No topo do mundo

VOR18289Ainda não falei sobre isso por aqui, mas não poderia deixar pra lá. Há quase cinco anos vi uma matéria no Globo Esporte ou outro programa do gênero que apresentava o projeto do primeiro barco brasileiro a participar da ‘Regata Volta ao Mundo’. Eu, Pacheco de primeira hora, foi descobrir o que era aquilo exatamente.

Em pesquisa rápida cheguei ao site do Brasil 1. Mais do que simplesmente um barco, uma equipe com um baita desafio. Também cheguei ao site da Volvo Ocean Race, sucessora da Whitbread Round the World. Em resumo, a maior e mais tradicional regata de volta ao mundo.

Com o tempo, descobri que os adversários do Brasil 1 seriam ABN 1 e 2, Ericsson, Piratas do Caribe etc. E percebi que se quisesse acompanhar as notícias sobre a disputa pela vênus platinada deveria me acostumar a não ouvir o nome verdadeiro da regata ou das equipes, pois eles só pronunciam seus nomes se as empresas comprarem espaço publicitário. Assim, as naves foram transformadas em Holanda 1 e 2, Suécia, Estados Unidos, Austrália e Espanha.

No site do Brasil 1 havia um blog que rapidamente se transformou em um belíssimo espaço de convivência entre os torcedores que, aos trancos e barrancos, se organizaram e criaram o Boteco 1. Acompanhar a regata foi algo frenético, esperando por atualizações a cada seis horas e acordando de madrugada para assistir provas locais do outro lado do mundo.

Ao mesmo tempo, o Boteco 1 se preparou com esmero para receber o time na etapa carioca da prova. Foram quatro semanas que entraram para a história da vida desses torcedores e da vela brasileira, que reuniu no entorno da Baía de Guanabara mais de 70 mil pessoas, algo inédito para um esporte quase sem nenhuma divulgação fora dos veículos especializados.

O comandante do barco brasileiro foi Torben Grael. Com outros seis brasileiros e alguns estrangeiros, sem metade da grana e da estrutura de outros times, terminaram em terceiro depois de vencer uma das etapas da prova.

Em 2008 Torben voltou a disputar a regata, agora como comandante do Ericsson 4. Em uma equipe absolutamente estruturada, tempo para preparação e tudo o que de melhor uma equipe de vela pode proporcionar, liderando uma tripulação com feras internacionais e tendo, ao seu lado, Horácio Carabelli e Joca Signorini (remanescentes do Brasil 1), o brasileiro – multi-campeão olímpico – venceu a prova com algumas etapas de antecedência.

Infelizmente, em um esporte pouco divulgado e sem um barco que despertasse o patriotismo raso das grandes redes de comunicação do país, pouca gente soube que Torben chegou, mais uma vez, ao topo do mundo.

Por uma série de circunstâncias não pude acompanhar a prova tão de perto como gostaria. Mas não posso deixar de comemorar uma vitória como essa. Como também não posso deixar de agradecer aos loucos do Boteco 1. Por causa deles todos – Brasil 1, Torben, Boteco 1 – eu comecei a velejar, disputei e venci regatas (e outras virão), ganhei e distribuí sorrisos, conquistei amigos.

Reza a lenda que na próxima edição da VOR haverá, mais uma vez, uma equipe brasileira. Ainda sem nome, muito menos sem tripulação definida. Também diz-se nos cantos dos clubes e marinas que a grande financiadora dessa nova aventura será, justamente, a Rede Globo. Não dá pra saber agora o que vai acontecer em 2011. Sinceramente, torço para que seja verdade, pois seria uma maneira – além de participarmos mais uma vez da regata – de fortalecer a vela no Brasil. Porque, para justificar o investimento, a vênus teria que dar uma dimensão muito maior ao esporte como um todo e não apenas ao barco em si. Vamos ver o que acontece.

Torben, Horácio, Joca e Boteco, mais uma vez, parabéns.

Foto: Rick Tomlinson (VOR)

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