Bocas

Tagliatelle Foto: Ange KritsasHá quanto tempo não falo de F1 por aqui? Nem lembro mais. Ainda gosto da bagaça, muito. Ainda acordo domingo de manhã só pra ver corrida. Mas as corridas e o campeonato têm sido tão previsíveis que nem dá vontade de gastar tempo pra escrever a respeito.

Mas eis que Massa foi saído da Ferrari, Raikkonen largou a Lotus e voltou para Maranello, Felipe Nasr nem vai tão bem assim na GP2 e, depois de 40 anos, corre-se o risco de ficar sem pilotos brasileiros na categoria.

Sim, o risco existe mesmo, e já foi tema de conversas preocupadas entre Galvão Bueno e Bernie Ecclestone. E isso não tem nada de novidade. Porque o Brasil é sim um mercado importante. E porque, com o jeito ufanista que a Globo nos acostumou a seguir qualquer esporte, se nenhum piloto tupiniquim estiver na categoria o negócio (estimado hoje em R$ 40 milhões em cotas anuais) vai para o brejo.

No entanto, reza a lenda, o futuro não dá pinta de ser tão negro quanto parecia.

Bocas nem tão pequenas dizem que a Renault vai retomar a Lotus. Bocas enormes, além do número de carros vendidos nos últimos anos, garantem que o Brasil é um mercado fundamental para a montadora francesa. Bocas muito pequenas dizem que uma certa grande e inspiradora empresa brasileira vai entrar no negócio (já andam até testando produtos em conjunto em um grande laboratório de motores no sul do país).

Boatos indicam que haverá um grande jantar de comemoração. Além de representantes das empresas francesa e brasileira, haverá dois convidados especiais: Galvão Bueno e Bernie Ecclestone. Não consegui descobrir a data e o endereço do banquete, mas parece que o prato principal será massa.

Rush

Nos acostumamos a uma Fórmula 1 asséptica nos últimos anos e chegamos ao ponto de que até uma ultrapassagem pode ser considerada algo politicamente incorreta. Além disso, já faz quase 20 anos que Senna e Ratzenberger morreram em Ímola. Felizmente, as últimas da categoria.

Abaixo, o primeiro trailer – lançado hoje – de um filme que espero desde que foi anunciado: Rush. A história de uma temporada (1976) e da rivalidade entre James Hunt e Nick Lauda. De uma Fórmula 1 que na época e ainda por algum tempo matava ao menos um por ano. Lauda quase foi. De uma categoria em que corrida de carros era disputada e passional.

Eu fiz três anos em novembro daquele ano. Mas histórias clássicas são clássicas porque são boas. E é claro que li e ouvi muito a respeito. E a história vale mesmo a pena.

Não sei se os caras são bons atores, mas a semelhança física entre eles e os pilotos é absurda. Não sei se cuidaram bem das questões técnicas da categoria, não me importa e desconfio que o objetivo do filme também não é esse. Mas por pelas muitas imagens que pingaram nos últimos meses, fiquei pasmo com a qualidade dos carros, das pistas e tudo o mais.

Então, deliciem-se.

Foto do dia: abaixo ao ornitorrinco

Não dá pra saber como será a prova de amanhã, muito menos a temporada completa. Mas foi muito bom ter na primeira fila da primeira corrida do ano os dois únicos carros sem o tal bico horroroso que inventaram neste ano.

Nulum die sine linea

Já fui um fiel seguidor dessa espécie de lema. “Nenhum dia sem uma linha”. Achava que, mais do que manter um hábito, fazia um exercício. E se fosse capaz de escrever quando não tinha o menor saco ou inspiração, seria capaz de produzir em qualquer situação.

Pois, como podem ver a meia dúzia de três ou quatro amigos e leitores que freqüentam o cafofo, meio que abandonei o lema. Não é por acaso que não pingava nada por aqui há quase um mês. E naqueles dias em que – nem profissionalmente – não precisava juntar palavras para formar frases, resolvi tirar folga.

Também sou obrigado a confessar que as atuações do Flamengo no final da temporada, aquele monte de corridas de F1 que não valiam nada, a vergonha em que se confirmou o governo – a manutenção de Pimentel e Negromonte em suas cadeiras é surreal – e a certeza de que as chuvas de verão arrebentariam tudo de novo, como sempre e como já está acontecendo, colaboraram bastante para aumentar o meu enfado. Parece que, de novidade mesmo, só o fato de Sérgio Cabral não estar em Paris ou sei lá onde na hora do aperto.

De quebra, as festas e toda sua rotina extenuante de compras e correria e jantares e obrigações de festas e comemorações mil… No final das contas, o mesmo de sempre. Virou o dia, virou o ano, e nada mudou. Mais ou menos como os fogos de Copacabana. Ou será que vocês realmente acreditam naquelas promessas de ano novo, que se repetem a cada 365 ou 366 dias?

É, não ando muito otimista mesmo, ao ponto de ter percebido numa frase dessas ouvidas por aí e publicadas em revistas (acho que foi na do Globo) a melhor definição sobre o estado geral de coisas que vivemos hoje: “se é verdade que o Natal aproxima as pessoas, no metrô é Natal todo dia” (reproduzo de memória e pode haver algumas diferenças em relação ao original).

Bom, daqui a pouco retomo a produção em ritmo normal. E enquanto não chegamos à conclusão sobre se o mundo vai acabar mesmo no dia 21 de dezembro, se a data marca apenas o fim de uma era ou se o calendário maia parou aí porque os caras ficaram com preguiça de continuar, desejo a todos – com quatro dias de atraso, eu sei – um feliz ano novo.

Entre clichês e paixões

Ontem fez 20 anos que Senna conquistou seu último título mundial, o terceiro. Na segunda, outra data importante para quem gosta de corridas, principalmente no Brasil: trinta anos do primeiro título do Piquet.

Mas a semana que começou no domingo teve duas notícias relevantes, para dizer o mínimo. A primeira, dadas as circunstâncias, menor. A nova vitória de Vettel no GP da Coréia do Sul e a conquista mais que esperada do bicampeonato de construtores pela Red Bull.

A outra nova, tão importante quanto trágica, a morte de Dan Wheldon no oval de Las Vegas, pela Fórmula Indy. Tão estúpida e desnecessária quanto qualquer morte que não seja por causas naturais, quanto qualquer morte por bala perdida ou explosão de botijões de gás.

Mas, assim como aconteceu com Senna e tantos outros pilotos, nos choca. Afinal, além de jovens e de sucesso, morrem ao vivo. Praticamente esfregada na nossa cara num momento em que estamos ali, diante da TV, assistindo a algo que pretendia nos divertir, nos fazer sorrir.

Já não assisto à Indy como antigamente, na época da CART, não sei dizer quanto bom ou ruim era Wheldon. Mas li e ouvi muitas referências à sua qualidade, ninguém é campeão de nada por acaso, ninguém vence duas vezes em Indianápolis – entre outras – à toa. Mas o que mais impressionou foi a reação de muitos e muitos pilotos, entre outras tantas pessoas mais ou menos envolvidas com o momento, desabando em lágrimas por ele. Não são atitudes, apenas, de respeito por um bom colega de profissão. Reações pela perda de um amigo.

Algo me deixou muito impressionado nas imagens que vi de Wheldon: em todas as fotos que encontrei, mesmo nas nitidamente não preparadas, ele estava sorrindo. Não deve ser por acaso e talvez ajude a explicar as reações gerais.

Mas, afinal, por que continuamos assistindo e dando valor a algo que é definido pelo clichê ‘esporte de alto risco’? Porque se é verdade que Senna foi o último a morrer na F1, muitos pilotos continuam morrendo (ou quase) todos os anos andando sobre duas ou quatro rodas por aí.

Um pouco sobre isso, talvez tentando uma explicação, André Forastieri escreveu artigo que vale ser lido inteiro. Segue um trecho:

Quem corre, corre risco de morte. É grande parte da sedução deste “esporte”. É por isso que atrai grande audiência, e corrida de kart ou bicicleta, não. No risco de acidente está a grana, o patrocínio, o faturamento. É para isso que pagam um dinheirão para os pilotos.  É por isso que Wheldon, ex-campeão, receberia dois milhões de dólares pela participação na corrida em que morreu.

Enfim, automobilismo é algo que nos apaixona. Talvez ou apesar, não sei, justamente pelo risco de morte. Como gosto de textos passionais, encontrei mais dois que valem muito a pena. O primeiro, do Victor Martins:

Duro, mesmo, é quando a gente não espera. Duro é quando se bate à porta, assim, como intrusa. Maldita oficiala de justiça, sem justiça, com a intimação do despejo em punho e que só dá o direito de levar a roupa do corpo e nada mais. Em vez de esperar, ela busca. A única certeza é cruel e invencível.

O outro, do Verde:

Vi as primeiras voltas nervoso, ciente de que um acidente violento era inevitável naquele oval de absurda inclinação de 20°. Em poucos minutos, ele aconteceu. Peças voando. Fogo. Tensão. Um piloto não está bem. Vamos aos comerciais. Retornamos. Dan Wheldon está morto. Perplexo, saio da sala. Vou ao quarto. Não costumo chorar por mortes, sou meio frio com essas coisas e, estupidamente, costumo pensar que chorar por um desconhecido é patético. Mas mandei a filosofia barata à merda.

Um cowboy bem diferente

Madrugada de domingo e já tem corrida de novo. E nem falei do que aconteceu na semana passada no, Japão.

Além da óbvia confirmação do bicampeonato de Vettel, a prova em Suzuka não foi lá essas coisas. Na verdade, tão tediosa quanto pode ser um grande prêmio numa pista excelente. Ou seja, melhor do que muitas outras que aconteceram durante o ano.

Button venceu, Alonso foi o segundo e Vettel, o terceiro. Todo mundo já está cansado de saber disso, notícia mais do que velha. Mas a corrida teve um detalhe muito interessante.

O time dos energéticos mostrou seu ponto fraco, o alto desgaste de pneus. E a McLaren realmente evoluiu muito. A começar pela Coréia do Sul (que já teve seus primeiros treinos livres sob chuva forte), serão quatro provas ‘amistosas’. Como as regras não mudarão (pelo menos em tese), poderão nos apresentar um bom cheiro do que vem por aí em 2012.

A Red Bull ainda é o carro a ser batido, mas a turma de Woking está cada vez mais perto. Até a Mercedes andou um pouco pra frente nos últimos tempos, mas a Ferrari segue estagnada.

Neste fim de semana, torço para que a chuva se mantenha, seria uma boa chance de ver Schumacher de volta ao pódio. E daria uma boa graça a uma corrida que vale pouco. A ver.

Já de olho em 2012, o vídeo abaixo é muito legal. Não é exatamente uma novidade, mas mostra um F1 em condições nada usuais. Além disso, o passeio pelo que será a pista de Austin já revela que a promessa de uma pista interessante e bem dinâmica por seu relevo parece que vai mesmo ser cumprida.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Justa homenagem

Então teve corrida no final de semana. Cingapura… Ô corridinha chata da porra. Como não pode deixar de ser em uma pista ruim. Circuito de rua, travado, estreito. Se não fosse a tal asa móvel, ninguém passaria ninguém. Mas mesmo as ultrapassagens que aconteceram não deram graça à disputa.

Como esperado, Vettel será campeão no Japão. Venceu de novo, sem muito esforço, e agora só falta um ponto para o resultado ser oficial. Button em segundo, em um pista que exige demais dos pneus, não é surpresa. O sujeito anda pilotando o fino e chega a dar tristeza não vê-lo disputando o título de verdade.

E no mais, nenhum grande comentário a se fazer a respeito. Até porque, a essa altura, se você gosta de corridas já leu todas as notícias e colunas e blogs a respeito, sobre tudo o que aconteceu – desde o piti de Massa até o erro grosseiro de Schumacher.

Pra quem vê corridas só para torcer para brasileiros, é muito bom ver que Senna já colocou Petrov no bolso. Mas o dinheiro do russo não é pouco e se Kubica voltar… E Barrichelo está realmente dando adeus à categoria, pois parece ser – hoje – a última opção da própria Williams. E não faria sentido aceitar correr em qualquer time nanico só para completar 20 anos de F1. Porque é daí pra baixo.

Suzuka é uma das poucas pistas clássicas que ainda aparecem no calendário. Então, mais uma decisão de título por lá soa até como justa homenagem ao automobilismo. E falta menos de duas semanas.