Crônica de sexta-feira (21)

Lewis Hamilton foi o líder do primeiro dia de treinos em Melbourne / Foto: Clive Mason/Getty ImagesSabia que o Rodrigo não me deixaria na mão hoje, logo hoje. E o ‘ufa’ dele é sinceramente igual ao meu, ao do Zé, do Ricardo, Luiz Octavio, Davi etc etc etc. e eu poderia ficar fazendo uma lista quase infinita só dos meus conhecidos que esperavam por esse fim de semana pelo mesmo motivo. Gente que passou a última madrugada ou boa parte dela assistindo 22 carros darem voltas no circuito australiano só pra tentar entender o que, como e quanto mudou tudo.

Coisas dessa primeira noite, dois treinos livres, que anotei relevantes ou simplesmente gostei:

– depois de uma pré-temporada pífia, todo mundo dava a Red Bull e Vettel como descartados para o ano. Pois ontem o sujeito ficou só a 0,7s do líder. Estou curiosíssimo para ver a diferença na classificação e se conseguem terminar a corrida. Se conseguirem confirmar a pouca diferença em velocidade e terminarem em boa posição, começarão a temporada europeia em alta e brigarão pelo título. Newey não é Newey à toa e ninguém é tetracampeão por acaso;

– acho que vou na contramão da maioria, mas gostei do ronronar dos novos motores de mãos dadas com o silvo (inspirado, inspirado…) do turbo;

– os pachecos que só estão preocupados em torcer por um brasileiro não gostaram dos resultados da Williams. Culpa da expectativa criada e da falta de explicação da vênus platinada e suas afiliadas. Primeiro é preciso entender que o time não será uma nova Brawn, mas vai sim brigar por boas posições e até vitórias. Ninguém se deu conta que Massa e Bottas fizeram long runs, com quase o mesmo número de voltas e pneus completamente diferentes. É o acerto, tolinho;

– Alonso já está tentando engolir Kimi desde já. Só não sei o finlandês está preocupado ou se vai entrar nessa pilha. Pelos pneus que usou e o número de voltas que deu, desconfio que estava mais preocupado em acertar a F14T para a corrida;

– Lewis largará na pole, Rosberg vencerá a prova;

– foi lindo ver os carros rabeando a torto nas retomadas. Viva o torque!

– Kobayashi merecia mais;

– a pintura da Williams ficou mais bonita na foto do que no vídeo;

– tiraram a Lotus da tomada?

– piada do dia: “Guessing @MassaFelipe19 was shaken, not stirred by that trip on the rocks”, da Lotus no Twitter sobre uma imagem de Massa rebolando numa zebra. Se você não entendeu, é porque não assitiu tantos filmes de James Bond quanto deveria.

E chega. Vamos à leitura que interessa.

A vida volta ao planeta terra

Ufa! Terminou o longo, tenebroso e detestável período anual de ausência de vida, de emoção, de tristeza, de sensação de um vazio chato, incômodo, feio e outros adjetivos piores. Todo ano é a mesma coisa, alguém precisa mudar isso, não pode continuar assim. Nós, humanos, não merecemos isso, ninguém merece sofrer assim, todos os anos, por semanas e semanas.

Nós, aqui nos trópicos, não podemos fazer muita coisa e eu estou contribuindo, faço a minha parte, dedicando uma sexta-feira a este assunto e, se não me engano, não é a primeira vez que escrevo sobre isso. O título “A vida volta ao planeta terra” é simplesmente muito mais que a pura verdade, a mais sincera realidade para mim e para tantos outros cidadãos comuns, em tantos países mundo afora, cada um do seu jeito e do seu modo, mas todos, tenho certeza, aliviados, a partir de hoje, pelo fim do citado período negro e início de mais um tempo florido, belo, emocionante, cheio de vida, motivante, incentivador, exemplar.

A alegria é contagiante, a emoção nos faz arrepiar, todos os sentidos se manifestam ao extremo e às vezes a gente até perde o controle, o corpo e a mente não aguentam, mas isso faz parte do jogo. Se não fosse assim, seria rotina sem graça. A adrenalina faz parte do nosso organismo e de vez em quando penso que o liquidificador que temos dentro da gente deve mesmo dar umas boas sacudidas.

Então, homens, mulheres, crianças, idosos, papais, titios, mamães, vizinhos, sobrinhos, primos e amigos, rejuvenecei-vos, pois 2014, de fato, a partir de agora, nos traz de volta à vida que tanto gostamos, que tanto batalhamos para conquistar, que nos dá tanto prazer, que proporciona aquele brilho nos olhos, os sorrisos de propaganda de dentifrício, os pulos incontidos, as batidas fortes e às vezes exageradas do coração. Agora, sim, voltamos a nos orgulhar por sermos seres humanos, vivendo na graça e plenitude desta benção que Deus nos deu, que é a vida e que, apesar de tanta coisa tentando atrapalhar, a gente, no fundo, sabe que nada, nada pode impedir a nossa incessante busca pela felicidade, pelo amor, pela bondade. Viva! Hip hip urra! Começa mais uma temporada da Fórmula 1!!!!!!!!

Rodrigo Faria

A trilha de hoje não poderia ser outra: George Harrison.

 

Anúncios

Crônica de sexta-feira (20)

Montanhas

MatterhornA inspiração da crônica de hoje surgiu de forma inesperada, por um email que minha filha Junia enviou-me. “Você vai gostar”, escreveu ela. Não só gostei como imediatamente escrevi o texto abaixo, que ficou bem diferente dos outros, mas mesmo assim penso que vale. Diferente por que escrevi pouco e, pela primeira vez, uso recursos de terceiros, via internet, youtube ou seja lá o que for. Sexta-feira moderna, esta. Vocês verão que as palavras terão importância reduzida, as imagens é que irão falar por si.

Um fato que marcou a minha infância – depois ficou fácil constatar que marcou a minha vida inteira e ainda marca –  foi assistir, no Cine Pathé, o filme “O terceiro homem da montanha”, uma produção americana, de 1959. A partir das imagens que vi, eu cresci imaginando subir em todas as montanhas do mundo. A história do filme não foi tão importante para mim, mas a partir daquelas imagens, eu, sem modéstia alguma, me senti legitimamente como as pessoas que vivem fotografando, escalando, pintando, conhecendo, sonhando, caminhando, acampando, admirando e sempre pensando nas montanhas. Até escalei algumas, caminhei em outras, visitei muitas, felizmente. Resumindo, durante toda a minha vida a montanha ocupou lugar de destaque no que diz respeito à admiração da natureza, de aprender os riscos e, principalmente, de saber que somos pequenos demais em relação à elas. Quando estive em Banff, Canadá, com a Junia, fiquei super emocionado, pois é lá que existe uma instituição que se dedica, exclusivamente, ao estudo das montanhas. Algo como Centro de Estudos da Montanha, em português. Tenho que voltar lá um dia.

Tanto é assim que determinei, por vontade própria, que uma montanha seria a minha montanha. Matterhorn, em Zermatt, na Suíça, passou a ser a minha montanha. Só minha. Sim, pode até ser pela sua imagem nas embalagens de toblerone. Mas é muito mais que isso. O seu formato, lindo, de frente para o leste, pontiaguda, alta (4.478 metros), sempre me fascinou e eu sempre dizia: ainda vou nesta montanha. Não só fui como, antes, meus filhos a visitaram, por vontade minha mais que as deles. E já fui duas vezes, pois tive o privilégio divino de realizar o sonho que imaginei aos pés da Matterhorn, quando a vi pela primeira vez: tenho que trazer o Beto aqui! Beto, para os leitores menos chegados, é a minha alma-metade, mais montanhista do que eu, pois é geólogo. E fomos lá, sim. Após as visitas dos filhos, eu e Margareth visitamos Zermatt no inverno de 2004, se não me engano. E alguns poucos anos depois, em plena primavera alpina, lá estava eu, Junia, Beto e sua mulher, Isabel.

Pois é. Vamos deixar que as imagens e os recursos tecnológicos finalizem a crônica de hoje, apenas reforçando que: as montanhas são demais e a minha montanha é única, linda, maravilhosa.

Rodrigo Faria

Crônica de sexta-feira (19)

Carnaval

FantasiasVocês conseguem pensar em um momento mais brasileiro que o carnaval? Calor de verão, alegria, feriados (por tradição e religião), eventos ao ar livre (em sua grande maioria), sambas, fantasias e, principalmente, a ‘coisa’ mais brasileira que existe: gente das mais diversas raças, cores, culturas, classes sociais, idades, sexos e suas variáveis, todas com o objetivo de se divertir. Infelizmente uns poucos estão preparados para outras coisas, mas não vamos, pelo menos hoje, destacar pontos negativos do período momesco que tanto aprendemos a gostar.

Penso realmente que o carnaval é uma das mais fiéis definições da brasilidade e fico muito feliz quando vejo, leio ou ouço que os blocos de rua estão se organizando, os sons automotivos estão sendo proibidos em muitas cidades no interior, o festival de marchinhas no Rio de Janeiro é um sucesso, os desfiles de escolas de samba continuam como grandes destaques turísticos e culturais, e a sociedade ainda fica cada vez mais alerta aos abusos.

Deve e tem que ser assim. Esse período de descanso e isolamento para alguns, e muita agitação para outros, não pode ser caracterizado por coisas desagradáveis. E cabe a cada um de nós fazer a sua parte, esperando que as outras partes também cumpram as suas obrigações, ainda que isso possa parecer pura fantasia.

E por falar em fantasia, eu – que adoro vestir uma e sair por aí – dou minha contribuição aos leitores que talvez ainda estejam em dúvida sobre o que vestir neste carnaval. Seguem dicas para algumas fantasias inéditas e espetaculares, podem acreditar:

Engov (ou Engove, como queiram)
Vista um lençol meio amarelado/prateado, com umas pinceladas de azul, e carregue uma placa de papelão, onde se leia: Já tomou? Não? Então tome!

Homem bomba
Deixe a barba crescer, vista uma túnica, calce chinelos franciscanos, enrole tubos de papelão imitando dinamites e cole-os num grande cinto ao redor do seu corpo. Mas não se esqueça de identificar cada uma das bombas, de um modo que todos possam ler seus nomes: paz; amor; lixo na lixeira; chocolate; se beber, só de táxi; mulher do outro… É do outro (o mesmo para as moças, por favor); endereço e telefone (nessa você coloca uma cópia da identidade e comprovante de endereço, só por segurança). Diga que vai explodir as bombas durante todo o ano de 2014.

Rede social
Enrole-se numa rede de dormir pequena, fácil de carregar, nada daquelas pernambucanas, enormes. Escreva ‘social’ numa faixa e a coloque na cabeça. E você estará pronto para milhares de contatos. Pode ter também uma folhinha de papel pregada no peito: ‘é só clicar aqui’.

Apagão
Vista uma roupa inteiramente negra, até a cueca ou calcinha. Pinte o seu rosto de preto, transforme-se num verdadeiro breu ambulante. Carregue uma lanterna com o recurso de luz intermitente, só pra chamar um pouco mais de atenção.

Por último, nosso gran finale, a fantasia que fará o maior sucesso. No seu carnaval e no dos outros:

Ingresso da Copa do Mundo no Brasil
Vista uma roupa que você usaria pra ver um jogo de futebol e carregue uma bola que possa parecer a oficial do torneio. Armazene comida e bebida para todo o período, tranque a porta e feche as cortinas de todas as janelas de sua casa e… Pronto!!! Não saia nem ouse aparecer nas janelas até as 12h de quarta-feira de cinzas. Não atenda o telefone, não use a internet, não responda se alguém te procurar. Você não existe, é peça de ficção científica, é só uma imaginação de alguns torcedores.

E um bom carnaval a todos.

Rodrigo Faria

E a trilha sonora? Clique aqui. Um clássico e tantinho de liberdade poética sobre o Brasil de hoje e de amanhã.

Crônica de sexta-feira (17)

Aquela coisa de Facebook. A turma posta, a galera compartilha e chega a você, mesmo que não conheça quem contou a história. Essa aí embaixo foi publicada por Carolina Raro Schimidt. Já não sei mais se foi na terça ou quarta ou sei lá quando. Mas quando recebi o texto do Rodrigo, foi impossível não lembrar dela.

Trocador gentilNão sei infelizmente seu nome, mas esse trocador – junto com o motorista que não pude fotografar – forma uma dupla sensacional! Minha viagem começou na praia do Flamengo às 12h45, aonde eu fiz sinal para o ônibus 107 (Central-Urca). Gentilmente, o cobrador pediu para eu entrar pela porta de deficiente. Não entendi muito bem, mas obedeci. Logo depois, subiu uma cega. O motorista só andou quando o trocador se certificou que a senhora estava sentada e bem. Logo depois, perguntaram onde ela ficaria e, assim, seguiram seu percurso. Sempre pedindo pras pessoas entrarem pela porta de deficiente, pois a principal estava quebrada. Mesmo com o transtorno, seguiram viagem tranquilos, felizes, não deixavam de dar boa tarde e se desculpar pela porta quebrada uma vez se quer, além de serem extremamente pacientes com os idosos que demoravam mais pra subir pela outra porta. E simpáticos. Quando a senhora cega perguntou o segredo de tanta hospitalidade e bom humor aos dois, o motorista respondeu: “minha senhora, de estressante já basta o trânsito e o calor. De que adianta eu ficar de cara feia? Eu quero mais é felicidade!” Por fim, deixou a senhora em frente ao local desejado, independente de ser ponto, e coincidentemente onde também desci. Os dois esperaram ela entrar no local e seguiram. Fiquei assistindo aquela cena com o coração muito surpreso e feliz! Mesmo sem ar condicionado, mesmo sem lugar pra sentar, saí daquele ônibus leve e sorridente!!!! Incrível como um pouco de simpatia, bom senso e cidadania é capaz de contagiar pessoas de um ônibus inteiro, que automaticamente ao saírem dele, agradeciam e desejavam aos dois tudo de melhor. OBRIGADA senhor motorista e senhor trocador, vocês são um exemplo de seres que muitos humanos deviam ser!!!!!!!! TUDO DE BOM À VOCÊS!

E o nosso colaborador compulsório de quase todas as sextas mandou esse aqui.

Utilidade pública

Lá vai mais uma crônica que pode ser classificada como utilidade pública, até parece uma reportagem, pois trata-se de tema urbano, comum a todos nós, cidadãos metropolitanos.

É que eu decidi que não posso ficar guardando, só pra mim, algumas ideias, algumas iniciativas que penso em colocar em prática, mas não coloco. E quem sabe, escrevendo, tornando-as públicas, alguém pode abraça-las e tocar o barco pra frente. Outras ideias ainda manterei em segredo, por enquanto, mas, quem sabe, aos poucos, vou divulgando-as, pensando sempre no bem comum, no bem público, sentimentos tão raros hoje em dia, principalmente naquelas pessoas que foram designadas pela sociedade para justamente pensar, planejar, criar, implementar, acompanhar e controlar assuntos de interesse de todos, social, do cidadão.

Transporte coletivo urbano, este é o assunto e vou direto revelar minhas imaginações, nem todas idealistas, utópicas, pelo contrário, algumas bem práticas e realizáveis. Como vocês todos bem sabem, se o transporte coletivo melhorar, muitos carros deixarão de circular com uma pessoa. É uma conclusão óbvia e, acredito, unânime. Então, o que podemos propor aos órgãos que cuidam do transporte coletivo, aos vereadores, aos secretários, aos empresários, aos prefeitos e a quem mais de direito? Muita coisa, né, e da minha parte escrevo logo.

– ônibus com piso baixo: por que dois ou três degraus pra entrar no ônibus?

– roleta: parece um obstáculo a ser transposto, uma barreira. É preciso redesenhá-la, torná-la mais confortável para o passageiro.

– acabar com o trocador: calma, sindicalistas, não quero tirar o emprego de ninguém, pelo contrário. Todos para a sala de aula para treinamentos de gentileza urbana. A passagem deve ser paga com cartão, para segurança e conforto de todos. O trocador passa a ser um auxiliar, informando o itinerário, os pontos de parada, os horários. E dando algumas informações turísticas e sobre hospitais, escolas, empresas, conexões com outras linhas e, é claro, cobrando a passagem daqueles desavisados que não sabiam, que não leram e não foram informados que a passagem só pode ser paga com cartão. Este auxiliar pode, também, ficar em alguns pontos, ajudando os usuários.

– ar condicionado: é óbvio demais, né?

– pontos finais: acomodações simples mas dignas para os motoristas descansarem. Afinal, eles têm uma responsabilidade enorme, conduz pessoas!!!!! Uma salinha, uma água, biscoitos… Quem sabe uma massagem? É sonhar demais? Então um jornal pra ler e uma TV pra ver um pouco do futebol ou o noticiário geral.

Tudo isso não é pra ser feito de uma vez, por decreto. Impossível! Vamos escolher uma empresa-piloto e fazer as experiências. Vamos convidar os fabricantes de ônibus e conversar, vamos nos reunir com associações de bairros e moradores e trocar ideias. Cada um, com certeza, pode e deve contribuir, pois eu acredito que o interesse e a responsabilidade é de todos. E todos podem sair ganhando.

Meu(inha) prezado(a) leitor(a), se você conhece alguém que trabalha com transporte coletivo, conhece alguém que pode dar uma abrangência maior a este conteúdo, por favor, fique à vontade. O meu maior desejo é apenas contribuir para minimizar este problema crônico das metrópoles. Lá em cima está escrito: gentileza urbana. Sou louco por esta expressão, que eu conheci num jornal afixado num ônibus. O jornal é da BHTrans, órgão que cuida – ou descuida – do caótico e inexplicável trânsito da minha querida roça grande.

Gentileza urbana é o princípio básico para alcançarmos muitas soluções que todos nós precisamos urgentemente. É coisa séria, trata-se da qualidade de vida de todos nós.

Gentileza urbana. Como cidadão, jornalista, relações públicas e tentando ser cronista semanal, procuro fazer a minha parte, com a ferramenta que mais posso usar: as palavras.

Rodrigo Faria

Ah, quase esqueço da trilha sonora. Atenção para a vinheta de abertura, tudo a ver com o tema de hoje.

Crônica de sexta-feira (16)*

Taí, nosso cronista habitual encarnou um clima um tanto Pollyanna hoje. Não tiro sua razão não. A gente anda tão aporrinhado com tantas coisas sérias e não tão sérias o tempo todo, e ainda é bombardeado com mais um monte bobagens todo dia, toda hora. Um tantinho de jogo do contente só vai fazer bem, no final das contas.

Pra completar o conjunto da obra, pra passar bem a sexta-feira, um disco inteiro do Big Bad Voodoo Daddy, uma banda do sul da Califórnia que revisita (com muita competência) o swing. Dica do Ron Groo.

Coisas úteis e inúteis

PollyannaO ano começou com muitas notícias fúnebres, de pessoas famosas (é claro, pois do contrário não seriam notícias). Acidentes, fatais ou não, com desportistas, atores e outros menos cotados. É sempre triste ver que foi embora uma pessoa pública, que com o seu trabalho fez a nossa vida melhor. Mas também é muito triste ver tantos jovens anônimos morrendo em acidentes de trânsito, assaltos, brigas, festas e por aí vai, jovens que ainda poderiam se tornar pessoas públicas e, quem sabe, aumentar a lista daqueles que fazem a nossa vida melhor, repetindo. E devemos lamentar, também, por tudo o que poderia fazer a nossa vida melhor e não aconteceu. Mas também devemos lembrar que os vivos, os que estão por aí, inclusive aquela pessoa que você vê no espelho, também pode fazer a sua vida ficar melhor.

Longe de querer dar receitas de como viver, como melhorar a sua vida e a dos outros, nesses dias de hoje, eu constato facilmente que tem muita coisa atrapalhando a gente, né? Tem muita coisa ruim, chata, imprestável, feia, inútil, pesada, mal cheirosa, sem sabor, escura, complicada, que não precisava estar no nosso dia a dia. Nem vou repetir textos que já foram escritos sobre embalagens, imprevistos, coisas esquecidas etc. Mas é certo que temos convivido, nos últimos tempos, com tantas coisas de existência duvidosa, ou, pelo menos, de utilidade duvidosa para o nosso dia a dia, para a nossa tão desejada e necessária vida melhor a cada dia.

Faça uma pausa na leitura e pense um pouco. Se tiver tempo, pegue um pedaço de papel, um lápis ou uma caneta, e anote algumas, aquelas que rapidamente chegaram no seu pensamento. Creio que terei uma chance muito grande de acertar que você anotou algo como vizinhos chatos, sapato apertado, pernilongo, telefone ocupado, engarrafamento, irresponsabilidade, agora também denominada de manifestação, violência de todo tipo, ser mal atendido em qualquer situação, pagamento de impostos e taxas, problemas com operadoras de telefonia, aeroporto brasileiro, controle remoto, grande irmão (me recuso a escrever o nome, em inglês, daquele programa de TV) e por aí afora.

Pois é, realmente tem muita coisa desnecessária. E, infelizmente, não temos, na maioria das vezes, como eliminar o que não precisamos. E, aí, minha sugestão é: conviver com o que não queremos, não precisamos, não gostamos, “fingindo” que tais coisas não existem e, se existem, não estamos nem aí pra elas!!! Quase correta e real esta afirmação. O problema é que elas estão aí pra gente, insistem em nos importunar, não é mesmo?

Por isso, entre outras razões, é que às sextas-feiras (quase todas) envio uma crônica. Faz bem e eu gosto de escrever, desejando, sinceramente, que após a leitura de cada texto você possa rir, lembrar de coisas boas, planejar uma coisa agradável, tomar uma atitude em favor de si mesmo e/ou de alguém que você gosta, fazer acontecer aquele fim de semana bom demais, encontrar um amigo, passear com o cachorro, ver seu time ganhar, e tantas outras coisas que são boas, gostosas, acontecem e existem apenas para nos alegrar, pra mostrar que, apesar das coisas ruins ao nosso redor, a nossa vida ainda é, simplesmente é, uma coisa muito boa, que sob nenhuma condição, deve ser desprezada.

Então, só me resta repetir que hoje é sexta-feira, amanhã é sábado e depois vem o domingo, veja quanto tempo você tem pra fazer só aquilo que gosta, que faz bem pra você e aos seus. Olha só, vem aí o carnaval, não é hora de ficar por dentro dos sambas e enredos das escolas do Rio? Não é o momento pra ver se ainda tem alguma fantasia guardada e que sirva em você? Que tal planejar um encontro de amigos que não irão viajar e só ficar ouvindo aquelas músicas boas, daqueles tempos de salão? Sair pra rua num bloco e se divertir até… O carnaval é só um exemplo de tantas coisas boas que temos em nossas vidas e, com certeza, será tema de uma crônica, brevemente. Pode aguardar.

Rodrigo Faria

*Será que nasce mais uma tradição centenária no cafofo? A crônica de sexta, agora, vem com trilha sonora? Gostei da ideia. E sugestões são sempre bem vindas. claro.

Crônica de sexta-feira (14)

Imprevistos

Eu costumo dizer que a única rotina no meu trabalho é o imprevisto. Mas vamos logo sair do ambiente de trabalho, até por hoje ser uma sexta-feira, e tratar de escrever sobre outros contextos em que a imprevisibilidade está sempre diante de nós.

Foto: Mariana Alcantara GomesDor de barriga daquelas, na rua, no carro ou no ônibus? Chuva, de repente? Esqueceu o celular ou os óculos de leitura em casa? E o nome dessa simpática pessoa que está conversando com você há alguns minutos, como um amigo íntimo, mas nada do nome aparecer na sua memória? Esqueceu uma das dezenas de senhas necessárias ao seu dia a dia? Está no exterior e esqueceu como é o nome daquele prato que recomendaram justo no restaurante em que você está? Furou o pneu? Pneu de carro ainda fura? Que coisa mais atrasada! Não comprou a ração do bichinho de estimação? Que pena, dê pão com ketchup pra ele, faz muito bem.

Vocês hão de concordar comigo que a nossa vida moderna é cheia de imprevistos, alguns até nos preparamos para enfrentar, mas nem por isso eles deixam de ser identificados como imprevistos. Deu pra entender? Um exemplo: cadê aquela porcaria de documento que eu coloquei aqui e agora não está mais aqui??!! Você grita com você mesmo, com colegas, familiares… Apenas um exemplo, dentre tantos que podemos lembrar.

Ôpa! Não se lembra de nenhum outro exemplo assim tão facilmente? Isso é sinal de uma memória já com passaporte, visto e passagem (só de ida) para visitar aquele alemão ou então você é demais, com você não tem esse negócio de imprevisto, tá tudo no lugar certo, tudo organizado, tudo o que precisa na memória e se um imprevisto acontecer, não será nada, você rapidamente soluciona a situação e segue em frente!!! Legal, né?

Não, nada disso. Imprevistos podem causar problemas e dificuldades, mas também podem tornar a vida mais divertida, mais alegre. E eu, como filho de ‘paiaço’ que sou, fico com essa segunda opção. Já repararam como é gostoso ficar forçando a memória a lembrar disso ou daquilo? Não é ótimo nem dormir pensando no nome daquela música, do filme que você adorou, ganhou até Oscar, com aquele artista bonito, que também trabalhou com aquela moça linda, noutro filme que chama… Aaahhh, que raiva!!!

A memória e o imprevisto andam juntos, cada um aprontando pra cima da gente, todos os dias, sem avisar, e, repito, eu curto demais as situações às vezes embaraçosas, outras vezes hilárias mas, sempre, nos ensinando como é boa a nossa vida. E quando a situação não é nada graciosa, sabem o que eu faço depois do acontecimento? Esqueço! “Tudo passa, tudo sempre passará”, cantaram Lulu Santos e Nelson Ned.

Então é isso, viva as confusões memoriais imprevistas do ser humano. E as previstas também. Parodiando o grande poeta português, “imprevisto é preciso; sem confusão, a vida não é precisa.” (Como é mesmo o nome dele?)

Finalizando, na última sexta-feira, dia 17, não teve crônica por causa de um imprevisto.

Rodrigo Faria

Crônica de sexta-feira (13)

Tomate, abacaxi, maçã, sucos de uva, limão e laranja

KetchupO título da crônica de hoje tem uma importância enorme para mim, mas deve significar quase nada para a maioria dos leitores. Ele descreve, integralmente, o que consta na minha alimentação rotineira, além de arroz, carne, queijos, massas e a delícia das delícias: o ketchup. Como??? E o resto???

Sei muito bem que esta informação não é novidade para muitos que me conhecem um pouco mais, mas acredito que outros ficarão surpresos: feijão, legumes, outras frutas, raízes e tudo o mais que a TV a cabo apresenta naqueles programas de cozinha… Não, nada disso eu como. Nunca comi, não tenho vontade de comer. Por que não??? Não gosto!!! Como não gosta, já provou??? Não, não provei e nem consigo provar!!! Como assim???

Segue uma tentativa neurológica de explicação: o meu cérebro, ao notar que alguma coisa diferente do que já foi citado está se aproximando da minha boca, aciona imediatamente três comandos. O primeiro, para o olfato: “isso é ruim, já sentiu algum cheiro pior?” É claro que é difícil comer algo que não cheira bem. Tem gente que come, mas eu não. O outro comando, tão importante e forte como o primeiro, é para o paladar: “já sentiu o cheiro horrível disso, né? Agora imagine o gosto. Nem tente!!! Não presta!!!” E o terceiro e fulminante comando cerebral é para a consciência: “se você nunca comeu isso até hoje, porque vai comer agora??? Pra quê??? Tá morrendo de fome no deserto??? Tá no hospital??? Não tem que comer isso não!!! Se está com fome, pegue um pão e taca ketchup nele!!! Que delícia, hein?!?!? Hein?!?!?”

Tá entendido? Então, é por isso que não canso de falar com os meus que os meus órgãos devem ser doados para alguma instituição de ensino da medicina (e o restante cremado), pois acredito que além dos comandos cerebrais, o meu organismo, muito obediente, desenvolveu algo incomum, pois a minha saúde não é tão má assim, excetuando-se a incrível capacidade de criar hérnias.

Estou no ano dos 60 e tenho IMC que me caracteriza como “obeso mórbido”. Se eu escrever que não tô nem aí, é mentira. É claro que me preocupo e já estou em plenos esforços para perder peso, sem nenhuma obsessão. E quanto ao meu cérebro, vou continuar convivendo bem com ele, pois se tantos não cansam de me falar que a minha alimentação é horrível, fraca, sem graça, prejudicial à saúde etc., eu simplesmente digo que sou feliz comendo o que como. E o que vai acontecer com a minha saúde daqui pra frente é problema, antes de tudo, meu, assim como as consequências, sejam positivas ou não.

E como hoje é sexta-feira, a minha massa cinzenta superior já começa a sinalizar que, após o trabalho, é o momento para uma cervejinha, queijinhos, pãezinhos avermelhados, carninhas, tomatinhos, tudo isso no diminutivo, pois a escrita também faz parte da estratégia de redução. Pra quê escrever cervejada, churrascão, tábua de frios? Não, não. Mirem-se no exemplo de minhas letras, não das minhas ações. Pronto! Taí um novo slogan, que quer dizer algo mais ou menos assim: leiam-me e vivam felizes, fazendo das sextas todos os demais dias da semana.

Rodrigo Faria