Pique-esconde animal

(…) para os moradores dos arredores está pior. Os assaltos continuam acontecendo. Na Rua Engenheiro Adel foram roubados dois carros e um terceiro teve seu vidro quebrado, em uma semana. (…) Na Rua Barão de Itapagipe, duas pessoas foram assaltadas, uma ficou sem celular e outra sem a bolsa (fatos ocorridos em junho). Na mesma rua, esquina com Rua Aguiar (…) continua funcionando uma boca de fumo – até durante o dia é possível ver as pessoas usando drogas na calçada, em frente a uma mecânica.

Digo que está pior, pois a sensação de insegurança é maior. Todos acreditamos que com a UPP os principais problemas seriam resolvidos. Utopia! Realmente, em um primeiro momento, os bailes acabaram, os fogos não existiam, os assaltos quase zeraram… Porém, aos poucos vejo que o “funcionamento” da comunidade volta ao normal. Conversando com alguns moradores da favela, me disseram que eles também estão receosos, que traficantes que fugiram estão voltando e que a polícia já está virando piada.

Bom, meus amigos, moro na Tijuca. E ouvi muito tiro durante o último final de semana. Todos eles em favelas pacificadas. No Catumbi, também pacificado, uma granada foi jogada sobre policiais (um deles perdeu a perna e está em estado gravíssimo no hospital), houve troca de tiros mas ninguém foi preso e segue tudo bem.

O primeiro texto, com referências ao Turano e seus arredores, é trecho de um e-mail que recebi. Quem enviou foi a Claudia, do Grupo Grande Tijuca. Talvez vocês não lembrem, mas no dia 1º de abril contei sobre o rapaz de bicicleta que fazia assaltos ali pelo Largo da Segunda-Feira, que todos conheciam, “já foi até preso”. O segundo, é trecho de um post de um mês atrás, sobre o final de semana de instalação da UPP da Mangueira. Também já conversei com algumas pessoas que moram em outras áreas próximas a favelas ‘pacificadas’, Alemão inclusive – que é vendido pelo estado e pela mídia como grande vitória da sociedade. O diagnóstico de todos é o mesmo. O pau está comendo solto, nas barbas de todo mundo. A semana passada em Santa Tereza, por exemplo, foi quentíssima.

E todo mundo, estado e mídia, fazem questão de fingir que está tudo bem. Tudo é lindo, tudo é maravilhoso.

Estamos cansados de saber que nosso governador não está muito preocupado com isso, visto que está enrolado com seus problemas pessoais, além da montanha de dinheiro em contratos muito mal explicados com empresas de seus amigos e quase familiares. E onde está nosso secretário de segurança, Sr. Beltrame? Calado, escondido como uma tartaruga que se faz passar por pedra, um tatu que se faz passar por bola ou simplesmente com a cabeça enfiada na terra, como um avestruz, esperando que ninguém repare no resto do corpo?

Pequenas observações sobre quase tudo ou quase nada (2)

É impressionante como coisas simples, muitas vezes, deixam você de cabeça pra baixo. No meu caso, uma febre quase constante de 39º que apareceu sem motivo aparente e que, constante, nos fez ficar de vigília entre antitérmicos, banhos e compressas durante quase dois dias, até descobrir a garganta inflamada e começar o tratamento que, aos poucos, foi devolvendo a boa disposição e o sorriso – além do sono tranqüilo. E se eu fiquei meio fora de órbita, e até Adriça e Joana deram seus plantões ao redor do berço, certamente vocês conseguem imaginar como ficou a mãe da moça. O pior é que até hoje (2011!) ainda há gênios que as acreditam como sexo frágil. Ahã…

Mas mesmo depois de quatro dias sem praticamente abrir o computador, ler jornal ou prestar muita atenção à TV, metido que sou, resolvi dar aqui alguns pitacos sobre algumas notícias relevantes dos últimos dias.

 

Mínimo

Tenho achado muito curioso todo o noticiário que vem de Brasília nos últimos tempos. Como todos sabem, será bastante discutido e provavelmente votado o reajuste do salário mínimo nesta semana. E vejam como o termo ‘curioso’ realmente cabe aqui. Sem entrar na discussão sobre se é certa ou errada, o fato é que foi criada e aprovada uma regra (que deveria valer até 2023) para os reajustes anuais do vale coxinha nacional. Então, se está havendo discussões, pressões etc., é porque neguinho está rasgando a regra. Será que estou enganado?

Noves fora, a discussão ficou tão acalorada que o próprio presidente da câmara, Marco Maia (do mesmo PT de Dilma), disse que haverá um amplo debate na casa. Como o governo tem ampla maioria e deve conseguir a aprovação da milionária quantia de R$ 545, não se sabe o quanto há de farofa (afinal, a população precisa acreditar que os caras estão lá para defender seus interesses) e o quanto há de pressão por outros interesses. O que se sabe é que as nomeações para o segundo escalão estão paradas, à espera do resultado da votação.

Então, não é mesmo curioso? Porque é claro que fisiologismo não passa nem perto disso e eu devo mesmo estar meio doido.

 

Senna

É, eu também caí na esparrela de que haveria um duelo entre Bruno Senna e Nick Heidfeld pela vaga de substituto de Kubica na Lotus Renault (a preta). Diga-se de passagem, a postura do brasileiro durante a semana foi sensacional. Além de entender e concordar com a busca por alguém mais experiente para o desenvolvimento do carro, aproveitou a chance de andar com um F1 de verdade. Depois de quase 70 voltas no circuito de Jerez, na Espanha, foi consistente, fez bons tempos e passou boas informações para o time. Ganhou quilometragem e se mostrou pronto para assumir o posto de piloto no caso de eventualidades. Enquanto isso, o alemão deverá mesmo ser o escolhido para a vaga e o anúncio deve sair nesta semana, antes dos próximos testes, que acontecerão em Barcelona.

Enquanto isso, a Globo não perdeu a chance de fazer uma matéria bem ‘mela cueca’ sobre o nome Senna e o carro preto e dourado chamado de Lotus. Aquele velho papo de Brasil-il-il que não leva ninguém a lugar nenhum.

 

Frenesi faraônico

E Mubarak caiu e assumiu uma junta militar. Com uma promessa: governar pelos próximos seis meses ou até que seja possível convocar eleições gerais. De quebra, o parlamento desfeito e a constituição rasgada (oficialmente, uma comissão fará sua revisão com consultas à população). Não sei vocês, mas ando encafifado com essas promessas do novo governo, tenho a impressão que já li algo parecido com alguns livros de História por aqui. Mas deve ser só uma cisma boba minha né. Afinal, todas as grandes nações apoiaram (mesmo que a contragosto velado) a mudança no país.

É claro que não sou louco, sou contra qualquer tipo de ditadura. Mas há que se observar com cuidado o que vai acontecer no Egito daqui pra frente. Não sei porquê, mas tenho a impressão de que haverá problemas graves no futuro, algo como uma nova ditadura de fundo religioso, devidamente disfarçada por eleições. Tomara que eu esteja errado.

Outra coisa a se observar com atenção é que a confusão na terra dos faros não foi a primeira a começar, mas a primeira a ter resultado concreto. E que uma espécie de efeito cascata já pode ser visto em outros países do Oriente Médio e da Ásia. Será um ano bem barulhento ao redor do mundo, podem esperar.

 

Farelo

Um pouco mais de F1, vou arriscar falar de pneus. Existem algumas maneiras óbvias de se utilizar a participação no automobilismo como publicidade de pneus. A maior delas é mostrar que seu produto é extremamente confiável: durável (econômico) e seguro. Foi o que a Bridgestone fez desde que é fornecedora F1, entre outras categorias).

Pois a nova fornecedora, a Pirelli, resolveu assumir outro caminho. Em parceria com os anseios da FIA e da FOM por corridas mais emocionantes, seus pneus praticamente se esfarelam na pista, obrigando pilotos a serem mais delicados ao volante e – ao mesmo tempo – obrigando equipes a pensar em estratégias diferentes das até hoje habituais. Mesmo que isso não seja apresentado claramente em sua publicidade, isso mostrará como os pneus (e a maneira como você os usa) pode mudar o comportamento de um carro, tornando-o mais ou menos seguro.

Sobre o resto da Fórmula 1, só faltam mais duas baterias de testes antes do início da temporada. E é a partir da próxima, em Barcelona, que será possível começar a entender a relações de força do campeonato que vem aí. A pista espanhola é fundamental por vários aspectos e muitos dos trunfos que foram escondidos até agora pelas equipes serão, finalmente, apresentados. Ainda será possível ver brilharecos deste ou daquele time em busca de patrocinadores, mas ao final da semana já saberemos – com raros desvios – quem vai brigar pelo quê durante o ano.

 

Paz insuportável

Então tá, desde sexta-feira a polícia federal faz operação no Rio, com mandados de prisão contra trocentos policiais civis e militares que revendiam a traficantes, parte do material apreendido (drogas, armas e munição) em operações nas favelas, inclusive naquela que virou propaganda de governo, no Alemão e na Vila Cruzeiro.

E aí, já ouvimos e continuaremos ouvindo expressões como ‘cortar a própria carne’(ou vocês acreditam que o nome “operação guilhotina” é por acaso?), ‘depurar a instituição’ e coisas do gênero.

Preciso admitir que estou positivamente surpreso, pois a coisa apareceu de maneira rápida para os nossos padrões. O problema é que é justamente por coisas assim que não perco a desconfiança de que todo o esforço feito até agora não passa de uma espécie de maquiagem para que o cenário esteja a contento para a copa de 2014 e os jogos de 2016. Mas vocês não tem noção de como eu quero estar completamente errado sobre isso.

 

Passou da hora

E o Flamengo goleou o Resende por 1 a 0 hoje e terminou a fase de classificação da Taça Guanabara com 100% de aproveitamento. Lindo! Só que, a despeito dos números, não vi o time jogar bem de verdade durante um jogo inteiro até agora. E, sinceramente, já passou da hora do profexô dar um padrão de jogo para o time. Porque a verdade é que, até agora, foi só baba. Tanto que o ex-Bacaxá passou para as semifinais em segundo no grupo.

Mas não há como negar que somos favoritos. Afinal, nosso próximo adversário conseguiu empatar com Bangu e Macaé. E o Fluminense perdeu para ele… O que me incomoda nessa história (é, sou mesmo fatalista e pessimista) são os tais 100%. Porque todo mundo sabe que ninguém é imbatível, e quanto mais tempo passamos invictos, mais perto estamos da primeira derrota. Tomara que não seja agora.

Noves fora, antes do jogo com o Botafogo, teremos a estréia na Copa do Brasil contra o Murici de Alagoas. Bom momento para o time encaixar, como gostam os boleiros, e começar a jogar bem. Porque a Copa do Brasil vale muito e 2 a 0 lá garante ao time uma semana livre de compromissos para treinar em paz.

 

Aposentadoria

Cá entre nós, já tinha passado muito da hora do gordo pendurar as chuteiras, já faz anos que luta de modo absurdo contra as contusões e o tamanho da barriga.

Talvez eu seja apedrejado agora, mas sempre (há testemunhas) disse que Ronaldo era um atacante excelente e só. É claro que sua história de voltas por cima, inclusive com seu desempenho na copa de 2002, são sensacionais. Ou fenomenais, vá lá. Foi um grande artilheiro que tinha problemas em cabecear, dava grandes arrancadas mas seus dribles nunca foram  fluentes (na maioria das vezes, passava pelos zagueiros aos trancos), nunca foi um bom passador, nunca chegou perto de ser um jogador completo.

Foi eleito três vezes o melhor do mundo, acredito que muito mais por ter brilhado em uma época de poucos craques (1996 e 97) e por seu desempenho em uma competição que dura apenas um mês (2002).Só falando em R, acho que fez menos do que Rivaldo, muito menos do que Ronaldinho Gaúcho e Romario foi só umas dez vezes melhor que ele. Nada disso tira seus méritos, de modo algum, mas não o coloca no Olimpo.

De qualquer maneira, não fez pouco, não conquistou pouco. Então, muito boa sorte, saúde e felicidade.

 

Indigna

A garota tramou o assassinato dos pais só para meter a mão na grana, confessou os crimes e, só depois de muitos anos, foi declarada oficialmente ‘Indigna’. Curioso, também, o juridiquês.

 

Passo de cágado

Não, o blog não entrou de férias apesar do post de feliz natal aí embaixo. Mas vamos combinar que não há muito o que falar nos últimos dias né não. Se tem dúvida, pare pra pensar nas poucas coisas relevantes que passaram na TV ou foram estampadas nos jornais de folhas desde o último sábado.

Ontem a moça anunciou mais sete nomes que irão compor seu time de governo. E se não bastassem a volta de Lobão e Palocci, a ressurreição de Moreira Franco e a manutenção Orlando Silva Jr., ainda faltam outros sete nomes. Pombas, 37 ministros ou secretários com status de ministro! 37!!! Precisa falar mais alguma coisa ou arrancar nossas calças pela cabeça por causa disso?

Pois é, e enquanto isso o moço vai produzindo alguns rega-bofes Brasil afora para se despedir, afinal o mito vai se retirar. E a pior parte disso é que, de alguma forma, ainda serei obrigado a dar o braço a torcer e direi que ‘sinto falta do Lula’. Deus nos guarde…

No Rio, como previsto, depois da fanfarra no complexo do Alemão, seguimos vivendo naquela paz de mentirinha enquanto um amigo policial que teve o carro metralhado segue no hospital e a polícia civil tenta fazer prisões e desmontar uma milícia. Claro que nada disso acontece na Zona Sul. Afinal, é verão, bom sinal, e do Leme ao Pontal, tudo é lindo e maravilhoso. Como as meninas (ou não) famélicas (ou não) que desfilam com estampas variando entre onças e leopardos e unhas com esmaltes quase fosforescentes, um belo regalo aos nossos olhos, uma ode ao bom gosto.

E como eu resolvi não me aporrinhar, não me desgastar com o Flamengo do profexô que renova com Fernando e contrata Felipe, pelo menos até começar a pré-temporada oficial, e como na F1 nada de novo acontece além do que já foi previsto e avisado por aqui mesmo em outros dias, está justificado o estado de semi-abandono desse canto nos últimos dias. Uma espécie de passo de cágado à espera de algo que valha realmente a pena destacar.

E aí, alguém com um bom espírito que passar por aqui e ler esse texto vai perguntar se não dá pra ser menos ranzinza, ter um pouco de bons sentimentos, afinal é véspera de Natal, vamos começar um novo ano etc etc etc. E eu respondo: e tem como?

Dúvidas sobre uma tragédia

Parei para reparar um pouco na cobertura do acidente que há uma semana matou Rafael Mascarenhas, filho da atriz e apresentadora Cissa Guimarães.

A impressão que tive, desde domingo à noite, é que tudo passou a se resumir à propina pedida e paga aos policiais que ajudariam a esconder o carro que provocou o acidente. E aí alguma coisa me cheira mal.

Não sou advogado nem tenho qualquer conhecimento profundo de Direito, mas tenho algumas impressões que gostaria de dividir com a meia dúzia de três ou quatro leitores que passam por aqui: o rapaz dirigia seu carro por uma via interditada, disputando um pega – ou racha ou seja lá que nome tem – quando atropelou e matou (homicídio culposo) o jovem. Só parou seu carro fora do túnel onde ocorreu o acidente (omissão de socorro) e, com base na tal propina (corrupção ativa) que está sendo investigada, tentou esconder o carro (ocultação de provas).

Por que é que, apesar disso tudo aí, tenho a impressão de que os únicos presos serão os policiais?

Também não ouço falar nada sobre as possíveis penalidades que seriam aplicadas com base no Código Nacional de Trânsito. O rapaz vai perder a carteira e o direito de dirigir?

E uma última pergunta, aquela óbvia que não quer calar: se o rapaz atropelado e morto fosse o Zezinho, filho da desconhecida D. Maria, moradora de Colégio, o caso teria a mesma cobertura por parte da mídia?

Verde que te quero verde (ou como usar um título clichê)

Relevem a piada fraca do título, o assunto aqui é sério. Precisamos nos acostumar a participar mais ativamente da vida política deste canto de mundo em que vivemos e, para isso, não precisamos pintar as caras e ir pra rua. A internet está aí e precisamos nos habituar a usá-la. Uma das maneiras mais simples é aporrinharmos deputados, senadores e afins sobre os temas que acreditamos importantes.

Por exemplo, está em curso a possibilidade de mudança do nosso código florestal e o que já não é bom, pode ficar pior. Então, para encher o saco dos nossos queridos representantes, basta clicar aqui e você chegará à página com a imagem acima. E se achar que é algo importante, participe.

Jacques

Será que eu entendi direito? Jacques é um ninja imortal, pai do Ricardo e avô da Stefani? E vovô fez mal à netinha?

Enviado por M. Lopes.

Eu quero paz

Há assuntos sobre os quais gosto de ficar ruminando durante algum tempo para, só depois da maturação necessária, escrever a respeito.
Há exatamente uma semana, participei do 3º Encontro de Blogueiros e Internautas com o Estado do Rio. Depois da experiência ruim na secretaria de transportes, aceitei o convite meio ressabiado. Dessa vez, com o secretário de segurança José Mariano Beltrame, o tema era a instalação das UPP na área do Grande Tijuca.
Sempre achei que o secretário Beltrame era um sujeito sério e, entre as muitas coisas positivas da reunião, confirmei minha impressão. É claro que não estava sozinho, havia algumas figuras de sua equipe na mesa e que transmitiram o mesmo sentimento.
Apesar de ser, até aqui, um projeto vitorioso, já disse que não concordo com a criação das UPP. Porque, em sua essência, após a pacificação das comunidades ocupadas, pretende-se que o estado faça sua parte, urbanizando as áreas e criando condições dignas para a população desses locais. O problema é que isso é a legitimação da favela, da ocupação das encostas, das enormes chances de novas tragédias por desmoronamentos etc etc etc. Apesar de, aparentemente, resolver um problema, essa política eterniza muitos outros.
De modo geral, o secretário e sua equipe não tentam tapar o sol com a peneira, o que é excelente. Não só sabem que os problemas existem, como os reconhecem e têm planos de tratá-los. Algo raro em um mundo em que quase todas as respostas sobre problemas são acompanhadas de ‘mas’, ‘só que…’, ‘você precisa entender que…’. Beltrame joga limpo.
A estratégia de instalação das UPP é complexa e muito eficiente, mas requer altos investimentos, principalmente de pessoal. O cuidado de se alocar apenas policiais recém-formados, como disse o próprio secretário, ‘sem vícios’, é fundamental para dar certo. E outro cuidado que será tomado será a realização de rodízio entre os policiais das próprias unidades pacificadoras.
E o objetivo do negócio é claro: jogar (e ganhar) War. Ou seja, retomar o controle territorial e quebrar a lógica de guerra. E o mais importante, foi a apresentação do que não é objetivo das UPP: acabar com o tráfico, com a criminalidade e ser a solução para todas as comunidades. “A Segurança não vai resolver tudo, vai fazer a sua parte. Onde há sociedade, há crime. O que precisamos fazer é dar ao Rio os índices similares às grandes cidades do mundo. Mas se as outras secretarias do estado e a prefeitura não fizerem a sua parte…”
Está dado o recado. E para tentar não me alongar muito, algumas informações e impressões, em pílulas.
– Já há planejamento para as UPP até 2014;
– Na Tijuca, até o final deste ano, serão atendidas as seguintes comunidades: Andaraí, Borel, Formiga, Macacos, Mangueira, Salgueiro e Turano, com a alocação de 1.720 policiais;
– Sobre o efeito colateral de acabar a renda do tráfico no morro e os bandidos tentarem se recuperar no asfalto, o secretário lembrou que os soldados da UPP são apenas das unidades, enquanto os soldados dos batalhões – que tinham que se dividir – passarão a ser só do asfalto, aumentando a segurança nas ruas dos bairros atendidos;
– Por ano, entre aposentados, mortos, afastados e expulsos, a PM perde cerca de 1.200 homens;
– Hoje há cerca de 500 policiais sob investigação;
– Há uma série de atividades que são realizadas para tentar aproximar a PM das comunidades. Uma delas é uma espécie de café da manhã, em que os comandantes dos batalhões recebem os moradores dos bairros onde atuam. O problema é: quem sabe disso?
– O nível de dados recolhidos pela secretaria de segurança é absurdo, o setor de inteligência tem trabalhado muito mesmo. Resta saber se tudo será útil ou se será apenas informação disponível e não utilizada;
– A iniciativa do governo do estado em realizar esses encontros é excelente, pois abre novos canais de comunicação com a população. Precisa e merece ser ampliado, e deve ser mantido após as eleições. A prefeitura deveria fazer o mesmo, com urgência.

Na mesa

Participaram do encontro os Blogueiros Jan Kruger (CaosCarioca), Cecília Oliveira (Arma Branca), Rafael e Bruno (Sou da Vila e Tijuca-RJ), o Jornalista Luiz de Matos (Revista M…), além de Celma Capeche, Claudia Figueiredo e Samila Soares (Grupo Grande Tijuca).
Do lado da Secretaria estava presente o Secretário José Beltrame, o Subsecretário de Modernização Tecnológica Edval de Oliveira Novaes Júnior, o Subsecretário de Planejamento e Integração Operacional Antônio Roberto Cesário de Sá, além do pessoal do Núcleo de Comunicação Digital do Governo do Estado do Rio de Janeiro, e a equipe de Comunicação Social da Secretaria Estadual de Segurança Pública.

Cuidado

O que penso das UPP, já disse aí em cima. Sobre o trabalho de inteligência das nossas polícias, também citei. Mas há que se tomar muito cuidado com tudo o que está acontecendo. No espaço de uma semana entre a reunião e este post, duas notícias pra nos fazer pensar muito bem no que está acontecendo e no que ainda pode acontecer: no dia 19, o Globo publicou que Facções rivais se unem para enfrentar UPPs e hoje, no G1, Sergio Cabral anuncia que próxima UPP será instalada no Morro do Borel.
Se a inteligência da secretaria de segurança trabalha tanto, como é que uma reunião dos maiores chefes de facções criminosas se reúnem e ninguém é preso? E se a UPP vai ser instalada no dia tal, como é que o governador avisa assim, fazendo barulho? Tudo bem que a UPP não pretende acabar com o crime, mas o cronograma não deveria ser sigiloso, até o último momento?
Pelo andar da hora, durmamos – se conseguirmos – com um barulho desse…

Tudo ao mesmo tempo

Royalties

Algum louco pode ter achado que sou a favor da emenda oportunista de Ibsen Pinheiro por conta do que escrevi. Claro que não. O que não tem nada a ver com os argumentos rasos e ainda mais oportunistas do presidente do COB e, até, do governador do estado. A última é que o ministro do meio ambiente, aquele dos coletes, entrou na onda de dizer que, sem o dinheiro dos royalties, os projetos ambientais do estado, principalmente aqueles apresentados nos cadernos de encargos da Copa e das Olimpíadas, não poderão ser desenvolvidos.

Seria muito bom que estudos sérios fossem apresentados à população, além dos nobres deputados e senadores, sobre a dependência que Rio de Janeiro tem dos royalties. Assim, todos saberiam o tamanho da tunga e que problemas causaria. E não precisaríamos aturar o tom de chantagem utilizado por várias figuras até agora.

Também seria muito interessante que o Rio de Janeiro e seus municípios apresentassem um planejamento real de longo prazo, com planos B, C… Z, com alternativas de desenvolvimento sem a dependência do dinheiro do petróleo. Aliás, dinheiro que deveria ter sido usado para isso. Mas temos de convir que fazer e executar coisas assim demanda inteligência e muita vontade de trabalhar, características que não são muito comuns entre os nobres representantes do povo.

Love

Apenas para constar, alguns lembretes sobre o vídeo que mostra o artilheiro do amor sendo escoltado por bandidos. Concordo que ele deveria ter se preservado mais, afinal é ídolo de muita gente. Mas gostaria de lembrar que ele só estava escoltado por bandidos porque a polícia (ou o Estado, de forma geral) não cumpre o seu papel. Além disso, acho engraçado pegar o cara para Cristo quando todo mundo sabe que até para um caminhão de cerveja fazer entregas em favelas, é necessário negociação e autorização dos ‘donos’ dos morros. Ou já esqueceram que até Michael Jackson precisou de salvo conduto de criminosos quando gravou parte de um vídeo no Rio.

Serra

A máquina já está a pleno vapor há algum tempo, tanto que as pesquisas mostram a indicada do apedeuta cada vez mais próxima do candidato tucano. Aliás, depois de tanto tempo para assumir que é candidato, jogou tantos cartuchos fora que chego a pensar que o governador de São Paulo não está muito aí para ser presidente. A falta de ação dos pássaros bicudos deixa no ar a grave ameaça de não termos nem segundo turno.

Obra

Olhando para meu próprio umbigo, ando procurando indicações de pedreiros, pintores, encanadores, marceneiros… A disponibilidade de verbas obriga a uma procura semelhante à busca pelo santo graal: bom, bonito e barato. Como, reza a lenda, a esperança será a responsável por apagar as luzes, conto com a ajuda dos amigos.

Libertadores

Hoje tem Flamengo em campo, na terra que não para de tremer. Não sei o que vocês acham, mas o time ainda não jogou bem de verdade esse ano (exceto no segundo tempo do FlaFlu). Mesmo assim, só perdeu uma partida em 2010. Não significa nada, porque a maior parte dos confrontos foi contra ninguém. Mas hoje é diferente. Para ganhar, terá que jogar. Ainda assim, como líder do grupo e ainda dois jogos em casa na fase de classificação, empate não cai mal. Resta saber se o Flamengo vai ser capaz de não levar gols e não ter nenhum jogador expulso.

Metrô

Saiu esta semana um despacho de uma juíza com prazo de 30 dias para que o metrô do Rio volte a funcionar como já foi um dia: bem. O ministério público defendia prazo de dois dias. Mas, levando-se em conta que a concessionária teve dois anos para se preparar para as mudanças que têm enlouquecido os cariocas desde o final de 2009 e não conseguiu, alguém acredita que o prazo dado será suficiente?

Marinando

Um amigo disse que, se durante a campanha forem distribuídos espetinhos de frango e gurjões de peixe, o “Eu marinei” pode dar certo. Depois, eu é que sou como o pica-pau.

F1

Depois da corridinha vagabunda na abertura do campeonato, sugestões estapafúrdias de pilotos, chefes de equipe e até dos boys que trabalham no padock começaram a pipocar na imprensa especializada. A impressão é que ninguém – pilotos, equipes e papagaios de pirata – parecem ter se dado conta que para efetuar qualquer mudança no regulamento é necessário que haja aprovação unânime, entre os times, dos novos pontos. Algo pouco provável de acontecer a tempo de aplicar na temporada atual. Ou seja, boa parte das corridas será tão chata quando a primeira.

17 anos e quase nada melhorou

Mesmo que não está nem aí para o jogo de domingo, viu nos jornais e televisões o que aconteceu com quem tentava comprar ingresso para a decisão entre Flamengo e Grêmio no Maracanã. Dessa vez a coisa foi mais feia que o habitual, mas os problemas com ingresso para os grandes jogos já são antigos, não importando o clube envolvido.

Futucando por aí, de site em site, de blog em blog, dei a última passada do dia no Urublog e dei de cara com o texto abaixo.

Há dezessete anos, por incrível que possa parecer, não era tão sofrido encontrar um ingresso para uma grande decisão. Por várias razões: no Maracanã cabia mais gente, não foram poucas as vezes que fui ao estádio com públicos superiores a 100 mil pessoas (120 mil era quase habitual); o público, sem dúvida, era mais educado; a polícia atuava com mais serenidade. E não foi só isso o que piorou.

Há dezessete anos eu estava no Maracanã, na Raça Rubro-Negra, quando aconteceu a tragédia da arquibancada, em que um monte de gente despencou sobre as cadeiras, em que muita gente ficou muito machucada depois de ser esmagada nas cadeiras pela turma que caía da arquibancada, em três pessoas morreram.

Nesse tempo todo, o Maracanã passou por várias ‘reformas’, encolheu (90 mil pessoas hoje, é um absurdo), boa parte do mundo evoluiu mas o torcedor brasileiro continua sendo tratado como gado. Por conta disso, não vou ao Maracanã já há dois anos. E não sei quando volto, se é que volto.

Boa leitura.

Que Esse Hexa Seja Seu, Cláudio.

Queria muito ter conhecido o Cláudio. Boa-praça, sujeito que falava com todo mundo.

Rubro-negro, como eu; não só de arquibancada, mas de resenha, muita resenha.

É o que a família, à qual me agreguei faz pouco tempo, sempre me relata. E, com dor no coração, lamento não ter partilhado de sua amizade.

Como muitos jovens no Rio de Janeiro, Cláudio foi vítima fatal da violência.

Mas o que abreviou sua alegria não foi uma bala perdida ou achada, uma briga ou um acidente de trânsito, ou drogas. Tratava-se de um rapaz de 18 anos, íntegro, bem-relacionado, cabeça-feita e sem vícios.

Seu único vício era o Clube de Regatas do Flamengo.

Cláudio José da Rocha Cardia deu entrada no hospital em 19 de julho de 1992.

Em coma, veio a falecer alguns dias depois.

Foi, portanto, uma das três vidas descartadas após o trágico episódio do segundo jogo contra o Botafogo.

Enquanto as atuais lembranças da data, positivas, giram exclusivamente em torno da última conquista rubro-negra no Brasileiro, nem um minuto sequer de reflexão é consagrado ao que se passou naquele dia de Maracanã.

E sobre o que existiu de evolução (?) sobre o tratamento ao torcedor em dezessete anos.

Cláudio era um arquibaldo assíduo.

Marcara presença em praticamente todos os jogos na campanha do penta.

Acordou naquele domingo, vejam só, sem qualquer disposição para assistir ao grande jogo.

Era sua primeira chance de ver uma decisão nacional do Flamengo, in loco.

As históricas e imensas filas dos dias anteriores não o animaram daquela vez.

Mas, horas antes do jogo, um amigo apareceu em sua casa com um par de ingressos, fazendo-o levantar da cama – sem muita animação, diga-se.

Sabia que tinha de cumprir um dever cívico rubro-negro. Deixou seu violão em cima da cama e nunca mais voltou para casa.

Morreu pelo Flamengo.

Desolada com o trágico acidente a família sequer levou à frente uma tentativa de reparação financeira por parte da Suderj.

Perfeitamente justo, a dor não se compra.

Nem mesmo ânimo houve para brigar por justiça e condenar os responsáveis pelo crime. Igualmente compreensível, o sofrimento suplanta a revolta.

Dezessete anos depois, fala-se no jejum rubro-negro de títulos brasileiros.

De fato, Cláudio não perdeu muita coisa. Pudesse estar vivo hoje, teria presenciado parcos títulos estaduais, uma Copa Mercosul (?), um centenário fracassado e uma Copa do Brasil. Nada tão espantoso, haja vista as sucessivas más administrações rubro-negras do período, que resultaram nesta ausência de grandes conquistas.

Espantoso mesmo é que, tivesse sobrevivido e acordado do coma somente nesta semana anterior ao jogo, se depararia, ao pisar novamente no Maracanã, com as mesmas dificuldades de comprar ingresso, com uma evolução nada cristalina no atendimento ao torcedor, com riscos não tão menores de acidentes e incidentes dentro e fora do estádio. A exemplo de 1992, nunca há culpados ou punidos.

Ficaria ainda mais abismado ao tomar conhecimento de que a “arena” em questão é a da final da Copa do Mundo de 2014 e a da abertura/encerramento das Olimpíadas de 2016. Eventos num horizonte correspondente à metade do tempo desde jejum rubro-negro.

Dezessete anos após uma era tão vergonhosa para a história política do Brasil, nosso jejum esportivo (o do Flamengo) e moral (o do Brasil) ainda assusta. Da mesma forma que os responsáveis pela morte de Cláudio nunca foram indiciados, governantes de todos os escalões e em todo o país ainda corrompem e são premiados pela impunidade, com a mesma facilidade.

Cláudio não pôde ver o penta. Mas, neste domingo, estará em nossos corações, ao menos no meu e no de sua família, em um jogo que pode tirar o Flamengo do ostracismo nacional, depois de tantos anos de espera. Anos que infelizmente não serviram para, ainda que sob o sacrifício de sua morte e de tantos outros, mudar radicalmente o Brasil.

Que o hexa seja seu, Cláudio. E que, desta vez, o título rubro-negro acompanhe alguma esperança por dias melhores.

Paulo Lima é rubro-negro, jornalista e servidor público, atualmente lotado na Missão do Brasil junto às Nações Unidas, em Nova York. É marido da prima-irmã de Cláudio. Ele escreve no Mundo Flamengo e no Mengão Sem Fronteiras – site oficial

Um grande texto

O texto que segue abaixo foi publicado no Terra Magazine, no dia 9 de julho. De lá pra cá, Daniel Dantas já foi solto e preso outra vez, enquanto Nahas e Pitta foram soltos (e, até agora, continuam). Republico o texto porque é um puta texto, bom de ler, com ritmo, ação e bons personagens, como devem ser as grandes reportagens.

Sobre as acusações que contém, até agora não foi noticiada nenhuma declaração dos envolvidos contra o que está escrito (pelo menos, eu não encontrei) e ainda não sei se haverá algum processo contra o autor Bob Fernandes.

Também não publico o texto para discutir política, quem me conhece sabe o que penso a respeito. Então, aproveitem a leitura. É longo (para os padrões da internet), mas imperdível.

•••

Os intestinos do Brasil

A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.

A Polícia Federal trabalhou contra a Polícia Federal. Esse é mais um capítulo do mergulho nos intestinos do Brasil. Estão presos o banqueiro do Opportunity, o megaespeculador Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e outros 17 dos 21 que tiveram a prisão decretada. É quarta-feira, 9 de julho.

Daniel Dantas

Daniel Dantas

Nas telas, ondas, bits e páginas, a futebolização de sempre: aplausos entusiasmados, críticas ferozes à ação da polícia. O que ainda não chegou à tona é a verdadeira história dessa gigantesca ação policial, da encarniçada batalha que se travou nos setores de Inteligência e da Polícia.

O que se narra aqui são cenas, é o contorno dessa batalha, mas antes é preciso lembrar que este é apenas mais um capítulo.

Crucial, decisivo para que se entenda o todo, o que se movia, se move – e se moverá -, mas apenas mais um capítulo no enredo da maior disputa da história do capitalismo brasileiro, disputa essa que carrega em si o esteio, a sustentação do poder. Do Grande Poder.

O delegado Protógenes Queiroz comandou as investigações no último ano. Antes dele, ao tentar seguir a pista da organização comandada por Dantas, outros delegados fraquejaram. Ou desistiram, ou…

Protógenes foi conduzido ao comando da investigação sigilosa pelo então diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Abin. Paulo Lacerda queria e autorizou a operação até deixar a direção da PF.

Luiz Fernando Corrêa

Luiz Fernando Corrêa

Um dia, convidado pelo presidente Lula, Lacerda foi para a Abin. Em seu lugar assumiu Luiz Fernando Corrêa, que chefiava a Força Nacional de Segurança Pública. Luiz assumiu com fama de amigo de José Dirceu.

Se era ou se não era, se suas relações vinham apenas da proximidade no trabalho de segurança da PF ao candidato Lula em eleição anterior, é uma outra questão, mas o fato é que Luiz Fernando chegou ao cargo com essa fama: amigo de José Dirceu.

Logo ao assumir, o diretor da PF quis mais informações sobre que investigação seria aquela relativa aos negócios e métodos de Daniel Dantas. Normal. Parte das suas atribuições de comando.

O delegado Protógenes, por seu lado, ofereceu explicações genéricas, mas guardou o que era secreto, segredo de justiça.

Normal. Manhas de um tira brilhante, esperto, do policial que prendeu Paulo Maluf, o contrabandista Law Kin Chong, que pôs na marca do pênalti o Corinthians da MSI, Kia Joorabichian e Dualib, que investiga para a FIFA as lavanderias do futebol mundo afora.

Normal, em meio aos rumores sobre vazamentos na investigação e, pior, propinas. Subornos em favor de Dantas.

Na diretoria de Inteligência, um aliado do diretor geral na busca de informações amplas sobre o núcleo das investigações: o delegado Daniel Lorenz.

Celso Pitta

Celso Pitta

Protógenes Queiróz é duro na queda. Primeiros embates, e a operação Satiagraha perde estrutura. O comando esvazia parte da logística; retira agentes e peritos, encolhe a sala, asfixia as investigações….o corriqueiro nos jogos de guerra.

O jogo é maior, muito maior. As pedras se movem. Ao diretor da Polícia Federal chega o recado. Suave, mas direto: as investigações devem prosseguir.

Fim do ano. Mídia afora, o festival de plantações, versões. A batalha, que é política, comercial, policial, segue seu leito também nas telas, ondas, bits e páginas. Véspera do Natal. Estranhíssima entrevista do diretor geral.

Luiz Fernando Corrêa escolhe o encarte semanal “Brasília” do jornal mineiro Hoje em Dia para mandar um recado em forma de entrevista. Manchete: “Cada geração tem um papel a cumprir. Cumpriu, sai fora!”

Até o vidro fumê do edifício sede da PF em Brasília captou a mensagem e os destinatários: Paulo Lacerda e antigos delegados que comandaram a Polícia durante 4 anos e 8 meses do governo Lula.

Para não haver dúvidas, a capa do tablóide berrou: “PF dividida”.

Véspera do Natal, peru, nozes, vinhos, poucos civis devem ter lido. Mas a polícia inteira leu. Comentou, discutiu. E mesmo o mais desatento agente sacou que a barca do delegado Protógenes Queiroz, fosse qual fosse, não era uma boa aos olhos da direção.

Parênteses. Daniel Dantas e os seus comemoravam, vibravam a cada boa notícia. Sim, o que não faltou nesse enredo foi notícia. Capas e capas.

Naji Nahas

Naji Nahas

O carnaval se foi. E um fato: a repórter quer falar com o delegado Queiroz. Quer informações sobre uma investigação que envolveria Daniel Dantas e o Opportunity. Apreensão, no início de abril – e isso são fatos. Objetivos. Conhecidos desde então: a repórter vai publicar o que tem se não for recebida.

A situação se agrava. Por ordem do comando, o delegado Protógenes Queiroz perde quase toda a logística. Fato registrado, inclusive, em imagens: a sala sendo esvaziada, a tralha tecnológica removida.

Queiroz começa a fingir que a operação faz água. Cede, aceita conversar com a repórter; Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Mas faz uma exigência aos superiores: quer a presença do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, e de Lorenz, o diretor de Inteligência. Corrêa não vai, manda alguém da comunicação social. Lorenz, presente. Na conversa, o delegado Queiroz contorna, tergiversa, despista, e guarda tudo o que disse e o que não disse.

Sábado, 26 de Abril. Anunciado o acordo das teles, vem aí a BrOi. No caderno “Dinheiro”, da Folha, em quase meia página a repórter Andréa Michael relata os contornos de uma operação a caminho, destinada a prender Daniel Dantas.

Domingo, 27 de Abril. A operação está morta. Protógenes Queiroz faz dois movimentos. Primeiro, na véspera, a ligação para Lorenz, que está no Chile. Cobra a conta da conversa com a repórter, quando apenas despistou. A conversa, de parte a parte, não é boa. Segundo movimento: Queiroz, para efeito externo, dá a operação como morta. Para efeito interno, os fatos incendeiam agentes, peritos e delegados envolvidos numa operação cada vez mais secreta.

Segue a semana. Queiroz é comunicado. Não há, não haverá mais logística alguma. Caso encerrado. Caso que o diretor geral e o diretor de Inteligência seguem a desconhecer em seu teor. O delegado está solto no espaço.

Uma outra rede conecta-se, subterrânea, solidária. O outro lado da polícia trabalha, secretamente, pela Satiagraha, a “firmeza na verdade” de Gandhi.

Notas em colunas, sites. Chutes, bravatas, cascatas, desinformação. A operação é adiada. Uma, duas, três vezes.

O delegado Protógenes Queiroz é monitorado, vigiado. Pela Polícia Federal. E sua equipe contra-ataca: vigia, monitora, flagra e registra, os movimentos dos monitoradores da própria PF. Daniel Dantas e os seus estão tensos. Em dúvida: acabou, ou não acabou? Na dúvida, encaminham ao Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus preventivo, para Dantas e a irmã, Verônica.

Daniel Dantas morde a isca. Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom e o amigo Hugo Chicaroni são os intermediários. A oferta é feita ao delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves. Na churrascaria El Tranvia, bairro de Santa Cecília, São Paulo, o ensaio para o acordo final: US$ 1 milhão. Como sinal, duas parcelas, uma de 50 e outra de 80, e pagamento em outras duas de US$ 500 mil. Encontros e acordos fechados em 18 e 26 de junho. Para livrar a cara dos Dantas. Há algo no ar.

Frases soltas.

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes é o presidente do STF. No meio da semana, pós-São João, desponta nas telas, um tempão nos telejornais, nas manchetes do dia seguinte. Refere-se a informações vazadas por policiais, uma “coisa de gângsters” e ao “terrorismo lamentável”.

A fala ecoa. Cada um entende como quer. Críticas gerais às interceptações telefônicas (mesmo às autorizadas judicialmente).

Julho chegou. Fim de semana. Notas, boatos… Daniel Dantas está em Nova Iorque… Daniel Dantas aguarda o habeas corpus para voltar ao Brasil…

Sete de Julho. O delegado geral, Luiz Fernando Corrêa, que até a véspera nada sabia sobre a verdadeira extensão de Satiagraha, quer agora saber de tudo. De tudo, não saberá. Extrema tensão. Como há um mês, no Rio de Janeiro.

Agentes da equipe de Queiroz seguiam gente dos Dantas, pelas ruas do Rio. A polícia foi chamada, quase um confronto até o esclarecimento “somos da PF” e o despiste numa operação banal qualquer. Mas a queixa subiu.

Chegou ao diretor geral da PF, a Heráclito Fortes (DEM-PI) no senado e ao advogado geral da União, José Antonio Toffoli, adentrou o Supremo Tribunal.

Seis da manhã, 8 de julho. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.

Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.

Gilmar Mendes, o presidente do STF, ataca a “espetacularização das prisões, incompatível com o Estado de Direito”, critica duramente o pedido de prisão, negado, contra a repórter da Folha de S. Paulo:

– …isso faz inveja ao regime soviético…

Frases soltas no ar.

Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg. Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, “coisas do passado”, e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação “com tamanho estardalhaço…”

Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar: “…ela tava estranha, não?”

Frases soltas no ar.

Daniel Dantas está preso. Esse, o policial, é mais um capítulo da operação que chegou aos intestinos do Brasil.

•••

O texto abaixo, também de Bob Fernandes, foi publicado às 15h33 de hoje (11/07), no mesmo Terra Magazine.

•••

Os intestinos do Brasil

Daniel Dantas está numa sala da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Seu advogado, Nélio Machado, está próximo.

Diante do banqueiro, o delegado que coordenou a operação Satiagraha, o homem que o prendeu por duas vezes em 48 horas. São 8 da noite da quinta-feira, 10 de julho.

Outros dois dos presos na operação acabam de ser libertados, habeas corpus do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, concedido ao megainvestidor Naji Nahas e ao ex-prefeito Celso Pitta.

Daniel Dantas parece exausto, rendido, mas não deixou de ser quem é. Obcecado por tudo que foca e toca, brilhante, genial, reconhecem mesmo os mais empedernidos adversários.

O tempo, pouco tempo, dirá o quanto há de cálculo, quanto há de desabafo no que começa a despejar sobre o delegado Protógenes Queiróz. Primeiro, a senha: “Eu vou contar tudo! Vou detonar!”

Antes ainda, o delegado lhe passa um calhamaço, o relatório das investigações, o fruto de anos de investigações, e diz, na longa conversa informal:

– …sua grande ruína foi a mídia…você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso…sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente…

Daniel lê, atentamente.

O delegado volta à carga.

– Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou…

Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:

– Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão… eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados… e se você insistir agora será com a família toda… serão duzentos anos de prisão…

Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:

– …vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo….

Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição: “Eu vou contar tudo!”

E faz jorrar, devastador:

-…vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004…

– Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll…?

Prossegue a torrente de Daniel:

– …tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso… tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa…

O delegado, avança:

– Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil… quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa…

Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:

– …você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!

Daniel Dantas, o obcecado por tudo que toca e foca, a mente brilhante, aquele que mesmo os inimigos dizem ser um gênio, despeja:

– Eu vou detonar tudo!

Tarde da sexta-feira 11 de Julho. Daniel Dantas está na Superintendência da Polícia Federal, São Paulo, onde será ouvido formalmente pelo delegado Protógenes Queiróz a partir das 15h30.

O advogado Nélio Machado informa ao reportariado que vai orientar seu cliente para nada dizer.

O tempo, pouco tempo, dirá se tudo não passou de exaustão, desabafo.

Se tudo foi só cálculo, ou, um mergulho definitivo, purificador, nos intestinos do Brasil.