Novos domingos

Em uma terça-feira de outubro de 2008, estava a bordo do Fandango, levando o barco no qual correria minha primeira Santos-Rio de Ilhabela para o porto de largada. Ao final daquela semana, foram seis domingos, uma boa história pra contar e uma grande frustração: não completamos a prova.
Daquela semana especial, ficou a promessa de que voltaria este ano para completar a travessia do jeito que desse. E aí, apesar do plano de correr a regata em 2009 ter sido feito ainda dentro d’água em 2008, só no meio do ano começamos a correr atrás de realizá-lo.
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Uniforme da tripulação

E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Então, antes de contar a história da regata, é preciso registrar o muito obrigado aos patrocinadores – Arapongas Tecnologia Mecânica, Ronstan e Petromais –, aos apoiadores – Sportmania e Veleiros Eventos – e ao projeto Três no Mundo, parceiro desde 2008.

1º domingo: 22 de outubro

Voltando a falar de domingos, neste ano o meu tempo disponível para a faina foi mais curto, afinal Helena chegou no dia 17 e só embarquei para Santos na tarde do dia 22. Saímos do Rio, além de mim, os comandantes Ricardo e Leonardo, e o piloto Agnaldo. Uma viagem rápida e tranqüila, com muito boa música durante todo o trajeto, boa conversa sobre assuntos tão díspares quanto as novidades do apedeuta, minhas descobertas com Helena e os planos para a regata.
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Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata

Da estrada, direto para o clube para descarregar o carro e recarregá-lo com o material do barco que não viria pela água para aliviar o peso. Finalmente, a tripulação estava toda reunida e ainda com o auxílio luxuoso da presidente Claudia e do paupratodaobra Lobo. Barco pronto, ainda havia trabalho a fazer. No hotel, hora de preparar as velas e aplicar os adesivos dos patrocinadores. Depois, um bom jantar, alguns goles de gelada devidamente rebatida com a quente e cama. Seria nossa última noite de sono em uma cama confortável, pelos próximos três ou quatro dias.
Velas prontas quase meia noite da véspera da largadaÀs 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Até aquele momento, as expectativas eram as piores possíveis. A largada foi atrasada em uma hora por falta de vento e, graças à previsão de uma enorme calmaria no final de semana, o prazo limite para os barcos completarem a prova aumentou em 24 horas, passando do meio dia de segunda para o mesmo horário de terça. Como em 2008, a promessa era ficar boiando no meio do mar por, pelo menos, dois dias e meio. O vento chegaria na segunda, com uma frente-fria que viria da Argentina.

2º domingo: 23 de outubro

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Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde

Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.

A caminho de Ilhabela, Ricardo toca o barco e Oscar trabalha nas velasNesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Cruzamos o portão às 2h49 de sábado, após 13h49m34s, na quarta posição.

3º domingo: 24 de outubro

A velejada até a ilha foi sensacional e na hora não tínhamos como saber o resultado por causa das contas necessárias para se achar o tempo corrigido. Mas comemoramos o dia excelente. Logo depois da passagem, hora de descanso para alguns. Eu fui um dos que ficou no convés e as condições da madrugada prometiam que teríamos outro dia de regata muito bom. Entramos num través aberto que nos empurrou até a Ponta das Canas (saída do canal) com velocidade média de 7 e pico de 9,5 nós. Mas aí, acabou-se o que era doce.
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Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada

Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Estávamos nos afastando da costa para aproveitar as melhores condições. Entrou uma lestada que variava entre 15 e 20 nós, contravento daqueles, com mar batido, furando onda e todo mundo na borda pra segurar o barco. O Fandango pulava mais que touro em festa do peão. E pensar que todas as previsões apontavam merreca. Na minha cabeça, só passava uma frase: “previsões são apenas isso, previsões”. Seguimos assim até pouco depois das três da tarde, nosso limite para começar a voltar para perto de terra e conseguir aproveitar o terral. O objetivo era passar pela Ilha Grande antes do amanhecer, mas como o vento caiu um pouco (outra merrequinha de dar dó durante a noite), só conseguimos chegar à Restinga da Marambaia pelas 10 da manhã do dia seguinte.

4º domingo: 25 de outubro

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Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo

Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

A virada do vento, mais uma vez, foi favorável e conseguimos manter o rumo direto para o Rio, andando no máximo 10° acima ou abaixo da linha ideal para aproveitar as melhores rajadas. E pelo início da tarde já era possível prever a chegada entre dez e meia noite. Resultados? Não tínhamos a menor idéia de como a coisa andava. Apesar da obrigação de todos os barcos informarem posições aos clubes de Santos e Rio às 8h e às 20h, as chamadas de sábado à noite e manhã de domingo não funcionou, muita gente fora do alcance (nós inclusive). Assim, você perde a noção de quem está onde, perto ou longe, no que pode dar. Estávamos mesmo felizes da vida, foi uma velejada daquelas, com direito até a banho de mar na merreca do domingo de manhã.
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Mestre Pimenta, sentado na borda

Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

Com a chuva que chegou e um ventinho social, resolvemos baixar o balão. Usando a genoa, o rendimento não mudaria muito e não molharíamos mais uma vela tão perto da chegada, mas o través foi virando popa raso e o Ricardo deu a ordem. Balão pra cima e, no vento que oficialmente variou entre 20 e 25 nós, planamos nas ondas de Copacabana a quase dez nós de velocidade. Armando tocando o barco e Ricardo e Morcegão trimando as velas, enquanto eu, Oscar e Pimenta nos segurávamos na borda para equilibrar o barco. Com a chuva e a porrada de popa, não faltava mais nada.
Nessa altura, passando entre as Cagarras e a Redonda, a previsão de chegada a partir das dez caia para algo pelas 8 da noite. Jantar em casa e ainda ver o Fantástico. Mas quem já velejou pelo Rio alguma vez sabe que nada é tão simples assim…
Ao se aproximar do canal entre a Cotunduba e o Pão de Açúcar, o vento começou a diminuir, diminuir, diminuir… Morreu. Resultado: levamos quase duas horas para percorrer o último quilômetro da regata, pouco mais de meia milha. Se não é inacreditável, certamente foi surreal. Velas batendo, todo mundo tentando encontrar o melhor ponto de equilíbrio do barco para aproveitar qualquer sopro que nos alcançasse e aquela agonia tão perto do final.
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A rota do Fandango

Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

A tripulação

Éramos seis a bordo. Para agüentar os turnos necessários para manter o rendimento do barco sempre o melhor possível, descansando o necessário, tínhamos quatro timoneiros e outros dois responsáveis pelo meio do barco. Mas todos estavam aptos a desempenhar qualquer função, claro que de acordo com as condições e a experiência de cada um.
Ricardo foi o nosso comandante. Além de ser o mais experiente a bordo, também é capaz de estar atento a cada detalhe de tudo o que acontece em volta. Impressionante. Também regulou velas, fez a secretaria e fez a proa. Contando com os pitacos de todos, dividiu com Armando – timoneiro, velas e proa – as decisões táticas.
Os outros dois timoneiros foram Pimenta e Morcegão. O primeiro, Mestre, era o responsável pelo barco, além de regular velas e fazer proa. O outro, meu comandante no Picareta, acumulou as funções de proeiro, secretário e cozinheiro. Oscar foi a bordo como proeiro, mas regulou velas e timoneou. Eu, secretário, dei minhas cacetadas nas velas, na proa e no leme.
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Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás

Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Próximos domingos

Na sexta-feira começa o 40º Circuito Rio. A Santos-Rio vale como abertura para o campeonato, ou seja, já estamos em segundo. Sobre resultados, a melhor política é fazer o mesmo que fizemos na travessia: aproveitar a velejada, o convívio a bordo e celebrar mais três domingos. Na programação, teremos duas regatas barla-sota (algumas voltas entre duas bóias) no primeiro dia, uma de percurso médio no segundo e o encerramento é uma surpresa: pode ser de um jeito ou de outro e só saberemos na hora.
Por hora, resta agradecer aos cinco grumetes que estão comigo e, como diz Seu Ricardinho, ao Maior. Sei que esse é um blog de família, mas não encontrei definição melhor: nossos domingos têm sido phoda.

Boteco 1 confirma participação na Santos-Rio

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.
A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.
Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.
A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.
Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.
A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.
Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1 (www.boteco1.com)  – ou siga o twitter @equipeboteco1 (www.twitter.com/equipeboteco1).

Fandango

Fandango

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.

A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.

Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.

A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.

Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.

A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.

Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1  – ou siga o twitter @equipeboteco1.

Lágrimas de um príncipe da bola

Coincidências interessantes podem acontecer às vezes. Há alguns dias, escrevi sobre o carregador de pianos e usei o Andrade como exemplo. E aí, naquela zona em que se transformou a Gávea, Andrade foi chamado – de novo – para carregar o instrumento, agora de um jeito diferente, claro.

À beira do campo, como técnico interino, seria o responsável por comandar o Flamengo em uma partida difícil contra o Santos na Vila Belmiro, contra um tabu histórico, contra uma fase terrível do time. E acabou dando certo, sem muitas invencionices e com o time jogando mal (de novo), o Flamengo ganhou o jogo.

Mas a cena do jogo não foi a bomba de Adriano, a defesa de Bruno ou o gol contra de Pará que nos deu a vitória. A cena do jogo, do domingo, da semana, foi o desabafo emocionado de Andrade dedicando a vitória ao Zé Carlos, o Zé Grandão, que morreu dois dias antes de câncer e com a família em dificuldade financeira.

Eu, que me tornei Flamengo por causa daquele time, que tive uma camisa com o número 6 às costas, também me emocionei no sofá da sala. Pensei em um tempo em que – além de colegas de trabalho e pelo tempo em que conviviam nos clubes sem as transferências frenéticas a cada seis meses – os jogadores se tornavam amigos, desses que cuidam uns dos outros. Mas fiquei sem saber o que escrever sobre o assunto, a cena, as lágrimas.

Hoje, dois dias depois, encontrei o texto abaixo. Quando crescer, quero escrever assim.

AndradeCraque na antevéspera do desembarque dos bilhões de dólares e euros no mundo da bola, Andrade não ficou rico, como merecia. Equilibra-se na classe média com esforço, suando a camisa no time dos remediados, no duelo agravado pela infâmia dos salários atrasados que viraram DNA no Flamengo. Em campo, era ouro puro. Cabeça-de-área como não mais existe, marcava e atacava com igual magia, um espetáculo, cereja do bolo num time de almanaque. Não teve o devido sucesso na seleção exclusivamente pela trapaça da sorte, que o fez contemporâneo de Falcão e Toninho Cerezo. Tudo bem – quem o viu com a camisa 6 rubro-negra não se esquecerá nunca mais.

Hoje, Andrade seria multimilionário no alvorecer da idade adulta, como acontece, notícia velha, com qualquer Felipe Melo. A torrente de dinheiro que inunda o futebol (que não pararia em pé diante da mais branda investigação, mas isso é outra história) veio bem depois da sua aposentadoria. E o ex-superjogador vive dias plebeus, como auxiliar-técnico rubro-negro. Quis o destino que ele tapasse um buraco no permamente bundalelê do clube justamente numa partida difícil, fora de casa, com o Santos, algoz da vida inteira.

O Flamengo, zebra total, ganhou, vitória necessária, ainda que pouco decisiva, na monotonia dos pontos corridos. Os jogadores dos dois times encenaram as respostas protocolares, alegria e frustração contidas, desfiaram as declarações de sempre, receita desenxabida de bolo na era das reações pasteurizadas. Bem no meio deste deserto de sinceridade, Andrade chorou. Menos pela vitória, nada pelo sucesso efêmero no cargo que, desambicioso, não almeja. As lágrimas nascem da emoção de quem carrega na alma a devoção pelo jogo. Brasileiramente.

Andrade não tem Hummer para passar nos cobres, não se permite tropeços em negociatas com empresários, passa a léguas de amores hortifrutigranjeiros de uma tarde ou madrugada. Hoje, observa com a sabedoria dos cabelos brancos que sobem pelas têmporas o eterno bafafá das celebridades de ocasião em que se transformam, em 15 minutos ou menos, os boleiros mais desimportantes. Constata que alguns se enrolam na banalidade de um passe, muitos não sabem chutar, quase todos são incapazes de atuações magistrais como tantas que ele encenou, ao longo da vida.

Como no finzinho do inverno de 1981, na mágica noite em que o Flamengo enfrentou, num amistoso, o Boca Juniors de Diego Maradona, no Maracanã apinhado. O então melhor jogador do mundo posou de figurante que não viu a bola – porque Andrade tomou-lhe todas. Naquela jornada, e em muitas outras pelo time mágico, conjugou a sutileza no roubar de bola com a precisão cirúrgica no jogo ofensivo, coadjuvante que merece – e leva – o Oscar.

Ontem, chorou – pelo amigo Zé Carlos, morto dois dias antes, cedo demais, cruel demais, de câncer; pela pressão que sufoca o clube, subjugado a uma interminável dinastia de trapalhões; e, sobretudo, pela ajudinha que deu ao seu time de coração. No caminhar ao vestiário e à provável volta para a sombra (já já vem outro técnico, e outro, e outro), exumou a elegância dos tempos de jogador, a sabedoria dos craques e, com o pranto de quem não tem vergonha de mostrar-se humano, a sinceridade desaparecida do futebol ultraprofissional.

Príncipe de anteontem, Andrade dá poucos autógrafos, anda pela rua sem maiores assédios, é (muito) menos paparicado do que merece. Mas entende o valor da vitória, e sabe quando ela exige que lágrimas corram pelo rosto. Chora, por ser do tempo em que se jogava por dinheiro sim – mas por amor também.

Dias que não voltam mais.

Aydano André Motta (O chope do Aydano)

Vale a pena

Vale a pena ver o vídeo até o final. Pelo inusitado de ser a única torcida organizada da vela mundial e, com o tempo, ter se transformado em equipe, temos penetração não apenas na mídia especializada. Ou seja, vale a pena investir. Esse ano, estreamos na Semana de Ilhabela (eu não estava a bordo) com o Ariel e, em uma classe com 20 barcos, perdemos o pódio na última regata. Com a disputa apertada, um belíssimo quinto lugar no final.

Antes ou depois de ver o vídeo, clique aqui, veja a apresentação e conheça nosso sonho.

12 mil

marcaBotecoQuanto vale um sonho? Na maioria das vezes é impossível mensurar isso.  Afinal, é bem provável que se consiga precificar o objeto do sonho, mas a sua realização e o que fica na memória depois é algo incomensurável.

No ano passado, participei da regata Santos-Rio. Conseguimos montar uma tripulação de estreantes na prova, arrumamos a grana, fomos para Santos alguns dias antes da largada para levar o barco de Ilhabela, treinar à noite, nos acostumarmos com o barco e tudo o mais. E até a largada, tudo correu maravilhosamente bem, tínhamos até chance de vitória na estréia da Equipe de Vela Boteco 1. Mas aí a falta de vento atrapalhou e, somada aos compromissos profissionais de boa parte do time, provocou nosso abandono da prova.

A história completa está aqui e, sinceramente, até hoje não aceitei bem o fato de não termos terminado a regata.

Pois esse ano vamos tentar de novo. E nessa altura, todos os amigos já sabem que Helena chegará em outubro, completa 40 semanas de gestação no dia 18 e a largada para a regata acontece no dia 23.

Pois até a Mari já falou: “mesmo que Helena nasça na véspera,  você está liberado, pode ir que eu dou conta e não vou ficar sozinha. Mas se for, é pra terminar, não importa quanto tempo leve.”

E eu que já passei até pela fase de sentir culpa só por imaginar deixá-la com Helena recém nascida, relaxei e entendi que pequenas coisas como participar de uma regata tem a ver com o legado que deixamos por aqui quando nossa história termina.

A questão é mostrar para nossos amigos, família, filhos e, principalmente, para nós mesmos, o quanto é importante (ao menos tentar) realizar os sonhos. Não importa a dimensão dele.

Todas as contas feitas, tripulação já sabe que só pode entrar nessa sem ter que voltar correndo, só falta a grana. Entre aluguel do barco e todas as outras despesas, 12 mil reais.

Quantia relativamente pequena até o outro dia para um patrocinador, levando-se em conta o público envolvido e o trabalho de assessoria que faríamos para dar visibilidade ao nosso benfeitor. Mas aí inventaram uma crise que está aí desde o ano passado e que assusta todo mundo, atrapalhando a percepção de que patrocínio é investimento, não é gasto.

Daí que estamos tentando arrumar o dinheiro. E lembrei das propagandas antigas que o Juca Chaves fazia quando estava em cartaz com seus shows: “ajude o Juquinha a comer caviar”. Então, inspirado, peço aos amigos que passarem por aqui e que puderem ajudar de alguma forma com um bom contato, uma dica ou algo assim: ajudem o Gustavo a encontrar um patrocinador. O projeto está pronto e muito bem feitinho, fácil marcar uma reunião ou enviar o arquivo por e-mail.

Como tem bobo no futebol…

Além de todos nós que continuamos acompanhando e torcendo pelos nossos clubes de coração, é fácil perceber que, no futebol brasileiro, só tem bobo. Ainda não acredita?

Vamos começar com o Cruzeiro, semi-finalista da Copa Libertadores da América. Recebeu o Barueri em Belo Horizonte. Jogo fácil, claro. Afinal, o time mineiro é apontado como um dos melhores do Brasil e o clube do interior paulista é pouco mais que um time de empresários, sem história e recém-chegado da segunda divisão. Resultado: Cruzeiro 2 x Barueri 4.

Outro exemplo? O Santos recebeu o Atlético Mineiro (autêntico cavalo paraguaio) na Vila Belmiro. Saiu na frente e levou a virada do novo líder do campeonato, com um time que é comandado pelo Diego Tardelli, um atacante que nunca deu certo em clube nenhum em que jogou. Para completar a festa, o maravilhoso árbitro Djalma Beltrami – que tem um extenso currículo de cagadas – acabou o jogo antes da hora (nesse lance, contou com o auxílio luxuoso do quarto árbitro), voltou atrás e ainda anulou um gol legítimo do Santos, o que gol que daria o empate ao time da casa.

Se não bastasse os episódios da Vila, as arbitragens exemplares desse Brasil varonil ainda fizeram das suas nos jogos Santo André X Sport e Atlético Paranaense X Palmeiras. Nesse, Obina finalmente conseguiu o que sempre tentou em quase todos os jogos em que ele esteve em campo e assisti: um gol de bicicleta. Graças ao bandeira infeliz que viu um impedimento inexistente, o folclórico baiano não conseguiu comemorar sua obra prima.

No clássico paulista, o São Paulo levou uma traulitada do Corinthians e o Muricy Ramalho foi demitido. Na saída, acusou Cuca (técnico do Flamengo) de ligar para a diretoria são paulina se oferecendo. Rapidamente, o sujeito negou que o tivesse feito com frases do tipo “nunca liguei nem para desejar feliz aniversário…”. Pois o presidente do clube paulista, Juvenal Juvêncio, deu uma entrevista hoje dizendo que o Cuca ligou sim, mas não para se oferecer e, sim, para pedir conselhos de como enfrentar o caldeirão da Gávea e suas crises intermináveis. Algo natural, pois são grandes amigos.

De quebra, o Tite (técnico do Internacional) nem foi citado na confusão mas se meteu mesmo assim, dizendo para o Muricy não generalizar, dar nome aos bois etc. Muita gente acha (eu, inclusive) que ele se antecipou a uma possível demissão pela perda da Copa do Brasil para o Corinthians e pela perda da liderança do Brasileiro, pois em sua cabeça seria certo que Muricy faria pressão para voltar ao time gaúcho, onde ganhou o Brasileirão 2006.

E com essa bagunça toda, um monte de time chinfrim e eu ainda perco tempo escrevendo sobre o tema. Viu como é fácil provar que ainda tem muito bobo no futebol? A começar por mim.

Os domingos e o vento

“Que domingo é hoje?” A primeira vez que um de nós fez essa pergunta, estávamos – eu, Armando, Sérgio e Pimenta – a aproximadamente sete nós de velocidade, mais ou menos às dez da manhã de terça-feira, fazendo a travessia entre Ilhabela e Santos. Estávamos a bordo do Fandango, o veleiro no qual a Equipe Boteco 1 – faria sua primeira participação na Regata Santos-Rio.

Seríamos sete tripulantes, sete estreantes na regata oceânica mais tradicional do Brasil. A história dessa participação começa agora, em uma espécie de diário de bordo.

1º domingo: terça-feira, 21 de outubro

Na verdade, o início foi na segunda à noite, embarcando com o Armando para Ilhabela. Chegamos a São Sebastião às seis da manhã e fomos direto para balsa que nos levaria à ilha. Tempo fechado e muito vento. Leste. Apesar do tempo ruim, vento favorável para a travessia de 60 milhas (mais de 110km) até Santos.

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela (foto: Pimenta)

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela (foto: Pimenta)

Pimenta já estava a postos no píer da balsa, pescando enquanto nos esperava. Enquanto isso, Sérgio já fazia os últimos preparativos a bordo do Fandango. O objetivo era sair o mais cedo possível para chegar ao Iate Clube de Santos (que fica no Guarujá) com dia claro. Deixamos a poita e motoramos até o final do canal. Pouco mais de 20 minutos.

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou…

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou…

Velas em pé, o sol apareceu e eu aproveitava para conhecer o barco, entender seu comportamento, suas reações. Durante a viagem, conseguimos manter velocidade média próxima de sete nós. Com o balão em pé – por um bom tempo com armação trisail -, o barco voava e tivemos pico de 9,6 nós (18km/h).

Na chegada a Santos, velas pra baixo e motor para entrar pelo canal que leva ao maior porto do Brasil e ao clube. “Porta a porta”, 10 horas. Do clube direto para o hotel e o encontro com a presidente para nosso primeiro jantar. Pergunta daqui, pergunta dali, tem um restaurante logo ali. Depois de seis quadras, encontramos as portas fechadas e acabamos voltando para o restaurante que fica em frente ao hotel. Depois de comer, cama.

Por enquanto, a previsão para o final de semana da largada era de vento a favor, variando entre 6 e 8 nós.

2º domingo: quarta-feira, 22 de outubro

Acordei por volta das 9h, com o ronco do Oscar. Ele chegou ao Guarujá às 6h30 e foi direto para a cama. Quando eu e Armando abrimos os olhos, ele já estava dormindo e nós nem o vimos entrar no quarto. Nosso objetivo ao chegar a Santos três dias antes da largada era treinar e nos acostumar o máximo possível com o barco.

Nossa manhã foi meio burocrática: dar entrada no clube, fazer a inscrição, ler a instrução de regatas e conferir todas as exigências. Algumas delas não eram cumpridas pelo Fandango e tratamos de resolvê-las. Liga para o Rio para providenciar alguns itens e outros detalhes, corre na farmácia pra montar o kit de primeiros socorros, acha um capoteiro para fazer uma linha de vida… Enfim, correria total.

Nossa programação para o dia era o treino noturno. Como não achamos um lugar legal para almoçar, resolvemos comer no clube. PQP!!!! A pedida foi bife a cavalo para quase todos. Recebemos um “bife à pônei”… E depois do lauto almoço que não deu nem pra tapar os buracos dos dentes, todos a bordo.

Auto-explicativo (tem hífen?)

Auto-explicativo (tem hífen?)

Saímos do clube quase às cinco, ainda com muito sol e um calor da porra. Lá fora, merreca. Mesmo assim, com o secretário (eu) e os dois proeiros (Oscar e Pimenta) no barco, começamos a realizar as manobras: camba para um lado, camba pro outro, sobe balão, desce balão, jibe pra lá e pra cá, pilling de genoa. Com dia claro e escuro. Já quase às nove, começou a ameaçar chuva. E como não precisávamos molhar o barco à toa nem arriscar pegar uma gripe, sobe o balão e toca para o clube.

No início do dia, a previsão ainda indicava vento a favor durante todo o final de semana, variando entre 4 e 5 nós. À noite, começamos a enxergar a merreca…

3º domingo: quinta-feira, 23 de outubro

A manhã da véspera da largada nos trouxe mais um tripulante e um monte de outras tarefas. Mas nossa preocupação era o vento. Ou a falta dele. A previsão que vimos enquanto tomávamos café da manhã transformava a ameaça de merreca em certeza. Ao mesmo tempo, nos dava uma esperança: lá fora, longe de terra, uma pequena (muito pequena, na verdade) frente subia a costa e podia nos empurrar para o Rio. Se conseguíssemos estar onde deveríamos na hora certa, teríamos grande chance de brigar até pela vitória.

Igor nos encontrou no clube. Agora só faltavam Humberto e Morcegão. Saímos para treinar logo cedo, pois precisaríamos fazer as compras para abastecer o barco na parte da tarde. Ficou acertado que o jovem estoniano de Campinas faria a secretaria, alternando os turnos comigo. Aproveitei para deixar ele trabalhar bastante e se acostumar com a função. Se todos eram estreantes na regata, o caso do Igor era mais grave, pois só tinha velejado duas vezes na vida. É ou não uma bela maneira de começar de verdade?

Na água, tudo normal e depois de três horas e meia, voltamos para o clube. Da estrada, recebi uma ligação:
– Bom dia meu secretário!
– Cadê você comandante?
– Cambando pra comissão…

Aqui é bom abrir um parêntese antes que vocês me imaginem tomando notas ou sentando no colo do chefe. A secretaria (ou o meio do barco) é de onde desembocam e se regulam todos os cabos do barco, com exceção das escotas. Fecha parênteses.

Última refeição em terra: Boteco 1

Última refeição em terra

Paramos para almoçar no boteco na porta do clube. Santa comida da mamãe!!!! Arroz, feijão, salada, ovos, farofa e carne que não acabava mais. Morcegão chegou a bordo da viação La Torre, pouco depois da nossa presidente, coordenadora e única operária da nossa equipe de terra, ClauPenPen. Para encerrar com chave de ouro nossa concentração para a prova, 20 garrafas sobre a mesa.

O que e quanto comprar?

O que e quanto comprar?

À tarde, supermercado e abastecimento do barco. À noite, nossa extraordinária com as presenças dos sete tripulantes (Humberto chegou!), Armando (que nos treinou e correu no Viva), La Torre e Helô, Claudia, Clícia e Guta, e Nio. Estávamos prontos.

4º domingo: sexta-feira, 24 de outubro

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar. Foto do Jorge Somers.

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar (foto: Jorge Somers)

É hoje!!! Teve gente que dormiu mal. Teve gente que acordou no meio da madrugada, como se já estivesse fazendo turno embarcado… Ansiedade e adrenalina é assim mesmo. Chegamos cedo no clube e encontramos o redivivo Jorge Sommers, que foi nos dar um abraço e deixar sua energia boa. Últimos preparativos, embarque e toca pra linha de largada.

A previsão era a mesma. Muita merreca e toca pra fora pra tentar encontrar aquela pequena frente… A tripulação consultou três sites e ainda confirmou tudo com nosso navegador, que estava afundado em mapas e previsões em sua base de BH.

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos (foto: Marcio Finamore).

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos (foto: Marcio Finamore).

Largamos com um ventinho até razoável e, com média de quatro nós de velocidade, andamos umas 25 ou 30 milhas. Comandante Sérgio fez questão de que todos a bordo timoneassem pelo menos meia hora, para se acostumar com barco. Fui o último da série e anoiteci no leme. Como gostei da brincadeira, fui ficando até o vento e o dia acabarem. Aí…

5º domingo: sábado, 25 de outubro

Nosso sábado começou, na verdade, quando o vento acabou cerca de uma hora depois do anoitecer de sexta-feira. Como disse, o Sergio fez com que todos timoneassem o barco por, pelo menos, meia hora após a largada. Eu fui o último e anoiteci no leme. Pra mim, tudo era novidade. Nunca velejei no leme em regata. Raramente, voltando para o clube ou indo para a raia. E agora, já estava levando o barco de dia e de noite.

Sinceramente, não fiquei preocupado se estava fazendo bem ou mal, apenas tratei de aproveitar a chance de aprender mais alguma coisa.

Era mais ou menos 9 da noite, quando o vento parou de vez e pedi para alguém me substituir. E se falo que o sábado começou nesse momento é porque ficamos a noite e o dia inteiro praticamente boiando. De vez em quando, conseguíamos velejar por uma ou uma hora e meia, ficando parado por mais três ou quatro.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.

Alguns momentos podem ilustrar o que aconteceu. Durante a noite, boiávamos de tal maneira e as velas batiam tanto de um lado para o outro que chegamos a baixar a genoa por duas vezes, para poupá-la. A outra curiosidade foi um estranho bate-papo entre a tripulação e um pingüim. Estávamos fritando sob um sol inclemente, sem vento algum que nos desse uma esperança, quando o pobre coitado passou por nós, levantou sua cabeça e nos cumprimentou. Pra quê? De repente, os sete estavam em uma animada conversa, falando fluentemente o pingüinês…

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida…

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida…

Tínhamos a promessa daquela pequena frente que entraria no final da manhã. Mas ela não veio. E depois de passar o dia inteiro praticamente sem vento e sob o sol forte, conseguimos renovar nossas esperanças. Já passava das sete da noite, o dia já começava a escurecer, quando o Pimenta olhou pra trás e disse “acho que vai entrar…”.

Junto com uma brisinha, chevou um chuvisco e algumas ondas. Dava pra ver que as nuvens estavam aceleradas, então era questão de tempo. Começamos a nos organizar. Só três em cima, os outros quatro na cabine. Eu estava no leme outra vez… Casaco, cinto de segurança e lá vamos nós. O vento chegou e o Pimenta, com o GPS em punho, começou a cantar a velocidade: 3,5; 4,2; 4,8; 5,2; 5,5; 5,9; 6,1; 6,4 nós!

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.

Estávamos em contravento e aos poucos o ‘Fandanguinho’ foi adernando. Da cabine, Morcegão surgiu todo pimpão, pronto para usar pela primeira vez a roupa de tempo que, no Rio, não sai do armário. Quando chegamos aos cinco nós, o batcomandante ia soltando a grande quando o Pimenta gritou “Nããããããããããooooooo Morcegão!!!! Ainda falta muito pra ficar difícil”. Lá embaixo, mais um foi a barla para equilibrar o barco enquanto as ondas iam subindo. Todos pensávamos: “agora vai, vamos chegar no Rio”.

Tudo isso durou dez, talvez 15 minutos. De repente, o vento parou de novo e o céu estava absolutamente estrelado… Foi-se, com o vento, nosso fio de esperança.

6º domingo: domingo, 26 de outubro

Às dez da noite de sábado terminou a reunião. Os sete no deck. Fui voto vencido e ligamos o motor. Depois de pouco mais de 34 horas e 62 milhas percorridas (pouco menos de um terço do percurso), o Fandango ligou o motor. Já se passaram duas semanas e ainda não me conformo em não terminar a travessia, mesmo que não chegássemos dentro do tempo para classificar. Regata tem hora para começar e não tem hora para acabar. Estou frustrado até agora, acho que vou ficar assim até a largada do ano que vem…

Estávamos a 75 milhas da costa (139 km) e motoramos por 14 horas em direção a Angra dos Reis. Tentamos comunicar a desistência imediatamente, mas como o rádio não respondia, só conseguimos fazê-lo às oito da manhã.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Por volta do meio dia, na entrada da baía de Angra, ficamos sem combustível e sem vento, mas conseguimos ajuda de um casal de pai e filha, argentinos a bordo do veleiro Paraná. Nos deram dois litros de diesel e foi a conta. O motor morreu na hora de atracarmos no posto de gasolina.

Na marina, arrumamos o barco, tomamos banho, almoçamos e, pelas quatro da tarde, a tripulação se separou. Morcego, Igor, Humberto e este que vos escreve seguiram para o Rio de carro. Sergio, Pimenta e Oscar trouxeram o barco para o Iate Clube, sede do Circuito Rio que disputaríamos no final de semana seguinte.

Elucubrações e outros domingos

No Circuito – felizmente – beliscamos o pódio. Foram mais três domingos especiais. Terminamos em terceiro e, pela terceira vez, o Boteco 1 levou um troféu pra casa. A tripulação do Circuito foi comandada pelo Ricardo ‘Amigo do Lodão’ e formada por Pimenta, Oscar, Lulu (sexta), Morcegão e Alfeu (sábado). Eu também estava lá.

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento (foto da galeria do ICRJ no Picasa)

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento (foto da galeria do ICRJ no Picasa)

Primeiro e segundo colocados foram indiscutíveis. E a briga pelo pódio, com Star Treck e Calamar Rio, uma delícia. Apertada até a linha de chegada da última regata. Dessa vez nós ganhamos. Da próxima, quem sabe. Vai importar, sempre, estar satisfeito por velejar quando chegarmos ao píer.

É claro que velejar com esses caras é algo sensacional. Seu Ricardo é, mesmo quando calado, uma aula de vela ambulante. A amizade entre todos é de emocionar. Eu, não tenho do que reclamar. Apesar de não termos terminado a Santos-Rio, aprendi muito. Sérgio, assim como Ricardo, é um grande professor.

Também não posso deixar de agradecer o patrocínio do SuperCarioca.com, o apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e a parceria do projeto Três no Mundo.

Por hora, beijos e abraços a quem de direito. Ano que vem, a largada será no dia 23 de outubro, por volta do meio dia.

Os subúrbios e Santos-Rio

gabeirabrac3a7osEstava mesmo com saudades de escrever. Algo que não seja trabalho, que fique claro. E quase dois meses e meio sem pingar alguma coisa por aqui é muito tempo. Fruto da rotina do emprego e trocentas outras circunstâncias. Por conta disso, já aviso e peço desculpas pelo tamanho do texto.

Nesse tempo todo, se alguma coisa me deixou exasperado é a discussão suburbana que tomou conta da campanha para prefeito do Rio. Voto no Gabeira e declarei isso aqui assim que sua candidatura foi confirmada. E a foto que abre esse post nos mostra, Mariana e eu, em frente à Central do Brasil, no último sábado, quando fomos a uma caminhada em favor do (tomara!) futuro prefeito e que terminou com a doação de sangue do grupo em favor de quem quer precise.

Esse pequeno grupo – pouco mais de 50 pessoas – era formado por jovens e idosos, casais e solteiros, suburbanos e não-suburbanos. E aqui chegamos ao ponto.

Gabeira disse que a vereadora Lucinha tinha uma visão suburbana sobre a questão do aterro de lixo de Paciência. Será que só eu entendi que esse ‘suburbana’, nesse caso, foi usado como antônimo de cosmopolita? Partindo do princípio que não sou mais ou menos inteligente que ninguém, será que estou louco?

Não pretendo escrever um tratado sobre o conceito de suburbano, da sub urbe. Mas para mim ficou claro: não se pode ter uma visão local, limitada, restrita sobre algo que afeta toda a cidade, toda a sociedade: sub urbe, urbe e polis.

Talvez tenha escrito de maneira simples demais, simplória mesmo (e se houver filósofos, sociólogos e antropólogos de passagem por aqui, queiram corrigir e/ou acrescentar). Mas agora quero deixar de tergiversar e olhar para o Rio, para o meu Rio.

Nascido e criado em Vila Isabel (o melhor bairro do mundo!), já morei na zona sul, voltei à Vila e, hoje, estou na Tijuca. Aprendi que subúrbio, por aqui, é bairro onde passa o trem. Assim, temos os subúrbios da Central e da Leopoldina. E o resto é zona (norte, sul e oeste) e Centro.

Pois o Joaquim Ferreira dos Santos escreveu hoje no Globo sobre algo que é absolutamente real no Rio: a alma suburbana não se restringe aos bairros do subúrbio. Permeia toda a cidade. E a estamos perdendo. Coincidência ou não, hoje meu vizinho me pediu a escada emprestada. Vocês têm noção de há quantos anos algum vizinho não me pedia algo? Há quantos anos eu não peço um favorzinho qualquer a um vizinho?

De certa forma, perdemos um bom bocado dessa alma. Se você acha que não, pense sobre quantas vezes você disse ao menos um bom dia para o seu vizinho de porta (não vou nem perguntar por aquele que mora dois andares abaixo de você). Pense qual foi a última vez que você bateu um bom papo com o jornaleiro ou o padeiro. Qual foi a última vez que você ficou de papo, no botequim da esquina, com gente que você só conhece de vista porque, afinal, mora no mesmo bairro?

Então existe duas coisas a tratar: a alma suburbana carioca, que precisa existir e ser estimulada, e a visão suburbana, que nenhum de nós pode ter. Pois meus caros, para apenas começar a tentar resolver os problemas do Rio, precisamos entender que vivemos numa metrópole, em pleno século 21, e precisamos pensar soluções que estejam de acordo.

Agora, suburbano mesmo, é descontextualizar a coisa de tal maneira que tudo seja visto como preconceito. É usar e abusar dessa visão torta na campanha. Porque, assim, a cidade segue partida e mal administrada.

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fandango0002Hoje à noite parto de viagem para São Sebastião, de onde atravessarei de balsa para Ilhabela amanhã bem cedo, de onde velejarei para Santos a bordo do Fandango. Hoje começa uma semana especial, em que estarei realizando um sonho: correr a regata Santos-Rio, a mais tradicional travessia oceânica do Brasil.

Seremos sete a bordo do barco de 31 pés (pouco mais de 10 metros de comprimento), representando a Equipe Boteco 1, patrocinados pelo SuperCarioca.com, com apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e em parceria com o projeto Três no Mundo.

Será a primeira de quase todo mundo e não temos a pretensão de grandes resultados. O objetivo é participar, aprender e realizar o sonho. Depois disso, vamos tentar a Recife-Fernando de Noronha do ano que vem. E, quem sabe um dia, Cidade do Cabo-Salvador.

A largada da regata será às 12h15 de sexta e vamos antes para treinar e conhecer o barco. Serão 190 milhas (pouco mais de 350km) de vento em popa, segundo as previsões para o próximo final de semana. Se forem confirmadas, nossa previsão de viagem gira entre 30 e 36 horas. Se não, Deus sabe. A intenção é estar aqui no domingo, a tempo de votar.

Torçam por nós.