Tóis

Então chegou definitivamente a hora de virar a página. Ainda não me acostumei, mas a Copa acabou de verdade e há coisas mais importantes a fazer agora. Afinal, outubro e as eleições já estão chegando. Só pra dar um exemplo, claro.

Então, pra encerrar com chave de ouro o assunto (pelo menos até que o novo técnico da Seleção seja anunciado), segue a crônica esplendorosa publicada na segunda-feira pelo Joaquim Ferreira dos Santos.

Logo depois, os dois grandes vídeos de encerramento das coberturas da ESPN (internacional) e da BBC.

O fim de Tóis

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue dos antepassados

Dedo de Deus, Teresópolis / ReproduçãoÉ pau, é pedra, é o fim do caminho da Civilização Tóis, aquela que os guerreiros do condado de Comary inventaram para dominar o planeta futebol e para todo o sempre ser invencível. Ela exigia de seus súditos o cumprimento em que a mão direita fazia o poste enquanto o antebraço esquerdo servia de travessão, formando o T da palavra mágica. “Pelos poderes de Tóis”, gritavam no meio das rodinhas antes das batalhas — e se julgavam mais motivados.

Ninguém sabia onde queria chegar aquela confraria de homens adolescentes, sempre caminhando em fila indiana, as mãos nas costas do guerreiro que seguia na frente. O mundo adulto ria, mas eles vinham de uma civilização na floresta onde o importante era ser fofo. Foi assim que se conheceram no pátio escolar, meninos com alegria nas pernas, e assim caminhariam, uma chuteira de cada cor, a barra da cueca à mostra. Diziam-se uma família.

Os guerreiros de Tóis julgavam-se predestinados pelo sangue vitorioso de seus antepassados e com poderes suficientes para viver isolados na nova civilização de orgulho que fundaram. João Gilberto sussurrou e criou a bossa nova. D. Pedro inventou um país com o “Independência ou morte”. Agora, os canarinhos tropicais fundaram Tóis, abaixo da fortaleza do Dedo de Deus. A rocha energizava seus pés, eles acreditavam, ajoelhados contritos no meio do campo.

Durante um mês, estes 23 soldados furaram o nevoeiro da serra onde se aquartelavam e, como se fossem entidades divinas surgindo em meio às brumas de Avalon, desciam à várzea para enfrentar os fariseus que ousavam desafiá-los, eles, os autoproclamados reis eternos do futebol mundial. Sentiam-se semideuses, falavam da magia do bigode grosso e da união do grupo. Eram os valores do mundo Tóis. Zero de conversa sobre futebol, pois já de tudo sabiam.

Os guerreiros de Tóis eram os mais tatuados das guerras, todos rabiscados com a miríade de possibilidades inventadas para se imprimir qualquer maluquice na pele de um ser humano. Julgavam que isso seria tática terrível para assustar outras tribos. Pintavam-se de caveiras, dragões, morcegos e hieróglifos. Um desses guerreiros, além da cabeleira em volutas como a Hidra de Lerna, escreveu no braço “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono” — e supunha agora carregar ali a arma mortal de um para-choque de FNM. Morreria mais adiante, atropelado por um jogador alemão.

Antes das pugnas, os meninos de Tóis faziam questão de cantar inteiro o hino de seu condado, num impressionante festival de cenhos franzidos, gargantas arreganhadas e outros exageros da espécie. Seus antepassados, vencedores em cinco torneios, nunca souberam uma frase do tal hino, complicadíssimo. A encenação do canto a capela não tinha nada a ver com o jogo, não marcava gols e deixava os guerreiros emocionalmente exauridos. De onde estavam, no entanto, podiam ouvir o locutor dizer: “Estamos todos arrepiados”. Achavam por isso que estavam com a mão na taça.

Os guerreiros de Tóis chegaram a levar para o campo de batalha a túnica de um soldado ausente, ferido num combate anterior, numa tentativa mediúnica de incorporar as forças dele aos sobreviventes. Achavam possível utilizar a túnica de pano como arma de guerra. Vertiam lágrimas sob qualquer pretexto. Chorava mãe, chorava pai, chorava todo mundo. O mais velho conversava com uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio.

Definitivamente, o ar rarefeito da montanha onde viviam isolados começava a lhes fazer mal. Gol, só de canela. A qualquer contato com o próximo, caíam ao chão, contorcendo-se em dores invisíveis ao mais detalhista dos raios x.

As ordens com que administravam os combates vinham de um velho pajé, gordo de tanto anunciar lasanha na TV. Sua tática era sempre a mesma: “Atacar com motivação, defender com autoajuda”. Ele agora tinha como truque principal a capacidade de se transformar em sósias e espalhar a confusão. Ninguém sabia afirmar com certeza quem era quem, mas diante de algum comentário mais lúcido costumava-se creditar as palavras ao sósia. Na Civilização Tóis todo mundo achou a multiplicação do técnico como uma versão moderna da multiplicação dos pães, o sinal metafísico de que a guerra, ao findar do sétimo passo, estaria ganha.

Os guerreiros de Tóis se achavam acima do bem, do mal e também por cima da carne-seca, o alimento da infância que agora havia sido trocado pelas marmitas mandadas trazer da Espanha, do novo restaurante do chef Ferran Adrià. Alguns pintavam o cabelo todo dia, mas nunca acertavam o corte. A guerra do futebol passou a ser apenas um detalhe, algo transmitido no telão onde avaliavam como lhes ia a beleza.

Não treinavam. Tinham a força, a espada de Grayskull, o grito de Shazan, o apito do japonês, o licor de jurubeba e o pó de pirlimpimpim. Na hora agá, resolveriam.

Tóis era a reunião de todos os poderes mais aqueles que os marmanjos adolescentes tinham visto nos videogames da caserna na serra — e, dedicados a se curtirem e se compartilharem nas redes sociais, nem perceberam o bicho vindo pelo meio de campo desocupado. Foram sete dentadas na vaidade, na preguiça, na ignorância e nos pescoços onde estava tatuado “Tudo passa”.

Nada passa, tudo fica — e fez-se o apagão eterno em Comary.

Nunca mais Tóis.

 

Quem nunca…

…teve um amor impossível?

Pra frente Brasil

Arena Brasileira / ReproduçãoSempre gostei das músicas feitas para as copas do mundo. Sério, de verdade. 90 milhões em ação, 70 neles e os canarinhos de Junior e Luis Ayrão (com letra sensacional) são apenas alguns bons exemplos. Agora chegou a vez de Arena Brasileira, com Seu Jorge. É, até na música os estádios viraram arenas, seja lá o que isso signifique.

Enfim, a canção é boa, bem legal. O problema todo é o vídeo de lançamento. Desculpem os realizadores, mas ficou uma bosta. A finalização ficou ruim, a qualidade do som é péssima e, por conta do patrocínio, acabou parecendo um comercial estendido (e ruim) da LG. Erraram muito a mão (mocinha sentada na máquina de lavar, namorando?!).

O que me impressiona, no final das contas, é como é que o Spike Lee assina uma coisa dessas; como é que o Seu Jorge – que além de grande voz já apareceu como ator de maneira honesta e com desempenho muito melhor que 95% do elenco de Malhação – topou botar a cara canastramente no tal vídeo. Dinheiro, só dinheiro, muito dinheiro? Simples assim?

O espantalho

O filme é sensacional e a versão de Fiona Apple para Pure Imagination e de se ouvir rezando (e se você não reconheceu a canção, veja isso).

Além de fabulosamente executado, o filme lança (ou reforça o lançamento, não entendi direito) o aplicativo e jogo The Scarecrow, da Chipotle Mexican Grill (e quem está acostumado a visitar os States, Canadá e Reino Unido certamente conhece).

E aí é que está o busilis. Os caras tentam posar de bonzinhos quando são, na verdade, ases do capitalismo e carregam consigo todos os significados bons e ruins dessa escolha. E não acho que estejam errados não, o que nos dá mais um motivo para o filme ser ainda mais elogiado.

Os caras têm um conceito absolutamente vitorioso para esses estranhos anos dois mil e qualquer coisa. E defendem seu conceito de forma brilhante.

Agora, só pra constar, eu não consigo ter essa visão trágica sobre a produção de comida industrializada em que todo e qualquer animal é mal tratado. O Brasil, inclusive, é referência mundial pela qualidade da legislação e fiscalização de criações e abates. É claro que sempre há (e infelizmente sempre haverá) aqueles lixos que aparecem na TV, mas eles não são a regra. E carnes são excelentes.

Chillie

Runaway / ReproduçãoPode parecer coisa de maluco. Mas gosto muito de coisas antigas – carros, móveis, aviões, acessórios e o que mais. Sempre quis ter em casa uma daquelas geladeiras antigas, tipo Frigidaire, acho lindas.

Não sei, gosto de viajar um tanto sobre o assunto, defendendo que isso tem muito mais a ver com valores do que com a idade e qualquer espécie de saudosismo. Vocês certamente conhecem a frase “já não se faz mais (qualquer coisa) como antigamente”. E não mesmo, claro, é pra frente que se anda e tal e coisa.

Mas gosto da idéia de um mundo bastante mais artesanal e num ritmo mais cadenciado. Por exemplo, quando comparo as imagens das linhas de produção de carros de hoje, com seus robôs, com as de muito tempo atrás, como pessoas cumprindo suas tarefas.

Gosto de pensar e até sentir que aqueles objetos, dos maiores aos menores, tinham e têm alma. Voltando às geladeiras, que me perdoem os modernosos e modernistas, não é possível comparar a diferença de personalidade da velha Frigidaire com as novas e cromadas e impessoais.

Então encontrei o filme abaixo. Mais um de estudantes, criado, animado, dirigido e produzido por Susan Yung, Emily Buchanan e Esther Parobek, no Ringling College or Art and Design.

Runaway fala de um mal entendido, nos dias de hoje, entre uma geladeira dos anos 50 e seu dono. Um filme terno, quase bobo, mas que vale para marcar a chegada do fim de semana, hora de diminuir o ritmo, aproveitar as horas etc etc etc.

Para quebrar o tédio

SpyFox / ReproduçãoÉ, a idéia era voltar ao trabalho e, ao mesmo tempo, recolocar o cafofo pra funcionar. Mas as coisas andam um tantinho sonolentas e as notícias do mundo nem são as melhores, um baita mais do mesmo: a polícia do Cabral que desce o cacete até em professor, o Amarildo e um montão de desaparecidos que não aparecem, fora um e outro escandalozinho político. Enfado não?

Aí, pra melhorar um pouquinho o humor da tarde, SpyFox. Um espião que, inspirado em Bond e congêneres dos anos 60, salva o mundo da terrível ameaça de um tubarão martelo e suas sardinhas.

O filme foi produzido por Yoav Shtibelman, Taylor Clutter e Kendra Phillips, na Ringling College of Art and Design. E não deixem de assistir o making of.

Logorama

Não sei vocês, mas eu não conhecia. E achei sensacional. Um curta-metragem criado pelo coletivo de animação francês H5 (François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain). Ele foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cannes de 2009. Também abriu o Sundance Film Festival de 2010 e ganhou o Oscar de curta de animação do mesmo ano.

Desconfio que o McDonald’s não ficou nada satisfeito com a produção.