I'm Shocked / Foto: Artur Braz

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Foto do dia: Artur Braz

Estive aqui pensando uma maneira de acabar com essa paz insuportável (4)

A história das UPP, a ocupação da Rocinha, a prisão do Nem… Tudo isso acabou chegando ao ponto do entrevero doméstico depois de pequenas discordâncias mais do que pacíficas no almoço de domingo.

Discordâncias baseadas na minha falta de crença na política adotada, com invasões de favelas transformadas em entretenimento – não tenho a menor dúvida de que houve muita gente sentada em frente à TV durante todo o dia da ocupação da Rocinha e Vidigal com baldes de pipoca a tiracolo. Afinal, é tudo espetáculo.

No almoço, enquanto alguns teciam loas à coisa toda, encerrei dizendo que voltaríamos a falar sobre o assunto em 2020. Torco e rezo, sinceramente, para estar errado sobre isso tudo. Mas…

É um tanto óbvio que há algo de muito errado por aí. É bastante claro que todo o carnaval está preocupado em atender expectativas ligadas aos grandes eventos que vêm por aí, Copa e Olimpíadas.

Há alguns dias, publiquei aqui que não conseguia me convencer com as explicações sobre o episódio da prisão de Nem. Cheguei a ouvir de amigos que eu era maluco, que gostava de procurar pêlo em ovo. Pois é muito bom me dar conta de que não sou o único maluco.

Hoje, depois de umas boas semanas sem visitar o blog do Lúcio de Castro, encontrei novo texto. Brilhante. Porque, além de boa análise e certa dose de informação, deixa no ar uma belíssima pergunta, no mínimo constrangedora: somos mesmo teleguiados e ninguém questiona nada?

Abaixo, trecho do texto publicado no dia 17 de novembro. Vale, também, ler este aqui, de quase um ano atrás, que o próprio autor cita.

Na mesma noite, a mesma polícia federal intercepta outro comboio, como o primeiro: de policiais militares e um carro. Um carro que furou o cerco das revistas na Rocinha, sob a alegação dos policiais, justificando que não revistaram ali porque “iriam conduzir o veículo a uma delegacia”. O tal comboio segue. Novamente, como na parte da tarde, um efetivo da polícia federal intercepta o tal comboio. Ao abrirem a mala, lá está o bandido Nem. O curioso é que nem mesmo diante da oferta de suborno, segundo a versão de quem fazia parte do comboio, os policiais que estavam antes da chegada da PF tiveram a curiosidade de abrir a mala. Claro que, diante de tal oferta de suborno, já não havia porque respeitar qualquer imunidade diplomática. Se queriam subornar, era porque algo errado existia. Mas só a PF teve a curiosidade de abrir a mala.

Um tanto estranho

Sei que já passou faz tempo, que já foi mais do que explicada e tal. Mas até hoje, ainda acho que a prisão do Nem foi uma história muito da mal contada. Do advogado que se apresentou como cônsul honorário do Congo ao policial civil de Maricá, passando pela presença da imprensa… Não consegui me convencer com as versões apresentadas.

Foto do dia: 446 anos

Sem hipocrisia

Há poucos dias escrevi sobre o cacete que é ter que se adaptar, ou melhor, sucumbir à ditadura do politicamente correto. Que no final das contas, acaba escondendo um monte de coisas que deviam, na verdade, estar superexpostas e gerando discussões. Aí, logo depois de mais uma confusão de Adriano (que apesar de ter todos os seus problemas e hábitos mais do que conhecidos, teve espaço no Fantástico para negar várias coisas, abrir seu sorriso etc etc etc), aparece um vídeo de Wagner Love circulando em um baile funk na Rocinha, devidamente escoltado por traficantes.

Apesar de uma série de detalhes que acho tristes no episódio (não se pode esquecer que é uma figura pública e alguém que pode servir de exemplo bom ou ruim), uma coisa me agradou: a entrevista do artilheiro do amor, dizendo o óbvio, sem sequer alterar voz ou fisionomia. E aí, passeando por aí, visitei o Urublog e encontrei o texto abaixo, com o qual concordo da primeira à última letra, incluindo minha desconfiança e, até, insatisfação com a contratação do moço pelo Flamengo.

Em 1970 e uns quebrados, Pete Townshend, gênio que um dia será lembrado como Ludwig Van Beethoven e Amadeus Mozart, escreveu a ópera-rock Quadrophenia, uma espécie de obra pós-Tommy, o tal rapaz que não enxergava, não ouvia e não falava, uma parábola de uma juventude do pós-guerra, sem expressão, marginalizada, e que de repente é “libertada” por uma contracultura do fim dos anos 60, à base de ácido, maconha, bebida, sexo e revistinhas suecas. Quadrophenia, musicalmente, mostra um The Who mais amadurecido, ainda que Tommy tivesse no setlist alguns de seus eternos hits, como Pinball Wizard, Eyesight to the blind e We’re not gonna take it.

Em Quadrophenia, Jimmy, o personagem principal (bem descrito na magistral “Doctor Jimmy”) é apenas uma face de um esquizóide, uma esquizofrenia quádrupla, como diz o nome-trocadilho. O personagem Jimmy se mostra em quatro versões, todas elas reflexos dos mods farristas dos subúrbios de Londres: o cara de cintura dura, metido a machão, derivado do cantor Roger Daltrey, o mela-cueca inspirado no hoje falecido John Entwistle, o louco – como sempre – inspirado em Keith Moon, e o hipócrita, que Townshend baseia no seu próprio cinismo. Para o perfil cínico, Townshend comete uma das mais belas músicas da história do rock universal: Love reign over me.

Love reign on me é a resposta de Pete a sua própria hipocrisia. “Eu preciso de um drinque da mais pura água fria”, canta, ao fim da música. “Only Love/Can make it rain/The way the beach is kissed by the sea”, anuncia, no início. Somente Love pode fazer chover do jeito que o mar beija a praia, meus amigos.

Love, que reina, não em mim, mas sobre nós, é a resposta não de Townshend, mas, 40 anos depois, é a resposta rubro-negra à hipocrisia que parece ter tomado conta de nossa grande imprensa e também de nossa pequena mentalidade. Reparem que, à maneira de um mod bagunceiro, Love é irascível porque confia em seu próprio poder. Tem o romantismo dos que desconhecem a própria mortalidade. Não é um quadri-esquizofrênico – muito pelo contrário. Como dá o sangue pelo Flamengo, como se esforça dentro de campo, não vê a necessidade do cinismo. Somente o amor que ele desperta no legítimo rubro-negro pode fazê-lo ter o poder de não mentir. De não ter frases feitas. De não invocar um Deus mais relativo do que absoluto. Love reina no camarote da avenida, e diz que está lá bebendo cerveja. Reina no baile do tráfico e admite, sim, tem gente armada, todos vocês sabem disto e para quê eu iria ser o hipócrita de negar?

Nunca fui grande fã e nem fui um dos defensores de sua contratação a qualquer custo. Mas a cada dia que passa o cara manda melhor. Além de jogar com muita raça e amor ao Manto Vagner Love tem se mostrado um rubro-negro de primeira categoria. Com papo sempre reto, sem adotar posturas politicamente corretas pra agradar à opinião púbica Vagner Love sempre manda a real sem ficar se protegendo atrás de Deus, a palavra mais vulgarizada pela boleirada profissional. E digo mais: até onde se sabe, mesmo bebendo sua cerveja ele nunca faltou ou se atrasou a um treino na Gávea.

O atual caso em que tentam enquadrar o artilheiro é sintomático: a Rocinha é pródiga em políticos, vereadores, deputados, gente do Executivo, filhos de gente rica, artistas, todos ali felizes. Um famoso rapper já apareceu em um documentário da TV inglesa com fuzis ao fundo, já teve até ministro no mesmo espaço ocupado pelos caras do “movimento” – tudo isto em nome do comício.

Vagner Love é sim, marginal. Mas porque está à margem desta sociedade quadri-esquizofrênica, que hora defende o romantismo do bandido, ora manda a polícia subir e executar sem julgamento. É marginal porque não fala no Deus que volta e meia está na boca dos que querem sempre 10 por cento – ou na boca de quem doa grana todo mês para pastores presos.

É marginal porque assume seus gostos, paixões, e não porque descumpre a lei.Vagner Love, em campo, é sim, mainstream, porque faz o que se espera de um jogador de futebol. Talvez vire alternativo, já que quase todos estão correndo da raia. Love, não: o time tá com 10? Vamos correr atrás com 10. No dia seguinte, é direito dele beber a cerveja que ele paga com dinheiro do próprio bolso. E é direito – e dever – dele não MENTIR.

Talvez nós estejamos cada vez mais nos encaminhando para um sistema, uma sociedade, em que mentir seja necessário. Aí, o amor não reina. O que manda é a esquizofrenia dos julgamentos relativos e sem júri.

Love, reine sobre nós.

Gustavo de Almeida