Conversas

Conversa / Fonte: Blog do Eloi ZanettiTive algumas conversas deveras interessantes nas últimas semanas e resolvi contar alguns trechos de algumas delas.

 

1

Fui dar entrada no Seguro Desemprego. Depois de amargar meses tentando fazer o tal agendamento, fui atendido às 17h50 de uma sexta-feira no Centro. Lá a coisa toda aconteceu a contento, atendimento rápido e eficiente. E simpático, vejam vocês. Quando estava quase tudo pronto e a mocinha (funcionária pública do Ministério do Trabalho) já me devolvia os documentos, a coisa se desenrolou assim:

– Só isso, simples assim?

– É

– Olha que quase dá vontade de votar na Dilma…

– Você não vai fazer isso, vai?

– Não, claro que não, nem por decreto e com a guarda em forma

– Ah bom…

– Tá feia a coisa né?

– Ô… E essas oposições não dão as pauladas que têm que dar, parece que têm medo

– É, mas aos poucos as coisas vão mudar, tem coisa nova aparecendo por aí

– Será?

– Você já ouviu falar do Novo?

– Já, claro. Legal né? Parece que os liberais finalmente estão querendo sair do armário

– Então, o negócio é não desistir e participar

– Você já foi a alguma reunião?

– Ainda não, sempre acontece alguma coisa na última hora e eu furo. Mas estou tentando encontrar um espaço pela Tijuca pra propor um encontro, ainda não teve nenhum por lá.

– Ah, legal. Mais cedo ou mais tarde a gente vai se encontrar de novo então.

 

2

Estava no metrô, voltando de uma reunião, com um livro na mão. Sou meio que ímã pra malucos, tagarelas e congêneres. E apesar de estar com um livro aberto, o sujeito que sentou ao meu lado não teve dúvidas.

– Rapaz, tô impressionado com essa campanha.

– Ahã…

– Os caras insistem nessa história de luta de classes, de que rico tem raiva de pobre, que pobre tem raiva de rico. Agora tão inventando até que pobre tem raiva de pobre.

– Ahã…

– Esse negócio de avião e aeroporto, por exemplo. De vez em quando aparece um grã-fino torcendo o nariz pra galera. Isso não é lenda urbana não, só pra colocar medo no povo? E não é o rico que é dono de avião, de hotel, de loja? Por que os caras vão torcer o nariz se vendem mais passagem, se o povo viaja mais?

– Ahã…

-E carro então? Todo mundo reclama que o trânsito tá uma merda. Aí inventaram esse negócio de IPI e venderam mais carro ainda. Quem é que vende carro? Como é que vão reclamar então? E churrasco na laje? Quem é que vende carne? Pergunta lá pro dono da Friboi se ele reclama que pobre compra mais carne!

– Hummm

 

3

Chope de amigos de antão, daqueles que se encontram uma vez por mês pra falar besteiras e matar as saudades. Um deles voltava de férias e esteve no Uruguai. Enquanto discutíamos acaloradamente e resolvíamos o Brasil entre uma tulipa e outra, ele contou uma passagem interessante. É claro que o conhecendo bem, ficamos todos imaginando o portunhol macarrônico em que ele tentava se comunicar. Mas segue o relato já traduzido pelo próprio.

– Entrei num táxi e não teve jeito, não resisti e perguntei do Mujica

– É um bom presidente

– Mas e esse negócio dele morar no sítio, andar de Fusca, ser gente como a gente?

– É pitoresco

– No Brasil ele é tratado como ídolo por muita gente

– Bobagem

– Como assim?

– É um bom presidente e isso é importante. Mas o mais importante é a alternância.

 

4

Sala de casa, último debate presidencial, menina de cinco anos que torce para o América tentando entender o mundo ao redor. Dilma e Marina nos púlpitos.

– Papai, por que elas têm que andar até aquela mesinha pra falar?

– Porque elas vão falar coisas importantes e precisam aparecer bem, destacados dos outros que estão calados.

– E por que essa aí tá falando com soluço?

– Ela não está com soluço

– Mas parece

– É porque pra não falar besteira, tem que pensar antes

– Então ela pensa devagar né?

#VaiTerCopa

Reprodução: PaniniA piada do título é das mais óbvias e infames. Mas dei-me o desfrute de não escapar dela. Vai ter copa!

Já faz dias que estou no clima, sou desses que espera ansiosamente a passagem dos quatro anos entre uma e outra, que para em frente à televisão para assistir todos os jogos ao vivo ou VT. E ainda falta um mês. Um mês!!!

Não, não sou um alienado doidivanas. Mas tento separar o coração do cérebro de vez em quando. Sim, os problemas são muitos, enormes. Mas eles estavam aí antes, continuarão aqui depois.

Não acho que a copa impediu o investimento em educação, saúde ou qualquer outra coisa muito mais importante que futebol. Simplesmente porque o dinheiro usado para fazer a Copa não seria mesmo usado para o que importa. E isso não quer dizer que não devamos reclamar, que não devamos todos sair de casa e ocupar todas as ruas de todas as cidades desse país tropical para reclamar e brigar pelo que é certo. Que seja durante a copa e depois da copa. E todos os dias, se necessário e possível for. Afinal, é inegável que a copa foi um belo de um pretexto para se roubar mais um bom bocado.

Mas vai ter copa.

E não estou nem um tantinho preocupado com o Flamengo também. Ganhou do Palmeiras, perdeu do Fluminense e a cotação do dólar nem aí. Só achei sacanagem (muita mesmo) o que fizeram com o Jaime. Mas o que importa agora é outra coisa.

Vai ter copa!

E não vai ser nada fácil, muito pelo contrário. Esse clima de que ganhar a Copa em casa é obrigação é ridículo. Pelos exemplos recentes, basta ver que Itália em 90 e Alemanha em 2006 não chegaram à final. Curiosa e coincidentemente, uma ganhou a copa na casa da outra.

Acho que Fred e Neymar têm boas chances de serem artilheiros. Mas tenho medo de que quebrem o garoto pelo caminho. No nosso time, não confio no Hulk, no Jô, no Henrique e no Júlio César. Dois titulares, o que é um problema, e dois reservas, que podem vir a ser problemas.

Se mantida a tradição, ainda teremos alguém machucado durante a preparação. Se for um só, torço pelo Júlio César. Até porque, não poderia haver maneira mais bonita de exorcizar o fantasma de 50 e todos os resquícios de preconceito contra Barbosa do que ver um outro goleiro negro, Jefferson, como titular campeão do mundo.

Se der a lógica, Brasil pega a Alemanha nas semifinais. Aliás, há uma enorme probabilidade de que o Brasil, a partir da segunda fase, só enfrente campeões mundiais. Tenho certeza que o Brasil chega entre as quatro, mas não acho que ganhe a Copa. Desconfio que os bávaros serão os campeões, apesar da maratona de viagens, calor e umidade que enfrentarão no inverno do nosso querido patropi.

Lógica por lógica, há grande chance de Argentina e Uruguai se enfrentarem na outra semi. E a possibilidade de um outro ‘maracanazo’ é imensa. Então, é bom preparar o coração.

Suiça X Honduras, Irã X Bósnia e Coréia X Argélia devem disputar o ‘troféu’ de pior jogo do torneio. E calculo que uma vitória dos iranianos contra a Argentina seria uma zebra tão grande quanto a não classificação da Espanha para a segunda fase. Se bem que, hummm…, essa é até uma hipótese bem plausível. O Chile tem tudo para ser a grande surpresa.

Vou passar longe do Alzirão, mais longe ainda das festas oficiais. Botecos nem pensar. Sou ranzinza demais pra aturar os comentários dos outros durante as partidas e provavelmente verei os jogos sozinho no meu sofá.

Mas vou torcer como um louco. E com a certeza de que não passo nem mesmo perto de uma mãe Dinah, rezar para queimar a língua.

Vai ter copa! Só não sei por quê não começa logo…

Clube dos 8

Benzema comemora seu gol (em impedimento) contra a Ucrânia / Foto: ReutersEu realmente entendo e até concordo que o tal ranking da Fifa tem que existir para algo prático. Mas há coisas e há coisas, será que me entendem?

Vejamos: existem oito seleções campeãs do mundo e a copa é dividida em oito grupos. As oito estão classificadas para o torneio. Então, como é que pode alguém levemente lúcido não colocar as oito campeãs como as oito cabeças de chave?

Pois é, teremos Suiça, Colômbia e Bélgica. Com todo o respeito que todos e qualquer um merecem, como disse lá em cima, há coisas e há coisas.

O tal ranking poderia ser usado da seguinte maneira: todos os campeões classificados serão cabeças de chave. Se um ou mais não estiver, a indicação das vagas restantes se dará pelo ranking. Simples assim.

E quando o país sede não for um dos campeões? Simples: o ranking indicará os cabeças de chave, primeiro entre os campeões; depois entre os demais classificados.

E pronto.

Desta forma seriam respeitados o ranking e a História, ora bolas.

Mas se é possível complicar, pra quê simplificar? Se respeitar a história não tem graça, por quê não inventar? Uma salva de palmas para Fifa.

P.S.: E não é que a França se classificou, de novo, com um gol roubado?

Ouviram do Maraca as margens plácidas

Todos os anos, entre os meses de junho e julho, são lembradas as efemérides relacionadas às participações brasileiras em Copas do Mundo. Em ano de disputa do torneio, então, não passa uma. Afinal, a única seleção do mundo que participou de todas as edições acumula grandes vitórias e derrotas. Hoje, por exemplo, faz 60 anos que perdemos para o Uruguai no Maracanã. E se Nélson Rodrigues disse que perdemos o complexo de vira-latas com a vitória de 58, Roberto Vieira arrisca dizer o Brasil nasceu, de verdade, após o gol de Ghiggia.

16 de julho de 1950: o nascimento de uma nação

Mentem os livros de história.
Como sempre.
O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.
O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.
O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.
Às margens do Rio Maracanã.
O Brasil que se imaginava rico e febril.
O Brasil que sonhva com vitórias nos campos de batalha.
O Brasil que se vestia de branco e azul.
Morreu.
Pelas chuteiras que apedrejam.
Morreu às cinco da tarde em um chute de Alcides.
O alferes Barbosa no chão.
Corpo e alma dilacerados e inconfidentes.
Sem Bastilhas.
Porém, com a cabeça do prefeito guilhotinada.
Transformada em bola de pelada pela turba igualitária.
O Brasil sonhado por poetas de quinta categoria.
Por políticos de plantão em São Januário.
Por técnicos que se elegeriam nas Touradas de Madri.
O Brasil já não existia.
Outro Brasil nascia.
Verde e amarelo.
Um Brasil de inesquecíveis vitórias e derrotas.
Um Brasil, entretanto, com a memória do luto.
A memória Rodrigueana de Hiroshima.
Um Brasil que reconheceu a vergonha da lona.
Muitos caluniaram este Brasil.
Seria uma terra de covardes.
Mulatos e sifilíticos craques sem pedigree.
Cachorros vira-latas.
Melhor seriam os ingleses.
Muito melhor os alemães.
Insuperáveis os norte-americanos que curtiam baseball.
Mal sabiam os sábios.
O Brasil não era Pedro I nem Pedro II.
O Brasil não era 1808.
O Brasil não era a elite do café com leite e açúcar.
O Brasil era a mão calejada das arquibancadas.
Do sonho desfeito numa tarde de domingo.
O Brasil era a lágrima do 16 de julho de 1950.
Reerguendo-se na segunda-feira silenciosa.
Mentem os livros de história.
Como sempre.
O Brasil não nasceu com Pedro Álvares Cabral.
O Brasil não nasceu às margens do Riacho Ipiranga.
O Brasil nasceu no dia 16 de julho de 1950.
Às margens do Rio Maracanã.

Roberto Vieira
fonte: Blog do Juca Kfouri

Abstinência

Já estamos há mais de 24 horas sem Copa. E a síndrome de abstinência é grave. Mas vai passar, claro. Depois de amanhã, a bola já volta a rolar no campeonato mais importante da Terra Brasilis.

Já faz mais de 24 horas que a Espanha se tornou a oitava campeã do mundo e é impressionante como não consegui ler nada muito diferente em todas as colunas e blogs que visitei: o título da Fúria é a redenção do futebol. Hummmm…

É inegável que o combinado Barcelona/resto da Espanha jogou o futebol mais bonito do torneio, mas aprendi a não gostar de unanimidades, nem de exageros. Então, vou partes.

Esta foi a copa de melhor nível técnico em várias edições. Arriscaria dizer que desde 86. Mas para aceitar isso, é preciso entender que, se é difícil reunir 24 boas seleções, 32 participantes é dose. Ou seja, a Copa mesmo só começa na segunda fase. E mesmo assim, dependendo dos cruzamentos, corremos o risco de assistir partidas como Paraguai e Japão. E esta foi a Copa com mais bons times, com confrontos mais equilibrados, nas fases decisivas.

Entre todos os bons times que chegaram às quartas de final, a Holanda foi a mais eficiente, mesmo sem jogar um futebol da mesma qualidade de espanhóis, alemães e argentinos, que se mataram na outra chave. Mesmo assim, não foi fácil passar por brasileiros e uruguaios. E pela excelente campanha desde as eliminatórias, sua atuação na final foi, mais que uma decepção, uma vergonha.

Enquanto isso, La Roja tocava, tocava, tocava e ganhava de 1 a 0. E seguia adiante. Meu problema com os novos campeões é a sua incapacidade de transformar o capricho, a técnica e o domínio que impõem aos adversários em gols. É claro que não espero que qualquer grande time vença todos os jogos – ninguém é imbatível, afinal -, muito menos por goleada. Vale dizer que a melhor partida dos campeões foi contra a Alemanha, que não conseguiu andar em campo, totalmente dominada. Mas tudo o que é demais, nesse caso, de menos, cansa.

O que a Espanha faz, com excelência, é praticar o que muitos outros grandes times fazem ou fizeram ao longo da história do futebol. Mantém a posse de bola e a fazem rodar, cansando adversários em busca de uma brecha para penetrar e decidir partidas. Só que, ao contrario de Parreira e – parece – Del Bosque, Xavi e toda sua trupe, não acredito que o gol seja apenas um detalhe.

A Espanha é, com justiça, a campeã mundial. Dos onze, apenas três pontos fracos: a lateral esquerda e a dupla de ataque.

Então, não. E até porque não foi a única a praticar um bom futebol, a Espanha não é – definitivamente – a redenção do futebol. Mas certamente pode ajudar dirigentes, técnicos e torcedores míopes ou cegos a entender que a discussão futebol bonito X futebol de resultados não faz sentido. Porque os espanhóis jogaram lindamente e venceram. Só faltaram os gols, muitos gols.

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Sobre a partida de ontem, em muitos momentos deu-se a impressão que as duas seleções não estavam preparadas para vencer. Alguns gols perdidos pelos dois times, especialmente Villa e Robben, foram absurdos. No Twitter e no Facebook, cheguei a perguntar se – em caso de decisão por pênaltis – alguém conseguiria mandar a bola para as redes. Sobre a atuação do careca inglês, prefiro não fazer comentários. Mas se fosse sério, a Holanda terminaria a partida com menos dois ou três jogadores.

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Que jogaço de despedida fizeram Alemanha e Uruguai e que pena a bola na trave de Forlan no último segundo. Seria excelente esticar a partida por mais 30 minutos.

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Forlan como o melhor da Copa é mais do que justo. Carregou o time nas costas e, sem ele, a Celeste não iria tão longe.

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Grandes jogos, grandes times, dramas, polêmicas… O que mais se pode esperar de uma Copa? Que 2014 chegue logo.

Jogos 63 e 64: e o macaco?

Virou zona. A primeira Copa do Mundo realizada no continente africano conseguiu coisas estranhas. A musa do torneio estava em outro continente, a bola que deveria ser a estrela foi ofendida e maltratada por quase todo mundo que não é patrocinado pela fabricante, e o mundo animal roubou a cena.

Primeiro foi o polvo Paul. O cefalópode inglês que ilustra o cabeçalho deste blog há alguns dias e vive desde criança em um aquário alemão se transformou em oráculo. A febre é séria e, depois do animal acertar todos os resultados dos jogos do time germânico, já tem gente querendo consultar o bicho para resolver guerras, divórcios e eleições.

O curioso é que, tentando pegar carona do profeta original, já surgiram outros animais videntes ao redor do mundo. Primeiro foi outro polvo, o turco Maradona, que concordou com Paul. Depois, o periquito Mani de Cingapura resolveu desafiar os dois e apostou na Holanda. E agora, acabo de ligar o computador e descubro que o crocodilo australiano Harry e o bebê panda tailandês Lin Ping fizeram suas apostas. Todos indicaram a Espanha como nova campeã mundial.

Pois na contramão da fauna planetária, caso com Mani e acho que a Holanda desbanca o favoritismo espanhol. E para o terceiro lugar, muito mais torcida que palpite, o Uruguai.

E a copa que foi muito boa, com polêmicas, drama e fanfarra espalhados por vários bons jogos vai chegando ao fim com suas partidas decisivas quase em segundo plano. E eu que sou do tempo em que a pergunta “e o macaco, tá certo?” era só uma piada, já comecei a treinar Adriça e Joana para palpitar em 2014. Vai que esse negócio dá um dinheiro…

Final européia

Então vocês já sabem né. Na próxima copa, quem quiser ganhar bolão, basta passar por aqui e apostar contra os meus palpites. E suas chances serão enormes.

Falando quase sério, fiquei chateado mesmo com a derrota do Uruguai. Ok, é verdade que ninguém imaginava que uma seleção classificada na repescagem chegaria à semi-final. Mas chegaram e com grandes pitadas de drama nas quartas de final contra Gana. Mas o atacante que virou herói na última partida fez falta hoje. Como Lugano, machucado. E mesmo assim o time teve chance de vencer.

A outra coisa que o Uruguai fez, além de dar orgulho aos seus torcedores pela luta incansável até o último segundo, foi mostrar que a Holanda – definitivamente – não é essa coca-cola toda. Pode até ser campeã do mundo, uma das graças do futebol é essa falta de lógica que permite um time pior vencer o melhor.

É claro que a laranja, que dessa vez não tem nada de mecânica, mereceu chegar à final. Venceu todas as suas partidas sem qualquer lance duvidoso. Não deu show, mas foi eficiente. E tem bons jogadores sim. Será sua terceira final e lutará contra a pecha de ser o Vasco da Copa do Mundo.

Ao Uruguai, resta a esperança de que o brilho desta seleção seja capaz de incentivar o renascimento de seu futebol e o refortalecimento (essa palavra existe?) de seus grandes clubes.

E na copa que um dia ameaçou se transformar em Copa América, veremos uma final européia. Resta saber se um jogo com jeito de revanche contra a Alemanha ou se já chegaremos ao domingo sabendo que teremos um novo campeão mundial, na disputa contra a Espanha.

Jogos 61 e 62: aprenda a falar espanhol

Apesar de ter eliminado o Brasil, continuo não vendo nada demais na Holanda, concordo com o André Rizek. Não, não sou cego e não acho que o Brasil perdeu para ele mesmo. Apesar das chances de matar aquele jogo no primeiro tempo, é preciso reconhecer que o time laranja foi, na pior das hipóteses, mais inteligente e equilibrado. Mas não sei não, acho que a Celeste – apesar de vários desfalques – leva essa. E discordo de quem diz que seria uma zebra.

Zebra ou surpresa foi ver o Uruguai chegar à semi-final. Agora que está entre os quatro, pode acontecer qualquer coisa. Pode passar pela Holanda e ser vice ou campeão. Ou pode perder hoje. A questão é que nesse estágio da competição, definidas em jogos únicos, os detalhes decidirão. E se Holanda chega com moral por ter eliminado um dos favoritos, nossos vizinhos sobreviveram a uma grande epopéia. Talvez, esse sentimento de superação de tudo e todos seja a grande poção mágica que essa aldeia gaulesa dos pampas precise para seguir adiante.

Na outra semi-final, temos o time da moda contra os amarelões. É inegável que a Alemanha está jogando muito, o time encaixou, e as vitórias sobre Inglaterra e Argentina foram cheias de autoridade. Em compensação, a Espanha que chegou como uma das grandes favoritas e está na fase decisiva, ainda não fez um grande jogo, não deu uma grande exibição.

Pois saibam que estou apostando nos ibéricos. O toque de bola espanhol, além de lindo para quem gosta de futebol de verdade, é capaz de enervar o adversário. Nesse caso, a Alemanha e sua turma de garotos que talvez não estejam prontos para serem campeões. Outro detalhe é que, mesmo que comecem perdendo, a Espanha não vai partir pra cima de qualquer maneira, mesmo que falte apenas um minuto para terminar a partida, o que inibe a principal arma germânica, o contra-ataque. Digo mais, taí um jogo com cara de decisão por pênaltis.

E no fim, acredito em uma final entre Uruguai e Espanha. Será?

Adiós muchachos compañeiros de mi vida, me toca hoy emprender la retirada

Não mandei e-mails de atualizações do blog durante a copa, como tenho o hábito de fazer ao menos uma vez por semana. Afinal, com o tom quase monocórdico, seria muita aporrinhação por quase nada, e os amigos não merecem isso. Mas quem passou por aqui durante esse período, viu que adoro dar palpites, fiz isso para todos os jogos até agora, e não acertei quase nenhum. Uma das exceções foi a partida entre Argentina e Alemanha.

Na verdade, apesar de improvável para a maioria (inclusive vários amigos com quem disputo um bolão), uma goleada alemã hoje era bem previsível. Acertar o placar foi sorte, claro. Mas a defesa hermana é muito fraca e bastaria aos tricampeões sair na frente e cozinhar o jogo até encaixar meia dúzia de três ou quatro contra-ataques, como fizeram com no segundo tempo contra os ingleses. Para um time muito bem armado, com vários excelentes jogadores, alguns projetos de craques e um matador, um prato cheio.

Comentei ontem com amigos que torceria pela Argentina, pelo Pibe, mas achava difícil. Bingo!

No segundo jogo do dia, que assisti entre um DVD do Cocoricó, atualizações por celular e algumas cenas em telas espalhadas por shoppings, até encontrar a reprise completa, achava que a única chance do Paraguai era segurar o 0 a 0 até a disputa por pênaltis. Me enganei. O time da Espanha é excelente,talvez tenha o melhor meio campo do mundo, tem um toque de bola que hoje é inigualável, lindo de se ver. Mas apesar do Jefferson discordar de mim, mostrou mais uma vez que não tem poder de decisão.

Dos seis gols da Fúria, cinco foram de Villa. E o de hoje foi mais que chorado. Seu meio campo plástico e habilidoso vai bater de frente com um técnico e objetivo. A Alemanha chega como favorita, o que não quer dizer que na reedição da final da Eurocopa a Espanha não possa vencer de novo. Só ficou pouco provável.

Nossos vizinhos foram valentes e, quem poderia esperar, tiveram o jogo nas mãos. Mas desperdiçaram sua chance, provando que para vencer, há que se estar preparado para saber vencer. Como Gana, o Paraguai mostrou que não está pronto pra isso. Foi difícil, sofrido, mas o time guarani foi embora, o mundo não verá Larissa Riquelme nua (pelo menos por enquanto), e o torneio que estava com a cara do Mercosul se transformou numa Eurocopa com um intruso.

Mais do que nunca, o Uruguai é como aquela aldeia gaulesa cercada por romanos por todos os lados. Haja poção mágica.

Por Tutatis!

Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum…

Para quem não conhece (existe alguém que não conhece Asterix?), Asterix é uma série de quadrinhos criada pelos franceses Albert Uderzo e René Goscinny que contam a história de uma pequena aldeia ao norte da Gália que, com a ajuda de uma poção mágica, resiste ao domínio do Império Romano.

É mais ou menos assim que vejo o Uruguai. Um país pequenino, quase uma vila, de população pequena e relativamente idosa, que tem orgulho de seus pampas e seus carros antigos, que vive em um ritmo muito mais lento, desafiando o que sugere (e exige) a aldeia global.

No futebol, não é muito diferente. Times que nos metiam medo até 15 ou 20 anos atrás, como Peñarol e Nacional, já não têm mais força. Sua última seleção razoável jogou na década de 80, comandada por Francescoli, e não fez muito barulho. Semifinal de Copa, a última foi há 40 anos e derrotada por um Brasil de Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino, Jairzinho e companhia limitada.

Mas o Uruguai, quem diria, último país a se classificar para a Copa da África do Sul, está nas semifinais. E num roteiro digno das maiores epopéias, mas sem a graça das surras que Asterix e Obelix aplicavam nos romanos, a celeste eliminou a última representante africana.

O atacante Suárez, sem druidas ou poções mágicas (mas com as mãos de Deus, como brincou), já é o protagonista do grande momento desta Copa, ao salvar um gol de gana em cima da linha, com as mãos, aos 15 minutos do segundo tempo da prorrogação.

E essa pequena aldeia gaulesa ao sul do Brasil, um time do qual nada mais se espera, vai enfrentar nossa algoz. O herói de hoje, expulso, não joga. Torço para que do resto do time, pelo menos um tenha caído, quando criança e por acidente, dentro do caldeirão. Avante Celeste!