The blue room

Madeleine Peyroux / Foto: Rocky SchenckEm 1962, contra a vontade e a expectativa de todos (inclusive sua gravadora), um grande e já reconhecido cantor negro de R&B, resolveu gravar um disco de música country. Pois o resultado foi absurdo. O compacto de I Can’t Stop Loving You vendeu “só” um milhão de cópias. E o álbum Modern Sounds in Country and Western Music, lançado algumas semanas depois, ficou “apenas” 14 semanas em primeiro lugar nas paradas americanas. Estou falando de Ray Charles.

E se estou falando do negão, o que é que a moça bonita aí em cima tem a ver com isso?

Ela é Madeleine Peyroux, uma americana nascida no estado da Geórgia e que morou na Califórnia, em Nova Iorque e em Paris. Filha de um aspirante a ator com uma professora de francês. Aos 15 anos, se empolgou com a boemia do Quartier Latin e começou a se apresentar pelas ruas e alguns botecos da Cidade Luz.

Sua carreira, propriamente dita, começou aos 16 anos. A mocinha foi convidada para ser a crooner da The Lost Wandering Blues and Jazz Band e passou dois anos em turnê pela Europa. No repertório da banda, pérolas de Fast Waller, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Bessie Smith, que seriam a base de seu trabalho desde então.

Em 1996, lançou seu primeiro álbum: Dreamland. As 12 faixas – três canções originais e nove regravações – fizeram com que Madeleine fosse considerada a Billie Holiday do século XXI. Segundo a Time, o disco trazia a mais excitante e envolvente performance vocal feita por uma nova cantora.

Mas aí deu ruim. Ao final de 1997, foi diagnosticada com problemas graves nas cordas vocais e ainda teve problemas com sua gravadora. E sumiu. E só apareceu de novo em 2004, com a gravação do EP Got you on my mind, com William Galison.

Depois da parceria desfeita, Peyroux apresentou o trabalho como demo à Rounder e, depois de oito anos, a moça lançava Careless Love, segundo disco e primeiro com o produtor Larry Klein. De lá pra cá, mais três discos. E apesar da voz que mais parece um cristal e do repertório brilhante, apenas álbuns comuns em vista do seu potencial.

Até que depois de um almoço mais do que agradável, meu pai deu a dica: The Blue Room, o novo álbum. E voltamos ao início, a Ray Charles. A primeira faixa é a clássica I Can’t Stop Loving You. Como suas regravações são conhecidas, continuei ouvindo. Mas aí apareceram You don’t know me e Bye Bye Love (ouça a versão Ray Charles e a versão Madeleine Peyroux) e não deixaram dúvida: não era por acaso.

The Blue Room pretende ser uma homenagem a Charles e seu disco clássico. Além das três citadas acima, ainda traz Born to Lose e outras seis canções de mesmo espírito. Mas será que deu certo?

O disco é muito bom de ouvir, não há dúvidas. A voz não treme e os arranjos, com roupagem atual (claro), não tentam reescrever a história. Mas o álbum não equivale, nem de perto, à revolução conceitual provocada por Modern Sounds in Country and Western Music. Talvez ela conseguisse alcançar isso se tivesse uma banda com ataques mais radicais, no estilo The Dap Kings, algo que seria muito diferente do que ela produziu até hoje.

Abaixo, uma das faixas de The Blue Room: Change All those Changes.

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Hey ho

The Lumineers / Foto: DivulgaçãoRamsey é uma cidadezinha de mais ou menos 15 mil habitantes, distrito de Nova Jersey, coladinho em Nova Iorque. Algo muito distante da paisagem quase bucólica que a primeira audição de The Lumineers pode sugerir.

Os amigos de infância Wesley Schultz (guitarra e voz) e Jeremiah Fraites (bateria) começaram a compor e tentar aparecer na cena musical local pelos idos de 2005. A falta de espaço e o alto custo os ajudaram a tomar uma decisão arriscada.

Quase quebrados e, àquela altura, mais por teimosia, juntaram o pouco que tinham aos seus instrumentos e colocaram o pé na estrada. Aportaram em Denver, capital do Colorado, e colocaram um anúncio no jornal em busca de um violoncelista. Neyla Pekarek foi a primeira a responder e não demorou muito para compor o – agora – trio.

A mocinha fez mais do que bem aos velhos amigos, suavizando seu estilo e incorporando outros instrumentos ao som dos rapazes: bandolim e piano.

Com uma base folk e oscilando entre o country à moda antiga e o rock seco (e a voz rasgada e marcante de Schultz é fundamental nessa construção), os Lumineers lançaram seu primeiro disco (The Lumineers, Dualtone Records) em abril de 2012. A música de trabalho (essa é velha) foi a quinta faixa do álbum, Hey Ho. A canção explodiu e chegou a ser a terceira colocada no top 100 da Billboard.

O lançamento da banda foi muito bem trabalhado. Antes mesmo do disco estar pronto, Hey Ho foi apresentada em um comercial de TV para o Bing, entrou na trilha sonora de episórios das séries Hart of Dixie, Vampire Diaries, Bones e no último episódio do seriado britânico Cuco. Ainda na Inglaterra, a canção também esteve em propagandas da E.ON, Microsofot e do filme O lado bom da vida.

Com toda essa preparação, o sucesso era até previsível. E se Hey Ho é uma espécie de música chiclete e fácil de reconhcer (cheguei a pensar que bem antiga) também é verdade que é uma canção mais do que agradável.

O primeiro e único disco é, na média, muito bom com algumas faixas (1, 3, 4 e 11) excelentes. Abaixo, a já mais que conhecida Hey Ho no único vídeo produzido pela banda. Agora é torcer para que os próximos álbuns mantenham o nível.