O que virá e pelo fim da hipocrisia

Cinelândia / Foto: Fabio Motta/Futura Press/Estadão ConteúdoFicou evidente, pelo menos pra mim, que o que turbinou as manifestações de ontem foram os confrontos ocorridos nas primeiras manifestações, especialmente em São Paulo, e a cobertura torta da maior parte da imprensa jogando nos ombros das polícias a culpa de tudo o que aconteceu de errado.

Mas essa percepção não esconde o fato de que quase tudo o que aconteceu ontem foi maravilhoso. Porque pro bem e pro mal, com o estopim certo ou errado, ver que a população é capaz de se mobilizar e de se expressar – quando há muito tempo se acreditava que cada um de nós tratava de olhar apenas para o próprio umbigo – é maravilhoso.

Outra coisa fabulosa que houve ontem foi a capacidade, consciente ou não, da massa isolar aqueles que foram às ruas pra fazer cagada.

Violência, segurança e combate

Não consegui acompanhar a cobertura detalhada de cada uma das grandes cidades, mas o que houve no Rio foi muito grave. Pelo que vi e ouvi, ficou claro que a PM tinha ordens diretas para não entrar em confronto, em qualquer situação. Isso explica o cerco aos policiais na Alerj e a demora para a chegada à ação do Batalhão de Choque.

Coquetel molotov na Alerj / Foto: Nicolas Taner/APNo entanto, nem Cabral nem Beltrame deram as caras. O que será feito contra essa turma? “Ah, não podemos fazer nada, era uma multidão e muitos estavam mascarados”. Uma pinóia!

Nas imagens, há muitos de cara limpa no meio da turba. Então o trabalho é Identificar, encontrar, prender e processar. E os crimes são vários. E sim, são bandidos.

A outra coisa é deixar a polícia pronta pra reagir, devidamente orientada sobre como e porquê. É só não inventar nada, sigam as leis e os baderneiros serão detidos.

Mas, acima de tudo, é preciso ter claro que essa violência não é gratuita, por acaso. Vivemos um momento grave, em que a manutenção ou não do poder dá o tom das ações desse governo que está aí. E não vai parar. Nas próximas manifestações, corre-se o grande risco de que eles tentem e consigam não se isolar, fazendo suas cagadas misturados à massa. E aí, será o terror.

Ir e vir

Outro absurdo de ontem no Rio foi a incapacidade da cidade em se preparar. É fato que ninguém esperava a quantidade de gente que apareceu e muito mais gente do que os 100 mil fugiram do centro com muito medo. Mas por que, sem qualquer comunicação ampla, sem avisos prévios, fecharam as duas maiores estações de metrô do Centro às 17h30? Quem tomou a decisão e quem permitiu?

Com 5, 20 ou 100 mil pessoas na rua, o trânsito dá nó. Na outra semana, deu nó por causa de um caminhão acidentado. Então, como é que as pessoas se locomovem, voltam pra casa, se os ônibus não rodam (porque não conseguem) e o metrô está fechado?

O que virá?

Ocupação da marquise do Congresso Nacional / Foto: Ueslei Marcelino/ReutersParece que está mesmo provado que o problema não são os 20 ou 40 (ida e volta) centavos. Há muitas questões reprimidas há muito tempo. Mas e o que vem agora? Já há outra manifestação marcada para a quinta-feira. No Rio, a turma quer colocar um milhão na rua. Os ‘realistas’ falam que 200 mil é algo factível. Talvez seja mesmo, não há dúvidas que o dia de ontem foi especial (em todas as suas conotações) e o pouco tempo entre uma e outra passeata pode ajudar a inchar ainda mais o movimento.

Mas há questões práticas em que se pensar. Não há uma liderança ‘formal’, não há uma pauta organizada. Além disso, Cuiabá, João Pessoa, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife e Vitória já anunciaram redução (graças a uma isenção de impostos) no valor das passagens, ponto inicial das manifestações. Outras capitais e grandes cidades também devem fazer o mesmo. E ssse cenário, a médio prazo, talvez faça com que o barulho se dilua, minguando os eventos, até voltarmos ao silêncio sepulcral de duas ou três semanas atrás.

A falta desses pontos bem definidos também facilita a vida dos nossos ilustríssimos representantes, pois não os obrigam a ‘entender’ o movimento e dar respostas práticas aos quereres da população.

No entanto, também pode acontecer o contrário, o que seria fantástico. Seria uma quebra gigantesca de paradigmas. E, sem dúvida, benéfica para o país.

Até agosto, por exemplo, será decidido o futuro da turma do mensalão. E já há dois novos ministros que foram indicados para reverter, se não as condenações, boa parte das penas. Um deles (Barroso) já declarou em entrevista que o Supremo foi muito duro na ação penal 470. Por aí, vê-se onde podemos chegar. E ainda haverá mobilização até lá?

Cada um com seu cada qual

Acorda Brasil / Foto: Caio Kenji/G1Pra terminar, agora que estamos “todos” na rua ou comemorando o sucesso das manifestações de ontem, deixo as perguntas que o Rica Perrone fez em seu blog. Porque ao contrário do que pensa boa parte, os problemas não são apenas dos outros. E é de bom tom não ser hipócrita.

Agora que estamos na rua por um país melhor, vamos jogar fora a carteirinha de estudante (pra quem não estuda) que usamos e lesamos os não estudantes honestos que pagam mais pra compensar?

Vamos pensar melhor na hora de fumar um baseado e sustentar um traficante que amanhã pode estuprar sua filha?

Vamos pagar a multa e não o guarda que amanhã vai liberar um bêbado que vai acertar seu carro e matar um parente seu?

Vamos pedir pro amigo que tem o GatoNet assinar honestamente o produto pra que não fique mais caro pra você?

Vamos não renovar CNH por fora pra que um bêbado com 100pts não renove e cause um acidente amanhã?

Vamos até o lixo na praia e não deixar na areia nossos restos?

Vamos mudar o Brasil começando por nós?

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Nostalgia e esperança

Fui ao Maracanã muitas vezes com meu pai. Para jogos do Flamengo e do Fluminense e dos outros também, que Maraca no domingo era bom programa. Jogos cheios e vazios. Mas nunca fomos à final. Depois da separação, com a rotina adaptada a um dia no fim de semana e outras aporrinhações, nunca mais.

Fomos a jogos importantes, como as semi-finais do brasileiro de 1984. Mas não mais que isso. E nem sei dizer como seria, cada um torcendo para um time.

Hoje está tudo muito diferente. Meu pai não tem mais paciência pra estádio e eu parei de freqüentar desde que o Maracanã fechou para as obras da Copa (Engenhão ninguém merece). E hoje tenho duas filhas.

Juntando as duas famílias, só eu sou rubro-negro. E para não correr o risco de perder as petizes definitivamente por uma pressão desigual feita pelo outro lado, o combinado desde que Helena nasceu é que ninguém faria força, falaria muito no assunto ou daria presentes temáticos. E assumimos que ela é América. Mais neutro, no Rio, impossível. Com Isabel, o procedimento será o mesmo.

E pra não arrumar confusão, me seguro. Mesmo. Firme em mim a esperança de que – naturalmente, por e para serem felizes – serão rubro-negras. Mas, ontem, não resisti. A camisa nova chegou, linda, e fiquei todo pimpão desfilando pela casa. E quando perguntei se estava bonito, Helena disse que sim. Como disse, esperança…

Coincidência, hoje faz doze anos que Petkovic fez o gol mais importante da sua carreira, de falta, aos 43 minutos do segundo tempo. O gol de mais um tri. E aí dei de cara com essa texto no blog do Rica Perrone. Um bom tanto de saudade da minha infância, um bom bocado de que um dia estarei na arquibancada ao lado das minhas moças.

Um domingo qualquer

Petkovic comemora o gol que deu o tricampeonato ao Flamengo em 2001 / Foto: Ana Carolina Fernandes/FolhapressEra um dia frio, sem chuva.  Seria um dia chato, não fosse o Maracanã lotado e a expectativa de um título. Ele não era fanático, sequer tinha visto o estádio lotado na vida, até então.  Tinha 13 anos e torcia, timidamente, para o Palmeiras, apesar de morar no RJ.

Naquele domingo seu pai o levou na final.  De bandeira, camisa e ingresso na mão, chegou assustado com a multidão. Entrou faltando 15 minutos pra começar e, quando olhou em volta, disse: “Pai, quantas pessoas tem aqui?!?”.

– Muitas, filho… uma nação inteira, disse o pai.

Aquela multidão explodiu em faixas, bandeiras e papel picado minutos depois.  O garotinho se encolheu com medo e sentou.  Com 1 minuto de jogo a torcida levantou e não deixou que o guri visse mais nada. Ele ouvia, sentia, mas não assistia.

Seu pai, rubro-negro fanático, não tinha muita esperança de que seu pivete palmeirense um dia se envolvesse com futebol. Jamais mostrou grande interesse, e só torcia porque tinha um amigo que era palmeiras.

O Flamengo saiu ganhando, mas não bastava. Tinha que ser com 2 gols de diferença, ou nada. Seu pai explicou que “faltava um”, e o garotinho não entendeu. Afinal… vitória não é vitória de qualquer jeito?

Sofreu um gol, e ele não tirou sarro do pai como sempre fazia. Ficou triste, como que contagiado pela multidão. O outro lado, 40% do estádio apenas, fazia barulho, e ele ouvia o silencio da nação a sua volta. Segundo ele, o silencio mais dolorido que já escutou na vida.

O Flamengo fez o segundo, e o garotinho, se envolvendo com o jogo, vibrou. Pulou no colo do seu pai e o abraçou como se fosse um legítimo urubuzinho.

Não era, ainda.

A torcida começou a cantar o hino, que ele sabia de cor de tanto ouvir o pai cantar.  Pela primeira vez, cantou num estádio, e fez parte da nação. A angustia de milhares não passou em branco. Em mais alguns minutos o garotinho suava e já rezava de mãos grudadas ao peito.

O Flamengo virou, mas não bastava.

40 minutos do segundo tempo. Mesmo com 2×1 no Placar, a nação ouvia gozações do outro lado. Ele não entendia, e fez o pai explicar, mesmo num momento dramático do jogo.

Atencioso, o pai sentou e contou pro garoto que o Flamengo precisava ter 2 gols de vantagem, porque a vitória por um gol empataria a soma de 2 jogos, e o empate era do rival. Ele não entendeu bem, mas simplificou em sua cabeça: “Mais um e ganharemos”.

Opa… “ganharemos”?  Ele não era palmeirense?

E então, aos 43 minutos, onde alguns já se mexiam na direção da saída, uma falta do meio da rua.  Seu pai vibrou e ele questionou: “O que foi? Foi pênalti!? “

– Quase isso, filho!! Dali pro Pet é pênalti!!, profetizou o pai, ignorando a distancia da falta.

A cobrança… o silencio eterno de 1 segundo e a explosão.  Gol do  Flamengo! Petkovic! E seu pai o abraça como nunca abraçou em toda sua vida. Pula, joga o garoto pra cima, beija, chora…

O garotinho, numa mistura de susto com euforia, olha em volta e, de braços abertos, comemora em silencio um gol que não era dele.  Sem razão, ele chora. E chorando, abraça o pai que, preocupado, rompe a alegria e pergunta: O que foi? O que foi? Se machucou?

– Não…  Eu to feliz, pai!

Sem mais palavras, o pai sentou e abraçado ao garotinho deu um abraço de tricampeão. O jogo acabou, e os dois continuaram abraçados.

A festa rolando, os dois assistindo a tudo aquilo emocionados, o garotinho absolutamente embasbacado com a cena, já que nunca havia visitado um estádio lotado, muito menos uma decisão. O pai olhava pro campo e pro filho, porque sabia que, talvez, aquele fosse seu único momento na vida onde teria a imagem de seu garoto comemorando um titulo do time dele.

E chorava, sem vergonha nenhuma de quem estivesse em volta.

O menino foi embora pensativo, eufórico. Em casa, contou pra mãe com uma empolgação incomum sobre tudo que viveu naquela tarde. E não falava do jogo, apenas da torcida.  Iludido por uma frase, contou pra mãe:

– Aí, no finalzinho, teve um pênalti! E o Flamengo fez o gol…
– Não filho… não foi pênalti! Foi de falta.
– Mas você disse que foi pênalti…
– Era modo de falar…. hahahahahah
– Então, mãe…  aí, o cara fez o gol e a gente foi campeão!!!

Pronto. Aquele “a gente” fez o pai parar de colocar cerveja no copo, virar a cabeça lentamente e perguntar, com medo da resposta:

– A gente, filho?

(silencio…)

– É pai! O Mengão!!!!!

Emocionado, o pai abraçou o garoto e não falou nada. Ali, seu maior sonho virava realidade. A mãe entendeu, deixou os dois na cozinha e saiu de fininho, enquanto o pai começava a contar de uma outra final que viveu em mil novecentos e bolinha, com toda a atenção do novo rubro-negro.

Hoje o garoto  tem 21, completados há alguns dias.

Quando seu pai perguntou o que ele queria de presente este ano, a resposta foi essa:

– Dois ingressos, uma bandeira, a camisa nova e ver você chorando igual aquele dia.

E há quem diga que “futebol é bobagem”…

Crônica de uma tragédia anunciada

Há muito tempo não falo de futebol por aqui. Nem Fórmula 1, duas de minhas paixões. Mas hoje não tem jeito, dado o que aconteceu ontem na Bolívia.

Se você é um ET e não sabe de nada, um torcedor do Corinthians disparou um sinalizador de navio (!) que atingiu e matou um garoto de 14 anos.

Galeria da tragédia de Oruro / Montagem: Globo.comEntre tantos discursos muito bonitos, inflamados, dramáticos etc. que surgem em momentos como esse, o mais comum é esperar e até pedir a eliminação do clube da competição, jogar com portas fechadas e coisas do gênero.

Há 12 corinthianos presos em Oruro por conta do ocorrido. Deles, alguns nem estavam por perto quando a polícia agiu, mas ficaram para – em grupo – se defenderem e se protegerem. Reza a lenda que o sujeito responsável (?) pelo disparo não está entre os 12. Pode ser verdade, e nesse caso a Polícia Federal tem que entrar no circuito. Mas pode, também, ser apenas jogo de cena para que os detidos sejam soltos no clima “o culpado já foi embora mesmo”.

É claro que há que se investigar. E o sujeito tem que pagar pela cagada. Homicídio. Culposo que seja, partindo da premissa que não teve a intenção de acertar ninguém, que apenas operou mal o dispositivo. Mas ele tem que ser preso e julgado. Na Bolívia, claro.

O grande problema é que é uma tragédia anunciada. Porque entre tantos e tantos problemas que já aconteceram nos estádios brasileiros e de toda a América do Sul, nada foi realmente feito para dar solução. A questão não é proibir faixas, camisas e bandeiras de torcidas organizadas, mas implantar sistemas de vigilância que permitam a identificação dos marginais e bani-los dos estádios. Mas ninguém tem coragem de fazer isso.

Sobre o futebol, propriamente dito, e a possibilidade de punição ao clube, o texto abaixo diz tudo.

Me engana que eu gosto

Torcida La Temible, do San Jose / Foto: Diego RibeiroVocê ai, sentado em seu PC, está realmente pensando em justiça ou querendo que o Corinthians se foda? Vamos falar a real, sem viadagem. Não tenho censura de editor, posso falar com você as vezes nesse tom. Somos íntimos, nos vemos todos os dias por aqui, podemos ser honestos um com o outro.

Teu problema é o Corinthians, o corintiano ou a “justiça”?  Se fosse do seu clube, um incidente, como tudo indica ter sido, você acharia justo seu time ser punido por um erro isolado?

Vamos separar as coisas de forma clara.

Quando se pune um clube de futebol por sua torcida é na tentativa de evitar que camuflados no meio de tantos eles façam algo coletivamente sem controle. Quandos se identifica o torcedor que atirou um copinho no campo o clube não é punido, mas sim o torcedor. Porque? Porque acharam o culpado e portanto não precisam mais fazer “terrorismo” para impedir que outros façam igual.

Uma situação é “justiça”, a outra é pra causar medinho. Clube de futebol não tem que ser punido por ação nenhuma de torcedor nenhum. Existe uma lei e ela precisa ser seguida. Ela diz que o cidadão que comete um crime responde por ele. Ponto. Se ele torce pro Vasco, pro Osasco ou pro Manchester é problema dele.

Se um sujeito nervoso porque brigou em casa quebra tudo na rua e machuca alguém, a mulher dele vai presa por tê-lo irritado? Não. Então, o clube não tem que pagar por atos de violência isolados, ainda mais fora de seu estádio, onde sequer a segurança é de sua responsabilidade.

Até onde sabemos, foi um incidente. O rapaz não teve intenção de machucar ninguém e errou o disparo do sinalizador.  Permitida a entrada de fogos no estádio, ele errou, vai responder, e deve responder. Mas entre cometer um erro fatal e ser criminoso existe uma diferença.

Na praia, no ano novo, se seu pai errar o rojão e acertar alguém ele é responsável, não um criminoso. E o rapaz que fez isso ontem, pelo que todos relataram, é responsável, não um marginal afim de machucar alguém.

Sendo preso, como foi, não tem nada que o clube ser punido. Se querem justiça, vamos questionar porque tinha 20 mil fogos dentro do estádio? Vamos falar sobre segurança, sobre polícia, revista, regras do que pode ou não entrar no estádio. Mas não vamos falar em assassinato, Libertadores, Corinthians.

Que importa o time do sujeito? Que diferença faz se ele é corintiano ou se vendia pipocas? Ele errou, vai responder, foi identificado, ponto.  Levar isso até o clube e tentar atrelar uma coisa a outra me parece mais uma forma de torcer pro rival ser eliminado de um torneio do que por justiça.

Injustiça seria um erro, ou mesmo se fosse um crime brutal, individual condenar 30 milhões de pessoas a pagar por ele.

Justiça? É isso mesmo que estamos discutindo? Ou é clubismo barato em busca de foder o rival?

A pessoa foi detida. O estádio é fora do Brasil, ao que tudo indica não foi um ato de vandalismo, mas sim um incidente.

Cadê a justiça em tirar um clube de futebol de um torneio por isso?

Sejamos honestos, e menos burros.

Amanhã, meu caro, se o Joãozinho atirar um copinho e acertar a testa do jogador adversário, quem não vai mais ao jogo ver seu time é você. Porque ao invés de pedir justiça, estamos cobrando atitudes de grande impacto.

São coisas diferentes.

Que se faça justiça com o responsável pela morte do garoto. Seja ele corintiano, judeu, negro, nordestino ou alemão.

Mas justiça é quando o responsável é identificado e responde pelo que fez. Não quando na falta de um culpado resolvem culpar todos que estavam em volta.

Isso é covardia, não justiça.

abs,

Rica Perrone

Adeus ao Olímpico

Gosto muito do Olímpico. Na verdade, gosto muito de muitos estádios (mesmo os que não conheço). Principalmente aqueles que, mais do que se confundir, carregam a história de algum clube. Especialmente os grandes.

O Olímpico, claro, é um deles, estádio do Grêmio. Como bem disse o Rica Perrone, jogar com o Grêmio no Olímpico sempre tem uma carga que vai muito além da qualidade do time deles. Tem a ver com alma.

É mais ou menos como jogar contra o Flamengo no Maracanã. Nosso time pode estar cheio de wellingtons ou bujicas. É o Flamengo no Maracanã.

No próximo domingo acontece o último jogo do estádio Olímpico, o Grenal da última rodada desse brasileirão. Um jogo que não vale nada para a tabela, mas que vale demais para os dois clubes. Os donos da casa se despedindo sem querer deixar a história manchada; o eterno rival querendo carimbar a despedida. O jogo vale a honra, o caráter, a alma.

Para a torcida, que no ano que vem terá um novo estádio, uma dessas arenas modernosas, será o adeus ao seu grande templo.

Mas o que é que eu tenho com isso, deve ter alguém (se é que veio alguém aqui) se perguntando. Tenho que pelo Olímpico, entre todos os grandes estádios do país, sinto um carinho especial e – na hora da despedida – até uma certa melancolia.

Afinal de contas, foi no Olímpico que o Flamengo ganhou o único dos seus seis títulos brasileiros fora do Maracanã. Abaixo, então, minha singela homenagem.

Outro vídeo, esse produzido pela Zeppelin. Bela homenagem, diga-se. Mas faltou o Renato.

Politicamente incorreto

Tai um tema que, vira e mexe, revisito por aqui. É só jogar o termo “politicamente correto” no campo de busca do blog que você vai achar. Algumas coisas, até, muito interessantes.

Ao contrário do que tentam dizer por aí, o “politicamente correto” é absolutamente ditatorial, não chega nem perto da democracia. É a força de minorias que tem voz que engole uma maioria que vive no “vai da valsa” e uma minoria (essa, real) que ainda tem coragem de pensar e expressar seus resultados (sabe aquela turma que tem a mania ultrapassada de praticar a liberdade de expressão?).

Abaixo há dois trechos – um do início, outro do final – do livro Guia politicamente incorreto da Filosofia, de Luiz Felipe Ponde (Editora Leya, 2012). Não, não é uma aula que pretende contestar a história da Filosofia, justamente o contrário. Pondé usa filósofos e suas obras para desmistificar, escancarar essa praga que é o “politicamente correto”.

E se, ao final da leitura abaixo, você quiser ser menos acadêmico, clique aqui para ler um bom texto (que até já republiquei aqui há quase um ano.

Mas talvez a pior coisa da democracia seja o fato de que ela deu aos idiotas a consciência de seu poder numérico, como dizia o sábio Nelson Rodrigues. Em suas colunas de jornais, o Nelson costumava dizer que os idiotas, maioria absoluta da humanidade, antes do advento da Revolução Francesa, viviam suas vidas comendo, reproduzindo e babando na gravata. Com a Revolução Francesa e a democracia (que a primeira não criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritário), os idiotas perceberam que são em maior número, e de lá pra cá todo mundo passou a ter de agradá-los,  a fim de ter a possibilidade de existir (principalmente intelectualmente). O nome disso é marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da força democrática (numérica) dos idiotas. O politicamente correto é uma das faces iradas desses idiotas.

O problema com o conceito de “justiça social” é que ele vale como angústia romântica, mas peca por falta de parâmetros racionais e concretos para realizá-lo. O filósofo David Hume, do século 18, tinha por hábito comparar os racionalistas, ou seja, gente que crê na razão como forma de resolver a vida, aos fanáticos puritanos calvinistas de sua época. Para Hume, racionalista é fanático. Para o escocês blasé, como costumam descrevê-lo, que gostava de acordar tarde e não gostava de trabalhar, só fanático podia imaginar uma sociedade com “justiça social”, porque produzir riqueza tem a ver com originalidade, inteligência, capacidade de disciplina, e nada disso tem a ver com “igualdade”. A natureza não é igualitária em seus dons e suas dádivas, tampouco em suas misérias: poucos são sempre melhores do que a maioria. Isso não significa que devemos cultuar “injustiças sociais”, mas sim que o melhor remédio para “injustiça social” é riqueza e abundância, e não pregadores fanáticos pela justiça social. E, para termos riqueza e abundância, precisamos deixar as pessoas produzirem o que elas têm de melhor, a saber, a realização de seus dons sem o peso de uma abstrata e irreal “igualdade” entre as capacidades humanas.

Nada mais a declarar

Comemorou hoje? Gritou o nome dele?

Fez dele um Rei, de novo?

Vai ser assim quando, insatisfeitinho com o café da manhã do clube, ele resolver encostar no pau da bandeirinha e não sair dali 90 minutos, te deixando louco na arquibancada?

Fiquei pensando sobre o jogo de ontem, em como é difícil perceber se o time jogou bem ou mal, se cansou ou só se acomodou em boa parte do segundo tempo, coisas assim. Afinal, foram praticamente 90 minutos de um treino de luxo de ataque contra defesa.

Mas é impossível esquecer tudo o que acontece no Flamengo desde o final do ano passado. 2011 que, na prática, só terminou ontem com a classificação para a fase de grupos da Libertadores.

Mas aí, vem o sujeito – que por não ser rubro-negro consegue ter um distanciamento necessário de toda a zorra – e escreve isso aqui.

E eu vos digo: nada mais a declarar.

A vida como ela ficou

Já escrevi e já republiquei textos que encontrei por aí, sobre essa merda (desculpem o palavrão nada politicamente correto) do politicamente correto. Fiz o mesmo, em menor escala sobre esse exagero que andam chamando de bullying (e acho mesmo uma maravilha o país que tem mais de um quarto de sua população identificada como analfabeto funcional adotar tão facilmente um termo em língua estrangeira).

Como gosto de bons textos, segue um que junta os dois temas.

Terra de “Nérson”

Para falar, hoje em dia, é preciso pensar muito. Não para que você “não diga bobagens”, pois todos nós dizemos e vamos continuar dizendo. Mas para que você não caia na armadilha do mundo moderno, onde pensar individualmente é crime.

Se faz parte de uma minoria ou de uma Ong qualquer, está com a razão. Seja lá a favor o motivo ou o ideal, é moderno pensar em grupo e, consequentemente, agir em bando.

Mundo politicamente correto, quase chato. Cheio de regras idiotas e gente que se acha culta por brigar por alguma coisa, mesmo que seja algo válido.

Antigamente brigavam por direitos, liberdade, etc. Hoje brigam por “tags nos tts do twitter”.

Eles gritam: “Vamos colocar nossa tag em primeiro!”. E colocam, achando que estão causando uma puta mudança em algum tema delicado da sociedade ou do país. Ajuda? Ajuda. Mas não é só isso.

E não, eu não estou falando de gays. Ok? Antes que o delírio supere a interpretação simples e clara.

Na internet, terra sem lei, onde cada nerd se torna um macho gigante e todo babaca ganha voz, é incontrolável. Você junta uma turma numa comunidade, num twitter ou num blog e pronto. Dali sai, num pensamento coletivo, um complô virtual.

“Não fale assim do meu time”. “Respeite meu estado”. “Seu homofobico”. “Quem é você pra falar isso?”, entre outros, são frases que acompanham cada opinião dada neste mundo moderno.

Quem pensa em grupo, na verdade, não pensa em nada. E quem age em bando é covarde.

Fico lendo a patrulha todo dia e preocupado com o que virá pela frente.  O sucesso alheio é cada vez mais irritante, as pessoas tem cada vez mais necessidade de denegrir o sucesso do vizinho.

Você surge, é fenômeno. Se estabelece, é competente. Mantém o topo, começa a ser questionado. E quando tudo parece normal, ganha rótulos de quem não aguenta mais te ver láem cima. Queo digam Tiago Leifert, Galvão Bueno, Jô Soares, Fausto Silva, entre tantos outros que de adorados passaram a perseguidos após a internet e suas gangues virtuais.

Quando você junta um bando de fracassados fatalmente o vitorioso será questionado. O maior fracasso que há é não saber reconhecer o mérito alheio.

Para alguns é terapeutico, pra mim se chama “inveja” ainda.

Seja lá qual for o modo ou o rótulo, fico imaginando o que seria de Nelson Rodrigues, gênio, se fosse jornalista hoje em dia.

Aqui, não basta não gostar e não acompanhar. É preciso agredir o que não gosto e desmerecer quem não aprecio.

Nélson, hoje, não teria um blog. Pois se tivesse estaria preso.

Ele não poderia, jamais, dizer que “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.”, pois seria homofobico, no mínimo.

Se ousasse dizer que “Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!”, seria um incentivador do adultério. Um anti-família, um alvo fácil pra alguma Ong “Viva a fidelidade” por aí.

Nelson não diria num blog linkado a Globo.com ou a outro portal grande que “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente“.

Que preconceito é esse, Nelson? Quer dizer então que o Flamenguista não é gente? Processo! Prendam-no!

Porque ele é preconceituoso? Não, porque eu sou ignorante e não sei interpretar textos. Eis a verdade.

Isso sem contar no bando de torcedores não cariocas que entupiriam a caixa de entrada do Nélson dizendo que ele era “do eixo”, ou “paga pau de carioca”, por citar quase sempre os times de lá.

É a era do “quem falhou?” e não do “Que golaço!”.

Imagino Marta Suplicy na tv ao lado de apresentadores justiceiros fazendo complô contra Nélson, quando ele diz que “Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais.“.

Hoje, “Quem não gosta de samba bom sujeito não é” seria crime. Pois é um preconceito contra quem não gosta de samba.

Inventaram a porra do bullying, uma espécie de proibição de “zoar” alguém na quarta série.

É o mundinho “nhe nhe nhe”. Se chamar um gordinho de gordinho na escolinha, chame o pai dele e diga que seu filho está praticando bullying.  Quando eu era garoto, se chamassem um pai na escola era porque alguém tinha “bullinado” alguma menina, e olhe lá.

Meninas que, coitadas, ficaram sem saída. Se dão um valor antigo a si mesmas, são quadradas e babacas. Se dão pra todo mundo, são vadias. Se for feia, é engraçada. Se for bonita e gostosa, saibam, aos olhos de quem inveja, imediatamente, são putas.

Garrincha, hoje, seria um patético malabarista desrespeitoso. Ele dribla, humilha o adversário. Onde já se viu?

E aquele jogador divertido que tirava sarro do rival? Hoje, fatalmente, apanharia no shopping de alguma gangue não virtual.

Nelson, Garrincha, Dorival Caymmi, entre tantos outros gênios, hoje, estariam proibidos.

Sofreriam bullying de  Ongs e gente politicamente correta. Seriam perseguidos pelos “sem nome” na internet, e fatalmente morreriam de fome, pois ninguém hoje em dia tem coragem de contratar um profissional que vá contra a maré do “nhe nhe nhe” ou que tenha opinião própria.

É preciso pensar no coletivo, diziam os antigos intelectuais.

É preciso pensar coletivo, diriam hoje.

Seu direito de pensar e falar acabou quando notei que é mais fácil ser vítima de alguma coisa do que fazer parte do jogo de forma igual.

Eu prefiro ser minoria. Eu gosto de andar em bando, mesmo que virtualmente.  Não suporto seu trabalho, simplesmente porque ele não me exalta ou elogia.  E não contente em ter o fantástico direito de usar um controle remoto ou não entrar no seu site, vou te ofender, te agredir e chamar meus amigos para fazer o mesmo.

Nélson Rodrigues morreu em 1980. Se vivo, hoje, se suicidaria.

Rica Perrone