contrário.

Coloquem o fone de ouvido e aproveitem para embalar a leitura.

Crônica de uma sexta-feira

Uramaki– Alguma carta perdida, Seu Edmar?

– Chegou nada, não. Quer dizer… carta nenhuma. Chegou, sim, foi a menina bonita! Ê, sexta-feira!

O sotaque debochado do porteiro apressou meus passos cansados. Minha viagem cotidiana ao oitavo andar demorou a eternidade do nosso último beijo (na menina bonita, não no Seu Edmar). E quando eu abri a porta de casa, ela já me esperava toda sorriso.

Chegara não havia cinco minutos, me abraçou com cuidado e mostrou as unhas recém esmaltadas. A amargura de mais um dia exaustivo tão logo se dissipou quando mergulhei naqueles olhos de avelã. Minha pele ardia em brasa por causa do sol paulistano, mas o atrito ainda tímido dos nossos corpos amaciava os ombros e os braços castigados pelo calor.

Estávamos com fome, tesão e saudades. Transamos na pia do banheiro feito adolescentes famintos. Depois, recompostos, partilhamos uramakis à meia-luz enquanto passeávamos por nossos fantasmas e nossos futuros. Ela pediu saquê com frutas vermelhas. Para mim, por favor, apenas uma água com gelo e limão. Tanto fazia a bebida: estávamos embriagados de poesia e virtude. Ambos.

Olhos em chamas, ela descreveu as primeiras impressões da cidade nova – e assumiu tamanha doçura na voz que pude visitar as ruas da planície enquanto ela falava. Perguntei sobre os costumeiros versos muito além da minissaia, mas ela me contou que morre depois de cada rascunho. Explicou que o texto machuca por dentro, desata em vômito e demora a cicatrizar. Eu, não. Eu gozo, renasço. Vivo mais do que nunca depois de cada palavra escrita. Brindamos. Discorremos sobre nossas paixões e nossas clarices. Somos um rabisco, afinal, de Falcão e Lispector. De ingenuidade ensaiada e sentimentos herméticos.

Mais tarde, dedilhei o violão abafado pelo silêncio da madrugada. Li, baixinho, uma crônica manauara quando nos deitamos. Ela alcançou minha estante e retribuiu. Buscou o presente que me deixara na última vez e recitou a dedicatória: “Eis aqui uma lembrança, um recado, um socorro, se preciso. Pra que não lhe falte inspiração na vida, nem sorrisos, nem amor. Pra que você tenha mais um motivo pra não se esquecer da menina que mais te quer bem e, então, nunca se sinta só”.

Acordamos no dia seguinte, satisfeitos e apressados. Com tesão e saudades, de novo. Cada qual, de novo, no seu próprio caminho. Abotoei o uniforme conformado com a ideia de que meu sábado mais uma vez estaria de luto, roubado, vestido de azul. Quando ela também se vestiu e foi embora, percebi que ela não deixaria apenas a lembrança de uma única noite. Parecia uma vida inteira. Uma história a ser repetida quantas vezes permitissem nossos destinos quase sempre incongruentes.

Thiago Crespo, do blog literatofonia