O Maraca

MaracanãJá não lembro mais quantos anos eu tinha, se 8 ou 9, quando fui ao Maracanã pela primeira vez. Meu primeiro jogo foi América e Internacional. Fazendo uma conta simples, comecei minha aventura no maior e mais belo estádio do mundo há mais ou menos 30 anos.

Nele eu vi bola, música e até papai Noel. Vi grandes jogos e imensas peladas de muitos times e da seleção. Vi o Zico voltar, fazer lançamento para Renato de bicicleta e, depois, e se despedir de novo. Vi o Maradona acertar o travessão do meio campo e Bebeto e Romário ensaiarem o que fariam em 94. Estava lá quando a arquibancada caiu.

Nele, pisei do gramado à tribuna de honra, passando pela querida geral. Só não fiz o que esses caras aí da foto fizeram. O vivi com mil e com 120 mil pessoas. Tomei banho de pó de arroz ao lado do meu pai, torci pelo Botafogo com amigos. E com o Flamengo… Quantos sorrisos, quantas comemorações, quantos dramas e lágrimas pelo quase conquistado. E na minha memória, aquele urro que começava baixinho e crescia apoiado no eco do concreto até tomar conta de todo o anel: Meeeennnnngooooo, Meeeennnnngooooo…

No complexo, fiz aula de natação e vôlei, treinei e experimentei a pista de atletismo. Joguei bola no portão 18 quando estudava ali em frente, joguei bola na quadra da escola Arthur Friedenreich.

Amanhã ele será reaberto. E tenho a impressão que muita gente, como eu, terá dificuldade de chamá-lo de Maracanã de coração aberto, de chamá-lo de Maraca com a intimidade típica de quem era da casa. E ontem dei de cara com o texto abaixo, no blog do Arthur Muhlemberg.

Ai de ti, Maracanã

1. Ai de ti, Maracanã, que deste tuas costas ao clamor de tuas arquibancadas e soterraste tua geral humilde em busca das glórias vãs; céus e terra te negarão o sono, e 200 mil vozes hão de assombrar-te pelas noites.

2. Ai de tuas poltronas acolchoadas, ai de teus camarotes de luxúria, ai de tua soberba para poucos, porque para muitos te quis e para muitos foste erguido. Porque nem tua cobertura há de te esconder os teus inúmeros pecados quando minha ira se lançar contra ti.

3. Acaso não te lembraste do silêncio que te dei quando nasceste? Que te fiz carioca, mas te inaugurei paulista, para que soubessem que não és lar de ninguém? Acaso não te conduzi até a final do Mundial, para que fosses profanado pela Celeste estrangeira e calasses tua ambição desmedida? Não te testei timaços e timinhos pela régua das vitórias?

4. Não te consignei eu aos clássicos, porque eras neutro e palco perfeito, um lugar a ser conquistado no grito e no campo pelas quatro forças que ao teu redor orbitam, e pelos ídolos que desfilaram tantas cores? Pois hoje vejo que te prostituis a consórcios que não te conhecem, e não mais serás informado pela Suderj em teus vindouros telões de LED.

5. Enorme era teu campo, e encolheu-se; ampla era tua capacidade, e apequenou-se; agrandaste teu estacionamento e será imensa tua final, mas não como sonhavas quando aprenderam a te amar. Ai de ti, Maracanã, pois culparás os cabrais que não te deram dimensão exata nem te fizeram olímpico e pagarás com teu orçamento estraçalhado, teu parque aquático em deserto e tua pista soterrada.

6. E aqueles que te cantaram hinos aos domingos, ao se sentarem em tuas cadeiras numeradas, não te reconhecerão; e a nova torcida que terás tampouco tu hás de reconhecer. E eu hei de emudecer teu eco catedral à sombra de tua intrepável lona cobertora, para que sejas silencioso e ordeiro como um shopping de aeroporto.

7. E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

8. Ai daqueles que combinarem de se encontrar no Bellini, pois se perderão, com suas camisetas piratas e seus ingressos falsos repassados por cambistas torpes a custo de quatro dígitos, indo parar na Uerj. Nem assim teu banheiro será mais limpo do que foi nos dias de tua glória.

9. Selarei teu portão 18, e não mais se concederá tua imensa cortesia aos múltiplos conchavos, quando traficavas influência em teus corredores e escadas rolantes. Perpétua será tua dor, cativa será tua vergonha.

10. Desfraldai vossas bandeiras, uniformizados, porque só assim recordareis o espetáculo que fazíeis: tuas faixas darão lugar aos camarotes da luxúria, e teus cânticos não serão ouvidos no isolamento perfeito dos proseccos, mojitos e DJs, numa publicitária orgia no templo que virou programa.

11. E tu, Maracanã, com teus ouvidos de concreto lamentarás aqueles palavrões que sentados não bradamos, mesmo com o grito molhado na cevada, e gemerás em cada viga, em cada solda, em cada rejunte, no chapisco de teus muros, nos parafusos dos mais buchas, em cada cu que assentares (78 mil lugares?), na tua escassez de gigantismo a flagelar-te com a memória de quando eras mais nosso porque cabiam mais de nós.

Márvio dos Anjos

(d’apres Rubem Braga)

Adeus ao Olímpico

Gosto muito do Olímpico. Na verdade, gosto muito de muitos estádios (mesmo os que não conheço). Principalmente aqueles que, mais do que se confundir, carregam a história de algum clube. Especialmente os grandes.

O Olímpico, claro, é um deles, estádio do Grêmio. Como bem disse o Rica Perrone, jogar com o Grêmio no Olímpico sempre tem uma carga que vai muito além da qualidade do time deles. Tem a ver com alma.

É mais ou menos como jogar contra o Flamengo no Maracanã. Nosso time pode estar cheio de wellingtons ou bujicas. É o Flamengo no Maracanã.

No próximo domingo acontece o último jogo do estádio Olímpico, o Grenal da última rodada desse brasileirão. Um jogo que não vale nada para a tabela, mas que vale demais para os dois clubes. Os donos da casa se despedindo sem querer deixar a história manchada; o eterno rival querendo carimbar a despedida. O jogo vale a honra, o caráter, a alma.

Para a torcida, que no ano que vem terá um novo estádio, uma dessas arenas modernosas, será o adeus ao seu grande templo.

Mas o que é que eu tenho com isso, deve ter alguém (se é que veio alguém aqui) se perguntando. Tenho que pelo Olímpico, entre todos os grandes estádios do país, sinto um carinho especial e – na hora da despedida – até uma certa melancolia.

Afinal de contas, foi no Olímpico que o Flamengo ganhou o único dos seus seis títulos brasileiros fora do Maracanã. Abaixo, então, minha singela homenagem.

Outro vídeo, esse produzido pela Zeppelin. Bela homenagem, diga-se. Mas faltou o Renato.

FlaFlu

Boa brincadeira do GloboEsporte.com, mais uma das ações em torno do centenário do FlaFlu. O problema é que faltaram opções em algumas posições, especialmente goleiro e volante (Andrade é o único disponível na lista).

Então, aí está a imagem do “meu Flamengo de todos os tempos” possível. Se pudesse, trocaria Raul por Garcia e Andrade por Dequinha. E ainda colocaria o Carlinhos como uma das oções de volante.

É claro que se fôssemos pensar com carinho, a lista oferecida dobraria com facilidade. Mesmo sem voltar muito no tempo, basta dizer que só nas laterais faltaram Jorginho e Leonardo. Então, o melhor mesmo é parar por aqui.

Não me dei ao trabalho de falar sobre o Flamengo neste ano, com o que temos aí não dá vontade mesmo. Mas o FlaFlu é, sem dúvida, o jogo da minha vida. Principalmente por ter um pai tricolor e ter passado infância e adolescência na década de 80, não poderia mesmo ser diferente (quem não sabe do que estou falando, pesquise um pouco sobre os times e os jogos da época).

No confronto, há uma pequena curiosidade. Apesar da larga freguesia, o Flu venceu alguns jogos simbólicos: o primeiro jogo, o primeiro jogo no Maracanã e a primeira final entre os dois, entre outros. Mas sou capaz de apostar que, neste domingo, em que pese a história e o time mais que mequetrefe do Flamengo, vamos vencer. E dou um gol de vantagem.

Ocre Marajó*

Eu tinha oito anos de idade e morávamos na Souza Franco, em Vila Isabel. Um apartamento quarto-e-sala, em que a sala de tamanho mais que razoável era dividida do chão ao teto por uma persiana de metal. De um lado, sala; do outro, o quarto das crianças, eu e minha irmã. Nossa vitrola era um lindo móvel de madeira com espaço para guardar os dicos. Era comum passar férias em Guarapari e, na volta, meu pai lavava o fusquinha 73 Ocre Marajó com o Chico, no posto em frente, geral com óleo de mamona por causa da maresia.

Meu pai e eu jogávamos botão numa mesa Estrelão, com bolinha de Bombril. Raul era meu goleiro e Zico, claro, meu camisa 10. E nessa época ele ganhava todas. E torcíamos para o Brasil. E nos encantávamos com o Brasil. Era a copa do Naranjito, do Pacheco, do “bota o ponta Telê” e do “voa, canarinho, voa”. E a cada gol do Brasil, meu pai vibrava em pé, em cima da cama.

Era a copa do Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Éder. Era pra ter sido a copa do Reinaldo, mas destruíram o joelho dele. Era a Copa de Platini, Tigana e Six; Schumacher, Rummenigge, Breitner e Littbarski; Dasayev e Bezsonov; Lato e Bonieck; Pfaff e Van Der Elst; a copa de estréia de Maradona. E foi a copa de Paolo Rossi.

Antognoni, Gentile, Graziani, Scirea, Tardelli, Cabrini, Altobelli, Conti, Zoff. Nenhum destes interessa, porque – pelo menos pra mim – aquela foi a copa de Paolo Rossi.

No dia 5 de julho de 1982 aconteceu a tragédia do Sarriá. Um dia em que um time capaz de fazer sonhar perdeu para um time muito bom. Um dia que é apontado por muita gente como o início da discussão ‘futebol arte X futebol de resultados’. Uma injustiça com times excelentes que foram às finais daquela copa, inclusive a Itália.

Ainda recito a escalação do ‘meu’ Brasil. Waldyr Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (e o Roberto no banco…!) e Éder. Sim, o ‘meu’ Brasil. Foi com esse time que aprendi a torcer pela seleção, que aprendi a aproveitar cada jogo de cada Copa do Mundo, foi com esse time que aprendi que o melhor não ganha sempre e que essa é apenas uma das graças da coisa.

Faz 28 anos. Já não moro em Vila Isabel mas estou sempre por perto. E cada vez que desço a Souza Franco em direção à Teodoro da Silva, me lembro do fusquinha, do álbum duplo de Simon & Garfunkel no Central Park, da minha Monark, da bolinha de Bombril, do Sítio do Pica Pau Amarelo, do Maverick azul e do Puma conversível e vermelho que ocupavam vagas na garagem do prédio (o Veca está lá até hoje). E lembro do meu pai falando de um jogador italiano desesperado e com as mãos na cabeça quando empatamos em 2 a 2. E lembro daquele time e como, apesar daquela derrota tão doída, como ele é capaz – até hoje – de me ajudar a lembrar de tanta coisa boa.

*Post publicado, originalmente, no dia 5 de julho de 2010.

Que o povo seja feliz

Durante a copa de 82, a tal, ainda tinha oito anos de idade. Já adorava futebol, claro, mas meu horizonte era muito curto. Morando em Vila Isabel, já tinha ido ao Maracanã, claro. Era um tempo que pais levavam seus filhos sem muitos medos. Também já tinha comunicado ao velho, tricolor, que era Flamengo.

Jogava botão e meu time só podia ser aquele: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Junior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Falcão, Cerezo, Reinaldo e Sócrates já eram nomes conhecidos, mas não tinha a dimensão de quem era cada um de verdade. Vale lembrar que naquela época o campeonato brasileiro era uma zona, com uma fórmula estapafúrdia a cada ano e futebol na TV não era a farra que é hoje. Na verdade, era quase raro.

E aí, veio a copa. E o segundo melhor time que já vi jogar na minha vida. E lá estava o cara, um monstro usando a camisa oito.

Aí, um dia, o cara veio jogar no Flamengo. Sua estréia foi num Fla-Flu na primeira rodada do carioca. A essa altura, já morava mais perto do Maracanã e meu pai tinha um amigo (não lembro se botafoguense ou vascaíno) que tinha cadeiras cativas e, às vezes, emprestava. E lá fomos nós. Além do Magrão, Zico tentava mostrar que estava recuperado do quase assassinato que sofreu no ano anterior, a entrada criminosa de Márcio Nunes, do Bangu. Pra completar, alinhavam entre os onze Jorginho, Leandro, Mozer, Adalberto, Andrade, Bebeto e Adílio. Era pouco?

Não lembro mesmo se ele jogou bem. A partida terminou em surra, 4 a 1 com três gols de Zico e foi impossível ver qualquer outra coisa além. E no final das contas, entre contusões de um e outro, só conseguiram jogar juntos mais duas vezes, nunca no Maracanã. E o sujeito foi embora sem muitas alegrias em vermelho e preto.

Bendito seja o sujeito que inventou o vídeo tape, porque Sócrates foi daqueles caras que – apesar de ter visto jogar –, entendi de verdade, apreciei, me deixou boquiaberto bem depois de parar, quando vi lances e até alguns jogos inteiros do Corinthians.

De quebra, um sujeito que pensava, que se posicionava, que sabia o que queria, que sabia o que sonhava. Nessa entrevista de 1983 (Rádio Eldorado, programa Galeria, 68 minutos), diz em alto e bom som: “que o povo seja feliz”.

Negócio arriscado

A primeira partida entre Flamengo e Grêmio que lembro com clareza teve gol de Tonho. É, foi a primeira partida da final de 1982, 1 a1 no Maracanã. Nosso gol foi de Zico. Depois, 0 a 0 e a necessidade do terceiro jogo. E Zico passou a Nunes que fez o um a zero que nos deu o bicampeonato.

E desde então, nada mais comum do que encontrar os caras e passar sufoco. Até final de campeonato dentro do Maracanã os caras ganharam da gente.

Some o histórico ao oba-oba pela partida maravilhosa de quarta e pronto. Estava realmente com medo do confronto de sábado, apesar de saber que o time dos caras é muito fraco. Segundo seu próprio diretor executivo de futebol, o Grêmio não tem defesa, não tem meio-campo, não tem ataque. Essa consciência deles só nos obrigava ainda mais à vitória.

E se é verdade que o jogo começou estranho, também foi logo cedo que Ronaldinho mostrou que estava a fim. Uma virada de jogo sensacional foi a senha. E, logo depois do primeiro gol, acabou a partida. Mesmo ficando muito plantado em vários momentos da partida, o time nunca perdeu o controle das ações. E aquela senha dos primeiros minutos foi confirmada com o segundo gol, quando o dentuço partiu pra cima do goleiro para lhe roubar a bola e fechar o placar.

Só faltam 25 jogos para o hepta e o de amanhã, contra o Cruzeiro de Joel Santana e Montillo é de risco. De quebra, a ausência de Wellington que poderia ser um reforço arrisca ser mesmo um desfalque, pois David entrará em seu lugar (o tal Gustavo, contratado no início do campeonato deve ser muito muito ruim, porque nem testado o sujeito foi até hoje). E Williams, o Messi que marca, também não estaráem campo. Aírton e seus cotovelos serão os responsáveis pela contenção e auxílio à defesa. Luxemburgo certamente sabe o risco que isso representa e já avisou aos nossos laterais que amanhã não poderão sair como sempre.

E apesar de ser acossado por alguns amigos da arco-íris pela contagem zagalística que faço desde a primeira partida do brasileirão, o que me dá segurança no título – além do time bom de belas apresentações – é a consciência dos caras, sabendo o que querem, o que precisam fazer e conhecendo suas limitações, certos de que toda boa fase tem fim mas que isso não é o fim do mundo. Vejam abaixo a declaração de nosso sincero forçador de cartões, Thiago Neves.

Tem muito tempo ainda, muitas rodadas. Muitos times podem ser campeões. O Flamengo em 2009 mesmo estava mal, se recuperou e foi campeão. Alguns times que não estão bem no primeiro turno podem se levantar no segundo e chegar. Podemos ser campeões, temos condições, mas uma hora vamos perder. Uma hora vamos sofrer uma goleada, foram dois bons jogos contra Santos e Grêmio, mas não tem nada ganho. Ganhamos duas, mas depois podemos perder duas ou três também.

O Pelé branco

A dica foi enviada pelo Lessa. Pra quem gosta de craque, de bola e de arte, vale muito a visita. Uma coleção de cartazes em estilo retrô produzida pelo bósnio Zoran Lucić.

Estão lá Pelé, Maradona e os franceses Zidane e Platini. Assim como a trinca de ouro do Barcelona: Xavi, Iniesta e Messi.

Enfim, uma galeria daquelas de craques de hoje e de antão. Peguei dois, absolutamente ao acaso, para ilustrar o post. Clique aqui para ver todos os cartazes.

2ª edição

Se pegássemos apenas os 10 maiores jogadores dos 12 clubes grandes de verdade do Brasil, seriam 120 cartazes. Será que não tem nenhum designer por aí que toparia fazer essa coleção? Será que nenhum parceiro da CBF (a própria jamais faria isso) não patrocinaria o trabalho com o objetivo de montar uma exposição pelos estádios da Copa de 2014?