Galeão ou Cumbica

Levantando-voo-e1460306680878Esse papo de redes sociais é mesmo um barato. Ao menos na maioria das vezes. Foi assim que conheci a Camila, que compartilhou o texto do Sergio Pugliese com a seguinte observação: “Para quem é empresário, né?”.

Com a rede, nos descobrimos. Ela já tinha ouvido falar de mim, eu já tinha ouvido falar dela. Moramos relativamente perto um do outro, tivemos oportunidades, mas nada de nos encontrar. E ficou aquela “amizade” via livro de caras, nos falamos algumas vezes e tals.

E um dia, muito por acaso, nos encontramos na frente da empresa em que trabalhava e para a qual eu estava prestando um serviço. Encontro rápido, pouco mais que um reconhecimento mútuo com ar de finalmente, “que legal”, “até que enfim” etc.

Pois há algumas semanas, poucos meses, ela foi saída da tal empresa onde – até onde sabemos – ia muito bem, feliz, com resultados, camisa mais que vestida etc e tals. Chegamos a nos falar, vamos colocar a rede pra funcionar e tentar resolver. Mas que nada, ela foi uma das que deu no pé e aterrissou na terrinha.

Talvez ela tenha razão. Ao menos tenho certeza que tem as razões dela.

E como sabemos, não é a única. Alguns outros amigos se mandaram, vários na verdade. Não só para Portugal, mas vários pra lá. Outro, irmão, vai na semana que vem. Fora uma família de novos amigos de infância que, ele já está e elas partem nesta semana.

O texto do Pugliese é lindo, no melhor clima “não vamos desistir da batalha jamais”. Sei não…

Eu mesmo já pensei na possibilidade de me mandar, pra qualquer lugar. Ainda que não seja pra fora do Brasil, basta ser fora do Rio, da rotina e do abandono da cidade. E não, não é apenas um caso de apenas mais divulgação em tempo real como ele diz no texto. Está pior, muito pior. Mas tenho as amarras que me prendem (e das quais não quero me soltar). Filhas, família, amigos, amor…

Enquanto isso, ainda há uma pergunta que meu pai me fez há alguns dias que não sai da minha cabeça: “você toparia ir trabalhar em Porto Seguro com a fulana?”. A resposta na hora foi “claro que sim”. Afinal já são três anos sem um emprego formal, fazendo frilinhas que quase nunca pagam as contas, dependendo da ajuda da família. E ainda que seja maravilhoso ter uma família capaz de dar o suporte que preciso, não é nada fácil viver assim. Não mesmo.

Mas tenho as amarras… E acreditem, é um sofrimento tentar equilibrar tudo isso.

Hoje, aproveitando o gancho da própria Camila, tento fazer andar minha própria empresa. A Tapa Digital, que graças ao Brasil, suas dificuldades, burocracias e custos, ainda vive na esfera da iniciativa, e nasceu com três amigos de décadas na mesma situação. E estamos engatinhando. É verdade que pouco mais rápido que os passos de um cágado, mas vamos indo.

Será que criei mais uma amarra ou será que, como diz o Ricardo, “nosso trabalho está na nossa cabeça e na ponta dos nossos dedos, vai com a gente pra onde a gente vai”. Não sei responder, de verdade.

Mas o que vejo por aí, andando por aí e conversando muito com todo mundo que posso, é que há um desânimo avassalador, um clima geral de desistência. Com a cidade, com o estado, com o país. Vejo a turma de cabeça baixa e me sinto dando murros em pontas de facas.

Não tenho as respostas. Mas sei que se pudesse carregar minhas filhas e meu amor, dava no pé agora, hoje. Amigos e família dão sempre um jeito, visitas, encontros, as redes. E mesmo que eu não consiga ou não possa dar no pé, tento me estruturar para preparar as mocinhas para voarem o quanto antes. E digo e penso e sinto tudo isso com uma tristeza profunda.

Reza a lenda que a frase é de Roberto Campos, que “a saída para o Brasil é o aeroporto do Galeão ou Cumbica”. Ouço isso desde criança. E foram tantos anos de lutas, de sonhos, de tentativas que em alguns momentos até pareceram estar no caminho certo. E pronto, voltamos a ouvir e até a pensar assim.

Sim, ando triste. Muito. Decepcionado, desanimado, frustrado. E não vejo bons sinais, o horizonte anda curto. Sim, tentamos, insistimos, “vamos dar um tapa na vida”. Será?

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Bobinho…

Oswaldo de Oliveira

Uma das coisas mais legais do campeonato carioca que foi muito ruim e terminou no último domingo foi a entrevista do Oswaldo de Oliveira ainda no campo, logo depois da partida. Algo como “já ganhei títulos mais relevantes, não seria um profissional realizado sem ganhar um carioca. Porque esse é o campeonato da minha infância, em que eu aprendi a amar o futebol”. Memória afetiva é isso aí.

Também sou apaixonado pelo carioquinha. Além de freqüentar o maior e mais belo do mundo, andei atrás do Flamengo pela Rua Bariri, Moça Bonita, Ítalo de Cima, Caio Martins, Ilha e Conselheiro Galvão. Também vi jogo do América no Andaraí. E sinto saudade, claro. De tudo. Especialmente de um Carioca bom de verdade.

Mas no modo como o calendário do futebol brasileiro está já há algum tempo, os estaduais, de forma geral, se transformaram em estorvo para os clubes. Começam muito cedo, sem permitir que haja uma pré-temporada decente, e ainda dá prejuízo.

Assim, num momento de ócio, decidi resolver os problemas do mundo. Ok, dá um desconto. Resolvi fazer uma sugestão para enxugar e tentar melhorar o nosso querido campeonato.

Nas três divisões do estado há 56 clubes inscritos, 20 da capital e 36 do interior (Niterói e Baixada incluídos). Além disso, o campeonato da série A ocupa (ao todo, com semifinais e finais de turno e final) 21 datas. Para fazê-lo em apenas 11 datas, cerca de um mês e meio a menos, bastaria dividir os clubes entre capital e interior e realizar as taças Guanabara e Rio simultaneamente. Na prática, quase uma volta à situação antes da fusão.

Fórmula 1ª divisão

Nas duas taças, oito clubes (bastaria fazer uma combinação entre os melhores colocados das duas divisões atuais para montar a tabela) divididos em dois grupos de quatro.

Na capital, sorteio dirigido com dois grandes em cada grupo. Jogos de ida e volta dentro do grupo (6 rodadas); os dois primeiros de cada nas semifinais em jogo único e cruzamento olímpico com vantagem do empate para os primeiros colocados; final da Taça Guanabara em dois jogos.

No interior, sorteio simples para a formação dos grupos ou uso da classificação deste ano para a divisão dirigida (1-4-5-8; 2-3-6-7). E aplica-se basicamente a mesma fórmula de disputa. Nas semifinais, ao invés do empate a vantagem seria o mando de campo. Na final da Taça Rio, o mandante da segunda partida seria aquele com a melhor campanha.

A final do campeonato seria em dois jogos entre os dois campeões, com mando de campo no último jogo para o clube de melhor campanha considerando todos os jogos anteriores.

Seriam rebaixados os últimos colocados de cada grupo das taças Rio e Guanabara.

Fórmula 2ª divisão

A estrutura seria a mesma da primeira divisão. A diferença seria o número de clubes, 12 ao invés de 8. O finalistas das taças Rio e Guanabara subiriam para a primeira divisão. O campeonato teria duas datas a mais e seriam rebaixados apenas os dois últimos da taça Rio.

Fórmula 3ª divisão

Devido ao número de clubes, apenas a Taça Rio teria a terceirona. Seriam 16 clubes divididos em quatro grupos de quatro. Com jogos ida e volta, classificam-se os dois primeiros da cada um. O cruzamento para as quartas de final seria igual ao da Libertadores: o melhor primeiro enfrentando o pior segundo, em jogo único, e assim sucessivamente, com mando de campo para os de melhor campanha. Com a final em dois jogos, também seriam necessárias 13 datas, como na segundona. Os dois finalistas sobem.

Valor

Ao contrário do que pode parecer numa primeira olhada, ao contrário de segregacionista como alguém pode pensar, esse formato faria bem a todos os clubes. Na capital, clubes tradicionais que se apequenaram seriam fortalecidos, pois poderiam captar mais e melhores patrocínios pela exposição de mais qualidade e também entrariam no bolo dos direitos de transmissão.

O mesmo vale para os clubes do interior. A certeza de disputar dois títulos (Taça Rio e Estadual), o que hoje não ocorre (ou acontece muito raramente), aumentaria o poder de barganha. Além disso, poderiam negociar de forma independente os direitos de transmissão com as várias emissoras (afiliadas das grandes ou não) que há no interior.

De quebra, seria bom para as comunidades, bairros de subúrbio de cidades pequenas. Haveria, sem dúvida, ganhos de auto-estima do morador/torcedor local. E tanto clubes como patrocinadores poderiam desenvolver ações específicas. A roda gira.

Mas

Alguém lembrará, claro, que são muito poucos jogos para os clubes médios e pequenos, especialmente para aqueles que não participam da Copa do Brasil ou de qualquer série do Brasileirão. Afinal, para que existam, é preciso mantê-los em atividade, gerando receita.

Acreditem, há muitas possibilidades para resolver o problema. Mas há que se pensar um pouco mais e, assim de sopetão, eu já resolvi o problemaço que é o estadual. Então é bom que mais alguém tenha idéias

Pensando bem…

…é melhor deixar pra lá. Afinal de contas, o jogo político e de poder dos nossos cartolas, principalmente da federação, é muito mais importante do que racionalizar o campeonato e potencializar seus ganhos. De mais a mais, não dá nem pra imaginar que os quatro grandes se uniriam, apesar das divergências, para propor e bancar algo assim. Além disso, sou só um profissional de comunicação que não entende nada. Bobinho…

Arte gráfica

Poster oficial da Copa do Mundo de 2014 / Divulgação FIFAAí está o cartaz ou pôster oficial da Copa de 2014. Gostei. Muito. Das cores, dos detalhes que marcam cada região do país, do mapa do Brasil construído em meio a uma disputa de bola.

Sempre fui muito fã de cartazes e pôsteres de eventos esportivos, cinema e teatro. Sinto mesmo falta de ter paredes enormes em casa, que eu pudesse decorar com eles.

Enfim, faltam 498 dias para começar a farra (sem contar a Copa das Confederações, neste ano). Todos sabemos das armações e roubalheira em torno do evento e das obras de preparação e tal e coisa. Seria fabuloso ver o Ministério Público atuar nestes casos como fez no julgamento do mensalão.

Também sabemos que boa parte dos estádios construídos (Cuiabá, Brasília, Manaus e Natal com especial deferência) serão belíssimos elefantes brancos, uma verdadeira manada.

Mas é preciso reconhecer o que é bem feito. É o caso do pôster oficial que foi criado pela Crama e dos de cada uma das sedes.

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Piada de muito mau gosto

Pane elétrica no Metrô do Rio / Foto: O DiaPouco mais de 24 horas depois de uma tragédia daquelas, em que a falta de procedimentos de segurança adequados ajudou a matar mais de 230 pessoas, a concessionária que opera o metrô do Rio de Janeiro contou a sua triste piada.

Imaginem vocês que por causa de uma pane elétrica, quase todas as estações da zona sul do da cidade ficaram cerca de duas horas sem operar, entre 8 e 10 da manhã. Por conta do problema, alguns trens ficaram parados nos trilhos, entre as estações.

O tempo de evacuação dos passageiros dessas composições que estacionaram a meio caminho foi de cerca de 50 minutos. Isso mesmo, 50 minutos. E os caras tiveram a cara de pau de dizer que todo o procedimento foi normal.

Como ontem falei da omissão habitual das esferas de governo, gostaria de que alguém me respondesse o que será feito nesse caso. Que atitudes a agência reguladora, Agetransp, tomará? Pelo horário, é possível imaginar como estavam cheios os trens.

Agora, pensem o que teria acontecido se um incêndio tivesse acontecido.

Pois é…

Torcida carioca

TorcidaCariocaComeçou o ano, como todo mundo já está cansado de saber. Assim, a bola já começou a rolar. E com a pelota correndo sobre a verde relva, voltam também as cornetas, piadas, análises embasadas, enfim, tudo aquilo do que sofremos de abstinência desde o início de dezembro.

No Rio, uma turma de quatro torcedores rivais que já habitava o mesmo cafofo, resolveu mudar de casa. O pessoal de Os 4 Grandes agora habita o Torcida Carioca. Basicamente, saíram de um quitinete para um sala-três quartos-varandão. Todo o resto continua o mesmo: as boas crônicas, alfinetadas, provocações e bom humor.

Minha esperança, com a casa nova, é que eles encontrem novos room mates. Penso que seria excelente – até pra conhecer os outros clubes mais de perto – ter um representante de cada clube do cariocão. Bastaria colocar a cabeça pra funcionar, que encontrar voluntários não será tão difícil. E depois, com o fim do estadual, ficam aqueles que participarão de qualquer divisão do Brasileirão. Não haveria nada igual por aí. Pensem nisso senhores.

Índio quer apito? Nem se fosse o Cacique de Ramos

Cacique-de-RamosJoão Saldanha foi candidato a vice-prefeito do Rio em 1985. Durante a campanha, em um debate com estudantes, uma moça cobrou de João uma posição quanto aos índios e perguntou qual seria sua política sobre o tema. A resposta curta e grossa:

– Minha filha, índio no Rio de Janeiro, só se for o Cacique de Ramos.

•••

Quem é do Rio acompanha o caso de perto, o problema da ‘Aldeia Maracanã’. O dilema se é possível ou não expulsar um grupo de índios que ocupou o terreno do antigo Museu do Índio que fica ao lado do estádio que está em reformas para as copas das Confederações e do Mundo.

Para tentar entender o imbrólio, algumas datas:
– 1862: construção do prédio
– 1978: mudança do Museu do Índio para Botafogo e abandono do prédio
– 2006: ocupação do terreno pelos índios, a ‘Aldeia Maracanã’ 

Há duas questões sob o mesmo teto, o imóvel e os ex-silvícolas. E começarei pelas pessoas. Em que pese viverem no Brasil numa espécie de limbo legal, os índios – juro por Deus – são seres humanos. Há quem esqueça disso. E o que mais? Sinceramente, não sei. Eles não tem uma série de direitos que qualquer brasileiro, em tese, tem. E o mesmo sobre muitos deveres. Apesar disso tudo, é bom parar com esse ‘coitadismo’ porque uma coisa é inegável: eles são invasores.

Há 300 anos não há índios por ali, a turma reunida é de várias etnias. Então, a história de que as 70 pessoas que vivem no terreno são descendentes dos índios originais que deram o nome ao rio e ao papagaio típico da região… É tudo história pra boi dormir.

A verdade é que eles não deveriam estar ali, o estado já devia ter agido – e teve mais de seis anos para isso. Mas não importa se a confusão de agora foi gerada pelo pretexto da obra. O lugar deles não é ali. Se estado e prefeitura quiserem fazer um bonito, inclusive para turistas, podem encontrar outro lugar, talvez próximo ao Museu do Índio ou até mesmo na Floresta da Tijuca.

Antigo Museu do Índio / Foto: Eduardo G. M. de CastroO outro problema é o prédio, abandonado há quase 35 anos e em petição de miséria (aqui há uma boa galeria de fotos, apesar de discordar do texto). Em que pese toda sua história, hoje ele é um risco para qualquer um que entre nele sem equipamento de proteção. É claro que engenheiros e arquitetos são capazes de restaurá-lo, mas a que custo? Então é hora de botar abaixo, até porque há outras maneiras de preservar a história.

Fui contra a realização da Copa no Brasil, justamente pela dinheirama que seria gasta (e desviada para os bolsos de sempre). Agora, já que resolveram fazer, é bom que seja direito. E um estádio nos moldes do novo Maracanã precisa de um entorno compatível, inclusive com o estacionamento que querem construir naquele terreno, deixado de lado há décadas.

Foto do dia: 446 anos