Eu sou contra o aborto!

Hipocrisia

Sinceramente, não conheço ninguém que seja a favor. Não conheço ninguém que pense algo nem de perto parecido com “ah, foda-se! Se engravidar vou ali e faço um aborto. Me come aí!”. Porque é algo terrível, sob qualquer aspecto que se olhe a coisa. É um puta dum trauma. É dolorido e doloroso. É um peso enorme sobre os ombros, uma marca profunda que fica pra sempre na vida de quem vive isso.

Sempre para as mulheres (quando elas não morrem), muitas vezes para os homens – podem acreditar.

Tive a sorte de nunca viver um aborto de um filho gerado por mim. Mas vivi a experiência de levar amigas que tomaram a decisão de realizar o aborto. Com uma delas, o sujeito apareceu no momento em que saíamos da clínica, com cara de arrependido por não estar ao seu lado. Com a outra, nem sinal. O que, por si só, já é um baita sinal.

Lembro vivamente das duas situações. Como elas sofreram para tomar a decisão, como elas sofreram depois de tudo feito. Mas tem gente que realmente acredita que decide-se passar por um aborto como quem escolhe a cor da calcinha…

Elas tinham ou arrumaram o dinheiro. Puderam pagar por clínicas “bem conceituadas”. Mas, como a gente sabe, como clandestino que é, mesmo assim contaram com a sorte. Não morreram, não ficaram sequelas. Mas tente fazer um mísero exercício de empatia, tentem se colocar na pele da maior parte das mulheres do Brasil. Só por um segundo.

Agora, que vocês já fizeram esse pequeno exercício (tenho certeza!), vamos falar do nosso moderníssimo Código Penal e nossas grandes hipocrisias. O código foi criado no governo de Getúlio Vargas, em 1940. Sim, eu sei que houve atualizações, novos crimes identificados e incluídos etc. Mas o código é, conceitual e estruturalmente, velho. E lá entre os artigos 124 e 128, trata do aborto. É crime. Menos quando há o risco de morte da mãe ou a gravidez é decorrente de estupro. O STF, recentemente, acrescentou a concepção de fetos anencéfalos entre as exceções.

Os maiores argumentos contra a descriminalização ou legalização da prática de aborto se referem à preservação da vida. Não vou entrar nos méritos científicos, sobre a partir de quando o feto concebido deve ou não ser considerado um ser humano, não é esse o caso. Vamos partir do princípio que, desde sempre, o feto concebido é um neném.

Vamos também deixar de lado os casos de risco de morte da mãe e dos anencéfalos. Pensem apenas no “neném”. Porque vou tratar uma bola que vi levantada pela Julia Tolezano, a Jout Jout (obrigado, muito obrigado!).

Segundo nosso Código Penal e a grande maioria das pessoas que são contra a descriminalização ou legalização da prática de aborto – sempre em defesa da vida, claro -, tudo bem matar o “neném” se a mulher for estuprada. Mas tudo mal matar o “neném” se a mulher engravidou e não quer ter o filho (não importa a razão). Como ela mesmo disse, não tem a ver com o “neném”, mas com a concordância ou não em abrir as pernas.

Por que, afinal, o “neném” de um estupro tem menos direito que um “neném” consentido?

Ou seja, branquin, neguin e azulzin não estão nem aí pro “neném”, não são a favor da vida. Querem mesmo é punir a mulher.

Hipócritas! Pra dizer o mínimo.

Porque já está mais que provado que, onde legal, as taxas caem. E não apenas essas. Há uma renca de estudos e estatísticas que provam que, além do número de abortos diminuir (e as mortes de gestantes, claro), um monte de outros índices apresentam melhoras impressionantes. Incluindo economia e segurança. É, talvez seja muito duro descobrir e admitir certas coisas. Mas deem-se ao trabalho, pesquisem, cruzem dados.

Então, meus amigos, tratem de cuidar de suas próprias vidas. Parem de olhar o rabo do outro. Parem de usar seus deuses para justificar suas tolices, eles não têm nada a ver com isso, com suas incongruências, sua falta de horizonte. Deixem de ser hipócritas.

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Luiz Vela

Luiz VelaPerder é uma merda. E este foi um fim de semana muito duro. Perdi um amigo.

A sexta-feira já tinha sido estranha. Mas no final do dia, a impressão é de que mais uma borrasca tinha se dissipado.

“Amanhã de manhã ele liga de novo, pra pedir ajuda como sempre. E a gente vê o que faz”.

No sábado de manhã ele não ligou. Não ligaria mais.

Eu estava dirigindo, a caminho de um almoço na casa de uma amiga, quase família ou família há 28 anos.

É claro que soltei um palavrão. E do outro lado da linha o mais sensato e o pior conselho a se ouvir naquele momento: “não adianta praguejar. Do jeito que vinha, pensa bem, foi até melhor, parou o sofrimento”.

Puta que o pariu! O mesmo palavrão que disse na hora. É que tem hora que não dá pra racionalizar. Quando estacionei, saltei do carro sozinho, a turma ficou lá dentro. Sentei no meio-fio, acendi um cigarro e chorei. Como há muito não fazia por nada. De tristeza, de saudade, de se sentir impotente pensando que podia ter feito mais e não fez.

Pombas, será que eu fiz tudo o que podia? Não tive a dedicação do Armando, o desprendimento do Morcego… É, não sei lidar bem com algumas coisas, talvez tenha me afastado demais quando não devia, será? Não sei, não dá pra saber.

Há algumas semanas nos reunimos. Uma espécie de núcleo duro da turma do Rio. Duas, três horas de elucubrações em busca de uma saída. A conclusão óbvia. Se ele não quiser, não tem jeito. Não há o que fazer. Do jeito que vai, acaba logo, nem demora. Volta pra casa com a garganta fechada, ainda buscando um jeito de lutar contra a maré.

A maré venceu. Ontem. Sábado de aleluia. Trocadilho infame do caralho!!!

Ano passado foi um ano bom, horas de telefone, centenas de mensagens por todos os meios, produzindo. Construindo juntos. Degringolou justo na hora de fazer dar certo. Aquela nesga de sol que te deixa pensar ‘agora vai’. Não foi.

Que nó é esse que dá na cabeça de um sujeito com um cérebro tão brilhante? Fico entre as palavras da Claudia – de que decifrá-lo ia muito além da nossa vã filosofia – e do Morcego: sua tempestade pessoal nunca refrescou, nunca deu trégua, e ele foi arrastado até a que a nau fosse engolida pelas vagas.

Talvez seja isso, talvez nada disso.

Mais de um dia da notícia já se passou. Ainda em construção por aqui, ainda tentando aceitar que não há culpas de qualquer espécie. Ainda vai durar um tempo aquela sensação de buscar a brecha que perdemos, o passo que escapou.

Pouco mais de sete anos depois do primeiro encontro, num mês de abril, acompanhávamos os serviços funerários do homem que havia surpreendido a todos. Segundo o diagnóstico visual de qualquer um, a saúde era frágil. Não se tratava de males do fígado, como alguns diziam, mas da alma. Ele tinha 51 anos. Mas sua aparência era de, pelo menos, uns cinco anos a mais. O funeral teve lugar em um cemitério qualquer, sem pompa, como talvez previra o falecido em seus últimos dias. Não houve música, discursos ou salvas de tiros, e o caixão desceu ao seu endereço final.

(Livre adaptação sobre trechos do capítulo 10, págs. 125 e 126, de Sàn Guermin, de Luiz Octavio Bernardes)

Quando voltei pro carro, Helena – que o conheceu – perguntou: “papai, o Vela do Luiz Vela é por causa do barco?” É minha filha.

É meu amigo, sobe o pano e bota no vento, que agora é largo. Vai ter a paz que não conseguiu quando passou por esse porto.

Crônica de uma morte anunciada

Cinegrafista

Acabei de ver a notícia, Santiago Andrade teve morte cerebral. E agora?

É curioso que até este trágico fim de semana, trágica segunda-feira, toda a cobertura da imprensa (com as exceções de praxe, o grande satã conservador) tecia loas às manifestações e até aos confrontos. E flertavam perigosamente com o bando de marginais mascarados, sempre mascarados, dando-lhes destaque e até voz. E agora?

Colunistas, articulistas, filósofos, antropólogos e bostólogos – Caetano à frente, lembram? – reconhecidos batiam palma pra todo mundo que colocava uma máscara e partia pra dentro de tudo e de todos. E agora?

Toda a culpa de tudo de ruim era sempre da polícia (que fez mesmo um monte de cagadas), não importando a realidade. Até um imbecil da Globo News disse que tinha visto que o morteiro assassino era uma bomba jogada pela polícia. E agora?

Infelizmente, o que aconteceu era previsto. Quantos carros de imprensa foram depredados, quantas tentativas de agressão contra jornalistas foram documentadas? E porque as grandes associações da classe aceitavam essa situação, que chegou ao cúmulo de ver os profissionais trabalharem disfarçados para não apanharem? Algumas soltaram – antes e agora – notas ridículas em que tentavam morder e assoprar, absolutamente em cima do muro, divididas entre o que é/era correto e suas posições/origens esquerdopatas. E agora?

E a OAB que, pelo menos no Rio, virou babá de black bloc, esse pobrezinhos que angelicalmente arrebentavam tudo e qualquer coisa que encontravam à frente. E agora?

Pois pela sequência de imagens que vi, o sujeito que colocou o morteiro no chão, a dois ou três metros do cinegrafista, não estava tentando acertar a polícia não. É nítido. Ele queria mesmo era acertar a equipe de reportagem. Democratas que adoram a liberdade de expressão e de imprensa, desde que se concorde com eles. Controle social da mídia, na base da porrada, do sangue e, agora, da vida. Reconhecem o padrão de comportamento? Ainda acham que é por acaso? E agora?

Agora, todas juntas, pedem punição. Pateticamente, o óbvio. Mas, fora o ululante, e agora?

Agora, infeliz e tragicamente, resta chorar o morto e – dentro do possível – apoiar sua família.

Que bosta

morteA morte é uma bosta. E sim, sei que é algo natural, que todos nós vamos chegar lá com pequenas ou muitas diferenças de circunstâncias, o ciclo da vida e tal. Mas é uma bosta, uma grande bosta na verdade.

Não sei se a meia dúzia de três ou quatro leitores que passam pelo cafofo têm medo da morte ou não, ou mesmo se lidam tranquilamente com o tema. Eu não. Eu não quero morrer. Se dependesse de mim, seríamos todos eternos. Sei que isso traria um baita problema pra humanidade, talvez já não coubesse ninguém no planeta. Mas não quero morrer.

Discussões filosóficas à parte, morrer é uma baita aporrinhação. Pra grande maioria dos mortos, pelo menos, e pra todo mundo que fica e tem que cuidar do que ficou. No Brasil, especialmente, ainda há a burocracia e o custo fora da realidade.

Pra quem vai

A primeira coisa é que, apesar do homem ser um ‘ser social’, da mesma maneira que o nascimento, a morte é solitária. Mesmo numa tragédia monumental, muitos morrem ao mesmo tempo, mas todos morrem sozinhos. Que bosta não poder dividir com ninguém um momento tão importante da sua vida.

Outro ponto é que todo mundo sofre quando morre. Por mais efêmero que seja o momento de dor, ou mesmo quando já se está inconsciente, de morte matada ou morte morrida, há sofrimento. Aquele papo de que “pelo menos não sofreu” é conversa pra boi dormir. O sujeito que fala isso só fala isso porque não é com ele.

Pra quem fica

Primeiro, há o óbvio. É preciso lidar com a tristeza e a saudade, o que não é nada fácil. Por mais preparado que se esteja, é sempre doloroso ter que se despedir. E é claro que estou falando dos mortos queridos.

Outra coisa incômoda é que, por mais preparada que possa estar uma família, a morte não marca hora. Então, você pode ser interrompido por uma notícia que é sempre terrível quando faz algo importante. Ou pode receber um telefonema às três da manhã, quando dorme a sono solto e está completamente desarmado para os problemas.

Também é preciso se dedicar, depois, às coisas do morto. Dá, vende, joga fora? Quem decide? É um trabalho dos infernos e que, remexendo as coisas, faz sofrer ainda mais.

A burocracia também é implacável. É preciso juntar vários documentos para que um cartório confeccione um atestado de óbito. Depois, com ele e várias cópias autenticadas, você é obrigado a seguir por uma via crucis entre bancos, empregador/instituto de previdência e otras cositas más.

Não consigo entender como, em 2013, seja tudo tão complicado. Por que, quando morre, o hospital não comunica o plano de saúde que comunica o empregador que comunica o instituto de previdência e banco por onde se paga o salário (caso haja mais bancos, a família se vira)? Se o sujeito não tem plano de saúde, o caminho mudaria um pouquinho, mas continuaria simples. E por que o atestado de óbito já não sai do hospital? Pra quê cartório?

Grana

Morrer também custa caro, muito caro. Enterrinho básico, o caixão mais simples, uma coroa de flores e um carrinho para carregar a urna que – em caso de ladeira – você ainda precisa ajudar a empurrar, sai por algo entre 5 e 7 mil reais. Pombas, dinheiro para beça! E que você é obrigado a desembolsar de pronto, sem parcelamento, sem cheque pré-datado. E quando o sujeito é pobre de marre deci, faz o quê? Joga o corpo na vala?

Mas não pensem que se resolver ser cremado o problema diminui. Muito pelo contrário, é ainda mais caro (e tão ou mais burocrático quanto). A não ser que a trágica solução para o problema seja o “forno de microondas” inventado pelo Comando Vermelho. Mesmo assim, ainda morre numa grana (com trocadilho), tenha certeza.

E não é só isso. Ou vocês esqueceram o iventário, a união perfeita entre burocracia, tempo perdido e grana desperdiçada? E no final das contas, mesmo que haja herança, mesmo que ela seja polpuda, se o morto é querido, não há dinheiro que pague a ausência.

É, a morte é mesmo uma bosta.

E daí?

Bombeiros retiram corpos de vítimas da chuva em Petrópolis / Foto: Gabriel de Paiva/Agência O GloboEm abril de 2010, só no Morro do Bumba, em Niterói, foram 267 mortes. Em janeiro de 2011, na região serrana do Rio, mais de 900 pessoas perderam a vida. De ontem pra hoje, foram 13 (e três desaparecidos) em Petrópolis.

Só 13? E daí?

Daí que não surpreende. Daí que é bom dar graças a Deus por terem sido só 13 vítimas (até agora). Daí que, três anos depois, ainda tem gente do Bumba dependendo da esmola do estado e encostada por aí. Daí que ninguém foi punido pelo desvio de verbas e doações na tragédia da serra. Daí que quase todo o dinheiro enviado para a reconstrução e investimentos em segurança nas cidades afetadas sumiu e quase nada foi feito.

Só 13 mortes. E daí?

Daí que todo ano chove muito no verão. Daí que todo ano um monte de encostas vem abaixo. Daí que a ocupação desordenada, ilegal mas permitida, não para de aumentar. Daí que todo ano vai morrer um monte de gente. Daí que todo mundo está cansado de saber disso. Daí que nunca, nenhum responsável foi obrigado a pagar indenizações a cada vítima e puxar uns anos de cana.

Mas ontem foram só 13 mortes. E daí?

Curiosidades bolivarianas

Josef Stalin, Hugo Chávez e Símón BolivarAgora que o cara está oficialmente morto, as análises a seu respeito, entre a favor, contra ou muito pelo contrário, estão por toda a parte. É curioso perceber, por exemplo, que os que falam a favor são os mesmos que defendem Fidel e agridem – com pedras ou palavras – uma blogueira que é a favor da liberdade de expressão.

É curioso, também, que a morte do moço tenha sido anunciada justamente na mesma data de morte de Stalin, outro grande democrata. Tenho certeza que foi apenas coincidência, mas é que em tempos de teorias da conspiração, em que até um câncer é culpa de um governo inimigo, não custa nada lembrar.

Mas vejam que curiosos são os argumentos de quem defendia Chávez: nunca fugiu de eleição, que nunca foi contra a constituição, que não se vingou dos adversários. E também já corre que sua herança política é eterna, de relevância histórica e tal.

Os que fazem esses elogios, claro, esquecem que sua primeira tentativa de chegar ao poder foi com um golpe militar, que fracassou. É verdade que foi eleito. Quatro vezes, mas sempre sob suspeição de fraudes, com a liberdade de imprensa inexistente e inúmeros veículos fechados, oposição sufocada, rolo compressor sobre os tribunais e presídios lotados de presos políticos. Também não lembram que mudou a constituição ao seu bel prazer, justamente para garantir suas eleições (lembrem-se que disse mais de uma vez que pretendia liderar a Venezuela até 2031).

Em sua democracia muito torta, encampou inúmeras empresas na mão de ferro. E apesar de se aproveitar dos bons preços do petróleo, sua única riqueza relevante, não chegou nem perto de instalar a propagada igualdade, além de fazer a população encarar racionamentos, de energia a água, passando até por alimentos.

Outra curiosidade foi a colocação de Dilma sobre Chávez, dizendo que morreu um amigo do Brasil. Hummm… É claro que manifestações oficiais, principalmente de chefes de governo, é algo sempre delicado. Mas nossa presidenta não precisava ter exagerado. Que o diga a Petrobras, obrigada a lidar com um calote gigantesco na construção da refinaria do nordeste.

Não, não comemoro a morte do sujeito. Apesar de ser algo do que não adianta fugir, não fico torcendo para esse ou aquele morra logo, seja de morte morrida ou morte matada. E é claro que, independente da política, um ser humano foi embora e sua família merece todo o respeito e solidariedade em um momento em que é impossível não sofrer. Mas também não dá pra separar, em casos assim, o homem do mito.

É quase certo que a Venezuela vá passar por muitas dificuldades nos próximos anos, é natural que haja muitos conflitos e disputas pelo poder protagonizadas pelos herdeiros políticos. Mas com a saída de Chávez do cenário há a chance do país se reconstruir. De verdade, institucionalmente.

Nos próximos dias, veremos imagens e mais imagens das ruas venezuelanas tomadas pelas pessoas que apoiavam Chávez, é provável que seu grupo ainda seja eleito no pleito que deve ser convocado para daqui a 30 dias. Mas a longo prazo, não devem se manter. A ver.

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Uma última curiosidade. Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palácios, um dos libertadores da América, foi a inspiração de Chávez para o que ele chamava de Bolivarianismo e nem ele conseguia explicar de verdade o que era. Não é mesmo curioso que um sujeito que chega a ser referido por vários historiadores como o George Washington da América do Sul, justamente por ser um democrata, tenha seu nome e imagem usados por um governo nada democrático?

Como se vê, não é mesmo por acaso que muita gente ainda diz que a América do Sul é um continente sui generis. Têm mesmo razão…

Verbertes e expressões (27)

Extraordinário

Adjetivo: Característica do que é raro, singular ou esquisito

Fonte: Dicionário online de português

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Menor confessa ao Fantástico o crime de Oruro / Foto: ReproduçãoNão foi extraordinário o aparecimento e a confissão de um menor, ao Fantástico, se apresentando como culpado pelo disparo do sinalizador que matou um garoto de 14 anos na Bolívia, durante o jogo do Corinthians?

Não foi extraordinário o fato de não mostrarem o rosto do garoto, apesar de ser uma confissão e dele estar ao lado da mãe?

Não é extraordinária a conveniência dessa confissão?

E vejam que existem muito mais coisas extraordinárias nessa história.

Apesar de Brasil e Bolívia terem pacto ou acordo (sei lá como chamam essas coisas) de extradição, menores não entram na conta. Além disso, o Brasil não pode extraditar brasileiros, está na constituição. Ou seja, alguém acredita que ele será condenado a alguma coisa? Talvez, pra não ficar muito feio e se os bolivianos fingirem que caíram nessa história, coloquem o garoto para aparar jardins públicos até completar 18 anos. Eu acho que nem isso…

Seguindo em frente: o garoto trabalha e estuda. Foi liberado pelo chefe ou estava de férias do trabalho? Porque as aulas acabaram de começar e, a não ser que pretendesse levar um atestado médico falso, matou uma semana de aulas na cara dura mesmo.

Além disso, um garoto de 17 anos, de família pobre, atravessou a fronteira sem a companhia de um responsável. Ele é emancipado? Havia autorização dos pais? Quem e como pagou a farra de uma semana?

Mais: um adolescente de 17 anos gasta R$ 150 em um sinalizador de navio, enquanto comprava games? Mas ele não é de família pobre?

Ainda no estádio, recebe a orientação de só se entregar no Brasil. Havia advogados na torcida do Corinthians, devidamente preparados para qualquer incidente? Foi premeditado, então?

Por fim, todo mundo procura pelo culpado, mas só o Fantástico o encontra? Por quê, ao invés de ir à polícia e se entregar, deu entrevista para a TV? O garoto é inteligente e esclarecido mesmo ou foi muito bem orientado?

É claro que tudo isso aí em cima pode ser verdade, tudo é possível afinal. Mas não seria uma combinação de fatores extraordinária?