A intrusa (parte 1)

É certo que, com a comoção pela morte de Amy Whinehouse, você ouviu ou viu ou leu alguma referência sobre o Clube dos 27. Se você chegou de Marte… É um grupo de estrelas do rock que morreram, coincidentemente, aos 27 anos. E estão tentando incluir a inglesa.

Antes que apareça alguma tiete enlouquecida por aqui (duvido que aconteça), aviso logo que gosto da moça e das canções da moça. Boas letras, bela voz. Mas me incomoda muito essa necessidade de mitificação expressa do nosso mundo extremamente midiático de hoje.

Apesar da coincidência da idade, eu simplesmente não a incluiria no clube por algumas razões simples: o que mais, além da idade, seria motivo pra isso? Vocês realmente acreditam que apenas cinco ou seis artistas pop morreram aos 27 anos? Quem faz parte da turma e qual o legado de cada um?

Robert Johnson

É o primeiro e o mais discutível membro do Clube. Tudo porque sua data de nascimento (1911) não tem comprovação (há documentos com datas que variam de (1909 a 1912). E a maneira como morreu, em 1938, também não é lá muito certa. Reza a lenda que bebeu uísque envenenado com estricnina servida pelo dono ciumento do bar em que tocava.

Outra lenda sobre Johnson diz ele fez um pacto com o diabo para garantir que tocasse bem e fosse reconhecido. Algumas de suas letras ajudam a propagar o pacto: Crossroads Blues, Me And The Devil Blues e Hellhound On My Trail.

Muita gente o aponta como o músico mais importante do século XX e se hoje você ouve e gosta de rock, a culpa é dele.

O cara gravou apenas 29 músicas na vida, algumas duas vezes. Pouco, mas mais do que o suficiente para construir – com seus riffs muito mais elaborados do que a média do blues nascido no delta do Mississipi e utilizando as notas mais graves do violão para modelar ritmos regulares – as bases harmônicas que deram origem ao, hoje, bom e velho rock ‘n roll.

Brian Jones

O cofundador dos Rolling Stones é o próximo da lista, morreu afogado em sua piscina menos de um mês depois de ser excluído da banda devido ao exagero no consumo de drogas e bebidas que provocavam suas ausências e mau desempenho em gravações e shows.

Multiinstrumentista e, no início, único da banda capaz de ler partituras, não era compositor muito profícuo (apenas sete canções na banda), mas capaz de fazer arranjos brilhantes. O estilo adotado pelo grupo é cai na sua conta. Além disso, gravou com os Beatles e compôs a trilha do filme A Degree Of Murder. Com a banda, gravou 12 álbuns.

Jimi Hendrix

Em tese, não deveria ser necessário apresentar o sujeito, mas vamos lá. O cara morreu em 1970, teoricamente (nunca foi confirmado) afogado em seu próprio vômito. O cenário teria sido o resultado de uma overdose de soporíferos misturados com vinho.

Como estamos falando de legado… O cara gravou apenas três álbuns e uma pequena série de compactos. Mas deixou mais de 300 gravações inéditas. Além disso, basta procurar pela web que é fácil encontrar centenas de filmes com suas performances. O cara simplesmente mudou o conceito ‘tocar guitarra’, transformou a Fender Stratocaster (braços estreitos e alavanca de trêmolo) e o amplificador Marshall (único, na época, a agüentar o peso de sua música) em lendas do rock e foi o primeiro a controlar a microfonia a ponto de transformá-la em parte das músicas.

Uma de suas passagens marcantes, além do hino estadunidense em Woodstock, foi abrir um show em Nova Iorque com Sgt. Peppers, no dia seguinte de seu lançamento em Londres pelos quatro de Liverpool. É fácil reparar que apenas 24 horas depois, a canção já tinha outra cara e um solo absurdo.

Janis Joplin

O que falar de uma cantora que solta a seguinte pérola?

Posso não durar tanto quanto as outras cantoras, mas sei que posso destruir-me agora se me preocupar demais com o amanhã.

O final, anunciado como se vê, foi alguns meses depois de Hendrix, com uma overdose de heroína. Sua voz pouco marcante, como sabemos, lhe rendeu algumas alcunhas como ‘a rainha do rock n’ roll’ e ‘a maior cantora de rock dos anos 60’, fase áurea do estilo.

Começou a carreira como crooner da Big Brother & the Holding Company. Depois, montou suas próprias bandas e seguiu carreira solo. E transformou algumas canções em clássicos do rock, como Cry Baby, Mercedes Benz e Piece Of My Heart. Sua última gravação foi Happy Trails, uma brincadeira como presente de aniversário para John Lennon.

Apesar do princípio transgressor, o rock sempre foi um tanto conservador (se é que é possível). E foi Janis quem quebrou a barreira de mostrar que é possível ter uma mulher como grande estrela.

Jim Morrison

Morreu na banheira, em seu apartamento de Paris, em julho de 1971, graças a uma overdose nunca comprovada.

Esse é provavelmente o menos influente personagem do Clube. Vocalista e fundador do The Doors, ainda foi poeta e cineasta. Com a banda, gravou seis álbuns e produziu alguns clássicos como Light my fire, Roadhouse blues e Hello, I Love you.

Kurt Cobain

Se tentar observar toda a situação do ponto de vista de que o rock exige uma postura transgressora, fica fácil entender porque o sujeito que deu um tiro na cabeça em 1994 é considerado “a última estrela verdadeira do rock”.

O Nirvana existiu entre 1987 e 1994, período em que lançou três álbuns: Bleach (1989), Never Mind (1991) e In Utero (1993). Além da própria banda e da voz de Kurt, nenhum deles têm semelhanças estruturais elementares, tanto no estilo de composição quando na execução das canções. Mas a herança real do Nirvana, além dos discursos e atitudes anti-sexista do líder, foi ter dado ao rock alternativo, começando pelo movimento grunge de Seatle, o acesso ao mainstream.

O motor dessa mudança de cenário foi o álbum Never Mind, de faixas como Smells Like Teen Sirit e Come As You Are. Se é verdade que o álbum Ten, do Pearl Jam, do mesmo ano, também contribuiu na consolidação do estilo, é inegável que foi a partir do Nirvana, e de Kurt Cobain, que o rock alternativo passou a ser parte muito relevante da indústria.

Amy Whinehouse

E voltamos a ela. Dois álbuns. Frank (2003) não tem uma linha criativa, é apenas um apanhado de boas canções. E o grande sucesso Back to Black (2006). Se sua excelente voz e musicalidade devem favor a alguém, o cara é Mark Ronson. Foi ele quem desenhou o disco, definiu sua estrutura e apresentou a cantora à banda The Dap-Kings, conhecidos por fazer hoje o som dos anos 60 e 70.

E o legado, sua herança para a história da música? Um punhado de boas canções confessionais? Sinceramente, me parece pouco.

Anúncios

2 comentários em “A intrusa (parte 1)

  1. Concordo integralmente. Por mais talento que a moça tenha, dois discos jamais vão credenciá-la a entrar no mesmo rol de Aretha Franklin e Billie Holiday, como já ouvi alguns idiotas falando…

    Curtir

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s