Fim de papo

Já faz uma semana que acabou a bagaça e que o Flamengo conquistou o hexa. A ressaca está quase curada…

O campeonato foi, sem dúvida, o melhor dos últimos muitos anos. De toda a série de pontos corridos, certamente. Infelizmente, o equilíbrio que fez um campeão com menor aproveitamento da história e com a menor diferença de pontos para a turma que foi rebaixada. Isso é bom? Em tese.

A verdade é que, a cada ano, o nível técnico de nossos times é cada vez menor. Ou não teríamos um gordo, um farrista e um coroa de 37 anos entre os melhores do Brasil.

Apesar de muito inchado, nosso calendário está estabilizado já há algum tempo, o que deveria facilitar o planejamento dos clubes – equacionando dívidas, fortalecendo as divisões de base etc. – e a atração de novos investidores. Mas parece que nossos dirigentes não estão muito aí pra isso, o que não é de causar surpresa.

Independente disso, e apesar do que meu primo atleticano, recalcado e invejoso, disse, a conquista rubro-negra não foi uma cagada. Afinal, o Flamengo foi o que teve o melhor aproveitamento nos confrontos diretos entre os oito primeiros do campeonato. Assim como é fato que, principalmente, Palmeiras e São Paulo fizeram muita força para perder o campeonato. E perderam.

Pra encerrar minha participação no Brasileirão 2009, resolvi dar uns pitacos – o post ficou comprido demais, eu sei –  sobre todos os clubes que participaram dessa edição e sobre os quatro que vão subir. Apenas pequenas opiniões sobre alguns detalhes.

Série B

– Vasco: fez o que tinha que fazer, mas o time precisa melhorar muito para não correr risco de voltar;

– Guarani: quase foi grande um dia, até que virou io-iô. Será um dos enigmas de 2010;

– Ceará: se não voltar para a segundona, correrá riscos até o fim. É a sina dos clubes nordestinos, sem poder econômico para formar um grande time;

– Atlético-GO: absolutamente imprevisível. Time de empresários, como o Barueri. Pode surpreender e pode não fazer nem cócegas.

Série A

20º: Sport (31pts / 7V / 10E / 21D / 27%)

Se foi rebaixado na última posição, não se pode falar em injustiça. O time é horroroso e, para completar, sua queda é uma benção para todos os clubes, pois não precisarão jogar naquela campo de roça da Ilha do Retiro.

Como a campanha do clube foi um fiasco, seu presidente resolveu tapar o sol com a peneira e tirar o foco de suas mazelas tentando criar um onda sobre o título do Flamengo. Disse que processaria todos que apontassem que o Flamengo é hexacampeão.

A discussão provocada pelo presidente do clube pernambucano só serve pra criar mais confusão, acirrar ânimos etc., em função de algo que não tem qualquer justificativa lógica: o Sport ter sido proclamado campeão brasileiro de 1987 quando não foi, sequer, campeão da segunda-divisão. A história completa do que aconteceu está aqui.

19º: Náutico (38pts / 10V / 8E / 20D / 33%)

Não há o que dizer sobre Timbu, além de destacar o Carlinhos Bala (que não acredito ser capaz de ser destaque em um time grande de verdade) e o alívio de todos os clubes por não ter que jogar no gramado ridículo dos Aflitos, mesmo caso do Sport. Não por acaso, junto com o eterno rival, levaram Pernambuco embora da primeira divisão.

18º: Santo André (41pts / 11V / 8E / 19D / 35%)

A única coisa relevante em sua história é a conquista da Copa do Brasil sobre o Flamengo. Apesar do vexame rubro-negro, não é estranho nas copas nacionais que juntam times de todas as divisões, a conquista por clubes nanicos. Não se tornam relevantes por isso e esse é o caso. Deus sabe como chegou à Série A, mas o importante é que já foi embora.

17º: Coritiba (45pts / 12V / 9E / 17D / 39%)

Um exemplo clássico de um time pequeno que se acha grande. Talvez seja grande no Paraná, estado que – verdade seja dita – não tem qualquer relevância para o futebol nacional. Se acha grande porque ganhou um brasileiro no longínquo 1985, algo tão estranho quanto ter o Bangu como adversário na final. Foi tão insólito que o Maracanã ficou absolutamente lotado por torcedores de todos os clubes do Rio, em prol de um clube que tinha, sim, um grande time bancado por um bicheiro. Enfim, como último ato de sua participação no certame de 2009, sua torcida fez o favor de confirmar o quanto o clube, o time e ela própria são pequenos.

P.S.: Alguém reparou a grande escolha que fez o Marcelinho Paraíba, trocando o Flamengo pelo Coxa?

16º: Fluminense (46pts / 11V / 13E / 14D / 40%)

É verdade que, com a épica arrancada, não merecia mesmo cair. Mas é bom não esquecer a dívida que o Fluminense tem com o futebol brasileiro, pois disputou a terceira divisão e, com a criação da Taça João Havelange, pulou direto para a primeira. Também é fácil compreender a comemoração, mas é bom colocar o pé no chão e entender que, se muita coisa não mudar, o ano que vem será igual ou pior.

15º: Botafogo (47pts / 11V / 14E / 13D / 41%)

Depois de voltar à primeira divisão, vinha evoluindo, mas… Só não dá pra entender porque estão comemorando tanto. É bom que abram bem os olhos, não ganharam nada. Só não caíram de novo. Para o futuro, a receita é a mesma do Fluminense: mudar muita coisa, se organizar, planejar etc.

14º: Atlético Paranaense (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Não fede nem cheira. Chamado de furacão, na verdade não passa de uma brisa. Mesmo assim, só quando jogaem casa. Comoseu rival alvi-verde, só é grande localmente. Também já ganhou um brasileiro (a história da humanidade tem mesmo mistérios insondáveis), mas o conjunto da obra não é nada relevante na história. Como sua campanha em 2009. Pelo menos, não caiu.

13º: Vitória (48pts / 13V / 9E / 16D / 42%)

Apesar de muita gente achar que aquele canto do mundo é uma dimensão paralela, a Bahia é um estado do nordeste. Quando lembramos onde está seu arqui-rival, então, só o fato de estar na série A já é uma vitória (com trocadilho). Seu único mérito no campeonato foi ter o saldo de gols melhor que o Atlético Paranaense:-6 a-7. Graças a isso, se classificou para Copa Sulamericana.

12º: Santos (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Quando falo que os paulistas, em geral, são um povo bem estranho, meus amigos que moram do lado de lá da Dutra reclamam. Mas que outro povo seria capaz de chamar seu clube de Peixe e adotar uma baleia como mascote. Será que eles faltaram a aula de biologia no primário? Enfim, esse enorme nariz de cera reflete bem o que foi o Santos nesse campeonato: quase nada a declarar. A campanha medíocre serviu para duas coisas: se livraram do presidente (apesar do tumulto euriquiano nas eleições) e de Wanderley Luxemburgo.

11º Barueri (49pts / 12V / 13E / 13D / 42%)

Baruequem??? Pois é, uma distorção provocada pelo poder da grana que ergue e destrói coisas belas, como diria um baiano. O time do interior de São Paulo, criado por empresários apenas para dar lucro, até que fez campanha razoável. E só. Ficou à frente do Santos graças ao saldo de gols. Foi o clube com a menor média de público do campeonato e, no primeiro turno, o “clássico” contra o Santo André,em Santo André, foi assistido por 847 testemunhas.

10º Corinthians (52pts / 14V / 10E / 14D / 45%)

2009 foi o ano da volta, depois da passagem pela segundona. A base do time campeão da Série B foi mantida e chegaram alguns reforços, o gordo entre eles. Ganharam o paulistinha e a Copa do Brasil. Aí, com a vaga para a Libertadores garantida e a saída de alguns jogadores no meio do ano, não houve Mano Menezes que conseguisse reorganizar o escrete e, pior, manter os jogadores interessados em um campeonato que não conseguiriam conquistar. Resumindo: passou pelo Brasileirão a passeio.

9º Goiás (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um dos cavalos paraguaios de 2009. Com uma base razoável, fez algumas contratações interessantes, como Fernandão, e até pareceu que cumpriria a eterna promessa de ficar entre os grandes. Alguns excelentes resultados e, de repente, lá estava o time do cerrado no G4. Não durou muito. Fraquejou pelo meio do segundo turno e abandonou a disputa pelos primeiros lugares. No final, acabou como fiel da balança. Empatou com o Flamengo no Maracanã e parecia ter sepultado o sonho do hexa. Na semana seguinte, quando ninguém esperava, sapecou4 a2 no então líder São Paulo, deixando a disputa do título praticamente limitada a Flamengo e Inter.

8º Grêmio (55pts / 15V / 10E / 13D / 48%)

Um time de extremos. Terminou o Brasileirão invicto em casa, mas só ganhou um jogo como visitante. Por fim, classificado para a sulamericana, uma copinha que todo mundo comemora quando faz campanha pífia no brasileiro, mas que todo mundo reclama na hora de jogar. Acabou chamando a atenção pela confusão ‘entrega X não entrega’ o jogo contra o Flamengo, na última rodada. Tudo isso porque o rival colorado precisava de, ao menos, um empate no Maracanã para que superasse o time da Gávea. A torcida do Grêmio, então, começou a campanha do entrega. No final, nada demais aconteceu. Apesar de um mistão, os gaúchos deram um belo susto do Flamengo, fazendo um a zero. Mas não aguentaram a pressão e todo mundo sabe o que aconteceu.

7º Atlético Mineiro (56pts / 16V / 8E / 14D / 49%)

O pai de todos os cavalos paraguaios. Depois da glória de conquistar o primeiro brasileiro em 1971, tudo o que o Galo conseguiu foram três vices. Neste ano, prometeu, prometeu, prometeu… Liderou o certame e fez até um dos seus artilheiros, mas – como de hábito – não conseguiu nada. Nem a vaga na Libertadores.

6º Avaí (57pts / 15V / 12E / 11D / 50%)

Tai uma surpresa agradável. Deus sabe se continuará assim em 2010, mas muita gente duvidava que o time catarinense faria algo além de brigar para não cair. No final, uma campanha mais do que digna sob o comando de Silas, que se mandou para o Grêmio. Os destaques do time, além do técnico, são curiosos: o atacante Muriqui foi quem mais apanhou durante o ano, enquanto seu companheiro Ferdinando, volante, foi o segundo que mais bateu.

5º Palmeiras (62pts / 17V / 11E / 10D / 54%)

O grande campeão do Grande Prêmio de Assunção. Liderou metade do campeonato, teve cinco pontos de vantagem por várias rodadas, disputou o título até o último jogo e, no final, nem se classificou para a Libertadores. Parabéns ao presidente Beluzzo por suas declarações fabulosas, parabéns ao Muricy pela autosuficiência transbordante, parabéns ao time que não agüentou a pressão. Resumindo, um puro-sangue paraguaio.

4º Cruzeiro (62pts / 18V / 8E / 12D / 54%)

Um daqueles clubes que sempre começam o campeonato dando pinta de favorito. Claro, segundo todos os especialistas de jornais, rádios e tevês. O time realmente não é ruim (para o nosso nível, claro) mas oscilou muito durante o ano. E até craque freqüentando festa de torcida organizada de adversário aconteceu. Apesar de uma miniarrancada nos últimos jogos, chegou à última rodada dependendo de combinação de resultados para chegar à (pré)libertadores. E o porco paraguaio entregou a vaga de mão beijada.

3º São Paulo (65pts / 18V / 11E / 9D / 57%)

Deitou sobre a fama de time eficiente, que mesmo jogando mal, faz ao menos um gol e não leva nenhum. Enfim, um modo medíocre de pensar o futebol. Entre os times da ponta, foi o que menos ganhou pontos dos outros líderes enquanto perdia poucos pontos para os pequenos. O problema é que neste ano, com o campeonato nivelado (por baixo), não foi tão efetivo mesmo contra os pequenos. Além disso, um elenco extremamente limitado, com atletas (paulista adora chamar jogador de futebol de atleta) que jogam como robôs. Como Ricardo Gomes não é tão bom quanto Muricy, o time não teve força para chegar ao título que esteve em suas mãos. Só valeu porque se classificou para sua trocentésima Libertadores consecutiva.

2º Internacional (65pts / 19V / 8E / 11D / 57%)

Já há algum tempo é apontado como um dos favoritos todos os anos. Mas como é que um time que, hoje em dia, pode ser descrito como a versão gaúcha da fusão entre Vasco e Botafogo pode ser campeão? E ainda por cima com Mario Sérgio Pontes de Paiva como técnico.

Comparei a Vasco e Botafogo porque, com o resultado deste ano, o Inter conseguiu a expressiva marca de ser penta-vice. Além disso, desde que o inter perdeu o título para o Corinthians, no campeonato da máfia do apito, só faz chorar. Neste ano, seu vice de futebol chegou a divulgar um DVD com os pseudo-erros cometidos por árbitros contra o time do sul. Isso, às vésperas da final da Copa do Brasil. Resultado? Vice.

1º Flamengo (67pts / 19V / 10E / 9D / 58%)

No meio do campeonato estava na 14ª posição e ameaçava passar o ano fugindo do rebaixamento. Além disso, um monte de confusões dentro do clube, em ano eleitoral, só fazia atrapalhar. Pra completar, Cuca e sua estranha relação com os jogadores.

Aí Kleber Leite deu o fora, Cuca caiu, Andrade foi efetivado e começou a recuperação de vários molambos do time, chegaram Pet, Maldonado e Álvaro. O time encaixou e, como quem estava na ponta não demonstrava querer o título, parecendo até que não queriam ser campeões, o Flamengo foi chegando, foi chegando… O resto vocês já sabem.

Agora é rezar que não seja feito um desmanche, que cheguem três ou quatro reforços de verdade e que a nova presidente Patrícia Amorim consiga dar um jeito no Flamengo. Porque se tudo for feito como deve, no futebol, nos esportes olímpicos e no resto do clube, poderemos nos preparar para comemorar durante muitos e muitos anos, começando pela participação na próxima Libertadores.

•••

Depois desse quase testamento, poderia prometer ficar um bom tempo sem falar de futebol por aqui. Mas como o risco de não cumprir é enorme, é melhor ficar quieto. Afinal, a programação inicial é estar no Maracanã, na festa de fim de ano do Zico, em que será formado um time com jogadores que participaram dos seis títulos do Flamengo. Sinceramente, é bem provável que não resista a fazer algum comentário depois disso. A ver.

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Foi tudo arranjado

Fatos:

– O Flamengo teve a melhor campanha do 2º turno;

– O Flamengo teve a 2º melhor defesa do campeonato;

– O Flamengo teve o artilheiro do campeonato e o craque do campeonato: Adriano e Petkovic;

– O Flamengo tem apenas 1 derrota nas últimas 17 rodadas ( 12 vitórias, 4 empates e 1 derrota) e ficou invicto nas 6 últimas (5 vitórias e 1 empate);

– O Internacional perdeu de 4X0 no Maracanã com time misto para ajudar o Flamengo;

– O Atlético MG perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), diante de 65 mil torcedores, só para ajudar o Flamengo;

– O Santos perdeu em casa só pra dar o título para o Flamengo. Aliás, no jogo do Maracanã, o meia do Santos perdeu 2 pênaltis só para ajudar o Flamengo;

– Lúcio Flávio perdeu um pênalti só para ajudar o Flamengo;

– O Náutico perdeu em casa, aceitando assim ser rebaixado, só para ajudar o Flamengo;

– O Palmeiras, até então líder do campeonato, perdeu em casa (com gol olímpico de Pet), só para ajudar o Flamengo. E Vagner Love ainda ajudou com a perda de um pênalti;

– O Corinthians que vinha de derrotas consecutivas para timaços como Náutico, Santo André e Avaí, só não ganhou do Flamengo para dar o título ao rubro-negro carioca;

– E, até (pasmem) o São Paulo Fashion Week perdeu para o Goiás de propósito, abrindo mão do tetra consecutivo, porque tinha em mente ajudar o Flamengo;

– Além disso, o São Paulo Fashion Week, nos dois jogos com o Flamengo empatou no Morumbi e perdeu no Maracanã;

– Para culminar esse hexa discutível, o Grêmio, time de pior campanha como visitante (12 derrotas e apenas 1 vitória em 19 jogos), contrapondo sua ótima* campanha no Olímpico, jogou com time misto, como o Internacional fez no Maracanã, para ajudar o Flamengo;

Concluímos, a partir dos dados supracitados, que o Estado do Rio Grande do Sul mancomunado com a CIA, o FBI, a ABIN, a ANVISA, a CBF, a FIFA, o STF, a NASA, o Obama e a Comunidade Européia conspiraram para dar o hexa ao Flamengo.

Quem não tem o que falar, fala o que quiser…

Rogério Delfino e Cristiano Alves

*correção feiata pela Ana Paula

Sem frescuras, sem maquiagem

Andrade estreou como técnico efetivo do Flamengo no dia 26 de julho. Já tinha sido interino algumas vezes, funcionário do clube há muito tempo, assistente de vários técnicos. Naquele dia, depois da vitória sobre o Santos, o Tromba saiu de campo chorando, acreditando que aquela vitória era uma justa homenagem ao Zé Carlos, o Zé Grandão, falecido na véspera, vítima de um câncer.

Pouca gente acreditava que Andrade era o cara indicado para assumir o Flamengo naquele momento, que acabaria se queimando.

Nos três jogos seguintes, três derrotas. Apesar de ter balançado no cargo, foi colocando o time nos eixos, culminando com a arrancada até a ponta da tabela.

Se tudo der certo no domingo, Andrade entrará – mais uma vez – para a história do futebol brasileiro. O texto abaixo, mais um pinçado nessa tal de blogosfera, explica. E mesmo que tudo dê errado (pé de pato, mangalô três vezes), não vejo como não ser reconhecido como o melhor técnico do campeonato.

O Orfeu das pranchetas

O Campeonato Brasileiro de 2009 escreve o derradeiro capítulo do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, clássico de 1947 do irmão de Nelson Rodrigues.

O palco do épico curiosamente será o Maracanã neste domingo (6/12), no duelo entre Flamengo e Grêmio. No Maracanã, justo no estádio batizado de Mário Filho, o nome do escritor. Uma coincidência emocionante.

O protagonista é o mineiro Jorge Luís Andrade da Silva, o Andrade, ex-jogador do Mengo da geração vitoriosa dos anos 80, que formou uma das armações mais compactas e habilidosas do Brasil, ao lado de Zico e Adílio.

Andrade poderá ser o primeiro técnico negro campeão brasileiro. Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio. Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o exército foi mais justo antes.

Não há negros no comando dos nossos principais times. Existem preparadores físicos, assistentes, dirigentes. Mas nunca existiu um negro mandando numa grande esquadra, organizando taticamente o elenco, dando a palavra final sobre a escalação. É como se ele pudesse chefiar com a bola nos pés, não fora do campo. Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas. Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando a função autoral e a inteligência operística.

Mesmo depois de Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia, Didi, Garrincha e Pelé, o negro era um tabu como treinador dos maiores clubes. E pensar que a mudança demorou a acontecer nas planilhas. Dentro de campo, estava resolvida na década de 50. Segundo Mário Filho, o futebol passou por três grandes fases: 1900/1910 (elitização), 1910/1930 (exclusão de negros; Vasco é o primeiro time a adotá-los e lutar contra a discriminação) e 1930-1950 (ascensão social dos negros e liberdade racial).

Está caindo o último bastião do racismo no país. Acabaram as restrições.

Andrade é o Orfeu das pranchetas. Realizou uma revolução no vestiário, uma revolução de abrigo, só comparável à grandeza heroica de um Pelé fardado. Desde 2004, espera sua chance de efetivação no Flamengo. Já salvou o time da degola como interino, já foi suplente diante das demissões de Celso Roth, Joel Santana e Ricardo Gomes. Durante cinco anos, engoliu sapos, recompôs diplomaticamente suas frustrações e expectativas, aceitou passivamente os interesses das bolsas de valores. O folclore conta que Cuca o colocava para completar a barreira nos treinos, durante a cobrança de faltas.

Andrade é o principal personagem. Não será Petkovic ou Adriano. É ele. Com seu temperamento discreto, abalou a onipotência dos supertécnicos como Luxemburgo e Muricy, mostrando que altos salários não significam sucesso. É o gracioso urubu no meio das garças à beira do gramado. Abre passagem a uma nova geração de estrategistas das categorias de base. Indica que os responsáveis pela entressafra alcançam fartas colheitas. Não briga com a imprensa, não grita mais do que o normal, não arma segredos de Estado, não se escandaliza com as críticas. Difere do tom casmurro e embirrado de parte dos seus colegas e da histeria autoritária das estrelas de terno e gravata. Não é paranóico, não se vê perseguido e injustiçado nas coletivas. Tem samba no sangue, uma alegria mansa, um amor antigo pelas redes. É resolvido o suficiente para suportar qualquer pressão. Escuta mais do que fala. Porta-se com a audição de um juiz, longe da tradicional oratória de um promotor. Não é por acaso que faz acupuntura nos ouvidos.

Ao assumir o comando em julho, Andrade retirou o rubro-negro de baixo da tabela, conseguiu um aproveitamento de 72,5% em 17 jogos.

Mário Filho deve encontrar agora uma posição confortável no túmulo. Graças a Andrade, lavamos definitivamente o pó-de-arroz da pele.

Fabrício CarpinejarFutebol é literatura

Novos domingos

Em uma terça-feira de outubro de 2008, estava a bordo do Fandango, levando o barco no qual correria minha primeira Santos-Rio de Ilhabela para o porto de largada. Ao final daquela semana, foram seis domingos, uma boa história pra contar e uma grande frustração: não completamos a prova.
Daquela semana especial, ficou a promessa de que voltaria este ano para completar a travessia do jeito que desse. E aí, apesar do plano de correr a regata em 2009 ter sido feito ainda dentro d’água em 2008, só no meio do ano começamos a correr atrás de realizá-lo.
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Uniforme da tripulação

E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Então, antes de contar a história da regata, é preciso registrar o muito obrigado aos patrocinadores – Arapongas Tecnologia Mecânica, Ronstan e Petromais –, aos apoiadores – Sportmania e Veleiros Eventos – e ao projeto Três no Mundo, parceiro desde 2008.

1º domingo: 22 de outubro

Voltando a falar de domingos, neste ano o meu tempo disponível para a faina foi mais curto, afinal Helena chegou no dia 17 e só embarquei para Santos na tarde do dia 22. Saímos do Rio, além de mim, os comandantes Ricardo e Leonardo, e o piloto Agnaldo. Uma viagem rápida e tranqüila, com muito boa música durante todo o trajeto, boa conversa sobre assuntos tão díspares quanto as novidades do apedeuta, minhas descobertas com Helena e os planos para a regata.
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Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata

Da estrada, direto para o clube para descarregar o carro e recarregá-lo com o material do barco que não viria pela água para aliviar o peso. Finalmente, a tripulação estava toda reunida e ainda com o auxílio luxuoso da presidente Claudia e do paupratodaobra Lobo. Barco pronto, ainda havia trabalho a fazer. No hotel, hora de preparar as velas e aplicar os adesivos dos patrocinadores. Depois, um bom jantar, alguns goles de gelada devidamente rebatida com a quente e cama. Seria nossa última noite de sono em uma cama confortável, pelos próximos três ou quatro dias.
Velas prontas quase meia noite da véspera da largadaÀs 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Até aquele momento, as expectativas eram as piores possíveis. A largada foi atrasada em uma hora por falta de vento e, graças à previsão de uma enorme calmaria no final de semana, o prazo limite para os barcos completarem a prova aumentou em 24 horas, passando do meio dia de segunda para o mesmo horário de terça. Como em 2008, a promessa era ficar boiando no meio do mar por, pelo menos, dois dias e meio. O vento chegaria na segunda, com uma frente-fria que viria da Argentina.

2º domingo: 23 de outubro

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Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde

Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.

A caminho de Ilhabela, Ricardo toca o barco e Oscar trabalha nas velasNesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Cruzamos o portão às 2h49 de sábado, após 13h49m34s, na quarta posição.

3º domingo: 24 de outubro

A velejada até a ilha foi sensacional e na hora não tínhamos como saber o resultado por causa das contas necessárias para se achar o tempo corrigido. Mas comemoramos o dia excelente. Logo depois da passagem, hora de descanso para alguns. Eu fui um dos que ficou no convés e as condições da madrugada prometiam que teríamos outro dia de regata muito bom. Entramos num través aberto que nos empurrou até a Ponta das Canas (saída do canal) com velocidade média de 7 e pico de 9,5 nós. Mas aí, acabou-se o que era doce.
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Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada

Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Estávamos nos afastando da costa para aproveitar as melhores condições. Entrou uma lestada que variava entre 15 e 20 nós, contravento daqueles, com mar batido, furando onda e todo mundo na borda pra segurar o barco. O Fandango pulava mais que touro em festa do peão. E pensar que todas as previsões apontavam merreca. Na minha cabeça, só passava uma frase: “previsões são apenas isso, previsões”. Seguimos assim até pouco depois das três da tarde, nosso limite para começar a voltar para perto de terra e conseguir aproveitar o terral. O objetivo era passar pela Ilha Grande antes do amanhecer, mas como o vento caiu um pouco (outra merrequinha de dar dó durante a noite), só conseguimos chegar à Restinga da Marambaia pelas 10 da manhã do dia seguinte.

4º domingo: 25 de outubro

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Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo

Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

A virada do vento, mais uma vez, foi favorável e conseguimos manter o rumo direto para o Rio, andando no máximo 10° acima ou abaixo da linha ideal para aproveitar as melhores rajadas. E pelo início da tarde já era possível prever a chegada entre dez e meia noite. Resultados? Não tínhamos a menor idéia de como a coisa andava. Apesar da obrigação de todos os barcos informarem posições aos clubes de Santos e Rio às 8h e às 20h, as chamadas de sábado à noite e manhã de domingo não funcionou, muita gente fora do alcance (nós inclusive). Assim, você perde a noção de quem está onde, perto ou longe, no que pode dar. Estávamos mesmo felizes da vida, foi uma velejada daquelas, com direito até a banho de mar na merreca do domingo de manhã.
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Mestre Pimenta, sentado na borda

Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

Com a chuva que chegou e um ventinho social, resolvemos baixar o balão. Usando a genoa, o rendimento não mudaria muito e não molharíamos mais uma vela tão perto da chegada, mas o través foi virando popa raso e o Ricardo deu a ordem. Balão pra cima e, no vento que oficialmente variou entre 20 e 25 nós, planamos nas ondas de Copacabana a quase dez nós de velocidade. Armando tocando o barco e Ricardo e Morcegão trimando as velas, enquanto eu, Oscar e Pimenta nos segurávamos na borda para equilibrar o barco. Com a chuva e a porrada de popa, não faltava mais nada.
Nessa altura, passando entre as Cagarras e a Redonda, a previsão de chegada a partir das dez caia para algo pelas 8 da noite. Jantar em casa e ainda ver o Fantástico. Mas quem já velejou pelo Rio alguma vez sabe que nada é tão simples assim…
Ao se aproximar do canal entre a Cotunduba e o Pão de Açúcar, o vento começou a diminuir, diminuir, diminuir… Morreu. Resultado: levamos quase duas horas para percorrer o último quilômetro da regata, pouco mais de meia milha. Se não é inacreditável, certamente foi surreal. Velas batendo, todo mundo tentando encontrar o melhor ponto de equilíbrio do barco para aproveitar qualquer sopro que nos alcançasse e aquela agonia tão perto do final.
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A rota do Fandango

Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

A tripulação

Éramos seis a bordo. Para agüentar os turnos necessários para manter o rendimento do barco sempre o melhor possível, descansando o necessário, tínhamos quatro timoneiros e outros dois responsáveis pelo meio do barco. Mas todos estavam aptos a desempenhar qualquer função, claro que de acordo com as condições e a experiência de cada um.
Ricardo foi o nosso comandante. Além de ser o mais experiente a bordo, também é capaz de estar atento a cada detalhe de tudo o que acontece em volta. Impressionante. Também regulou velas, fez a secretaria e fez a proa. Contando com os pitacos de todos, dividiu com Armando – timoneiro, velas e proa – as decisões táticas.
Os outros dois timoneiros foram Pimenta e Morcegão. O primeiro, Mestre, era o responsável pelo barco, além de regular velas e fazer proa. O outro, meu comandante no Picareta, acumulou as funções de proeiro, secretário e cozinheiro. Oscar foi a bordo como proeiro, mas regulou velas e timoneou. Eu, secretário, dei minhas cacetadas nas velas, na proa e no leme.
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Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás

Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Próximos domingos

Na sexta-feira começa o 40º Circuito Rio. A Santos-Rio vale como abertura para o campeonato, ou seja, já estamos em segundo. Sobre resultados, a melhor política é fazer o mesmo que fizemos na travessia: aproveitar a velejada, o convívio a bordo e celebrar mais três domingos. Na programação, teremos duas regatas barla-sota (algumas voltas entre duas bóias) no primeiro dia, uma de percurso médio no segundo e o encerramento é uma surpresa: pode ser de um jeito ou de outro e só saberemos na hora.
Por hora, resta agradecer aos cinco grumetes que estão comigo e, como diz Seu Ricardinho, ao Maior. Sei que esse é um blog de família, mas não encontrei definição melhor: nossos domingos têm sido phoda.

Boteco 1 confirma participação na Santos-Rio

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.
A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.
Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.
A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.
Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.
A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.
Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1 (www.boteco1.com)  – ou siga o twitter @equipeboteco1 (www.twitter.com/equipeboteco1).

Fandango

Fandango

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.

A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.

Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.

A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.

Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.

A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.

Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1  – ou siga o twitter @equipeboteco1.

Lágrimas de um príncipe da bola

Coincidências interessantes podem acontecer às vezes. Há alguns dias, escrevi sobre o carregador de pianos e usei o Andrade como exemplo. E aí, naquela zona em que se transformou a Gávea, Andrade foi chamado – de novo – para carregar o instrumento, agora de um jeito diferente, claro.

À beira do campo, como técnico interino, seria o responsável por comandar o Flamengo em uma partida difícil contra o Santos na Vila Belmiro, contra um tabu histórico, contra uma fase terrível do time. E acabou dando certo, sem muitas invencionices e com o time jogando mal (de novo), o Flamengo ganhou o jogo.

Mas a cena do jogo não foi a bomba de Adriano, a defesa de Bruno ou o gol contra de Pará que nos deu a vitória. A cena do jogo, do domingo, da semana, foi o desabafo emocionado de Andrade dedicando a vitória ao Zé Carlos, o Zé Grandão, que morreu dois dias antes de câncer e com a família em dificuldade financeira.

Eu, que me tornei Flamengo por causa daquele time, que tive uma camisa com o número 6 às costas, também me emocionei no sofá da sala. Pensei em um tempo em que – além de colegas de trabalho e pelo tempo em que conviviam nos clubes sem as transferências frenéticas a cada seis meses – os jogadores se tornavam amigos, desses que cuidam uns dos outros. Mas fiquei sem saber o que escrever sobre o assunto, a cena, as lágrimas.

Hoje, dois dias depois, encontrei o texto abaixo. Quando crescer, quero escrever assim.

AndradeCraque na antevéspera do desembarque dos bilhões de dólares e euros no mundo da bola, Andrade não ficou rico, como merecia. Equilibra-se na classe média com esforço, suando a camisa no time dos remediados, no duelo agravado pela infâmia dos salários atrasados que viraram DNA no Flamengo. Em campo, era ouro puro. Cabeça-de-área como não mais existe, marcava e atacava com igual magia, um espetáculo, cereja do bolo num time de almanaque. Não teve o devido sucesso na seleção exclusivamente pela trapaça da sorte, que o fez contemporâneo de Falcão e Toninho Cerezo. Tudo bem – quem o viu com a camisa 6 rubro-negra não se esquecerá nunca mais.

Hoje, Andrade seria multimilionário no alvorecer da idade adulta, como acontece, notícia velha, com qualquer Felipe Melo. A torrente de dinheiro que inunda o futebol (que não pararia em pé diante da mais branda investigação, mas isso é outra história) veio bem depois da sua aposentadoria. E o ex-superjogador vive dias plebeus, como auxiliar-técnico rubro-negro. Quis o destino que ele tapasse um buraco no permamente bundalelê do clube justamente numa partida difícil, fora de casa, com o Santos, algoz da vida inteira.

O Flamengo, zebra total, ganhou, vitória necessária, ainda que pouco decisiva, na monotonia dos pontos corridos. Os jogadores dos dois times encenaram as respostas protocolares, alegria e frustração contidas, desfiaram as declarações de sempre, receita desenxabida de bolo na era das reações pasteurizadas. Bem no meio deste deserto de sinceridade, Andrade chorou. Menos pela vitória, nada pelo sucesso efêmero no cargo que, desambicioso, não almeja. As lágrimas nascem da emoção de quem carrega na alma a devoção pelo jogo. Brasileiramente.

Andrade não tem Hummer para passar nos cobres, não se permite tropeços em negociatas com empresários, passa a léguas de amores hortifrutigranjeiros de uma tarde ou madrugada. Hoje, observa com a sabedoria dos cabelos brancos que sobem pelas têmporas o eterno bafafá das celebridades de ocasião em que se transformam, em 15 minutos ou menos, os boleiros mais desimportantes. Constata que alguns se enrolam na banalidade de um passe, muitos não sabem chutar, quase todos são incapazes de atuações magistrais como tantas que ele encenou, ao longo da vida.

Como no finzinho do inverno de 1981, na mágica noite em que o Flamengo enfrentou, num amistoso, o Boca Juniors de Diego Maradona, no Maracanã apinhado. O então melhor jogador do mundo posou de figurante que não viu a bola – porque Andrade tomou-lhe todas. Naquela jornada, e em muitas outras pelo time mágico, conjugou a sutileza no roubar de bola com a precisão cirúrgica no jogo ofensivo, coadjuvante que merece – e leva – o Oscar.

Ontem, chorou – pelo amigo Zé Carlos, morto dois dias antes, cedo demais, cruel demais, de câncer; pela pressão que sufoca o clube, subjugado a uma interminável dinastia de trapalhões; e, sobretudo, pela ajudinha que deu ao seu time de coração. No caminhar ao vestiário e à provável volta para a sombra (já já vem outro técnico, e outro, e outro), exumou a elegância dos tempos de jogador, a sabedoria dos craques e, com o pranto de quem não tem vergonha de mostrar-se humano, a sinceridade desaparecida do futebol ultraprofissional.

Príncipe de anteontem, Andrade dá poucos autógrafos, anda pela rua sem maiores assédios, é (muito) menos paparicado do que merece. Mas entende o valor da vitória, e sabe quando ela exige que lágrimas corram pelo rosto. Chora, por ser do tempo em que se jogava por dinheiro sim – mas por amor também.

Dias que não voltam mais.

Aydano André Motta (O chope do Aydano)

Vale a pena

Vale a pena ver o vídeo até o final. Pelo inusitado de ser a única torcida organizada da vela mundial e, com o tempo, ter se transformado em equipe, temos penetração não apenas na mídia especializada. Ou seja, vale a pena investir. Esse ano, estreamos na Semana de Ilhabela (eu não estava a bordo) com o Ariel e, em uma classe com 20 barcos, perdemos o pódio na última regata. Com a disputa apertada, um belíssimo quinto lugar no final.

Antes ou depois de ver o vídeo, clique aqui, veja a apresentação e conheça nosso sonho.