Observações sobre um jubileu de prata

E ontem eu consegui uma coisa que havia tempo não fazia. Assistir ao vivo a uma corrida inteira de F1. E eu cheguei a praguejar contra o senso de humor mórbido do que costuma-se chamar de destino que, fazendo das suas, reservou o GP da Hungria, um dos mais chatos e previsíveis de toda a temporada para o meu retorno. Ledo engano…

Como aconteceu bastante coisa interessante, vou por partes para tentar ser mais curto.

– Alguém precisa, urgentemente, calar a boca do Galvão. Além da chatice de sempre e de várias trocas de nomes de pilotos (também habitual), tentar comparar Vettel a grandes nomes da história é uma covardia com o garoto e mais um dos muitos desserviços que ele presta a quem assiste F1. E por causa dele, muita gente até agora não entendeu que Vettel não ultrapassou Alonso por falta de coragem ou habilidade. Sem que o espanhol cometesse qualquer tipo de erro, era simplesmente impossível ele se aproximar do carro da frente dentro da curva para forçar a ultrapassagem na reta. Pelo contrário, ao tentar se aproximar, quase saiu da pista duas ou três vezes e o mesmo aconteceria com qualquer um.

– Weber deu um show de habilidade e precisão, andando muito forte e sem cometer erros. Soube usar e abusar do fato de ter um carro equilibrado para consumir pouco pneu e – graças à punição de Vettel – vencer e assumir a liderança do campeonato.

– Será que as férias de verão ajudarão a McLaren a voltar ao campeonato. Do jeito que está, é melhor pensar no carro do ano que vem.

– Apesar da vergonha da semana passada, a Ferrari confirmou o bom momento e o fato de – por hora – ser o único time com alguma chance de lutar contra a Red Bull. Mesmo assim, a impressão é de que o time das latinhas mais perde pontos do que os outros ganham.

– Depois de cumprir a ordem da equipe na semana passada, Massa deu entrevista dizendo que enquanto houver chances matemáticas o fato não se repetirá, que o seu país é o mais importante pra ele, que isso e aquilo e coisa e tal. Mas para não dar passagem a Alonso, com ou sem ordem, é preciso estar à frente do espanhol, o que raramente conseguiu este ano. Depois de toda a confusão da semana passada, deve tomar um chá de sumiço durante as férias que só terminam no último final de semana de agosto, em SPA.

– Ao ver as cagadas de Renault e Mercedes nos boxes, não conseguir ficar sem cantarolar a musica dos trapalhões. Há muito tempo não via tamanha incompetência em um espaço de tempo tão curto.

– Antes de elogiar o brasileiro e meter o pau no alemão, é preciso entender porque Barrichelo conseguiu ultrapassar Schumacher, enquanto Vetel gramava atrás de Alonso. Rubens andava muito mais forte, com pneus novos e macios; Michael tinha problemas de equilíbrio e pneus desgastados, o que provocou uma pequena rabeada na entrada da curva que leva à reta dos boxes de Hungaroring. Por conta disso, Rubens conseguiu sair da curva embutido, apesar da turbulência, pegar o vácuo e colocar de lado para ganhar a posição e o pontinho que lhe coube.

– Ficar surpreso com a atitude de Schumacher é uma parvalhice. O sujeito tem a maior coleção de polêmicas e punições da história da F1. Some-se seu estilo Dick Vigarista à relação nada amigável com Barrichelo, e pronto. Agora, a punição que lhe foi dada é uma vergonha, não diz nada a ninguém.

– A ultrapassagem de Barrichelo foi sensacional, mostrando mais uma vez que é sim um grande piloto e não está na categoria até hoje por acaso. Uma pena apenas a sua postura e discurso (que a emissora oficial adora) depois da corrida, com lágrimas etc.

– Coincidência que ao comemorar seu jubileu de prata, o grande prêmio magiar tenha visto, como na primeira edição, um brasileiro a bordo de uma Williams ser o grande personagem da prova? A diferença é que em 86, Piquet fez sobre Senna a que é considerada a maior ultrapassagem da F1 moderna para vencer a corrida. Ontem, Rubens brigou para chegar em décimo. Sinal dos tempos.

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Blá-blá-blá, ti-ti-ti, vrummm-vrummm

Estamos no meio de uma semana de grande prêmio, a dois dias dos carros irem à pista para os treinos livres em Istambul. E notícias e boatos continuam pipocando aqui e ali.

O mais barulhento trata das negociações entre Felipe Massa e Ferrari sobre sua renovação de contrato. Felipe é ligado à Ferrari desde 2001 e seus contratos sempre foram renovados sem estardalhaço, sem que toda a imprensa ficasse de olho no que estava acontecendo. Mas boatos de que Kubika teria um pré-contrato assinado com o time de Maranello para o próximo ano esquentou a coisa. Além disso (e apesar de ser o líder do campeonato), especulações sobre a aposentadoria de Mark Webber ao final de 2010 ajudaram a aumentar o ti-ti-ti.

Massa perdeu seu lugar? Massa vai para a Red Bull? Para a Renault? Victor Martins revelou, nesta semana, que a McLaren sondou o brasileiro no ano passado, às vésperas do GP da Hungria, convite recusado pelo brasileiro pois estaria renovando seu acerto com a scuderia naquele final de semana, algo que não aconteceu graças à mola que voou do carro de Barrichelo. E agora? Seria um bom momento para buscar novos ares? A favor da Red Bull, a notícia de que o projetista Adrian Newey seguirá com o time dos energéticos por um bom tempo.

Enfim, por enquanto não é possível arriscar nada.

Sobre os pneus que serão usados a partir da próxima temporada, a disputa terminou entre Pirelli e Michelin. Mas como disse no dia 14 de maio, a escolhida será a fábrica italiana e o anúncio deve sair nesse final de semana. E aviso logo, nenhum passarinho verde piou aos meus ouvidos. Mas se olharmos os detalhes… A Pirelli já é fornecedora da GP 3, categoria que estreou neste ano. Além de fazer uma proposta muito mais econômica, passaria a fornecer também para a GP 2, calçando os carros do acesso à ponta.

Outra coisa que disse no mesmo dia é que a Hispania até terminaria 2010, mas não correria no ano que vem. Pois não é que a equipe anunciou hoje que encerrou sua parceria com a Dallara? Sem parceiro e sem capacidade de construir, o que vocês acham que vai acontecer? E Bruno Senna afundando junto…

Meu terceiro palpite naquele dia versava sobre as novas equipes que estariam no grid em 2011. E talvez eu erre feio. Oficialmente há cinco times lutando por uma vaga, a 13ª que foi abandonada pela US F1: Epsilon Euskadi, Art Grand Prix, Durango, Stefan GP e Cypher.

Delas, considero que duas estão fora da disputa real. A Stefan tentou esse ano, fez muita pressão, negociou com Toyota, foi apoiada por Bernie Ecclestone, mas não vingou. A Durango não teve capacidade financeira de se manter nas categorias de base.

Mas aí, foi anunciado que o GP dos EUA volta ao calendário em 2012, em uma pista que será construída em Austin, capital do Texas (vem aí mais um ‘Tilkódromo’). Aí, a Ferrari volta a fazer pressão pela possibilidade do terceiro carro, que gostaria de competir administrado por uma equipe americana. Aí, representantes da Cypher anunciam que negociam com uma renomada montadora da F1. E aí, são tantos interesses comerciais que já não duvido que, apesar do último fracasso ianque, essa tal Cypher ocupe a vaga aberta, relegando duas das maiores equipes do automobilismo mundial, com história com carros de fórmula, turismo, protótipos e até rali, à briga por uma possível (e até provável) segunda vaga.

Será que Jean Todt, o novo presidente da FIA, cometeria esse erro logo depois das cagadas que Max Mosley fez? Ou será que a Sauber, que também tem muitos problemas financeiros, também deixaria a F1, abrindo – ao todo – três novas vagas?

Todas esses boatos e especulações e chutes e palpites e dúvidas com apenas um terço do campeonato completo. E falei um monte de coisas, mas não disse nada sobre o que é mais importante, a corrida de domingo. E que Massa, se ainda quiser sonhar com disputas em 2010, tem a obrigação de fazer um grande resultado na pista em que ele já venceu três vezes. E pra não ficar só nisso, o já tradicional vídeo de apresentação da pista, produzido pela Red Bull e comandado por Mark Webber. A tal curva 8 é sensacional até no vídeo game, vejam só.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Uma chinoca gasguita (2)

Como também está dito aí embaixo, não vi corrida nem classificação. Então, apenas alguns comentários:

– Parece mesmo que vou queimar a língua e só a chuva é capaz de provocar uma boa corrida.

– Button chegou à McLaren sob desconfiança de que seria engolido por Lewis Hamilton. Se o jovem têm sido o responsável pelos espetáculo, dirigindo como um louco e fazendo dezenas de ultrapassagens, o atual campeão tem sido cirúrgico, acertado em todas as escolhas e único a vencer duas provas até agora. Não por acaso, líder do campeonato.

– Alonso ultrapassando Massa na entrada dos boxes? Hummmm… Para consumo externo, os dois mantiveram uma postura low profile. Mas a corrida mal terminou e a equipe trancou todo mundo em uma sala de reunião. Para os italianos, não importa quem pilota, vale o resultado da equipe. Em um campeonato que promete ser disputado até a última curva, a paz entre os pilotos é algo fundamental para o campeonato. Mas olhando a manobra, parece que Briatore falou o óbvio e estava certo.

– Red Bull decepcionou, Rosberg no pódio de novo, Renault muito bem (até Petrov pontuou), Senna duas voltas à frente do seu companheiro de equipe, Di Grassi não terminou de novo e, na Sauber, mais motores Ferrari estragados.

– Sete corridas, sete vencedores diferentes. Essa é a curiosa história do GP da China até aqui. Mas o contrato com a F1 acabou e não se sabe se, graças à completa ausência de público e prejuízos astronômicos, se será renovado.

No mais, três semanas de folga até o GP da Espanha, em Barcelona. Pista que todo mundo conhece de trás pra frente, de frente pra trás, pouco dadas a surpresas. Como é pouquíssimo provável que haja chuva, são grandes a chances de uma estréia modorrenta na temporada européia.

Na China, numa fria

Começa às 23h desta quinta-feira (horário de Brasília) a programação do GP da China de F1. Quarta prova do calendário, uma das expectativas sobre a prova remete à emoção que pode apresentar. Depois da tediosa corrida de abertura da temporada, no Bahrein, tivemos duas boas provas na Austrália e na Malásia. E como será em Xangai?

Apesar de várias tentativas da FIA para aumentar a competitividade e – principalmente – o número de ultrapassagens, a Fórmula 1 ainda depende do clima, particularmente da chuva. As previsões para o final de semana chinês ainda não asseguram que teremos asfalto molhado, mas é certo que vai fazer muito frio, o que também pode ajudar.

Em baixas temperaturas, todo o comportamento dos carros é alterado, principalmente os pneus. Felipe Massa, por exemplo, já teve problemas de aquecimento da borracha na Austrália. Certamente não é o único e isso pode embaralhar um pouco o grid de largada, deixando a prova muito interessante. Em compensação, a confiabilidade aumenta, diminuindo a chance de quebras a ponto de Bruno Senna acreditar que, além de completar sua segunda corrida, pode ter ganhos de desempenho.

As previsões do Weather.com para o final de semana são as seguintes: quinta-feira entre 8 e 11°C, sexta variando de 8 a 14°C, sábado com máxima próxima a 16°C e domingo, 18°C. A Bridgestone já disse que levará para a China os compostos ‘mole’ e ‘duro’. Com alta durabilidade apresentada até agora, caso se confirmem as condições climáticas, a grande maioria dos pilotos deverá dividir sua corrida em um trecho bem longo com pneus moles e utilização dos duros apenas para cumprir o regulamento.

A pista

O GP terá 56 voltas no circuito de 5,5km relativamente interessante. Das pistas novas e sem personalidade que começaram a se tornar comuns na F1 moderna, não é das piores, com pelo menos dois pontos claros de ultrapassagem mas que, se algum piloto estiver disposto, pode trazer boas surpresas.

Até hoje foram seis provas realizadas em Xangai, com seis vencedores diferentes, o primeiro deles o brasileiro Rubens Barrichelo (Ferrari, 2004). Ano passado, debaixo de chuva torrencial, Sebastian Vettel conquistou a primeira vitória da Red Bull, que fez a dobradinha com Mark Webber. Com o rendimento que teve nas primeiras provas do ano, os dois têm tudo para repetir a dobradinha, desde que não tenham problemas mecânicos. Os outros pilotos que subiram ao alto do pódio foram Fernando Alonso (Renault, 2005), Michael Schumacher (Ferrari, 2006), Kimi Raikkonen (Ferrari, 2007) e Lewis Hamilton (McLaren, 2008).

A programação do GP da China é a seguinte:

15/04 (quinta-feira) – 23h: treino livre (SporTv 2)
16/04 (sexta-feira) – 3h: treino livre (SporTv)
17/04 (sábado) – 0h: treino livre (SporTv)
17/04 (sábado) – 2h35: treino de classificação (TV Globo)
18/04 (domingo) – 3h50: GP da China (TV Globo)

Há que se ter vontade

Primeira prova sem quebra, uma largada brilhante e uma vitória segura de Sebastian Vettel

Fui meio na contramão daqueles que falaram que a chuva foi a única responsável pela fabulosa corrida australiana. É claro que ela ajudou, mas os pilotos ajudaram, pois mostraram combatividade.

E o GP da Malásia, disputado em Sepang na madrugada de hoje ajudou a confirmar minha história. Ao contrário do esperado, não houve chuva e a corrida foi excelente.

Se é verdade que os quatro primeiros dispararam na frente e não foram ameaçados, daí pra trás a prova foi muito boa.

O primeiro destaque, claro, foi a grande largada de Vettel que, pulando de terceiro para primeiro decidiu a prova. Sem os problemas das duas primeiras corridas do ano, a dupla da Red Bull mostrou que, por enquanto, tem os melhores carros do mundial.

E com a cagada que Ferrari e McLaren fizeram na classificação, ficou mais fácil para Nico Rosberg conquistar o primeiro pódio da Mercedes, seguido por um quase heróico Kubica. Se o polonês não tem uma Renault tão ruim quanto prometia a pré-temporada, ainda é verdade que seu carro – em condições normais – não permitiria que andasse regularmente entre os primeiros. Viva o talento.

E viva a Force India que, definitivamente, não é mais uma equipe pequena. Depois do brilhareco no final do ano passado, o carro evoluiu bem. Se ainda não tem a força das gigantes, é fato que deixou alguns times tradicionais para trás. E com Sutil e Liuzzi dirigindo bem, estará habitualmente nos pontos.

Sobre a corrida, propriamente dita, boa parte da sua graça – verdade seja dita – veio das corridas de recuperação de Ferraris e McLarens que partiram desesperadas desde o início. Massa fez uma boa prova, com excelente largada (batendo Alonso novamente) e uma grande ultrapassagem sobre Button, conquistando a sétima posição que lhe deu a liderança do campeonato. A manobra, inclusive, obrigou o companheiro de equipe a forçar mais do que podia e o carro que já tinha problemas de câmbio, estourou em sua tentativa de ultrapassagem sobre Button.

O grande nome do dia foi Hamilton. Feroz. Não por acaso, foi o primeiro entre os quatro que vieram do fundo.

Enfim, depois de três corridas, algumas conclusões:

– A primeira, curiosa, é que no campeonato em que a FIA aumentou o valor da vitória com a nova pontuação, a regularidade pode ser um grande diferencial. É claro que o campeão terá de vencer corridas, mas com tantos carros competitivos, estar sempre por ali fará a diferença;

– Nem tudo será tão chato quanto no Bahrein nem tão divertido quando na Austrália. Mas a prova malaia pode apontar para uma boa média da qualidade de corridas ao longo do campeonato;

– Apenas nove pontos separam o líder e o sétimo colocado do campeonato. Com tanto equilíbrio, os pilotos precisarão mostrar poder de decisão. Ou seja, há que se ter vontade de ganhar corridas e posições. A pasmaceira ou não de uma corrida será definida pelos pilotos (exceções em função de um ou outro circuito, como o quase autorama Hungaroring e o passeio de Mônaco, por exemplo);

– Se a Red Bull realmente resolver seus problemas de confiabilidade, as outras equipes precisarão de fazer muito esforço para que o ano não seja sem graça. Os touros vermelhos são muito melhores que os outros carros do grid e Vettel é um excelente piloto. Como a temporada européia sempre chega com atualizações em todos os carros, precisamos esperar o GP da Espanha pra ver o que vai acontecer. A ver;

– O que está havendo com a Ferrari? Massa já precisou trocar um motor e hoje foram três quebras: Alonso e os dois da Sauber.

– Bruno Senna e Lucas Di Grassi completaram suas primeiras provas na F1 e devem estar muito felizes por isso. Com razão. Mas os dois estão andando bem atrás de seus companheiros de equipe. Olhando para o futuro, é bom que consigam equilibrar a disputa;

– Barrichelo deixou o carro morrer na largada. De novo!

– Daqui a duas semanas, GP da China. A pista não é lá muito atraente, mas quem sabe não temos uma boa corrida.

No quintal de Crocodilo Dundee

Às três da manhã de domingo (horário de Brasília, claro), acontece a segunda etapa da temporada 2010 de Fórmula 1. Depois de toda a expectativa criada sobre um campeonato com quatro equipes e oito pilotos favoritos, a caravana chega a Melbourne tentando consertar o vexame da primeira prova do ano, no Bahrein.

E apesar de ser a segunda prova, a chegada à Austrália tem ares de início de ano. Como equipes e pilotos desembarcam com alguma antecedência para se adaptar ao fuso, uma série de eventos durante a semana faz parecer que a disputa ainda vai começar. Já tivemos Schumacher nadando com golfinhos, Lucas Di Grassi surfando, Button pilotando carro de turismo, Hamilton velejando. E mais coisa ainda vai acontecer até os primeiros carros irem para a pista.

O grande problema da F1, hoje, é tentar acabar com a monotonia das corridas que mais parecem procissões. Um problema difícil de resolver durante o campeonato desse ano, pois os carros que tentam entrar no vácuo sofrem tanto com o turbilhão que saem de controle. Como as paradas, hoje, são apenas para troca de pneus, também não há muito trabalho estratégico. Então, fora a largada e algum eventual problema técnico, é muito provável que tenhamos novo comboio nesse final de semana.

Mesmo assim, há que se ter esperanças. O circuito de Albert Park – meio circuito de rua, meio parque, meio autódromo – é muito melhor que a pista barenita, oferecendo muito mais alternativas de acerto. Além disso, o estilo de pilotagem de cada um, mais agressivo ou suave, pode fazer diferença ao longo da prova, mesmo que todos mantenham a estratégia de apenas uma parada. Para isso, também ajudaria se a Bridgestone levasse para Melbourne apenas as versões macio e supermacio dos pneus.

Para a definição do grid, espero que algumas figuras consigam embaralhar um pouco a coisa, quem sabe assim teríamos alguma emoção na corrida. Pelo que aconteceu na primeira etapa, Force India, Williams e Renault podem colocar ao menos um carro entre os oito favoritos. Torço para isso. Como torço para que Virgin consiga terminar a prova e que Hispania consiga se aproximar ao menos um pouquinho das outras novatas e – não custa sonhar – terminar a prova com pelo menos um carro. A ver.

Novidades

Corrida se aproximando, busca desenfreada por notícias, causos e outros bichos, encontrei mais dois blogs que já estão listados aí na barra lateral, em ‘Na pista’. No Bandeira Verde, apesar do Leandro Verde estar numa fase Senna demais para o meu gosto (ainda por causa do cinqüentenário), há belas abordagens e bons textos, não só sobre F1. O outro achado foi o Motorizado. Ylan Marcel tem boas qualidades – como ser Flamengo e tijucano – e, no blog, fala até de F1. E o grande barato é exatamente o destaque a outras categorias com menos ibope nos canais tradicionais. Resumindo, pra quem gosta de barulho de motor e cheiro de gasolina, vale colocar entre os favoritos.

Um homem de família

Antes de falar do que interessa, gostaria de agradecer à Light por mais uma falta de luz. Dessa vez, a desculpa foi a chuva. De outras o calor. Fiquemos esperando qual será a próxima. E graças a ela, o texto que ficou pronto no domingo à noite, só vai ao ar pela segunda de manhã. Por acaso, não é trabalho. Mas se fosse, quem, como e a que custo pagaria o prejuízo?

Enfim, foi impossível não fazer o mínimo de relação entre esse final de semana, o primeiro de Fórmula 1 do ano, e o filme estrelado por Nicolas Cage em 1999. Não vi qualquer treino, livre ou de classificação. Assisti à corrida, mas a família tra-la-lá já estava pronta pra sair de casa poucos minutos depois da bandeirada de chegada.

De certa forma, não é ruim esperar quase o dia inteiro para sentar e escrever com calma sobre a corrida, deu tempo de pensar em tudo o que aconteceu (e não aconteceu). Pra facilitar a vida de quem escreve e, quem sabe, da meia dúzia de três ou quatro amigos que passam por aqui, vamos por partes – como diria o Tião, açougueiro da esquina.

– Antes de falar da corrida, gostaria de saber quem foi o gênio que resolveu usar um pedaço de pista em que carros de Fórmula 1 não conseguem passar da segunda marcha. Se já não bastasse a falta de personalidade do circuito barenita, substituíram um trecho de velocidade razoável em que havia uma variante de média/alta por trocentas curvas de autorama. É mais ou menos como fazer os carros disputarem uma prova na Estrada do Joá. Só que sem graça, porque em vez da vista do mar e do ambiente da montanha, areia do deserto. Resumindo, uma corrida quase mixuruca em uma pista mequetrefe.

– O primeiro detalhe da prova não foi nenhuma surpresa: a confirmação do tal G4 que a pré-temporada apresentou. Ferrari, Red Bull, McLaren e Mercedes largaram e chegaram nas oito primeiras posições. E se os carros empurrados com motor Mercedes partiram um pouco atrás das outras duas em termos de performance, a Red Bull perdeu uma corrida praticamente ganha para a falta de confiabilidade do seu carro. Um problema no escapamento tirou potência de Vettel no último terço da prova. Italianos, brasileiros e espanhóis vestidos de vermelho agradeceram penhorados.

– Problemas da Red Bull à parte, Alonso ganhou a corrida na saída. Todo mundo achou estranho quando Massa torceu o nariz pelo segundo lugar no grid. E a largada foi didática. Do lado sujo da pista, tracionou mal e – tentando defender posição – acabou entrando nas primeiras curvas em situação desfavorável. Alonso levou a melhor. Sendo a Ferrari extremamente conservadora, dificilmente deixaria seus pilotos abrir uma briga direta por posições. Pra completar, Massa ainda foi obrigado a tirar o pé no final, por problemas de superaquecimento. Para o espanhol, o óbvio: com a vitória na estréia, muita confiança. A luta de Massa será inglória, mas a situação pode ser um dos pontos altos da temporada, porque o brasileiro mostrou que não restou nenhuma seqüela do acidente que o tirou da temporada passada.

– Entre as equipes que fariam parte do segundo grupo, algumas observações. Williams e Force India começam o campeonato brigando pelo quinto lugar entre os construtores e, por algumas circunstâncias de corrida, podem até se meter entre os oito carros mais fortes. Os indianos levam certa vantagem sobre os ingleses se olharmos para a temporada completa, pois têm uma parceria técnica com McLaren, motor Mercedes e mais grana para desenvolver o carro. Toro Rosso e Sauber foram uma grande decepção, principalmente a segunda, que teve seu brilhareco nos treinos coletivos espanhóis. E Renault parece estar melhor do que todos esperavam. Com o talento de Kubica e Petrov (que dadas as possibilidades, fazia uma grande corrida), pode fazer algumas surpresas, principalmente em pistas de baixa.

– Entre as novatas, nada além do esperado. O grande momento foi a fantástica largada de Lucas Di Grassi, um belo cartão de visitas. A Hispania fez pouco mais do que um shakedown, enquanto o time de Richard Branson mostrou as fragilidades de um projeto construído completamente no computador. De qualquer maneira, o carro tem algum potencial. O destaque do dia foi a Lotus, que conseguiu levar seus dois carros até o final.

– De maneira geral, a corrida foi modorrenta. Pela expectativa que havia, parece que foi muito melhor esperar pela festa do que participar dela. De qualquer maneira, as novidades farão bem ao campeonato. Mas é bom saber que mesmo que o número de ultrapassagens aumente, acontecerão muito mais por questões técnicas, como desgaste de pneus ou problemas de freio e motor, graças à nova dinâmica provocada pelo não reabastecimento. Como aconteceu hoje, quando as Ferrari e Hamilton deixaram Vettel pra trás. Se depender da aerodinâmica, nada mudará em relação aos últimos anos. Ainda mais com os pneus dianteiros mais estreitos. Entrar no vácuo, fazer curva embutido… Todas essas manobras de preparação para uma possível ultrapassagem tornam o carro indirigível.

– Da primeira corrida, valeu mesmo o acúmulo de informações que os times levarão para as próximas. As trocas de pneu prometidas a pouco mais de dois segundos não aconteceram. Os tempos devem até cair, mas nada assombroso. No patamar de hoje, entre 4 e 5 segundos, ainda não vale a pena correr o risco de fazer duas paradas em função do tempo total perdido. De quebra, a durabilidade dos pneus – mesmo os macios – não causou grandes perdas de rendimento.

– A próxima corrida acontece em duas semanas, no circuito de Albert Park, em Melbourne. Pista tradicional, muito mais divertida para pilotos e espectadores, meio autódromo, meio circuito de rua. Carros e pilotos não sofrerão com altíssimas temperaturas e areia. Pneus também devem sofrer menos, pois o asfalto é muito menos abrasivo. Se alguma equipe levar atualizações, devem se resumir às novas, principalmente peças mais resistentes na Virgin e qualquer coisa que possa, pelo menos, aproximar a Hispania das outras duas estreantes.

– Por fim, mais uma triste transmissão da Globo. O que é VRT? É como os profissionais da vênus platinada chamará a Virgin. Outra: apesar de ter Emerson Fittipaldi na cabine, e principalmente na hora de se despedir do bi-campeão, o narrador (ele mesmo…) falou muito mais que o convidado. Também tentaram fazer sentimentalismo barato com o Bruno Senna que, brilhantemente, não se deixou levar. No final, narrou o final da corrida uma volta antes do que devia. Triste é ver alguém como Reginaldo Leme preso a essa engrenagem.

– Também pode ser divertido para alguém (tem louco pra tudo) ouvir o Mania de Esporte da semana passada e comparar o que aconteceu na corrida e as previsões que foram feitas.

As fotos são do IG, Globo.com e do site oficial da Fórmula 1