Beócios

Daqui a uma hora começa o segundo turno do Brasileirão e, de repente, me bateu uma dúvida.

A CBF teve uma idéia brilhante para tentar evitar acusações de que time A entregou o jogo para o time B só para evitar que seu adversário regional não seja campeão. Marcou clássicos para a última rodada. Em tese, a rivalidade evitaria tais artimanhas. Ok, há gente que gostou da idéia, há os que não gostaram. Sinceramente, não acho que seja relevante.

Agora, baseado na classificação ao final do primeiro turno, imaginem a seguinte situação: Flamengo, Vasco e Botafogo chegam à última partida disputando o título e os confrontos são os seguintes: Vasco X Flamengo, Botafogo X Fluminense.

Levando-se em conta que todos os jogos das últimas rodadas devem ser realizados no mesmo dia e horário, o que aconteceria no Rio de Janeiro? Quem jogará no Engenhão? O estádio, afinal, é do Botafogo, que tem mando de campo. Vasco X Flamengo seria em São Januário? Nesse caso, alguém acredita que uma decisão de campeonato entre os dois cabe no estádio da colina? O Flamengo é obrigado a aceitar jogar no campo do Vasco?

E se o clássico dos milhões for marcado para o Engenhão? O vovô será em São Januário? O Botafogo é obrigado a abrir mão de seu estádio, com mando de campo, na hora de decidir um campeonato?

O que farão os beócios da CBF responsáveis por tão brilhante idéia? E os clubes, que aceitam tudo o que a fabulosa confederação manda?

Ou será que as teorias da conspiração são reais e não há a menor chance de um clube carioca vencer o principal campeonato do Brasil por três anos seguidos?

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Três pontos

No final das contas, não é isso o que é importante? Depende do que você espera. Se quer ser campeão, e só isso, ótimo. Se gosta de futebol, se quer ver bons jogos e seu time jogando bem…

Independente da expectativa de quem torce, no entanto, é claro que ninguém joga bem o tempo todo, todos os jogos. E o fato é que, ontem, o Flamengo ganhou jogando mal.

Pode até parecer bobagem, mas o fato de um time ganhar até quando joga mal é algo muito importante quando se mede as chances de conquistar o título. O Flamengo, por exemplo, ainda não jogou bem de verdade neste campeonato. Por enquanto, na minha escala de valores, tivemos ‘mal’, ‘muito mal’ e ‘mais ou menos’.

Eu já cansei de dizer que não vejo mais do que dois ou três times capazes de disputar o título com o Flamengo (o que está longe de dizer que vamos ganhar fácil). Imagina quando começarmos a jogar bem.

A próxima partida será em São Paulo, contra o Palmeiras. O início de uma pequena maratona de 15 ou 16 jogos do Brasileirão e da Sulamericana. E um jogo de risco, pois há várias coisas envolvidas no duelo. A começar pelo atacante Kleber, pois os caras serão incendiados por Felipão e diretores e torcedores graças ao assédio rubro-negro.

Outro detalhe é o momento. Os caras estão ali por cima da tabela, o time não é tão ruim e o Flamengo vem de quatro vitórias seguidas e está invicto. O óbvio é que, cedo ou tarde, vamos perder um jogo. Além disso, quanto mais tempo invicto, mais perto estamos do tropeço. E ainda tem o possível excesso de confiança provocado pela boa fase.

Como não há moleques usando o manto, acho que tiram tudo isso de letra e trazem os famosos e queridos três pontos.

Kleber

Besteira essa novela. Todo mundo cansado de saber que precisamos de atacante, mas não acho que o sujeito seja uma boa opção. Além de muito caro, tem um histórico conturbado. Mesmo sabendo que o mercado não dá muitas opções e mesmo que estivesse nadando em dinheiro, não contrataria o Gladiador que é sinônimo de confusão.

Piada

Apesar de muita gente, técnico e jogadores do Fluminense, terem cansado de falar que o juiz não foi determinante para o resultado de ontem, ainda tem um monte de bobo chorando por aí. Feliz ou infelizmente, lances polêmicos existem em todos as partidas e ontem não foi diferente. Um cartão a mais aqui, uma falta invertida ali, e sempre será assim. Os caras tiveram trocentas chances de ganhar (e até golear), mas foram incompetentes e não saíram do zero. Achei que já tínhamos superado a época do chororô.

Branca de Neve

Nem a moça que comeu a maçã envenenada foi tão boa com os sete anões como a defesa do Fluminense no lance que definiu a partida. Tomar gol do Williams? Tomar gol de cabeça do Williams? E pensar que um dia eu reclamei de David e Wellington…

Scout neutro

Ok, o cara marcou o gol da vitória, é guerreiro, corre pra caramba, mas o profexô precisa dar uma atenção ao menino Williams. Ontem ele foi absolutamente perfeito: roubou oito bolas e deu oito passes errados. Que tal?

Contagem

Só faltam 29 jogos para o hepta.

O que passou e o que virá

De férias que estava, tentei não prestar atenção em nada que me lembrasse a rotina durante os últimos vinte e poucos dias. E entre as coisas a que não dei muita atenção estava a Fórmula 1. Principalmente, depois da desenxabida corrida de Interlagos. Como a decisão do campeonato ficou para o horroroso circuito de Abu Dhabi, em um dia em eu estaria velejando, larguei de mão.

Mas as férias acabaram e acabei lembrando que não publiquei sequer uma linha sobre a bagaça. E procurando algo interessante, passei pelo excelente Bandeira Verde.  Entre tudo o que li a respeito, não vi análise melhor.

Quem era o certo?

Ganhou o piloto errado. Mas quem era o piloto certo?

Vamos com calma, vamos com calma. Apesar de desejar muito, não sou o dono da verdade. Muitos realmente gostaram de ver o jovem Sebastian Vettel, da Red Bull, levando o caneco para a casa. Afinal de contas, aparentemente, quem mais mereceu foi ele. Dez poles em 19 fins de semana, cinco vitórias, mais voltas na liderança do que qualquer outro piloto e a impressão de que poderia ter feito mais se não tivesse tido tantos azares. Esta é a imagem que o alemão construiu e consolidou após a árida corrida de Abu Dhabi. O que diabos, portanto, esse esquizofrênico que escreve neste espaço está sugerindo?

Vamos ser honestos. A temporada 2010 foi uma daquelas em que o nível técnico geral não foi dos mais altos. Os pilotos erraram demais, ou simplesmente não conseguiram manter a consistência durante o ano. E quando a culpa não era deles, era do carro, que não conseguia se comportar bem em três corridas consecutivas ou simplesmente quebrava por aí. Tudo isso pode até parecer um enorme exagero, ainda mais considerando que a categoria já teve anos muito piores nesse sentido (1982 manda abraços), mas estamos falando de uma Fórmula 1 que diz ser extremamente profissionalizada e reunir os melhores pilotos e engenheiros do universo.

E o baixo nível técnico ficou refletido em alguns números. É realmente curioso ver que, em uma longa temporada de 19 corridas, o campeão tenha vencido em apenas cinco ocasiões. Cinco vitórias, por sinal, são, também, o que o vice-campeão conseguiu. Em 2008, Lewis Hamilton foi o campeão com as mesmas cinco vitórias. No entanto, Felipe Massa conseguiu seis, e só perdeu o título nos últimos instantes da temporada. Que, todos concordam, foi de baixíssimo nível técnico, repleta de erros e problemas que saíam literalmente das pistas. Além do mais, havia uma corrida a menos. Não estou pregando um domínio à la Mansell em 1992 ou Schumacher em 2002 e 2004, mas é igualmente chato ver um piloto ganhar um título sem convencer totalmente.

Após a vitória, Sebastian Vettel se transformou no melhor piloto do ano com folgas, jovem, genial, cool e cheio de atitude. É hora de celebrar com muita vodca misturada com o maldito energético azul e cinza. Os anais da história registrarão apenas o “SEBASTIAN VETTEL 2010 WORLD CHAMPION” ou o “YOUNGEST WORLD CHAMPION EVER”. Seus pecados foram definitivamente perdoados. E eles são muitos.

Primeiramente, desconsideremos os azares. Vettel perdeu três vitórias certas em Sakhir (motor falhou no final, deixando-o em quarto), em Melbourne (freios) e em Yeongam (motor estourado). Fazendo algumas contas, são 63 pontos que o RB6 tratou de jogar no lixo. Até aí, tudo bem. Mas e o quase acidente com Hamilton nos pits em Shanghai? E o acidente estúpido após uma frustrada tentativa de ultrapassagem sobre Webber em Istambul? E a escapada que quase lhe tirou a vitória em Valência? E a tentativa quase suicida de conter Webber na largada em Silverstone, o que acabou lhe causando um pneu furado? E a repetição do feito sobre Alonso em Hockenheim, que lhe custou duas posições? E a ridícula atitude de acelerar mais do que o necessário na relargada da corrida de Hungaroring, que lhe rendeu uma punição que custou a vitória? E o acidente grosseiro com Button em Spa-Francorchamps? E o erro que lhe custou a pole-position, e possivelmente a vitória, em Marina Bay? São erros demais para um piloto que, pelos pontos, foi coroado o melhor o ano.

O problema maior é que, da mesma maneira, nenhum dos seus três adversários mais diretos poderia ser considerado, convictamente, o melhor do ano.

Fernando Alonso? Herdou as vitórias de Vettel em Sakhir e em Yeongam e de Massa em Hockenheim (nesse caso, herdar é eufemismo) e foi dominante apenas em Monza e em Marina Bay. Nesta última, como dito acima, o erro de Vettel no treino oficial facilitou absurdamente as coisas. Nos outros fins de semana, uma inconstância assustadora. Teve problemas com sua igualmente irregular Ferrari F10 em Sepang e um deprimente lance de falta de sorte em Valência, quando foi obrigado a andar uma volta lenta atrás do safety-car enquanto todos iam para os pits. E errou em um bocado de ocasiões. Em Melbourne, causou uma bagunça na primeira curva e despencou para o fim do grid. Em Shanghai, queimou a largada. Em Mônaco, bateu em um dos treinos livres e ficou sem carro para conseguir escapar da última posição do grid. Em Silverstone, cortou uma chicane ao tentar ultrapassar Kubica e foi punido. Em Spa-Francorchamps, bateu sozinho. Cagadas demais para a conta do “fodón de las Astúrias”.

E é evidente que a Ferrari também tem sua parcela de culpa. Em Spa-Francorchamps, a equipe privou Alonso de usar pneus bons no Q1 e acabou o deixando em último no grid. Em Abu Dhabi, o espanhol foi chamado para parar na hora errada. Em Shanghai, a estratégia também falhou. E também não foram poucas as ocasiões em que o carro não rendeu porcaria nenhuma, como em Barcelona, Istambul e Interlagos. Foram em corridas assim, aliás, que Fernando apareceu melhor. Mas não dá pra dizer que ele ou a Ferrari tenham merecido qualquer coisa. Não mereceram, mesmo.

Mark Webber? Ah, a Cinderela da Red Bull. Todos nós estávamos torcendo pela redenção do coadjuvante contra sua própria equipe e seu pupilo teutônico. Queríamos ver Webber derrotando aqueles que, em tese, deveriam apoiá-lo mas que injustamente não o faziam. Seria algo como um revival de Nelson Piquet na Williams. Mas nós só nos esquecemos de um fato: Mark Webber não é um gênio, muito pelo contrário. É um ótimo piloto, experiente e de forte estrutura mental, mas muito pior do que todos gostariam.

Webber venceu em quatro ocasiões: Barcelona, Mônaco, Silverstone e Hungaroring. Aproveitou-se do domínio da Red Bull nas duas primeiras, fez uma excelente largada em Silverstone e virou um fim de semana na raça ao voar no momento em que tinha pneus macios na corrida húngara. Houve também algumas outras boas corridas, como em Interlagos, em Suzuka, Marina Bay e Sepang. Mas e no restante do tempo? Erros e problemas.

Mark errou em Melbourne (acidentes com Hamilton), Valência (tentativa precipitadíssima de ultrapassagem sobre Kovalainen que resultou em um acidente monstruoso) e Yeongam (rodada na segunda volta em bandeira verde). Teve problemas de câmbio nos treinos em Montreal, foi escandalosamente atingido por Vettel em Istambul e simplesmente andou mal em várias ocasiões, como em Sakhir, em Shanghai e em Hockenheim.  Longe de ter sido um ano meia-boca, também não foi uma temporada de campeão.

Lewis Hamilton? Era o franco-atirador da história. Para levar o caneco, precisava ganhar até par ou ímpar e torcer para seus três adversários contraírem ebola. O piloto da McLaren levou três vitórias para casa: Istambul, Montreal e Spa-Francorchamps, só pista legal. Na Turquia, herdou a vitória após o acidente entre os Red Bull e teve personalidade em conter um Jenson Button agressivo. Em Montreal e em Spa-Francorchamps, liderou de ponta a ponta. Na verdade, até Spa, vinha sendo o melhor piloto do ano e talvez o único dos quarto que, ao meu ver, fazia uma temporada de campeão. Mas a partir de Monza…

Na Itália, Hamilton bateu em Felipe Massa ainda na primeira volta e abandonou. Em Marina Bay, tentou ultrapassar Webber, bateu em sua roda, quebrou o carro e abandonou de novo. Em Suzuka, bateu forte nos treinos livres e teve problemas com o câmbio na corrida. Em Yeongam, teve problemas de freios e chegou a escapar da pista. Por fim, não tinha um carro decente para as últimas duas etapas. Uma pena, ainda mais considerando que Hamilton foi o showman do início do ano, com grandes ultrapassagens e sensacionais corridas de recuperação. Mas cavalo bom é o que corre no final, diz o ditado. E se Vettel disparou no trecho final, vencendo três das quatro últimas, Hamilton se complicou todo no mesmo período. Por isso, e embora tenha sido o que mais me convenceu entre os quatro, também não dá pra considerar que o inglês teve um ano de campeão.

No fim das contas, nenhum dos quatro era o piloto certo para ganhar esse título. Seja por erros, por azares ou por momentos de incompetência pura de suas equipes, ninguém conseguiu passar a impressão de ter feito o ano absoluto. Ganhou o cara que tinha o melhor pacote. O que tinha o melhor carro e que compensou seus erros e problemas com mais vitórias e boas atuações do que os outros. Mas convenhamos, é muito pouco.

Se eu tivesse de dar o título para alguém, arrancaria das mãos de Vettel e entregaria a Robert Kubica.

Sobre o que aconteceu depois da decisão e o que pode acontecer em 2011, um pequeno resumo: Lotus Racing (1Malaysia e Air Ásia) e Lotus Cars (Proton) estão brigando pelo direito de usar a marca Lotus a partir do ano que vem. E o time que correu este ano deve acabar mesmo mudando de nome. Mesmo assim, usará motor Renault e conjunto hidráulico e câmbio da Red Bull. E Bruno Senna será um dos pilotos. Em compensação, a Lotus Cars comprou as ações da fábrica francesa e deverá aparecer no grid 2011 como Lotus Renault.

Saiu Bridgestone, já chegou a Pirelli. E os primeiros testes, última chance de colocar o carro na pista antes da pré-temporada oficial, foi bem satisfatório. Os pneus reagiram razoavelmente bem e as equipes se preocuparam mais em colher informações para seus novos projetos do que em alcançar grande desempenho. Só pra constar, a Ferrari – com Massa e Alonso – fizeram os melhores tempos dos dois dias de ensaios. Parece que o time de Maranello está bem feliz com a mudança, pelo menos por enquanto.

As grandes equipes seguirão com os mesmos pilotos deste ano. As indefinições, como era de se esperar, estão nas médias e pequenas. A Hispania nem sabe se vai correr mesmo. A Virgin foi vendida para a Marussia, uma fabricante russa de carros esportivos, e ainda não definiu seus pilotos. Glock e Di Grassi continuam? Sauber, Toro Rosso e Force India também ainda têm vagas abertas e a grande novidade estará na Willians. Barrichelo renovou e correrá sua 19ª temporada. E o venezuelano Pastor Maldonado será seu companheiro de equipe, carregando uma mala cheia de dinheiro da PDVSA (como antecipou a revista Warm Up).

E no ano em que o campeonato terá 20 corridas, Valência tenta quebrar o contrato e deixar de sediar o GP da Europa. Ecclestone disse que é impossível, mas quem gosta de carros, corridas e circuitos de verdade, já torce que tudo se acerte e que o porto espanhol seja substituído pelo novíssimo e excelente autódromo do Algarve, em Portugal.

No mais, férias da categoria e só volto aqui pra falar sobre o assunto quando alguma notícia realmente importante surgir.

Foi tudo arranjado

Fatos:

– O Flamengo teve a melhor campanha do 2º turno;

– O Flamengo teve a 2º melhor defesa do campeonato;

– O Flamengo teve o artilheiro do campeonato e o craque do campeonato: Adriano e Petkovic;

– O Flamengo tem apenas 1 derrota nas últimas 17 rodadas ( 12 vitórias, 4 empates e 1 derrota) e ficou invicto nas 6 últimas (5 vitórias e 1 empate);

– O Internacional perdeu de 4X0 no Maracanã com time misto para ajudar o Flamengo;

– O Atlético MG perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), diante de 65 mil torcedores, só para ajudar o Flamengo;

– O Santos perdeu em casa só pra dar o título para o Flamengo. Aliás, no jogo do Maracanã, o meia do Santos perdeu 2 pênaltis só para ajudar o Flamengo;

– Lúcio Flávio perdeu um pênalti só para ajudar o Flamengo;

– O Náutico perdeu em casa, aceitando assim ser rebaixado, só para ajudar o Flamengo;

– O Palmeiras, até então líder do campeonato, perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), só para ajudar o Flamengo. E Vagner Love ainda ajudou com a perda de um pênalti;

– O Corinthians que vinha de derrotas consecutivas para timaços como Náutico, Santo André e Avaí, só não ganhou do Flamengo para dar o título ao rubro-negro carioca;

– E, até (pasmem) o São Paulo Fashion Week perdeu para o Goiás de propósito, abrindo mão do tetra consecutivo, porque tinha em mente ajudar o Flamengo;

– Além disso, o São Paulo Fashion Week, nos dois jogos com o Flamengo empatou no Morumbi e perdeu no Maracanã;

– Para culminar esse hexa discutível, o Grêmio, time de pior campanha como visitante (12 derrotas e apenas 1 vitória em 19 jogos), contrapondo sua ótima* campanha no Olímpico, jogou com time misto, como o Internacional fez no Maracanã, para ajudar o Flamengo;

Concluímos, a partir dos dados supracitados, que o Estado do Rio Grande do Sul mancomunado com a CIA, o FBI, a ABIN, a ANVISA, a CBF, a FIFA, o STF, a NASA, o Obama e a Comunidade Européia conspiraram para dar o hexa ao Flamengo.

Quem não tem o que falar, fala o que quiser…

Rogério Delfino e Cristiano Alves

*correção feiata pela Ana Paula

Um mundo perfeito

Confirmando a tese do juiz Eliezer Rosa (publicada no post anterior), Sérgio Besserman – que além de rubro-negro e economista, é irmão do Bussunda – afirma categoricamente que, a partir das 19h do dia 6 de dezembro de 2009, o mundo caminhará definitiva e naturalmente em direção à salvação, à libertação de todos as suas mazelas.

O Mengão somos nós, nossa força, nossa voz

O Mengão é campeão! O Mengão é campeão e em Copenhague vamos vencer o aquecimento global, no Oriente Médio haverá paz, Ahmadinejad, Netaniahu e Eurico Miranda nunca mais, as favelas do Rio serão pacificadas, libertadas e admiradas, a corrupção no Brasil vai ter padrão norueguês, políticos só serão eleitos se tiverem duas ou três idéias na cabeça, tudo vai mudar e melhorar, porque o Mengão é campeão!

Sim, nós podemos! Nós, urubus, somos o vermelho e o preto, somos o impossível, somos o homo sapiens saindo da África, somos a alma libertária, o desejo de transcendência, o humano e em sua essência transgressora. O primeiro rubro-negro surge quando Deus diz a Abraão que vá, deixe sua terra, sua gente e parta em busca da Terra Prometida.

O Mengão é como a Enterprise de Jornada nas Estrelas, nós somos o espírito guerreiro dos Klingons, a lógica dos Vulcanos, a criatividade e curiosidade dos humanos, a paixão dos andorianos, nós somos a raça e a jovem, charanga e dragões, nós somos São Gonçalo e Leblon, somos morro e asfalto, somos a essência do ser.

A nação rubro-negra é a nação do futuro, sem território ou estado, mas real, duvide disso pra você ver. Vermelho e preto é Stendhal, é Toró, é o MPLA de Angola, a Frelimo de Moçambique nos tempos do anticolonialismo. Vermelho e preto é a alma libertária, é São Judas Tadeu, é EXU, feminino e masculino, que transforma tudo à sua volta e abre e fecha os caminhos, conforme for tratado. É Mengão e somos nós. Viva a Servia! Viva Vila Cruzeiro!

O hexa foi como em Verdun, Stalingrado, Kursk, Ho Chi Mim, o desembarque da Normandia ou mesmo um daqueles Flamengo e Atlético-MG da década de oitenta. Andrade é o nosso comandante Giap, nosso Sun Tsé, nosso Clausevitz. Andrade é o comandante que nos lembrou o tempo todo a sabedoria da Grécia antiga: “Aquele a quem os deuses querem perder, primeiro enlouquecem com o orgulho”. Salto alto nunca mais!

O povo unido, jamais será vencido! O Mengão somos nós, nossa força, nossa voz! Ricardo Teixeira, vai ser na peixeira! (entrega o diplominha burocrático do nosso glorioso hexa logo e deixa de conversa besta). Aliás, depois do hexa, nossa próxima Jihad é a Libertação das Américas, a verdadeira, não esse populismo bolivariano chavista que não leva nem à conquista de uma Série B.

A conquista do hexa assegura a viabilidade econômico financeira dos Jogos Olímpicos de 2016 e abre caminho para o desenvolvimento sustentável em todo o planeta Terra. E, acima de tudo gente, vocês notaram o milagre do Rio?

Nós, urubus, torcemos pelos bacalhaus na Série B e para que pó de arrozes e estrelados solitários escapassem da segundona. E estrelados solitários, pó de arrozes e bacalhaus, não que tenham torcido pelo hexa, claro que não, não é assim que a banda toca, mas, vocês viram galera? Não nos hostilizaram e andam sorrindo para a gente.

Paz no Maraca aos homens de boa vontade. Feliz Natal!

Sérgio Besserman (O Globo – 7 de dezembro de 2009)

O cara, o manto e a história

Esperei, eu e outros quase 35 milhões de rubro-negros, 17 anos pelo dia de hoje. Isso porque, se Nelson Rodrigues estava certo ao dizer que o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada e, então, as multidões desperteram, mesmo os flamengos (flamenguista é invenção de neologista) que não completaram os 17 anos de idade, já eram Flamengo muito antes de nascer.

E algumas derrotas absurdas ao longo desses anos de fila fizeram crescer em mim um pessimismo quase compulsivo, aflorado com força total nos momentos em que o Flamengo chegava às decisões. Para o jogo de hoje, não foi diferente. Durante a semana mais longa, mais arrastada dos últimos 17 anos, mesmo sem procurar, encontrava razões para acreditar (e sofrer por isso, claro) que alguma coisa daria errado hoje no Maracanã.

A primeira delas, a história do Grêmio entregar o jogo. Depois, todo os comentaristas do Brasil darem como favas contadas a conquista flamenga. Adicione a isso a falta de profissionalismo de Léo Moura (ao sacanear publicamente os tricolores pela derrota para a LDU), o mole que Adriano deu ao autografar uma bandeira da LDU que um torcedor levou à concentração do time na Granja Comary e o Bruno resolver jogar com um uniforme em homenagem a Zé Carlos…  Estava tudo fácil demais e apesar da diretoria tentar segurar a onda, vazavam pequenos sinais de que o time poderia acreditar que realmente seria fácil, que estava mesmo tudo resolvido. Essas coisas nunca me cheiraram bem.

Mas havia bons sinais também, não dá pra negar. Quem diria que até Márcio Braga, o presidente mais fanfarrão e falastrão que poderíamos ter, falou sério, que não poderíamos achar que estava ganho, comemorar antes da hora etc. O outro bom sinal, o mais significativo, era Andrade.

O cara ganhou cinco títulos brasileiros como jogador (quatro deles pelo Flamengo) e também buscava o hexa. Durante os muitos anos que jogou ao lado de Zico e Adílio, entre outros, usou a camisa seis. E o mais grave: Andrade foi o cara que selou a maior revanche da história do futebol mundial. Aos 42 minutos (4+2=6), usando a camisa seis, o Tromba (seis letras) fez o sexto gol sobre o Botafogo, devolvendo a goleada sofrida 9 (6 ao contrário) anos antes.

Certamente, todo mundo já ouviu dizer que notícia ruim vende mais jornal que notícia boa. O mesmo aconteceu comigo. Entre os bons e os maus sinais, me peguei com os errados. Porque era óbvio que hoje, dia 6 de dezembro (mês 12, dobro de 6), Andrade comandaria o time na conquista do hexa.

Outro detalhe da conquista de hoje é que o melhor jogador em campo foi a camisa do Flamengo, o Manto Sagrado. Se no time há ídolos, hoje não jogaram bem. Petkovic e Adriano foram meros coadjuvantes em um time do jogadores comuns, empurrados pela magnética. Como na partida contra o Goiás, o time entrou em campo misturando o nervosismo e a ansiedade, resultando em uma apatia digna de pelada de domingo à noite. Pra completar, o Grêmio saiu na frente… Conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, mas o que valeu mesmo foi que o time voltou transfigurado para disputar o final do jogo.

É fato que no intervalo, além de um belo esporro, Andrade evocou toda a tradição da camisa do Flamengo, um manto mais que sagrado, envergado por anjos como Leônidas, Zizinho, Almir, Doval, Garcia, Dequinha, Figueiredo… E nem é preciso citar o time mágico que conquistou o mundo na década de 80.

Por último, o sinal mais importante de todos: “deixou chegar, fudeu!”, uma expressão que é sinônimo de Flamengo, que é a história do Flamengo (apesar dos tropeços dos últimos anos). Só pra não deixar ninguém esquecer: o Flamengo nunca perdeu uma final de Campeonato Brasileiro.

Pois bem, hoje o Flamengo voltou a ser Flamengo. Apesar dos pontos corridos, a decisão na última rodada deu ares de final à partida contra o Grêmio. E foi difícil, sofrido, com dois gols de dois zagueiros (ave Rondi), na raça. Como sempre foi com o Flamengo. O Pernambuquinho Almir, Rondinelli e Anselmo que o digam. O Brasil voltou a ser nosso, o povo está feliz, o sorriso voltou a desfilar nos rostos.

Flamengo não é somente um clube, uma agremiação esportiva. O flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por ele muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo dá febre, dá meningite, da cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo Brasil, toda semana e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz,está feliz. O Flamengo não pode perder, não deve perder. Sua derrota frustra, entristece, humilha e abate. A saúde pública, a higiene nacional exigem que o Flamengo vença, para bem de todos , para felicidade geral, para o bem-estar nacional.

Trecho de uma carta do Sr. Ex°. Dr. Juiz de Direito Eliezer Rosa, apaixonado torcedor do América, dirigida ao Jurisconsulto João Antero de Carvalho

Evoé! O Flamengo é hexacampeão brasileiro.

Santa incompetência (2)

Em sua coluna de hoje no Globo, Renato Mauricio Prado lembrou dos resultados dos jogos do Flamengo contra os outros três que lutam pelo título e que, pelo escândalo que estão fazendo, tentam provar que o líder do campeonato chegou a esse posto por acaso e – ainda por cima – parece absolutamente incapaz de derrotar o Grêmio no Maracanã, a não ser que o tricolor gaúcho entregue o jogo.

É verdade que o Flamengo, no primeiro turno, levou uma surra no Olímpico, de 4 a 1. Mas olhando para os confrontos contra os líderes, é – no mínimo – curioso lembrar que nos confrontos com os cinco clubes que chegaram à penúltima rodada lutando pelo título ou por uma vaga na Libertadores, o único que levou vantagem contra o rubro-negro foi o Cruzeiro.

Contra o Internacional foram 4 pontos (0 a 0 no Beira-Rio e 4 a 0 no Maracanã); Palmeiras, 3 pontos (1 a 2 no Maracanã, 2 a 0 no Palestra Itália); São Paulo, 4 pontos (2 a 2 no Morumbi, 2 a 1 no Maracanã); Cruzeiro (2 a 0 no Mineirão, 2 a 1 no Maracanã); Atlético Mineiro, 6 pontos (3 a 1 no Mineirão e no Maracanã).

Olhando para esses resultados, apesar da goleada sofrida no Olímpico, será que o Flamengo realmente precisa do corpo mole gremista para vencer? E por que os times que ainda podem ser campeões não foram capazes de levar vantagem no confronto direto sobre o Flamengo?