Roupa prateada

Agradeço diariamente aos meus pais por dois amores que eu tenho. Livros e música. Sobre a última, minha casa sempre foi absolutamente eclética. Se de noite era colocado pra dormir ao som de Martinho da Vila, durante o dia a vitrola tocava Simon & Garfunkel. E esses são só exemplos, entre tantos que podia dar. Mas, por conta disso, desde sempre me acostumei a ouvir de tudo, pelo menos uma vez, nem que fosse para falar mal.

Mas com toda a variedade de discos que havia em casa, Sá, Rodrix e Guarabira nunca emplacaram. Foi algo que precisei descobrir sozinho. E a essa altura, todo mundo já sabe que o Zé Rodrix morreu nesta madrugada.

Na década de 70, os três apareceram tocando umas músicas que, em conjunto, foram batizadas de rock rural. E é bom explicar que o estilo (graças a Deus) não tem nada a ver com as duplas sertanejas que andam pelos programas de domingo na TV. Depois de algum tempo, ficaram Sá e Guarabira enquanto o Zé foi fazer coisas novas.

Entre elas, foi um dos fundadores do Joelho de Porco, uma das primeiras (senão a primeira) banda punk do Brasil. Sinceramente, é um estilo que não domino. De quebra, como publicitário, criou alguns dos mais fabulosos jingles da publicidade brasileira, como um da Pepsi, que em plena ditadura clamava os jovens a ser e fazer o que quisessem (“Hoje existe tanta gente que quer nos modificar / Não quer ver nosso cabelo assanhados com jeito…”).

Conheci Rodrix, ouvindo um disco seu, pelos 14 ou 15. E me apaixonei por várias de suas canções, como a fantástica Casa no Campo, a irreverente Xamego da Nega e o hino Soy Latino Americano.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, resolvi aprender a tocar violão. E comecei a sonhar ter uma banda. Quando soube da notícia, a primeira música que veio à cabeça não foi nenhuma dessas que citei aí em cima. Muito menos conhecida, me fez lembrar minha primeira aula de violão e o sonho daquela banda…

“Desde pequeno que tinha vontade de chegar aqui
E ficar na frente de uma banda como essa e cantar assim
E tudo o que eu fiz eu só fiz porque eu queria chegar no lugar onde estou
Pra poder usar as roupas prateadas e o cabelo comprido

Eu só preciso dizer pra vocês que eu não ofereço perigo
O que eu tenho pra lhes dizer é somente aquilo que eu digo
E o que eu preciso dizer pra vocês vai acabar ficando só entre nós
Vocês só vão entender quando chegarem em casa muito tempo depois
E vocês vão voltar
E vão me escutar outra vez

Mas por enquanto eu só quero usar a roupa prateada e cantar pra vocês”

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