Tentando desenhar

Violência após o ato pela educação, no Rio / Foto: Byron Prujansky/FacebookAcho que já escrevi a respeito, mas vou tentar desenhar. Tem gente que ainda não entendeu o porquê de tanta violência e a quem interessa a confusão. Vai em tópicos, pra ficar ainda mais fácil.

1. Desde junho, quando as manifestações começaram a crescer, o pau canta nas ruas.
2. Primeiro, foi nítido que as multidões estavam infiltradas (e eu assisti isso de perto).
3. Depois surgiram o Black Bloc, o Fora do Eixo e a Mídia Ninja. E até hoje há muitas pessoas acreditando que são todos muito independentes.
4. A pancadaria, claro, afastou as pessoas comuns das manifestações, que diminuíram clamorosamente de tamanho.
5. A quem interessa que a população se manifeste e defenda seus direitos?
6. A quem interessa esvaziar as ruas, amedrontando as pessoas para que elas não se manifestem e voltem ao estado bovino da massa?
7. De quebra, a pancadaria deixa um rastro de destruição (fora aqueles que se aproveitam pra roubar e saquear) que ajuda a aterrorizar e fortalecer o discurso contra as manifestações.

Quem acompanhou a transmissão do ato pela educação de ontem, no Rio, pôde perceber exatamente como as coisas acontecem. Após a passeata que reuniu algumas dezenas de milhares de pessoas chegar à Cinelândia, houve alguns pronunciamentos e começou a debandada de quem participou do ato. E pronto.

Apareceu a polícia (o choque, sempre o choque) e o encontro com os Black Bloc (aqueles que se dizem independentes) foi aquela alegria: bombas, gás, borracha, porrada, pedras e muita destruição.

Será que agora ficou fácil de entender?

Não, não estou discutindo métodos (por exemplo, sou contra ocupações). Mas daí dizer que não é legítimo que as pessoas se organizem (ou não) e se manifestem vai uma enorme diferença.

Agora, negar que há um grande esforço por esconder as verdades e pela manutenção do poder é fazer de conta que vive em Marte. E, sim, tem muita gente por aí que anda se escondendo da realidade.

O STF e seu 11/9

11 de setembroO grande barato desse meu cafofo é que não tenho qualquer compromisso com qualquer coisa. Já escrevi sobre isso outras vezes. É quando quero, se quero, sobre o que quero.

Não é por acaso que já estou há semanas sem escrever, já não é a primeira vez que reclamo de enfado em relação ao que vem acontecendo nesse nosso Brasil de meu Deus.

Quando a atuação de Joaquim Barbosa como relator da Ação Penal 470, o processo do mensalão como sabemos todos, quase o transformou em pop star, isso não se deu por acaso. Apesar de todos os seus defeitos superlativos, viu canalizado para si e suas posturas a esperança de que, apesar e com toda a demora do nosso judiciário, haveria solução, haveria a chance de se começar a construir um país moral, ético.

Quando explodiram as manifestações de junho, em meio a um bom tanto de balbúrdia e à clara falta de foco, ficou patente que a grande demanda, o grande desejo era a necessidade de um país sem corrupção.

Então é sintomático e extremamente simbólico que Luis Roberto Barroso – recém empossado e claramente com a missão de torcer a realidade em favor de interesses pessoais contra os republicanos que deveria defender – tenha encerrado seu voto falando da necessidade de se dar uma resposta à sociedade. Bela resposta, diga-se.

A essa altura, mesmo que o plenário recuse por 6 a 5 os embargos infringentes (o que já não acredito mais), o que a turma de ministros a soldo terá feito é demonstrar que já não há mais esperança, que estamos mesmo entregues às querências de um projeto de poder, de um partido que – depois do maior estelionato eleitoral de nossa curta história -, usando todos os mecanismos democráticos, aplica sobre nós o maior golpe contra a democracia (plena) que o país terá vivido em toda sua história. E aos que acham que isso é fatalismo, preparem-se para o marco civil da internet e o controle social da mídia.

Então não é por acaso a imagem escolhida pra ilustrar esse post. Não é por acaso que a estátua da liberdade está ali, como que observando o mundo ruir e virar fumaça. Estamos entregues.

Impossível pois, com tudo isso, não se reconhecer como o tolo personagem de Raul.

Abaixo, um texto de Luiz Octavio Bernardes, um sujeito de pena brilhante como diriam os antigos.

O STF submisso

Nem uma virada histórica que determine o placar de 6 a 5 contra os embargos infringentes vai apagar a mancha na sua trajetória que o STF se autoimpôs hoje. Isto porque, por uma questão regimental, logo após o relator, que vem a ser o atual presidente Joaquim Barbosa, apresentar seu voto de não aceitar os embargos, fomos bombardeados com outros três acatando os tais, cada qual com uma lógica que enrubesce quem não é causídico como eu.

Invocando aspectos regimentais, Barroso e Zavarscki cumpriram com o que o PT os orientou, mas derraparam feio no Direito Constitucional.

O mesmo raciocínio foi usado pela ministra Rosa Weber, esta exibindo uma linguagem corporal de quem queria mesmo era passar totalmente despercebida e ponderando “sims” e “nãos” até, finalmente, pronunciar seu voto. Estava difícil entender onde ela ia terminar.

O ministro Fux, igualmente nomeado pelo PT, começou enumerando as incongruências pronunciadas pelos que o antecederam. E com uma fisionomia de ironia, como que transmitindo “vou votar, mas as cartas estão marcadas”. Ironia compartilhada por Marco Aurélio Mello, que chegou a falar “revisar deve ser melhor, afinal aqui somos todos juízes pouco experientes”.

Em seguida veio o cidadão que mais deve envergonhar o STF em sua história: Dias Toffoli. Abriu a boca e com cinco minutos de fala recebeu uma reprimenda e um devido desprezo de Joaquim Barbosa e nenhum aparte a seu favor. Este sujeito entende menos de Direito Constitucional que muito advogado de porta de cadeia. Ele realmente envergonha e mancha a reputação da corte máxima do país. Depois do puxão de orelhas, proferiu seu voto em mais cinco minutos, cortado por um “termina logo que eu tenho um compromisso inadiável, por favor” do Celso de Mello, o que demonstra o quanto seus pares o consideram.

Eu, que repito, não sou causídico, fiquei com a seguinte impressão: todos os ministros estão sob terrível pressão. Pressão esta que não se sabe nem a que nível chega, mas deve ser enorme. Isso justifica o comportamento da Rosa Weber, que acompanhou os votos do relator nas penas e agora defende uma “outra chance” de rever as mesmas penas que ela ajudou a definir. Visivelmente, cedeu à pressão.

Pressão de dois novos chegados, Barroso e Zavarscki que não participaram das 52 sessões do julgamento e estão livres para invocar qualquer baboseira que descobrirem no arcabouço legal para justificar seu voto agora. Um “penduricalho” como definiu o Ministro Fux, por exemplo. A mesma pressão que deu conforto a Luiz Fux para detonar, inclusive citando jurisprudências de outros países, os embargos, pois ele sabe que o resultado está definido e aproveitou para brilhar no palco.

Ocorre que um novo julgamento – e isso foi dito em plenário pelo ministro Gilmar Mendes – que “ninguém aguenta mais” vai ser muito mal recebido pela opinião pública e de certa forma diminuirá a envergadura do STF nos embates com o Legislativo e o Executivo que temos observado recentemente.

Somado à empáfia de alguns dos réus que não economizam em desafiar princípios do Direito Penal (como interferir no julgamento) com o respectivo beneplácito da velocidade quelônica da nossa justiça, a antipatia a tudo isso atinge o auge. O problema é que parece que o brasileiro se resignou em apanhar da polícia. E está desamparado juridicamente porque os legislativos criam mecanismos de autoproteção.

Por este motivo, depositava-se no STF um crédito no qual, se pelo menos pusessem um fim a esse famigerado mensalão sem se curvar ao partido que se apoderou do país, estaríamos ainda ouvindo os ecos de junho e quem sabe nos alimentaria para novas mudanças.

Mas não. O STF hoje escreveu uma das páginas mais obscuras de sua História hoje, 11/09/2013.

Nostalgia e esperança

Fui ao Maracanã muitas vezes com meu pai. Para jogos do Flamengo e do Fluminense e dos outros também, que Maraca no domingo era bom programa. Jogos cheios e vazios. Mas nunca fomos à final. Depois da separação, com a rotina adaptada a um dia no fim de semana e outras aporrinhações, nunca mais.

Fomos a jogos importantes, como as semi-finais do brasileiro de 1984. Mas não mais que isso. E nem sei dizer como seria, cada um torcendo para um time.

Hoje está tudo muito diferente. Meu pai não tem mais paciência pra estádio e eu parei de freqüentar desde que o Maracanã fechou para as obras da Copa (Engenhão ninguém merece). E hoje tenho duas filhas.

Juntando as duas famílias, só eu sou rubro-negro. E para não correr o risco de perder as petizes definitivamente por uma pressão desigual feita pelo outro lado, o combinado desde que Helena nasceu é que ninguém faria força, falaria muito no assunto ou daria presentes temáticos. E assumimos que ela é América. Mais neutro, no Rio, impossível. Com Isabel, o procedimento será o mesmo.

E pra não arrumar confusão, me seguro. Mesmo. Firme em mim a esperança de que – naturalmente, por e para serem felizes – serão rubro-negras. Mas, ontem, não resisti. A camisa nova chegou, linda, e fiquei todo pimpão desfilando pela casa. E quando perguntei se estava bonito, Helena disse que sim. Como disse, esperança…

Coincidência, hoje faz doze anos que Petkovic fez o gol mais importante da sua carreira, de falta, aos 43 minutos do segundo tempo. O gol de mais um tri. E aí dei de cara com essa texto no blog do Rica Perrone. Um bom tanto de saudade da minha infância, um bom bocado de que um dia estarei na arquibancada ao lado das minhas moças.

Um domingo qualquer

Petkovic comemora o gol que deu o tricampeonato ao Flamengo em 2001 / Foto: Ana Carolina Fernandes/FolhapressEra um dia frio, sem chuva.  Seria um dia chato, não fosse o Maracanã lotado e a expectativa de um título. Ele não era fanático, sequer tinha visto o estádio lotado na vida, até então.  Tinha 13 anos e torcia, timidamente, para o Palmeiras, apesar de morar no RJ.

Naquele domingo seu pai o levou na final.  De bandeira, camisa e ingresso na mão, chegou assustado com a multidão. Entrou faltando 15 minutos pra começar e, quando olhou em volta, disse: “Pai, quantas pessoas tem aqui?!?”.

– Muitas, filho… uma nação inteira, disse o pai.

Aquela multidão explodiu em faixas, bandeiras e papel picado minutos depois.  O garotinho se encolheu com medo e sentou.  Com 1 minuto de jogo a torcida levantou e não deixou que o guri visse mais nada. Ele ouvia, sentia, mas não assistia.

Seu pai, rubro-negro fanático, não tinha muita esperança de que seu pivete palmeirense um dia se envolvesse com futebol. Jamais mostrou grande interesse, e só torcia porque tinha um amigo que era palmeiras.

O Flamengo saiu ganhando, mas não bastava. Tinha que ser com 2 gols de diferença, ou nada. Seu pai explicou que “faltava um”, e o garotinho não entendeu. Afinal… vitória não é vitória de qualquer jeito?

Sofreu um gol, e ele não tirou sarro do pai como sempre fazia. Ficou triste, como que contagiado pela multidão. O outro lado, 40% do estádio apenas, fazia barulho, e ele ouvia o silencio da nação a sua volta. Segundo ele, o silencio mais dolorido que já escutou na vida.

O Flamengo fez o segundo, e o garotinho, se envolvendo com o jogo, vibrou. Pulou no colo do seu pai e o abraçou como se fosse um legítimo urubuzinho.

Não era, ainda.

A torcida começou a cantar o hino, que ele sabia de cor de tanto ouvir o pai cantar.  Pela primeira vez, cantou num estádio, e fez parte da nação. A angustia de milhares não passou em branco. Em mais alguns minutos o garotinho suava e já rezava de mãos grudadas ao peito.

O Flamengo virou, mas não bastava.

40 minutos do segundo tempo. Mesmo com 2×1 no Placar, a nação ouvia gozações do outro lado. Ele não entendia, e fez o pai explicar, mesmo num momento dramático do jogo.

Atencioso, o pai sentou e contou pro garoto que o Flamengo precisava ter 2 gols de vantagem, porque a vitória por um gol empataria a soma de 2 jogos, e o empate era do rival. Ele não entendeu bem, mas simplificou em sua cabeça: “Mais um e ganharemos”.

Opa… “ganharemos”?  Ele não era palmeirense?

E então, aos 43 minutos, onde alguns já se mexiam na direção da saída, uma falta do meio da rua.  Seu pai vibrou e ele questionou: “O que foi? Foi pênalti!? “

– Quase isso, filho!! Dali pro Pet é pênalti!!, profetizou o pai, ignorando a distancia da falta.

A cobrança… o silencio eterno de 1 segundo e a explosão.  Gol do  Flamengo! Petkovic! E seu pai o abraça como nunca abraçou em toda sua vida. Pula, joga o garoto pra cima, beija, chora…

O garotinho, numa mistura de susto com euforia, olha em volta e, de braços abertos, comemora em silencio um gol que não era dele.  Sem razão, ele chora. E chorando, abraça o pai que, preocupado, rompe a alegria e pergunta: O que foi? O que foi? Se machucou?

– Não…  Eu to feliz, pai!

Sem mais palavras, o pai sentou e abraçado ao garotinho deu um abraço de tricampeão. O jogo acabou, e os dois continuaram abraçados.

A festa rolando, os dois assistindo a tudo aquilo emocionados, o garotinho absolutamente embasbacado com a cena, já que nunca havia visitado um estádio lotado, muito menos uma decisão. O pai olhava pro campo e pro filho, porque sabia que, talvez, aquele fosse seu único momento na vida onde teria a imagem de seu garoto comemorando um titulo do time dele.

E chorava, sem vergonha nenhuma de quem estivesse em volta.

O menino foi embora pensativo, eufórico. Em casa, contou pra mãe com uma empolgação incomum sobre tudo que viveu naquela tarde. E não falava do jogo, apenas da torcida.  Iludido por uma frase, contou pra mãe:

– Aí, no finalzinho, teve um pênalti! E o Flamengo fez o gol…
– Não filho… não foi pênalti! Foi de falta.
– Mas você disse que foi pênalti…
– Era modo de falar…. hahahahahah
– Então, mãe…  aí, o cara fez o gol e a gente foi campeão!!!

Pronto. Aquele “a gente” fez o pai parar de colocar cerveja no copo, virar a cabeça lentamente e perguntar, com medo da resposta:

– A gente, filho?

(silencio…)

– É pai! O Mengão!!!!!

Emocionado, o pai abraçou o garoto e não falou nada. Ali, seu maior sonho virava realidade. A mãe entendeu, deixou os dois na cozinha e saiu de fininho, enquanto o pai começava a contar de uma outra final que viveu em mil novecentos e bolinha, com toda a atenção do novo rubro-negro.

Hoje o garoto  tem 21, completados há alguns dias.

Quando seu pai perguntou o que ele queria de presente este ano, a resposta foi essa:

– Dois ingressos, uma bandeira, a camisa nova e ver você chorando igual aquele dia.

E há quem diga que “futebol é bobagem”…

Não chegou

Fla não aguentou a pressão e entrou em campo nervoso e sem arrumação

Para mim, que sou meio profeta do apocalipse, o Flamengo perdeu o campeonato ontem. Sinceramente, apesar de passar as próximas duas semanas torcendo como louco, fico pensando em todas as chances desperdiçadas e vexames vividos nos últimos anos. E não consigo confiar. Além do quê, ainda há que se torcer muito para mais um tropeço do São Paulo, contra Goiás e Sport. Duro de acreditar…

Resumindo o que aconteceu ontem, o time amarelou. Não de ter medo, mas de não aguentar a pressão. O time entrou nervoso, sem saber o que fazer com a bola, sem poder de decisão. Faltou coragem para ser campeão.

Pra finalizar, o Angelim ainda saiu do campo falando bobagem, sobre uma tal mala branca de no mínimo 300 mil. Sinceramente, contra aquele time mequetrefe do cerrado, a mala podia ser trocentos milhões. Se quer ser campeão, tinha obrigação de ganhar e pronto.

Vamos ver o que acontece agora…

Mais uma novela nas pistas

Como é sobre algo que adoro e como não escrevo há muito tempo, preparem-se porque o texto é longo. O assunto já é quase velho, mas como não tenho compromisso com notícias frescas por aqui, tudo bem.

A Lotus 72, de Emerson Fittipaldi

A Lotus 72, de Emerson Fittipaldi

Já escrevi que sou apaixonado por Fórmula 1, muito graças a Nelson Piquet. Quando tinha lá meus quatro ou cinco anos, ganhei de presente um carro de fricção, uma réplica do carro mais bonito que já correu pelo mundo (na minha modesta opinião, claro): a Lotus preta e dourada, com patrocínio de John Player Special. Garotinho que gostava de carrinhos, aquele deve ter sido apenas mais um entre tantos que tive. Mas certamente ajudou a parar na frente da TV ao lado de meu pai para assistir as corridas.

Não tenho memória clara da época, mas sou capaz de imaginar meu pai falando algo como “olha lá o seu carro na televisão”. Pra completar, quando começava a entender de verdade o que era aquilo, o sujeito que tinha uma gota vermelha pintada no capacete foi campeão mundial. Duas vezes.

Nelson Piquet no carro que lhe deu o primeiro título, em 1981

Nelson Piquet no carro que lhe deu o primeiro título, em 1981

Além de ser um dos pilotos mais completos que já vi correr, em parceria com inventivo Gordon Murray, não foram raras as vezes que Nelson encontrou brechas nos regulamentos para introduzir novidades, como o pit stop e o cobertor elétrico para pré-aquecer os pneus. Afinal, tudo o que não é proibido, é permitido.

No entanto, e apesar de ter ganho o troféu limão por anos a fio, nunca houve qualquer desconfiança sobre a esportividade, honestidade ou qualquer outra coisa que pudessem macular sua carreira. Em resumo, jamais pairou sobre o tricampeão a pecha de trapaceiro.

Mas no último final de semana explodiu um escândalo que coloca seu filho no centro de um furacão, levantando a hipótese de Nélson Ângelo Piquet ter jogado seu carro contra o muro do GP de Cingapura de 2008, de propósito e sob ordem da equipe, para beneficiar o companheiro de equipe Fernando Alonso, que acabou vencendo a prova.

Nelson, além de pai, sempre foi o guia da carreira de Nelsinho, criou equipes para o garoto correr com as melhores condições possíveis, conquistar os títulos e, afinal, chegar à F1. Mesmo com tudo à mão, se o garoto não fosse bom, não teria vencido tanto. Mas ser bom não é garantia de que dará certo na categoria máxima. Na F1, para se ter sucesso, é preciso ser phoda. Com ‘PH’ mesmo.

Em entrevista a Victor Martins (Blog Victal e Grande Prêmio), Roberto Pupo Moreno, ex-piloto e amigo íntimo da família Piquet, foi taxativo: “não faz parte da criação de Nelsinho”. Tendo a concordar com ele e a não acreditar que as coisas tenham acontecido da maneira que estão fazendo parecer.

Nelsinho no muro de Cingapura

Nelsinho no muro de Cingapura

Barrichelo e Coulthard fazem coro, com um argumento óbvio. Se receber a ordem de deixar o companheiro de equipe passar não é bem visto, que dirá sofrer um acidente. Além do absurdo da situação, como medir as conseqüências da batida. No caso, pelo ângulo que bateu, Piquet poderia até ter tido problemas sérios na coluna. Seria, me melhor das hipóteses, abusar da sorte.

Mas vamos agora fazer um exercício de imaginação. Na classificação para o GP, Fernando Alonso foi apenas o 13º e Piquet, como de hábito, largava mais atrás ainda. Naquele momento, a Renault ameaçava deixar a categoria (pressão comum há anos) e Flavio Briatore (chefe da equipe e manager do brasileiro) ameaçava demitir Nelsinho. No sábado à noite, em reunião sobre a corrida do dia seguinte, Flavio lança a idéia: Fernando larga bem leve (algo muito incomum para quem larga atrás) e para antes de todo mundo. Poucas voltas depois, Piquet provoca um acidente e a entrada do safety car, para que todos os outros pilotos da prova entrem nos boxes e Alonso pule para as primeiras posições (acabou virando líder). Em troca, Piquet não será demitido e ainda tem garantido o contrato para o ano seguinte. Pressionado, o brasileiro aceita participar da farsa.

Com um bom resultado, a montadora diminui a pressão. E como Piquet já vinha fazendo uma temporada sofrível, com muitos acidentes inclusive, ninguém estranharia mais um.

Porque um plano como esses não surge durante a corrida, tem que ser combinado antes. Além disso, o número de pessoas envolvidas não poderia ser tão pequeno, acabaria vazando. Acho tudo fantasioso demais. Inclusive porque a melhor maneira de seguir uma carreira não é jogando o carro na parede, mesmo que receba a ordem. É conquistando bons resultados.

Agora, imaginem toda aquela pressão que descrevi ali em cima e apenas uma combinação entre Flavio Briatore e o engenheiro de Piquet: “pressione ele pelo rádio durante toda a corrida!”. E as conversas começam logo nas primeiras voltas, e o engenheiro fala o tempo todo, exigindo cada vez mais velocidade, e Nelsinho passando cada vez mais perto do muro, andando sempre, como diz um certo Bueno, no ‘limite extremo’. Até que, na saída de uma curva fechada, o brasileiro pressionado dá motor muito cedo, o carro sai de traseira e acerta o muro.

Nélson Ângelo Piquet, Flavio Briatore e Fernando Alonso

Nélson Ângelo Piquet, Flavio Briatore e Fernando Alonso

Para mim, é uma opção mais viável. Mesmo assim, teriam de contar com a sorte para que tudo acontecesse no momento certo. De qualquer maneira, não será fácil provar qualquer uma das opções, mesmo com dados de telemetria e gravações do rádio.

Como Piquet foi demitido da Renault há poucas semanas e saiu falando cobras e lagartos de Briatore, muitos imaginam que a denúncia teria partido dele ou do pai. Não faz o menor sentido, porque seria um tiro no pé. Se, mesmo sem comprovar nada, a carreira do garoto já está abalada, imaginem se ele mesmo diz que isso aconteceu. Mesmo sem provar nada, seria o fim, porque ninguém contrataria alguém capaz de falar mal do chefe, de denunciar as artimanhas da equipe (mesmo que desonestas). Principalmente algo assim.

Reginaldo Leme, responsável pelo furo mundial, já disse que os rumores e que a investigação da FIA já começaram há algum tempo, o que eliminaria o ‘dedodurismo’ de Nelsinho. Ao mesmo tempo, Pizzonia (amigo) e Di Grassi (piloto de testes da Renault) já deram dicas de que vem mais coisa por aí, que a ventilador nem começou a funcionar de verdade. A ver.

Tento ser realmente um otimista e não acreditar no envolvimento de um Piquet em algo tão baixo. Inclusive porque publicou em seu Twitter que há boas possibilidades para 2010 e sequer se referiu à bagunça.

Aliás, é bom que se diga, se há algo estranho nesse caso é o silêncio dos Piquet, de Briatore e da própria Renault.

Uma das famosas caretas que Briatore adora mostrar na TV

Uma das famosas caretas que Briatore adora mostrar na TV

Mas em toda a análise do escândalo que está sendo construído, não se pode esquecer que Flavio Briatore é um personagem tido como fanfarrão, que não entende nada de corridas, que quer mesmo aparecer o tempo todo e que é reconhecido como uma espécie de Dick Vigarista. Ou seja, não é difícil que muita gente queira derrubá-lo. Afinal, a denúncia partiu de dentro. Também vale lembrar que a FIA confirmou a investigação, mas oficialmente ninguém disse que é sobre o acidente de Cingapura, mas incidentes em um GP do ano passado.

No final da confusão, acho que a Renault finalmente cumpre a promessa de abandonar a F1, Briatore vai dar uma boa sumida e a carreira de Piquet, se não for encerrada, estará em grande risco. Independente do que conseguirem provar. Talvez o que estou dizendo seja óbvio. Mas ao contrário de muita gente que conheço e li por aí, não consigo acreditar que o acidente foi uma armação com a participação de Nelsinho.