O fim está próximo

Ufa, não é dessa vez que o mundo como o conhecemos acabará. Pelo menos, era o que prometiam os profetas do apocalipse caso os Estados Unidos fossem obrigados a dar o calote. O anúncio do acordo entre democratas e republicanos foi feito ontem à noite por Obama.

Pânico e exageros à parte, é certo que se o tal calote acontecesse, seria desencadeada uma baita duma crise. Nada mais que isso. Mas ando desconfiado que a tal previsão dos maias não está tão errada assim e estamos cada vez mais próximos do dia do juízo.

Enquanto um novo terremoto atingiu o Japão, um tufão passou pela Rússia e a Grécia – berço da civilização ocidental – está prestes a levar toda a Europa (e boa parte da economia mundial junto) pro buraco. É tragédia de todos os tipos, naturais ou não.

De quebra, a neta de Lula conseguiu incentivos fiscais (dinheiro seu, meu, nosso, como diz o Ancelmo) de até 300 mil, pela Lei Rouanet, para montar uma peça de teatro. Provem-me que o fim não está próximo…

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Assinando embaixo

É mais do que comum não dizermos algumas coisas só pra não se aborrecer com os comentários de quem está em volta. Principalmente quando você se incomoda tanto com o que é lugar comum. Afinal, pra que escutar coisas do tipo “como assim?!? Você está louco!!!” Desgaste à toa, é o que pensa a maioria de nós. Mas aí, vem alguém e diz. E aí você assina embaixo.

Não aguento

Eu não aguento mais pessoas que começam qualquer frase com a expressão “Na verdade…” Nem aquelas que respondem qualquer pergunta dizendo “Com certeza!”. Nem mesmo as que, antes de terminar um pensamento, acrescentam um “enfim” ao discurso.

Não aguento aqueles que, diante do caos em qualquer aeroporto, comentam “Imagina como vai ser em 2014”. Ou gente que, em qualquer engarrafamento de trânsito, suspira: “Imagina como vai ser em 2014.” Ou os moradores do Rio que, diante de um bueiro entupido, preveem: “Imagina como vai ser em 2014”.

Eu não aguento mais atrizes de novela que analisam seus personagens dizendo “Foi um presente do Gilberto” (ou do Maneco, ou do Aguinaldo, ou da Maria Adelaide). Ou aquelas que, tentando definir o parceiro ideal, afirmam que “humor é fundamental”. Não aguento as que nunca protagonizam a novela das oito, mas fingem que não se importam porque “é muito melhor fazer a vilã”. Ou ainda as que celebram a profissão de atriz porque, assim, podem “viver muitas vidas”.

Não aguento participantes da “Dança dos famosos” que dizem que a disputa provou sua “capacidade de superação”. Nem jogadores de futebol que, após a vitória de seu time, valorizam sua “capacidade de superação”. Muito menos modelos que após uma ida e volta na passarela do Fashion Rio sentem-se aliviadas por sua “capacidade de superação”.

Eu não aguento mais comentaristas de moda na televisão analisando o “look” dos desfiles. Nem a supervalorização dos seriados da TV americana. E atores do palco agradecendo “aos deuses do teatro”.

Eu não aguento mais prefeitos e governadores justificando atrasos nas obras porque  “o edital está em fase de finalização”. Eu não aguento políticos do PT pedindo que a oposição “não politize” o escândalo mais recente do partido. Nem os ministros do Governo chamando a presidente Dilma de “presidenta”.

Eu não aguento mais ninguém dizendo que as redes sociais são “uma poderosa ferramenta de comunicação”. Não aguento filmes em 3D. Nem gente que se acha na obrigação de comprar o iPhone 6, quando lê o anúncio do lançamento para breve do iPhone 5.

Não aguento mais médicos diagnosticando como “virose” tudo que eles não sabem bem o que é. Nem pesquisas científicas amaldiçoando o ovo e seus efeitos no colesterol, anos depois de o ovo ter sido abençoado por pesquisas científicas porque, afinal, o ovo tem bom colesterol, apesar de, anos antes, outras pesquisas já terem amaldiçoado o ovo etc etc etc.

Eu não aguento mais a Regina Casé bancando a simpática. Nem a comoção nacional em torno do fim do Exalta Samba. Muito menos algum artista jovem que recebe prêmio, gritando na boca de cena “Valeu, galera!”. Eu não aguento mais o Luan Santana.

Artur Xexéo (coluna publicada na Revista O Globo, 19/06/2011)

No país do apedeuta, estudar pra quê?

Pra quem não sabe, essa menina aí da foto é Malu Rodrigues. Atriz de 16 anos, fez parte do elenco do musical Despertar da Primavera, escrito pelo alemão Frank Wedekind. Entre Rio e São Paulo, a peça ficou em cartaz durante 10 meses. O espetáculo fala das descobertas da adolescência, especificamente o amor, e o problema começou porque a menina mostra um dos seios na cena que fecha o primeiro ato.

A temporada foi encerrada dia 2 de maio e, para estar no elenco e não criar problemas, Malu foi emancipada e obteve todas as autorizações possíveis do juizado de menores. Mas agora, só agora, promotores do Rio e São Paulo resolveram investigar se houve desrespeito ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Levando-se em conta que tudo foi feito dentro dos conformes, me parece que – enquanto há milhares de crianças nas ruas de qualquer cidade do Brasil, se prostituindo, usando drogas etc etc etc – é uma grande perda de tempo.

Resumo feito, quem se interessar pela história pode procurar mais detalhes por aí, o Google está aí para isso mesmo.

Mas vá lá, que lendo sobre o assunto, encontrei essa entrevista da garota no G1. Nada demais, respostas típicas de uma adolescente, inclusive quando diz que se inspira em Nicole Kidman. Mas o que me deixou abismado foi uma pergunta feita pelo repórter Kleber Tomaz:

Você estuda, mas quer mesmo é ser atriz, né?

Como é que é? Atores e atrizes não precisam estudar? Ou quem estuda não pode ou não deve ser ator ou atriz?

Um amigo que se vangloria por ler Nietzsche no banheiro faria, para Kleber, a seguinte pergunta: “você estuda, mas quer mesmo é ser jornalista, né?”

Adeus ano velho

Já há algum tempo, me acostumei – com o correr de dezembro – a fazer uma retrospectiva, uma espécie de balanço do que foi meu ano. É muito bom saber que meu saldo tem sido muito positivo.

A idéia não tem nada de original, é muito bom que se diga. Talvez, transformar essa história em mensagem de Natal e ano novo seja um pouco mais nova. Seria pretensão mostrar que não precisamos de realizações grandiosas ou eloqüentes para, mais do que simplesmente boa, ter uma vida em paz e de sucesso?

Em 2007 comecei o ano, pela primeira vez, na praia de Copacabana; me apaixonei; pulei carnaval em blocos e na Sapucaí; joguei (muito pouco, outra vez) botão; fui à praia no Rio e em Paraty; namorei; fui a Penedo; corri e ganhei regatas com meu amor a bordo; fiz obra em casa; noivei; tive matérias publicadas nos sites de vela mais importantes do Brasil; perdi e ganhei discussões; não visitei três amigas que se tornaram mães; reencontrei amigos de longa data, daqui e de além mar; criei dois blogs (esse e o outro); freqüentei as Ordinárias do Boteco 1; fui à Ponte Alta de Minas; realizei o sonho de defender meu clube de coração em uma competição oficial; dancei quadrilha em festa junina; fui para Niterói de barca; fui a reuniões do Clube de Comunicação; trabalhei mais do que gostaria e menos do que poderia; fui ao Maracanã ver o Flamengo e o Fluminense; comecei a estudar espanhol; dormi pouco; fiz aula de dança; toquei pouco e não compus nada; me divorciei; torci o pé; casei; fui ao Espírito Santo; fui à academia; fui a um show, não fui ao teatro e fui muito pouco ao cinema; comprei uma cachorra; voltei a Paraty; fui campeão do Circuito Rio; fui à Lapa; visitei Santa Teresa; briguei e fiz as pazes.

Resumidamente, vivi. E muito bem, é bom que se diga. Chego ao final de 2007 com um sorriso estampado no rosto, tão largo que era impossível de prever em 2006.

Para os amigos, desejo um Natal de muita paz e que o saco do Papai Noel seja bem gordo.

E desejo, também, que 2008 seja, para todos nós, repleto de vida: realizações, conquistas, sonhos realizados, saúde suficiente para aproveitar coisas boas e superar dificuldades, dinheiro suficiente para viver tranqüilo, fazer no mínimo uma viagem e se dar – ao menos – um grande presente de aniversário. Que no final do ano que vem, possamos todos estampar nos rostos sorrisos abertos, maiores que os de 2007 e muito menores que os de 2009.

O ano em que experimentamos a liberdade


Recebi o texto abaixo por e-mail, da Jamile Attie, pelo Clube de Comunicação. É de Maria Adelaide Amaral, sobre a questão da auto-censura, em pauta nos últimos dias, e publicado no dia 4 de julho, no OESP.

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Toda vez que escuto O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, lembro-me da esperança que nos invadiu em 1979, com os exilados voltando, os ventos da liberdade soprando e Papa Highirtie finalmente no palco, anos depois de sua encenação ter sido proibida pelo governo militar. Oduvaldo Viana Filho não viu sua peça encenada. Como também não assistiu à montagem de Rasga Coração (reprodução do cartaz ao lado), texto escrito em seu leito de morte e igualmente censurado. Tinha falecido em 1974. Nesse ano dava meus primeiros passos como dramaturga, mas só consegui realmente estrear em 1978, com Bodas de Papel.

Lembro-me da nossa tensão no ensaio para o censor, Madeira (não recordo o prenome), um homem bem-educado, senhor do nosso trabalho e da nossa vida. Quando o espetáculo foi aprovado sem cortes, respiramos aliviados e gratos à boa vontade do Sr. Madeira. No entanto, isso era apenas uma das faces perversas da censura: quando se depende da boa vontade de um censor, significa que os critérios que permitem ou proíbem uma obra são pessoais e subjetivos.

Tive muita sorte com a liberação de Bodas de Papel. Já com Cemitério sem Cruzes a história foi diferente. O texto fazia parte da Feira Paulista de Opinião, promovida por Ruth Escobar em 1978, e dela também participavam obras de Dias Gomes, Jorge de Andrade, Carlos Queiroz Telles, Lauro César Muniz, Carlos Henrique Escobar, Gianfrancesco Guarnieri, João das Neves, Leilah Assunção e Márcio de Souza. O evento não chegou a ser realizado porque todas as obras foram proibidas em bloco. Todos nós fomos censurados numa ação decidida pelo próprio Ministério da Justiça. Por que? Porque é assim que acontece nas ditaduras. A premissa é a de que a população carece de maturidade e discernimento para avaliar o que é melhor para si e, portanto, necessita de um grande tutor – o Estado. Cabe a ele decidir o que é melhor para o povo e, não por coincidência, esse ‘melhor’ é tudo que colabora para a estabilidade do regime e a continuidade no poder de seus governantes.

– Está certo. Eles têm a censura deles. Nós vamos ter a nossa – costumava dizer um colega da Abril Cultural, militante de conhecido partido de esquerda (suponho que ainda seja), naqueles anos 70. A primeira vez que ouvi a frase fiquei estarrecida. Alguns companheiros riram, mas não era piada. Ele falava sério. Mas nós não queríamos nenhuma censura, nem de direita nem de esquerda.

Nos anos 70, clamávamos por liberdade para que nunca mais nenhum autor morresse, como Vianinha, sem ver seus textos encenados; para que nunca mais uma peça premiada pelo Serviço Nacional de Teatro (A Patética, de João Ribeiro Chaves) fosse sumariamente proibida porque tratava da morte de um jornalista (Vladimir Herzog) nos porões da ditadura; para que nunca mais razões arbitrárias, escusas ou absurdas determinassem a mutilação ou proibição de um filme, peça ou livro, ou impedissem uma notícia de ser veiculada. Em nome da liberdade abrigamos amigos perseguidos pelos órgãos de repressão, angariamos fundos para os metalúrgicos em greve no ABC, sustentamos a imprensa nanica, saímos às ruas e subscrevemos manifestos e abaixo-assinados contra a repressão.

Para quem viveu os anos de chumbo da ditadura militar e teve que se haver com a truculência ou irracionalidade das decisões da Censura, os sinais de abertura que se fizeram sentir em 1979, eram puro oxigênio. A liberdade não era mais uma palavra, um libelo, um alvo remoto, um destino a atingir. Enfim podíamos respirar, sonhar, escrever, criar livremente. Em agosto de 1979, Cecil Thiré ligou do Rio pedindo para que eu reescrevesse um diálogo fundamental entre os dois personagens centrais de A Resistência, que ele estava dirigindo no Teatro Gláucio Gil. Tratava-se de Léo, um ex-preso político e Luis Raul, que tinha sido de esquerda e acabara aderindo ao movimento hippie. Era um momento de embate, em que as posições políticas e as razões de cada um seriam confrontadas. Um ano antes a cena inviabilizaria a peça inteira. Quando o texto passou incólume pela Censura, senti que os dias de D. Solange estavam contados.

Quase 30 anos depois ressurge o fantasma, não de D. Solange mas o da posição daquele meu colega que justificava a censura do governo militar antevendo a do próprio partido. O colega em questão felizmente não faz parte dos quadros do governo mas as suas convicções continuam ativas a despeito do colapso do mundo que as originou. Não foi para exumar maus cadáveres que saímos à rua lutando pelas Diretas, não foi para isso que combatemos o bom combate. Mas se for preciso combateremos outra vez.

Maria Adelaide Amaral