Oba-Obama (2)

O presidente da (dita) maior democracia do mundo resolve visitar o Brasil e, de quebra, fazer um discurso ao povo no Rio de Janeiro. E aí, danou-se. Como se não bastasse ter que aturar um monte de gente fazendo festa pro sujeito a título de que seria um momento histórico.

Ir e vir

A bagunça provocada pelo ícone fabricado que virou presidente revogará direitos básicos de qualquer cidadão.

Vejam no mapa aí em cima as ruas que serão interditadas e toda a área em que será impossível estacionar. Pra completar, a ligação de metrô entre zonas norte e sul será interrompida por várias horas.

De quebra, as pessoas que forem ao oba-oba (tem hífen?), não poderão levar bolsas ou mochilas. Ou seja, cada um que se vire com suas carteiras, telefones, máquinas fotográficas (afinal, o político é tratado como pop star), maços de cigarro etc.

Trabalho

Se não bastasse, também serão fechados os estabelecimentos comerciais da área. Ou seja, as pessoas não terão direito ao trabalho. Quem arcará com o prejuízo, principalmente dos bares e restaurantes da região?

E, claro, como não haverá nada aberto, além de tudo o que você carregaria na bolsa ou na mochila que não poderá levar, ainda vai ter que se virar para ter a mão um simples garrafa d’água.

Não é de dar parabéns?

Oba-Obama

Estava tentando encontrar uma maneira de falar sobre a panacéia que estão armando para a visita de Obama ao Brasil e seu grande discurso no Rio de Janeiro. Aí recebi o texto abaixo. E percebi que não tenho nada mais a acrescentar. Apenas algumas perguntas:

– discurso na Cinelândia, domingo, cheio de exageros do esquema de segurança, não se pode levar qualquer tipo de bolsa ou mochila. Será que vai alguém além da claque oficial?

– qual Obama vai discursar no domingo? O candidato que deu esperanças de um mundo mais tolerante e menos injusto ou o sujeito que não toma posição séria sobre alguns dos temas mais importantes, como a revolta na Líbia de Kadafi,  porque no final das contas ‘somos todos amigos ’?

– fui só eu ou mais alguém notou que os apresentadores e repórteres da Globo, nas edições locais e nacionais de seus telejornais, praticamente saltitavam, sorriam e batiam palmas como focas diante das câmeras ao falar sobre o grande evento de domingo? Vocês na acham isso feio não?

Pela paz mundial, o Oba-Obama carioca!

É pura maldade de gente sem coração dizer que Obama está perdido ante a crise no Oriente Médio.

Os falcões da Casa Branca, de posse do já folclórico conhecimento estadunidense de geografia, aconselharam sua excelência a iniciar sua peregrinação rumo à paz mundial em “showmício” dominical já apelidado de Discurso Histórico na Cinelândia pois, por motivos de segurança, isso é o mais próximo que ele pode ficar do Saara atualmente. Já dizem até que o palavrório será proferido de uma sacada do Teatro Municipal. Em se tratando de Obama, não há lugar mais apropriado, né?

Ao mesmo tempo, numa jogada digna dos mais audaciosos mestres de War (I e II), Michele e comitiva foram designados para percorrer a Rua Buenos Aires, aquela que leva o nome da capital do Brasil, para estabelecer conversações auspiciosas com árabes e judeus, mas sem passar pela Alfândega, que é para não criar constrangimentos. Hoje em dia, um verdadeiro negócio da China!

Depois, Obama vai direto a Israe… ops, Cidade de Deus, conhecer uma UPP, o Mossad alpino carioca. Entre os Líbios, a notícia causou muita comoção, choro e ranger de dentes, só de pensarem no Beltrame mandando o Capitão Nascimento pacificar tudo de Benghazi até Brega, quer dizer, Kadafi. Mas Cabral – sempre ele! –  jurou que vai avisar antes. O prefeito Eduardo Paes já mandou avisar que vai fechar o trânsito desde Copacabana: “Para garantir a tranqüilidade durante o show do Rei”

Já confirmaram presença no evento todos os ativistas solidários ao grande líder (artistas, intelectuais, jornalistas etc), que prometem puxar com a diligência de sempre o Cordão das Bolas Pretas, ao som da “Grande Marchinha Para Frente”.

Mr. President, tudo de bom! Sonho com um mundo melhor também. Nele, os cariocas dão calorosa acolhida ao senhor só comparável àquela que um certo ex-colega seu teve durante a abertura do Pan 2007.

Como qualquer pessoa que adquire “fiado” um Nobel da Paz merece!

Giorgio Seixas (O sapato e a lâmina da faca)

Polícia e ladrão ou polícia e polícia?

Se você é um pouquinho interessado no que acontece em volta de você, mesmo que não seja carioca, mesmo que nem more no Rio, está a par da zona na nossa polícia civil. E aí, em um dia que passei boa parte do meu tempo entre filas e passeios do metrô, sem saber direito o que escrever sobre o assunto, encontrei o texto do Zuenir Ventura no Globo.

A limpeza na polícia

Alguma coisa não vai mesmo bem quando a polícia precisa chamar a polícia para prender o ladrão. Será que só a Polícia Federal consegue desbaratar os esquemas de corrupção dentro das polícias do Rio, como fez em 2008, quando prendeu o delegado Álvaro Lins, ou agora, quando mandou para a cadeia dezenas de policiais que vendiam armas e proteção a traficantes? Como é que um sistema de segurança que tem se mostrado tão eficiente no combate ao crime nas favelas é tão complacente com ele dentro de casa? Como se explica que a PM e a Polícia Civil não disponham de um mecanismo de correição capaz de livrar as corporações dos bandidos que agem internamente? A banda podre é indestrutível?

A crise, que custou a demissão de Allan Turnowski da Chefia da Polícia Civil, surgiu num péssimo momento, justamente quando as UPPs haviam conquistado a confiança da população. Para que ela se torne um fator positivo, um processo de saneamento é necessário, e que o governo exponha toda a sujeira que há por baixo. Que explique, por exemplo, o fato de o cabeça de uma das quadrilhas desbaratadas pelos federais ser o ex-braço direito de quem até ontem foi o chefe de Polícia Civil. É estranho que esse delegado, Carlos Oliveira, não tenha despertado a desconfiança de seus superiores, apesar dos sinais de enriquecimento ilícito que ostentava, como carro importado e um apartamento de mais de R$1 milhão, entre outros imóveis.

Qual o verdadeiro papel de Turnowski nessa história? Assim que começou a operação da PF, ele foi chamado a depor. Em seguida, comandou uma ação que desviou as atenções, ao mandar fechar a Draco, Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, sob suspeita de extorsão. Seu titular era Claudio Ferraz, o delegado que atacou as milícias e colaborou com a Operação Guilhotina. Limpeza ou represália? Turnowski negou a segunda hipótese e declarou que exoneraria Ferraz, se estivesse ao seu alcance. Parecia tratar-se de rivalidade, de disputa de poder. Mas, bem antes de se consumar a demissão, Jorge Antonio Barros anunciou no seu blog que a disputa era na verdade entre Turnowski e ninguém menos que Beltrame. “Um dos dois terá que pedir para sair”, garantiu. O repórter não teve dúvida sobre quem iria sobrar. A dificuldade do governador, ele adiantava, será “obter uma saída honrosa para Turnowski”.

É louvável que José Mariano Beltrame não tenha se melindrado com a interferência federal; ao contrário, recebeu-a como colaboração. Mas seria melhor que a PF não precisasse vir a cada dois anos fazer uma faxina nas nossas polícias.

 

Estive aqui pensando uma maneira de acabar com essa paz insuportável (3)

São Carlos, Zinco, Querosene, Mineira, Coroa, Fallet, Fogueteiro, Escondidinho e Prazeres. Mais nove favelas ocupadas no Rio. Favelas mesmo, porque esse papo de comunidade só serve pra esconder a maneira degradante como vive boa parte dos moradores, sem contar que todas elas são fruto de ocupação ilegal do espaço público, chega a dar um ar quase oficial a um amontoado de gente que não deveria estar ali.

Enfim, pelo previsto, três novas UPP serão instaladas em cerca um mês. Tudo lindo e maravilhoso, mas infelizmente voltamos a falar de uma certa paz que não é real.

Vejam algumas declarações do secretário de segurança, José Mariano Beltrame:

Prefiro que os traficantes saiam a entrar à custa da vida de um inocente. (…) O objetivo é ocupar territórios sem aumentar as estatísticas de bala perdida, de auto de resistência, de homicídio e de ferimentos a qualquer civil.

Mais uma vez, tudo lindo e maravilhoso quando vemos que não matar inocentes é uma preocupação oficial. Aleluia!!! E essa ocupação pacífica só aconteceu porque toda a operação foi anunciada com uma semana de antecedência.

Mas, mais cedo ou mais tarde, vai haver confrontos. E dos grandes, porque os caras estão saindo e, uma vez que não são presos, se escondendo em outro lugar. Então, vamos supor – apenas supor – que toda essa movimentação perdure, que a estratégia seja mantida ad eternum. Vai chegar uma hora que vão precisar entrar e ocupar o lugar onde estão todos escondidos e o pau vai quebrar, e vai ter tiro e bala perdida pra todo lado, não vai dar pra evitar. E aí?

Não quero acreditar que ninguém, nenhum dos muitos especialistas em segurança pública a serviço do governo, tenha esquecido isso. E onde vai ser? Qual será o lugar do Rio ou do grande Rio que ficará em estado de sítio quando esse dia chegar? E ninguém está pensando nos inocentes que estarão por perto no tal dia?

Outra pergunta: quando é que o nosso governo (agora, de maneira geral mesmo, em todas as esferas) vai começar a dar conta de quem realmente manda e financia o tráfico de drogas por aqui? Ou será que vocês acreditam que aquele monte de gente que não tem nem curso primário seja realmente capaz de comandar uma operação que depende, entre outras coisas, de contatos internacionais e operações logísticas complexas?

E quando, afinal de contas, começarão a ser ocupadas as comunidades (agora sim, porque inclui bairros e favelas) dominadas pelas milícias?

Talvez eu seja burro e não tenha realmente entendido a maravilha que é a estratégia adotada. Talvez seja apenas um pessimista ou, pior, um alarmista. Mas é que prefiro ser  ‘Gustavo, o alarmista’ do que  ‘Gustavo, o idiota’. Só isso.

Estive aqui pensando uma maneira de acabar com essa paz insuportável (2)

Sabe essa paz de mentirinha que temos por aqui e que foi festejadíssima após a ocupação do Alemão e da Vila Cruzeiro, apesar de todos os grandes chefes do tráfico terem escapado? Pois é, continua por aqui. A gente finge que não vê o problema, o governo finge que faz alguma coisa de verdade e, com a tragédia da serra, ninguém mais fala do tema – afinal, é preciso socorrer mesmo a turma que está em dificuldades.

Mas como sempre, daqui a pouco passa o período de comoção e voltamos todos às nossas vidinhas. E a violência? Voltará a ser o centro das atenções? Ou será que isso acontecerá só depois do carnaval? Na verdade, o quando não faz diferença porque daqui a pouco teremos algum problema que será seguida por alguma invasão da polícia e começamos a brincar de polícia e ladrão outra vez.

No entanto, há um problema muito mais grave – do ponto de vista da segurança pública – que o tráfico de drogas: milícias. E alguém aí prestou atenção de verdade ou tem vaga memória do discurso de posse do nosso querido governador? Pois vejam o trecho que, aqui e agora, nos interessa:

Em 2014 não haverá uma comunidade, um bairro do nosso estado dominado pelo poder paralelo, seja miliciano, seja traficante

Depois de ler esse belíssimo rasgo de otimismo do nosso mandatário, peço que façam uma pequena reflexão. Vocês sabem que são os milicianos? E como eles atuam? É claro que alguma noção vocês devem ter, nem que seja porque assistiram Tropa de Elite 2. Então, vejam o que disse o antropólogo e pesquisador do Instituto Universitário de Ciências Policiais da Universidade Cândido Mendes, Paulo Storani:

São policiais, ex- policiais, bombeiros, estão ligados à estrutura oficial, possuem uma rede de relacionamentos que permite ter informações. Estão infiltrados em várias camadas de poder, no executivo, no legislativo, no judiciário. É crime organizado mesmo. O objetivo é a entrada no poder, é o lucro. Eles montam estrutura para isso. Milícia é uma atividade criminosa, com mais poder do que qualquer facção do tráfico. Eles conhecem o sistema, sabem como funciona. O governador criar expectativa é positivo, mas é preciso saber resolver o problema. E, sinceramente, o problema é muito mais difícil. Milícia vai ser o problema da década e não vai terminar em 2014. É um negócio muito rentável. Os operadores conhecem o sistema a ponto de se adaptarem ao que vai acontecer

E só pra constar, Storani não é apenas um teórico não. Ele é ex-capitão do BOPE.

Então, enquanto você continua assistindo comerciais do governo do estado mostrando a bandeira hasteada no Alemão como um grande símbolo da paz conquistada, é bom começar a se preparar para uma guerra muito mais dura e mais profunda que vêm por aí.

Claro, se o governador quiser – de verdade – resolver o problema.

Avisa lá que eu vou chegar mais tarde

Eu devo mesmo ser uma besta. E começo a me convencer que o nosso governador e a equipe da Secretaria de Segurança são bestiais.

Em uma solenidade hoje de manhã na Cidade de Deus, Sergio Cabral anunciou que o BOPE ocupará, a partir de quinta-feira, três favelas no Engenho Novo (Matriz, Quieto e São João) para que seja instalada uma nova UPP.

Será que eu sou o único que acredita que essas operações deveriam ser sigilosas?  Porque, trocando em miúdos, o que o grande mandatário de nosso belo e formoso estado disse foi o seguinte: “ô bandidagem, vocês têm até quinta pra se mandar e fazer a vida em paz em outro lugar. Na quinta os caras vão subir e se neguinho der bobeira vai em cana”.

Eu devo mesmo ser muito burro pra acreditar que a polícia deveria chegar de surpresa pra prender geral ou descer o dedo em quem tentasse resistir ou fugir. Afinal, há que se dar tempo pra galera fazer as malas, esconder as armas, empacotar o bagulho né não?

E agora?

Está todo mundo comemorando, afinal foi destruído o QG do crime organizado no Rio de Janeiro. Apesar de todo o aparato, a tomada do Complexo do Alemão teve o mínimo de violência. Então, há mesmo o que comemorar.

O problema é que não vejo nesse afã de celebrações algumas questões respondidas.

Minha primeira dúvida é sobre quanto tempo as tropas vão ficar por lá. Porque se toda a estrutura for desmobilizada daqui a uma semana ou quinze dias, voltará tudo ao que era antes.

Se falarmos de UPP, a estrutura montada para a grande invasão vai ser mantida até que sejam instaladas todas Unidades de Polícia Pacificadora necessárias? É, porque uma só não basta para a região. E quando teremos o efetivo necessário para trabalhar em todas as UPP do Alemão, sem desguarnecer o resto da cidade?

Outra dúvida é sobre para onde foram as principais cabeças do crime local, que não foram presos, que tiveram tempo mais do que suficiente para fugir antes do cerco e invasão. E quando falo em crime local é porque está todo mundo cansado de saber que quem manda mesmo, quem negocia internacionalmente sobre armas e drogas, que monta os esquemas logísticos e políticos não são aqueles molambos que posam reis, sem nem saber falar direito. E sobre esses, sobre quem manda mesmo, a gente não ouve uma palavra.

E só para não me alongar muito, última dúvida: e resto da cidade, outras favelas grandes, que são referência, outros QG do tráfico ou congêneres? Cito apenas duas: Rocinha e complexo da Maré.

Já que o pau cantou na última semana, já que a população – em peso – apoiou todas as ações, já que todas as esferas competentes já estão mobilizadas, já que tropas estaduais e federais já trabalham bem em conjunto, não seria a hora de arrebentar com o negócio todo?

A verdade é que ainda desconfio que em muito pouco tempo, tudo voltará ao normal. E é isso que ninguém gostaria. E é por isso que quando vejo alguém ‘pedindo’ paz é que retruco na hora: a hora de é de guerra. Alguém é capaz de me convencer do contrário?