A intrusa (parte 2)

Volto a falar de Amy Whinehouse. Como já disse no post anterior, gosto de suas canções, mas acredito que a santidade que sucede todas as mortes acabou provocando alguns exageros, como a tentativa de igualá-la às grandes divas do jazz, soul e blues.

É isso mesmo que você está lendo. Se não viu nada a respeito por aí, me surpreendo. Mas muita gente colocou a inglesa no patamar figuras como Etta James, Ella Fitzgerald e Billie Holiday, entre outras. Me pergunto se essas pessoas realmente pensaram a respeito e entenderam as razões das três citadas apenas como exemplo serem consideradas divas.

Amy tinha uma bela voz, que não durou mais do que cinco anos graças aos seus abusos com drogas e álcool, produziu pouco e, mesmo nos shows em que estava sóbria, não conseguia manter a qualidade durante toda a apresentação, seja com a rouquidão precipitada ou mesmo desafinos em canções de fraseados um pouco mais rebuscados.

Aliás, esse é outro detalhe: Amy não se mostrou capaz de grandes vocalizações, mesmo em estúdio. O que quero dizer é que as canções de Amy eram muito legais, seus discos são bons, sua voz muito interessante, mas ela não teve quantidade nem qualidade para ser comparada às verdadeiras divas do jazz, soul e blues. E mesmo no rock, se comparada a Janis Joplin – que passou por processo de autodestruição semelhante – no último ano de carreira, já definitivamente rouca, mas ainda capaz de criar e executar fraseados complexos e originais.

Prestem atenção nessa lista: Aretha Franklin, Billie Holiday, Carmen McRae, Cleo Laine, Dinah Washington, Dorothy Dandridge, Dusty Springfield, Ella Fitzgerald, Erma Franklin, Etta James, Eva Cassidy, Helen Merrill, Nina Simone, Peggy Lee, Sarah Vaughan, Shirley Bassey e Shirley Horn.

Onde e quando e como Amy Whinehouse pode se encaixar nela, levando-se em conta a capacidade e extensão vocal, quantidade de produção, perenidade da obra, influências no seu e em outros estilos?

Talvez seja difícil, principalmente pra turma que já nasceu na era do CD, ouvir e perceber as nuances de gravações que foram feitas, muitas delas, em 78rpm. É o caso de Billie Holiday. Ou, ainda, descobrir quem foi Dorothy Dandridge e que ela fez mais sucesso cantando no cinema do que em álbuns e casas de shows. E Dusty Springfield, que nos 60 e 70, passeou pelo folk e rock.

Então seria interessante que, ao menos pela curiosidade, essas gravações fossem ouvidas (e sim, boa parte delas está disponível) sem preconceitos. Pois sem essa disposição, fica impossível entender a importância de muitas dessas figuras e, pior ainda, imaginar do que seriam capazes de fazer com os recursos de hoje em dia.

O que tento mostrar é que vale a pena pesquisar um pouquinho antes de aceitar qualquer coisa que qualquer um diz. Se tiver curiosidade, clique aqui para ouvir uma seleção com pelo menos uma canção de cada uma das moças listadas.

Depois, tentem descobrir quem faria parte dessa lista e não está lá. Como a menos cotada Chonita Turner, contemporâneas como Diana Krall, européias não britânicas como a alemã Ute Lemper ou Edith Piaf, e até brasileiras como Dona Ivone Lara. Ou você não sabia que o samba é primo do jazz?

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2 comentários em “A intrusa (parte 2)

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