Hora da escola (6)

Uma escola diferente não se faz apenas dentro de sala de aula, mas em todas as suas dimensões. Não adianta, por exemplo, discursos lindos ou projetos político-pedagógicos que, bem escritos em seus sites, não passam de publicidade ruim se não são colocados em prática em todos os níveis.

Felizmente há cada vez mais escolas tentando praticar essas “novidades”. É o caso da escola das minhas mocinhas, a Oga Mitá. Ela faz isso há 38 anos. Só.

Não, isso não quer dizer que seja perfeita. Isso não existe. Mas quando o discurso é colocado em prática, as coisas realmente acontecem. É o caso do reajuste zero, pelo segundo ano seguido. Dá pra imaginar como seria aguentar as mensalidades, mesmo com algum desconto, se tivéssemos acompanhado a inflação de mais ou menos 20% nesses dois anos?

Já contei em outros posts (a série completa está aqui) como funcionam as coisas por lá, a comissão de planejamento, as assembleias, a participação dos pais em todos os temas da escola. Porque a educação dos nossos filhos não pode se restringir a entrega-los e busca-los no portão. Precisamos nos envolver. E precisamos ser parceiros, trabalhar juntos. E muitas vezes é muito trabalho. Mas vale a pena, é mais um pedacinho do legado que vamos deixar para nossas crianças.

E a experiência mostra que a relação não pode ser Pais/Responsáveis contra a escola, mas Pais/Responsáveis COM a escola. Se a instituição em que seus filhos estudam não permitem isso, será que não está na hora de buscar alternativas? Pense a respeito.

Andamos falando tanto de mobilização, de democracia… Que tal praticar?

Hora da escola

O texto abaixo foi publicado originalmente no dia 20 de novembro de 2010. Mas até hoje ele é disparado o post mais visitado, mas lido e comentado do blog, com mais de 5 mil visitantes únicos. E é por isso que resolvi republicá-lo, não por acaso na época de busca por escolas, de matrículas e rematrículas.

Na época procurávamos a primeira escola da Helena. Hoje, ela e Isabel seguem felizes suas vidas escolares. E é bem fácil deduzir que a Oga Mitá foi a escolhida.

Esse texto tem quatro filhotes e vocês podem encontrar todos eles clicando aqui e espero que sejam todos úteis.

E aos que decidirem visitar a escola, tenham a certeza que – além de serem muito bem recebidos – vão se surpreender. Basta estarem dispostos. E não esqueçam de dizer como chegaram à escola, que foi uma indicação do Gustavo, pai da Helena e da Isabel. A casa agradece de joelhos  ;).

Sabe aquela frase sobre o futuro de nossas crianças que já virou clichê: “não importa que mundo vamos deixar para nossas crianças, mas que crianças vamos deixar para o mundo”. Pois é, foi uma semana bem interessante essa que passou. Já peço desculpas antecipadas pelo texto longo que escrevi, mas achei que dividir essas experiências seria importante.

Já há alguns meses desde que a Mari começou a visitar escolas próximas de casa em busca de um bom lugar em que Helena comece sua vida acadêmica. E nesta semana fizemos um pequeno roteiro juntos. Como estou muito longe de ser um especialista em educação, minhas impressões refletem – simplesmente – o que percebi como pai em função do que gostaria para minha filha.

Construção

Foram cinco visitas nos últimos dias, teremos mais uma na segunda-feira. E em cada uma delas, olhos e ouvidos atentos às qualidades e defeitos. Como quando o ano letivo começar, em fevereiro, ela terá um ano e quatro meses, além de entender como é o processo pedagógico de cada uma, muita atenção às pessoas que possivelmente lidarão com nossa menina e com a estrutura oferecida, instalações etc.

A primeira visita foi à Oga Mitá. E algumas coisas interessantes chamaram muito a atenção. O primeiro ambiente, logo após passarmos o portão, é a biblioteca. A partir daí, não deveria ter sido surpresa encontrar, no sofá próximo à secretaria, uma menina confortavelmente instalada e concentrada no livro em suas mãos. Em horário de aula! Ao mesmo tempo, na pequena quadra, meia dúzia de quatro ou cinco crianças jogavam bola. A essa altura, Helena já andava pra lá e pra cá. E quando fomos fazer a visita propriamente dita e conversar com a coordenadora, ela já tinha se enturmado com as crianças de sua idade e ficou junto com a turma. Hummm…, foi o que pensei.

A linha de atuação da escola é baseada no construtivismo, o que – entre muitas outras coisas – incentiva a autonomia das crianças.

Hummm, continuei ruminando, quer dizer que é possível incentivar minha filha a pensar para que serve a tabuada ao invés de simplesmente fazê-la decorar que 7 X 9 = 63? É possível, mais do que ensinar, incentivar minha filha a decidir o que é certo para ela? Hummm…

Muitas questões

A segunda visita foi à Meimei, outra escola muito bem conceituada e que, em tese, também segue uma linha progressista. Fomos muito bem recebidos por todos e Helena, rapidamente, já estava mais uma vez entre as crianças. A estrutura da escola é bem legal, todas as pessoas muito simpáticas e tal, crianças nitidamente muito bem educadas, mas sabe aquela sensação de que algo não bate?

O que me incomodou foi um certo artificialismo, presente principalmente no discurso da coordenadora que nos recebeu. É que para ela tudo era uma questão. A questão do leve e pesado, do doce e salgado, do quente e do frio etc etc etc. Eram tantas questões e nenhuma resposta que fiquei ensimesmado. Alguém poderia dizer que o problema, então, não era a escola mas aquela pessoa. Mas, como lembrou a Mari, quem colocou aquela moça ali?

Três sapos

A sexta-feira foi bem movimentada, com visitas a três escolas. A primeira foi à J’Alevi. Mari já tinha visitado essa antes e, de certa forma, gostado. Na verdade, uma pequena escolinha tradicional, onde tudo funciona bem, profissionais simpáticos, crianças sorridentes e bem educadas. E bem perto de casa, pra ir andando. Mas aí, quem implicou fui eu. Um sobradinho acanhado, onde tudo é apertadinho e cheio de escadas. Pra mim, coisas que não combinam com crianças.

Logo depois, andamos mais 50 metros e chegamos à Sindicato da Criança. Fomos muito bem recebidos por uma das sócias da escola. A visita não ia mal não, muito pelo contrário, estava gostando mesmo do que via. Tudo muito simples, mas tudo bem feito e resolvido, até que entramos em uma sala e… “Haviam (sic) três sapos”.

A frase estava lá na parede, em um quadro em que as crianças, aparentemente, estavam aprendendo as primeiras noções de matemática. Depois dessa, precisa dizer mais alguma coisa?

Grande empresa

A última visita foi ao Mopi. É bem possível que, lá em 1973, quando a professora Regina Canedo fundou a escola, sua proposta fosse realmente brilhante. E se é inegável que a escola é conceituadíssima e acumula muitos bons resultados em sua história, minha impressão é de que – em algum momento de seus 37 anos – algo saiu dos trilhos.

Tudo é superlativo, o gigantismo é característica que grita aos olhos de quem circula pela escola. À primeira vista, a estrutura é sensacional e apesar de ser uma “escola vertical”, há espaço pra tudo. Mas como em tudo o que é grande demais, é nítida a impessoalidade no lidar com as pessoas. Sabe a diferença entre viajar e ficar numa pousada ou no Hilton? Foi o que senti.

Listo alguns detalhes que chamaram nossa atenção, infelizmente, sempre negativamente. Das escolas que visitamos juntos, foi a única em que Helena não conseguiu interagir com outras crianças. Foi a única em que vimos crianças correndo pelos corredores estabanadamente, esbarrando nos outros e sequer se preocupando em olhar pra trás para ver se estava tudo bem (pedir desculpas, então, nem pensar). Foi a única em que, antes mesmo de avaliar o desenvolvimento de Helena, já fomos avisados que ela teria que repetir a série (maternal 1 ou algo assim) em função de sua idade (porque ela teria 1 ano e quatro meses e o certo seria um ano e seis). Não fomos apresentados e não vi biblioteca, simplesmente não sei se existe. Funciona como uma grande corporação, terceirizando serviços como a alimentação, aulas de laboratório de ciências, aulas de inglês e sei lá mais o quê. É a única que em todas as suas salas há instalado um quadro board (primeira vez que vi uma redundância bilíngüe), usando a tecnologia como grande bandeira mas esquecendo que ela deve ser ferramenta ao invés de princípio.

Por fim, além de não encontrar qualquer coisa positiva, ainda é a escola mais cara.

O que queremos?

Nos recusamos a participar da neurose que tem tomado conta de muitos e muitos pais de nossa geração e escolher a escola em que Helena entrará com menos de um ano e meio imaginando em como isso se refletirá em sua colocação no vestibular. Também não queremos uma grife.

Em compensação, fazemos questão de um ambiente que seja agradável a ela, em que ela se divirta e aprenda de maneira natural, em que seja tratada como gente e não como a criança número 9 da lista de chamada.

Ainda lembro de uma troca de cartas entre meu pai e uma professora de português na minha quinta série, sobre uma questão de prova. Não acho que esse distanciamento funcione, não quero passar por algo parecido. Procuramos uma escola à qual tenhamos acesso, em que participemos ativamente do processo de educação de nossa moça, como parceiros que devemos ser, ao invés de entregá-la e buscá-la nas horas marcadas e vocês que se virem.

Ainda não tomamos qualquer decisão, ainda há outras escolas para visitar e algum tempo para pensar. Mas, como vocês podem ver, eliminar opções tem sido bem fácil.

O idiota e a maioridade penal

menor_infratorNão, não falo do Eremildo. Me refiro a mim mesmo. Isso, isso, Gustavo, o idiota. Vejam se não estou certo. Depois de tanto tempo sem dar as caras por aqui, resolvo aparecer para falar dessa tal maioridade penal que gerou uma bela guerra e, de quebra, uma estúpida manobra do presidente da Câmara.

Vamos em frente. Minhas experiências nos últimos anos me ensinaram a tomar algumas decisões de forma muito simples: um esquerdista é contra, seja a favor; se ele é a favor, seja contra. E no fim, eu estarei certo. Saibam que a prática se mostrou mais que certeira. Mas nesse caso, a coisa é um tantinho mais complexa.

Eu, por exemplo, pelo que vejo e ouço por aí, desconfio que discordo de tudo e todos. Ou quase isso. E olhem que ser o outrista nunca foi uma ambição…

Antes de falar propriamente da “maioridade penal”, trato dos jovens de 16 anos, aqueles que cometem crimes ou não. No Brasil, eles podem votar. Como eu acredito que numa democracia não há direito (dever, no nosso caso) mais importante do que esse, defendo que todos os jovens a partir dos 16 anos tenham todos os direitos e deveres que qualquer um. Ou seja, aos 16 anos o sujeito é maior de idade.

Agora, imagine que um garoto, de 14 anos, descole uma arma (branca ou de fogo) e decida fazer uns ganhos por aí. No meio de um dos assaltos, ele mata alguém. Desculpem, mas não acho que ele devesse ser julgado e punido em função da sua idade, mas do crime que cometeu.

E então reproduzo, porque assinaria embaixo, trecho do artigo de Contardo Calligaris publicado no dia 25 de junho.

Acredito que há crimes que são, por assim dizer, próprios da adolescência, de sua rebeldia, de sua inconsequência e mesmo de sua estupidez. E há crimes que são crimes, e basta. O critério não é só a gravidade, mas também a motivação, as circunstâncias, os precedentes, ou seja, fatores que dificilmente podem ser enumerados num Código Penal. Por isso, acho que um juiz ou um júri deveriam decidir, em cada caso, se um acusado será julgado como menor ou como adulto.

Aparte: se não confiarmos em juízes e júris, melhor desistirmos da própria ideia de poder judiciário, não é?

Por mim, a partir dos 12 ou 14 anos, todos deveriam passar pelo crivo de juízes e júris para decidir como seriam julgados: se com critérios para penas “infantis” ou adultas.

Mas e aí, jogaríamos todos nas mesmas cadeias? Bem, talvez eu até seja radical em algumas coisas, mas louco ainda acho que não. Por mim, há que se ter instituições preparadas para receber jovens e adolescentes infratores separados dos adultos, independente de crimes e penas. E acho até que não os juntaria a partir dos 18, mas dos 21 anos. Ou seja, se condenado, o jovem cumpre parte da pena em uma instituição e, a partir da idade definida como limite, segue para a outra.

E isso resolveria a questão da violência? Claro que não, eu não sou estúpido. Seria apenas um caso, um modo diferente do que temos hoje de se aplicar a justiça para quem comete crimes. Punir correta e duramente quem precisa ser punido.

Mas aí vamos explodir o sistema carcerário que já está mais do que ultrapassado e superlotado.

Também tenho uma ideia sobre isso. Não necessariamente boa, mas é minha ideia. E sinceramente acredito ser mais efetiva do que o que temos hoje. Todas as unidades do país deveriam ser federais, privatizadas e necessariamente colônias de trabalho. Agrícolas, para o autossustento, ou não. E educacionais para os jovens.

Trabalhar e estudar não seria uma opção para os detentos, mas obrigatório. Então, da mesma maneira que cada dia de trabalho (com medidas de desempenho) reduz um pouco da pena, cada nota acima de 7 faria o mesmo pelos jovens.

Pois é, demorei a escrever ou mesmo a dar opiniões por aí sobre o tema porque não achava que valia a pena entrar em discussões sem fim e, ainda por cima, correr o risco de ser xingado. Mas não resisti. Então, se você discordar de mim, basta discordar e conversar, argumentar ou mesmo deixar pra lá. Porque, no final das contas, ser educado é sempre melhor.

#VaiTerCopa

Reprodução: PaniniA piada do título é das mais óbvias e infames. Mas dei-me o desfrute de não escapar dela. Vai ter copa!

Já faz dias que estou no clima, sou desses que espera ansiosamente a passagem dos quatro anos entre uma e outra, que para em frente à televisão para assistir todos os jogos ao vivo ou VT. E ainda falta um mês. Um mês!!!

Não, não sou um alienado doidivanas. Mas tento separar o coração do cérebro de vez em quando. Sim, os problemas são muitos, enormes. Mas eles estavam aí antes, continuarão aqui depois.

Não acho que a copa impediu o investimento em educação, saúde ou qualquer outra coisa muito mais importante que futebol. Simplesmente porque o dinheiro usado para fazer a Copa não seria mesmo usado para o que importa. E isso não quer dizer que não devamos reclamar, que não devamos todos sair de casa e ocupar todas as ruas de todas as cidades desse país tropical para reclamar e brigar pelo que é certo. Que seja durante a copa e depois da copa. E todos os dias, se necessário e possível for. Afinal, é inegável que a copa foi um belo de um pretexto para se roubar mais um bom bocado.

Mas vai ter copa.

E não estou nem um tantinho preocupado com o Flamengo também. Ganhou do Palmeiras, perdeu do Fluminense e a cotação do dólar nem aí. Só achei sacanagem (muita mesmo) o que fizeram com o Jaime. Mas o que importa agora é outra coisa.

Vai ter copa!

E não vai ser nada fácil, muito pelo contrário. Esse clima de que ganhar a Copa em casa é obrigação é ridículo. Pelos exemplos recentes, basta ver que Itália em 90 e Alemanha em 2006 não chegaram à final. Curiosa e coincidentemente, uma ganhou a copa na casa da outra.

Acho que Fred e Neymar têm boas chances de serem artilheiros. Mas tenho medo de que quebrem o garoto pelo caminho. No nosso time, não confio no Hulk, no Jô, no Henrique e no Júlio César. Dois titulares, o que é um problema, e dois reservas, que podem vir a ser problemas.

Se mantida a tradição, ainda teremos alguém machucado durante a preparação. Se for um só, torço pelo Júlio César. Até porque, não poderia haver maneira mais bonita de exorcizar o fantasma de 50 e todos os resquícios de preconceito contra Barbosa do que ver um outro goleiro negro, Jefferson, como titular campeão do mundo.

Se der a lógica, Brasil pega a Alemanha nas semifinais. Aliás, há uma enorme probabilidade de que o Brasil, a partir da segunda fase, só enfrente campeões mundiais. Tenho certeza que o Brasil chega entre as quatro, mas não acho que ganhe a Copa. Desconfio que os bávaros serão os campeões, apesar da maratona de viagens, calor e umidade que enfrentarão no inverno do nosso querido patropi.

Lógica por lógica, há grande chance de Argentina e Uruguai se enfrentarem na outra semi. E a possibilidade de um outro ‘maracanazo’ é imensa. Então, é bom preparar o coração.

Suiça X Honduras, Irã X Bósnia e Coréia X Argélia devem disputar o ‘troféu’ de pior jogo do torneio. E calculo que uma vitória dos iranianos contra a Argentina seria uma zebra tão grande quanto a não classificação da Espanha para a segunda fase. Se bem que, hummm…, essa é até uma hipótese bem plausível. O Chile tem tudo para ser a grande surpresa.

Vou passar longe do Alzirão, mais longe ainda das festas oficiais. Botecos nem pensar. Sou ranzinza demais pra aturar os comentários dos outros durante as partidas e provavelmente verei os jogos sozinho no meu sofá.

Mas vou torcer como um louco. E com a certeza de que não passo nem mesmo perto de uma mãe Dinah, rezar para queimar a língua.

Vai ter copa! Só não sei por quê não começa logo…

Ser reaça é ser contra aqueles regimes onde você pode sair fuzilando quem discorda de você

Vire à direitaO texto de Flávio Morgenstern é longo. Para os padrões da internet. Ao menos, da internet brasileira. Isso significa que, provavelmente, será pouco lido. O que é uma tristeza, mas diagnosticado pelo próprio texto. E não por entrelinhas.

Além de longo, é um texto que requer reflexão, um tantinho de conhecimento e mais um bocado de não-preconceitos. Taí um outro limitador.

Mesmo assim, vale a pena. É um texto para bons leitores, aqueles que lêem textos ao invés de pessoas. Aqueles que não só não se preocupam em discordar, mas que entendem que isso é maravilhoso e ajuda a mover o mundo. É um texto para aqueles que entendem a diferença entre progresso e progressita. E que sabem que o real significado de progressista não tem qualquer relação com o significado adotado.

É um texto grande e um grande texto. Sobre o quê? Se o título do post (que está no texto) não ajuda, seguem alguns trechos. Para ler inteiro (o que recomendo fortemente), clique aqui.

É por isso que conservadores olham para o passado: para não precisar seguir caminhos que os antigos já sabiam que dariam errado no futuro. É por isso que os conservadores conservam tradições e lêem livros antigos, de Platão a Montaigne, de Shakespeare a Solzhenitsyn – o revolucionário, por outro lado, acredita que suas boas intenções bastam para “consertar” o mundo, sem esperar nenhuma reação da dura realidade.

 

Os reacionários não seguem um bloco de pensamento fechado, como crêem e evangalizadoramente querem fazer crer Gregório Duvivier e outros seguidores do pensamento único hegemônico sendo instaurado no Brasil. Kuehnelt-Leddihn, Chesterton, Xavier Zubiri, Miriam Joseph, Mário Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho são pensadores católicos. O grosso dos “reaças” americanos, por óbvio, são protestantes. Alguns, judeus (essa turma que foi vítima do nazismo e que a esquerda odeia pelo mesmo motivo, mas jura que o nacional-socialismo nada tem a ver com socialismo): Dennis Prager, Ben Shapiro, Mark Levin, Michael Medved. Outros são muçulmanos, como René Guénon, Frithjof Schuon ou Hossein Nasr. Alguns são ateus, como S. E. Cupp, P. J. O’Rourke, H. L. Mencken, Jillian Becker.

Foi assim durante toda a história, para quem conhece os fatos antes de engolir o supositório de idéias e disparar a metralhadora da cagação de regra: Eric Voegelin, que não parecia acreditar na transcendência, a defendeu por ser a origem da ordem política e da moral social. René Girard já via no mito bíblico, de Caim a Jesus Cristo, o cerne da sociedade que não precisa mais de “sacrifícios” para se purgar, vendo a realidade do cristianismo tão fortemente quanto teólogos como Bernard Lonergan. Mircea Eliade via na esquerda não mais do que tentativas de reviver Cião através de mentiras, sendo o mais importante mitólogo do mundo. Já Emil Cioran, que viu o socialismo juche na sua própria pele, odiava a Deus e o mundo (literalmente para ambos), tal como se vê no reacionarismo furioso de Arthur Schopenhauer ou no materialismo total de Ayn Rand.

Ser “reaça” é defender o individualismo e a responsabilidade individual perante o coletivo – por óbvio, portanto, que eles discordem bastante entre si. Ronald Reagan era a favor de anistia para imigrantes ilegais. William F. Buclkey Jr. era a favor da legalização das drogas (como o são todos os “libertários”). Barry Goldwater era a favor da descriminalização do aborto. Ser “reaça” é defender a liberdade de pensamento individual – por exemplo, alguém não defender o casamento gay porque acredita que o casamento é instituição de formação da sociedade, e acredita que não se deve tratar como “casamento” uma união que não é formação de família.

 

Quer ver um direitista pobre? Fale com Marco Mattei, gari italiano que vivia com a família num subúrbio e teve o apartamento no terceiro andar incendiado por Achille Lollo, da organização terrorista de extrema-esquerda Potere Operaio (dá pra ver como gostam das classes baixas). No incêndio, um dos seis filhos de Mattei ficou preso no quarto, enquanto duas filhas pulavam pelo balcão. Um filho resolveu voltar para tentar salvar o irmão menor e ambos morreram abraçados e carbonizados. O caso ficou conhecido como “Rogo di Primavalle” (incêndio de Primavelle) na Itália. Achille Lollo fugiu para a Argélia e depois para o Brasil, onde foi um dos fundadores do PSOL, junto com Heloísa Helena. Outro terrorista italiano fugitivo, o mais conhecido Cesare Battisti, também fugiu após assassinar quatro pessoas, entre elas um carcereiro (que não deve ganhar muito).

 

É a “fé metástica” de que nos fala Eric Voegelin: a fé que odeia a realidade, tendo mais amor pela opinião (filodoxia) do que amor ao saber (filosofia) e que quer reformar toda a estrutura da realidade – para tal, não pode senão repudiar a realidade com medo dela, achando-se por isso “crítico” do que é simplesmente verdadeiro.

 

A esquerda chama todo mundo de quem discorda de “racista”, de “homofóbico”, de “fascista” justamente porque sabe que os xingados odeiam racismo, homofobia, fascismo – e se calarão quando tiverem sua opinião associada a estas coisas das quais têm nojo mortal (vide Kuehnelt-Leddihn acima). Se fossem de fato racistas, homofóbicos ou fascistas as pessoas simplesmente diriam “Sim” e continuariam na mesma. Não é o que a esquerda planeja.

 

Ser reaça é mó legal – basta parar de querer ter auto-estima apenas através do grupinho, jurando que com isso é “crítico” e auto-pensante. É saber que o mundo não tem soluções fáceis e prontas, e que há muito mais livros a serem estudados demoradamente antes de tirar conclusões apressadas do que jamais sonharam nossos progressistas.

Crônica de sexta-feira (17)

Aquela coisa de Facebook. A turma posta, a galera compartilha e chega a você, mesmo que não conheça quem contou a história. Essa aí embaixo foi publicada por Carolina Raro Schimidt. Já não sei mais se foi na terça ou quarta ou sei lá quando. Mas quando recebi o texto do Rodrigo, foi impossível não lembrar dela.

Trocador gentilNão sei infelizmente seu nome, mas esse trocador – junto com o motorista que não pude fotografar – forma uma dupla sensacional! Minha viagem começou na praia do Flamengo às 12h45, aonde eu fiz sinal para o ônibus 107 (Central-Urca). Gentilmente, o cobrador pediu para eu entrar pela porta de deficiente. Não entendi muito bem, mas obedeci. Logo depois, subiu uma cega. O motorista só andou quando o trocador se certificou que a senhora estava sentada e bem. Logo depois, perguntaram onde ela ficaria e, assim, seguiram seu percurso. Sempre pedindo pras pessoas entrarem pela porta de deficiente, pois a principal estava quebrada. Mesmo com o transtorno, seguiram viagem tranquilos, felizes, não deixavam de dar boa tarde e se desculpar pela porta quebrada uma vez se quer, além de serem extremamente pacientes com os idosos que demoravam mais pra subir pela outra porta. E simpáticos. Quando a senhora cega perguntou o segredo de tanta hospitalidade e bom humor aos dois, o motorista respondeu: “minha senhora, de estressante já basta o trânsito e o calor. De que adianta eu ficar de cara feia? Eu quero mais é felicidade!” Por fim, deixou a senhora em frente ao local desejado, independente de ser ponto, e coincidentemente onde também desci. Os dois esperaram ela entrar no local e seguiram. Fiquei assistindo aquela cena com o coração muito surpreso e feliz! Mesmo sem ar condicionado, mesmo sem lugar pra sentar, saí daquele ônibus leve e sorridente!!!! Incrível como um pouco de simpatia, bom senso e cidadania é capaz de contagiar pessoas de um ônibus inteiro, que automaticamente ao saírem dele, agradeciam e desejavam aos dois tudo de melhor. OBRIGADA senhor motorista e senhor trocador, vocês são um exemplo de seres que muitos humanos deviam ser!!!!!!!! TUDO DE BOM À VOCÊS!

E o nosso colaborador compulsório de quase todas as sextas mandou esse aqui.

Utilidade pública

Lá vai mais uma crônica que pode ser classificada como utilidade pública, até parece uma reportagem, pois trata-se de tema urbano, comum a todos nós, cidadãos metropolitanos.

É que eu decidi que não posso ficar guardando, só pra mim, algumas ideias, algumas iniciativas que penso em colocar em prática, mas não coloco. E quem sabe, escrevendo, tornando-as públicas, alguém pode abraça-las e tocar o barco pra frente. Outras ideias ainda manterei em segredo, por enquanto, mas, quem sabe, aos poucos, vou divulgando-as, pensando sempre no bem comum, no bem público, sentimentos tão raros hoje em dia, principalmente naquelas pessoas que foram designadas pela sociedade para justamente pensar, planejar, criar, implementar, acompanhar e controlar assuntos de interesse de todos, social, do cidadão.

Transporte coletivo urbano, este é o assunto e vou direto revelar minhas imaginações, nem todas idealistas, utópicas, pelo contrário, algumas bem práticas e realizáveis. Como vocês todos bem sabem, se o transporte coletivo melhorar, muitos carros deixarão de circular com uma pessoa. É uma conclusão óbvia e, acredito, unânime. Então, o que podemos propor aos órgãos que cuidam do transporte coletivo, aos vereadores, aos secretários, aos empresários, aos prefeitos e a quem mais de direito? Muita coisa, né, e da minha parte escrevo logo.

– ônibus com piso baixo: por que dois ou três degraus pra entrar no ônibus?

– roleta: parece um obstáculo a ser transposto, uma barreira. É preciso redesenhá-la, torná-la mais confortável para o passageiro.

– acabar com o trocador: calma, sindicalistas, não quero tirar o emprego de ninguém, pelo contrário. Todos para a sala de aula para treinamentos de gentileza urbana. A passagem deve ser paga com cartão, para segurança e conforto de todos. O trocador passa a ser um auxiliar, informando o itinerário, os pontos de parada, os horários. E dando algumas informações turísticas e sobre hospitais, escolas, empresas, conexões com outras linhas e, é claro, cobrando a passagem daqueles desavisados que não sabiam, que não leram e não foram informados que a passagem só pode ser paga com cartão. Este auxiliar pode, também, ficar em alguns pontos, ajudando os usuários.

– ar condicionado: é óbvio demais, né?

– pontos finais: acomodações simples mas dignas para os motoristas descansarem. Afinal, eles têm uma responsabilidade enorme, conduz pessoas!!!!! Uma salinha, uma água, biscoitos… Quem sabe uma massagem? É sonhar demais? Então um jornal pra ler e uma TV pra ver um pouco do futebol ou o noticiário geral.

Tudo isso não é pra ser feito de uma vez, por decreto. Impossível! Vamos escolher uma empresa-piloto e fazer as experiências. Vamos convidar os fabricantes de ônibus e conversar, vamos nos reunir com associações de bairros e moradores e trocar ideias. Cada um, com certeza, pode e deve contribuir, pois eu acredito que o interesse e a responsabilidade é de todos. E todos podem sair ganhando.

Meu(inha) prezado(a) leitor(a), se você conhece alguém que trabalha com transporte coletivo, conhece alguém que pode dar uma abrangência maior a este conteúdo, por favor, fique à vontade. O meu maior desejo é apenas contribuir para minimizar este problema crônico das metrópoles. Lá em cima está escrito: gentileza urbana. Sou louco por esta expressão, que eu conheci num jornal afixado num ônibus. O jornal é da BHTrans, órgão que cuida – ou descuida – do caótico e inexplicável trânsito da minha querida roça grande.

Gentileza urbana é o princípio básico para alcançarmos muitas soluções que todos nós precisamos urgentemente. É coisa séria, trata-se da qualidade de vida de todos nós.

Gentileza urbana. Como cidadão, jornalista, relações públicas e tentando ser cronista semanal, procuro fazer a minha parte, com a ferramenta que mais posso usar: as palavras.

Rodrigo Faria

Ah, quase esqueço da trilha sonora. Atenção para a vinheta de abertura, tudo a ver com o tema de hoje.

Gente, esse bicho sem importância

Ilustração: G1Gosto muito das baleias, encontrar golfinhos na Baía de Guanabara é do cacete, os pingüins (sempre com trema) são um barato. Curiós, canários, cambaxirras e até urubus – só não faço questão dos pombos – chegam a me inspirar. E também me orgulho de morar numa cidade muito arborizada e local da maior floresta urbana do mundo. Mas, infelizmente, gosto mais de gente.

É, esse bicho estranho que faz um monte de cagadas e estraga um monte de coisas. É que curiosamente é esse o mesmo bicho capaz de criar, inventar, produzir etc etc etc. Enfim, todas aquelas coisas boas e ruins derivadas da sua capacidade de raciocinar (sabem aquele papo de animal racional?).

Infelizmente, parece que nem todo mundo pensa assim. É o caso de uma certa  turma verde em demasia, que nem é tão grande, mas capaz de fazer e provocar muito barulho.

Começou a ser colocada em prática no Rio, em agosto de 2013, parte da lei nº 3273, de setembro de 2001. Quase sem atraso, como podem ver. A lei normatiza o sistema de limpeza urbana da cidade e a bagunça da hora é por conta da parte que disciplina a aplicação de multas a quem joga lixo na rua. Sinceramente, gosto da idéia. Se o sujeito não é educado pela família e pela escola, que seja pelo bolso.

Mas descobri, na semana passada, que uma tampa de caneta ou uma guimba de cigarro valem muito mais (cerca de R$ 150) do que o cocô de cachorro (cerca de R$ 98). Curioso não é?

A lógica do negócio é óbvia. Tanto a tampa de caneta quanto a guimba de cigarro demoram muito mais a se decompor. Se caem no bueiro, vão para o mar e aí já viu né. Se ficar na rua, vai que um pombo engole uma coisa dessas… Em todos os casos, funeral na certa. Muitos, infinitos.

Mas e o cocô? Ah, a chuva leva. Ahã… E ninguém lembra que aquilo ali na calçada atrai bichos (especialmente moscas) que tratam de espalhar doenças e sei lá mais o quê; ninguém lembra que um desavisado pode pisar naquilo e sujar ainda mais as calçadas e ainda levar aquilo pra dentro de casa, para o trabalho, um consultório médico, um hospital. Precisa falar sobre o risco potencial do negócio?

É claro que o risco de gente ficar doente e até morrer não é coisa grave. Afinal, tem muito desse bicho por aí e mais um ou menos um nem vai fazer falta mesmo. Muito mais importante e até urgente é cuidar dos bichinhos que, apesar de irracionais, não têm nada de burros. Ou você já viu bandos de pássaros em banquetes de guimbas e tampas de caneta e de garrafas?