Volta ao passado?

Largada Melbourne 2014Claro que não completamente, ou seria jogar fora todos os avanços realizados, conquistados até hoje. Mas as expectativas que as mudanças na F1 geraram, já foram para o saco. E olhem que estou escrevendo isso após o treino de classificação para a terceira corrida do ano. E serão 19.

Todo o regulamento é tão amarrado e tão cheio de detalhes que o espaço para desenvolvimento é limitadíssimo. A Mercedes nasceu de tal forma tão eficiente e com sua unidade de força tão superior às outras que, sem fazer força, colocam um segundo de vantagem no resto da turma.

E ninguém vai conseguir tirar essa diferença. Não tem jeito. E é por isso que falo em volta ao passado. Mas apenas conceitual, no sentido de ser um pouco (na verdade muito) mais aberto.

O negócio tem que ser interessante para as montadoras, pelo desenvolvimento de tecnologias que sejam úteis aos seus carros de rua? A categoria precisa passar uma imagem de que se preocupa com o resto do planeta?

Então o negócio é o seguinte:

– Todos os carros tem de ter motores híbridos, que gerem ao menos 30% de sua energia por meio de fonte alternativa.

– Todos os motores (ou unidades de força) podem gerar, no máximo, 700cv a 16 mil RPM.

– Todos os carros só podem consumir 120kg de gasolina por prova e 60kg por sessão de treinos, livres ou classificatórios.

– Todos os carros terão apenas seis unidades de força para toda a temporada.

– Limite-se as dimensões das asas, o número de jogos de pneus e o uso da eletrônica embarcada, e regula-se as questões de segurança (inclusive a proibição do efeito solo).

Daí pra frente, tudo liberado. Cada equipe desenha seu carro ao seu bel prazer, com difusor soprado ou não, por exemplo. O mesmo para os motores: se terão 6 ou 12 cilindros, em V ou em linha, turbo ou aspirados, não importa. Basta ficar dentro dos limites impostos de cavalaria e giros. Se vai usar diesel, etanol, metanol, elétrica ou água como fonte alternativa, problema de cada um.

Também libera-se a competição de borracha, com cada equipe encontrando seu fornecedor. A medida dos pneus, inclusive, apenas com limites mínimo e máximo. E permita-se a volta da equipe cliente de chassis.

Outra coisa que poderia voltar a acontecer é o aumento do número de equipes, ao máximo de 16, mas só 24 carros largam (no máximo). Aplique-se a regra dos 107% e pronto. Se só 22 conseguirem, largam os 22. Se os 32 marcarem tempos válidos, os 24 primeiros vão para a corrida.

Por fim, a cada três provas, uma sessão de treinos livres para quem quiser, nas segundas-feiras pós-GPs (além das 4 de pré-temporada).

No final do ano, a premiação é dividida entre todas as equipes, de acordo com suas colocações, que conseguirem largar e percorrer ao menos 75% de 5 provas.

E pronto, bota pra andar. Desconfio que ficaria mais divertido.

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A regra errada

Foi um baita dum corridaço, como há muitos e muitos anos não se viaem Mônaco. Graçasaos pneus e às diferenças de estratégias, como é desde que a Pirelli voltou. E graças a alguns pilotos, que resolveram arriscar manobras onde, até ano passado, ninguém tinha peito de tentar.

Assim, Hamilton fez o diabo e chegou a ser punido duas vezes. Schumacher quase provocou orgasmos múltiplosem Galvão Buenopor fazer duas ultrapassagens na Lowes. Curiosamente, mesmo lugar onde Lewis tentou passar Massa, não conseguiu e Galvão disse que não dava…

O que importa é que entre todas as idas e vindas do GP, durante muitas voltas Vettel segurou o mais rápido Alonso que segurou o ainda mais rápido Button. A razão para isso era o rendimento dos pneus. Vettel fez apenas um pit stop, contra dois do espanhol e três do inglês. E as últimas voltas prometiam ser de almanaque.

Mas um acidente grande com Petrov provocou a primeira bandeira vermelha do campeonato, a cinco giros da bandeirada. O que, provavelmente, salvou Vettel.

Eu sei que está no regulamento que é permitido trocar pneus, entre outras coisas, quando em bandeira vermelha. Mas tenho a impressão de que isso é uma falha da regra. Afinal, os caras não escolheram parar, foram obrigados. E os caras que pararam antes da interrupção obrigatória ficam em desvantagem, pois perderam cerca de 20 segundos e a vantagem técnica conseguida nos pits.

Com pneus novos, após a relargada, Vettel não só parou de correr riscos como ainda abriu vantagem. Ficou sem graça e o cara ganhou pela quinta vez em seis corridas. Estou curioso pra ver como vai ser no Canadá, daqui a duas semanas, numa pista onde sempre acontecem grandes corridas.

E a asa móvel? Liberada apenas na reta dos boxes, não fez a menor diferença.

Será que vai ficar sem graça?

Então teve corrida ontem. E está provado que a pista de Barcelona pode ser excelente para equipes e pilotos, técnica e tal. Mas para o espetáculo, é uma bosta. Não deu jeito nem com pneus de farelo e asa móvel. Uma prova muito inferior às outras.

Sobre o campeonato? Parece que estamos mesmo a caminho de um daqueles anos históricos, como 92 e 93 (Mansell e Prost na Williams) ou 2002 e 2004 (Schumacher na Ferrari). Aliás, se Webber estivesse em forma – no mínimo – razoável, a Red Bull poderia repetir o que fez a McLaren em 88. O detalhe é que os pilotos que venceram 15 de 16 corridas eram Prost e Senna.

No mais, destaque para Alonso que anda muito mais que sua Ferrari. Outro detalhe é que a Lotus (a verde) já começa a andar – de verdade – no meio do bolo, e não apenas como uma das três nanicas. Se continuar evoluindo nesse ritmo, já será uma boa média na próxima temporada. Por fim, parece que Hamilton (e a McLaren) são os únicos capazes de dar trabalho de verdade à dupla Vettel-Red Bull. Minha impressão é que até pode vencer uma aqui, outra ali, mas não tem condições de disputar o título de verdade.

Domingo que vem é a vez de Mônaco e a polêmica será a asa móvel, liberada para uso na reta que sai do túnel. Risco de muitos acidentes sérios. A ver.

Detalhes tão pequenos de nós dois

Encontrei esse vídeo no blog do Flavio Gomes. As voltas de Vettel e Webber que definiram suas posições, primeiro e segundo, no grid de largada para o GP da Turquia. É interessante ver onde e como um piloto leva vantagem sobre o outro, ainda que eles tenham o mesmo carro.

Mesmo sabendo que o piloto australiano é excelente, façamos um exercício de imaginação. Multipliquem todas essas pequenas diferenças por todas as voltas de todas as corridas de um campeonato inteiro. Descartem eventuais erros de estratégia e alguns lances de azar. Deu pra entender porque um foi campeão tão novo e o outro ficou no quase apenas uma vez em trocentos anos de carreira? Ah, lembrou que não precisou descartar os tais eventuais erros de estratégia e alguns lances de azar? Pois é.

Ecos da muralha

Em entrevista na Turquia, Webber deu a seguinte declaração sobre seu desempenho excepcional no GP da China, em que saiu da 18ª para a terceira posição:

Provavelmente, muito mais gente gostou da minha atuação na China mais do que eu, para ser honesto. Quando você se depara com pilotos como Fernando, Jenson, Felipe e Nico, esses caras, e você tira 2s5 por volta, é ótimo, mas não é muito recompensador, em termos de como você os ultrapassou.

Apesar das corridas muitíssimo movimentadas por conta dos novos pneus e da asa traseira móvel, é possível perceber que há o entendimento, por parte dos pilotos, do quanto tudo é meio que artificial.

Mesmo assim, não se pode esquecer que o jogo é o mesmo para todos. O que nos leva à conclusão de que – no final das contas e como sempre aconteceu – terminam na frente os melhores conjuntos carro-piloto. Salvo os cataclismas de ocasião.

Voltou

Já era hora de voltarmos a ouvir motores roncando de novo. Foram três semanas de parada na temporada desde o último GP, na China. No próximo domingo, corrida na Turquia.

Sobre a corrida, propriamente dita, os pneus serão o X do problema. Ou seja, nada de novo. O tempero especial é o pouco de chuva que anda caindoem Istambul. Ouseja, todos chegarão à corrida com menos informações do que gostariam sobre os níveis de desgaste.

Sobre a F1 em geral, o que se tem a dizer é que há um nova guerra se desenhando, dessa vez entre as equipes e Bernie Ecclestone. É que está chegando a hora de assinar um novo Pacto da Concórdia, ou seja, vão discutir a divisão do bolo. Será interessante.

Corrida (quase) maluca

E então haverá uma folga de três semanas até que o circo chegue à Turquia. E teremos, então, um pouco mais de tempo para tentar entender tudo o que aconteceu nas três corridas realizadas até agora e o que seus resultados podem significar para o andamento do campeonato.

Porque, para um desavisado qualquer que tenha parado para assistir ao GP da China, ontem, a Fórmula 1 está muito parecida com uma certa corrida maluca criada por William Hanna e Joseph Barbera.

Apesar de ainda um tanto confuso, é impossível dizer que o negócio não está mais divertido. Durante todo o GP da China houve disputa de posições, fosse pelos diferentes estágios de degradação dos pneus, pela asa móvel, pelo KERS ou por tudo junto.

Sobre o resultado em si, apenas algumas observações: Webber foi o cara da corrida, saindo de 18º para o pódio. Apagou a imagem ruim, de desmotivado e pré-derrotado das duas primeiras corridas e da classificação horrorosaem Xangai. Mostrou, mais uma vez, que a Red Bull tem o melhor carro. Da mesma maneira que Vettel, segundo, mostrou que o KERS da turma da latinha ainda é um problema. O equipamento fez muita falta durante a prova, especialmente na largada em que perdeu posição para as duas McLaren.

A largada ruim fez a equipe a mudar a estratégia e, com pneus duros e muito desgastados, permitiu a ultrapassagem de Hamilton a cinco voltas do final. O inglês, como quase sempre, pilotou o fino e não deixou mais dúvidas sobre a capacidade de recuperação da equipe que promete mesmo ser a pedra no sapato dos touros vermelhos.

Sobre a Ferrari, algumas ambivalências. O que Massa está largando bem neste ano é sacanagem. Em compensação, Alonso só anda largando mal. O brasileiro fez uma corrida bem honesta, acompanhando o ritmo de Vettel e Hamilton e boa parte da corrida, mas com os pneus duros a Ferrari ficou pra trás. De um pódio quase certo, Massa foi ultrapassado por uma fila de carros para chegarem sexto. Oúnico lado bom é que, mais uma vez, à frente do companheiro espanhol.

Outros destaques: a Mercedes ainda vai apanhar muito, não vai brigar por vitórias mas pode incomodar e tem potencial para beliscar alguns pódios. A Williams, que chegou a prometer, parece que não vai cumprir. Kovalainnen, quem poderia imaginar, chegou com sua Lotus à frente de Perez (Sauber) e Maldonado (Williams).

Para a corrida na Turquia, o início da temporada européia, quase todas as equipes devem apresentar muitas novidades e a Pirelli já avisou que em Istambul e Barcelona, logo a seguir, levará os mesmos pneus das três primeiras corridas. Em compensação, em Mônaco (circuito de rua, asfalto liso, pista curta, baixa velocidade), os carros calçarão – pela primeira vez – os supermacios. A outra opção será o macio.

A Red Bull tem potencial para bater todos os recorde possíveis e imagináveis. Mas terá que resolver o problema do KERS se não quiser passar aperto

Jet lag sem sair de casa

O grande problema da turnê asiática da Fórmula 1 é o horário. Ou fuso horário, se preferirem. O resultado de um sábado atribulado foi pegar no sono pela uma da manhã e perder a hora da corrida que começou às cinco. No final das contas, só assisti a um compacto dos melhores momentos. Então, nem me arrisco a comentar a prova, propriamente dita.

Mas mesmo sem ver tudo, já deu pra notar algumas coisas. Em retas longas, a tal asa móvel faz diferença de verdade. E se parece que é uma covardia com o piloto que vai à frente, vale lembrar que o regulamento é igual pra todos. E que, apesar de uma certa artificialidade nas ultrapassagens, ela não faz milagres. Então, não veremos Hispanias ultrapassando Red Bulls.

Outra coisa possível de perceber é que os pneus fazem – definitivamente – uma diferença absurda. Principalmente em um GP quente como o malaio. Mas, se as equipes ainda parecem patinar no quesito estratégia, ficou meio óbvio que usar pneus duros no meio da corrida é – na média – um baita prejuízo. Então, a tendência é que tenhamos menos surpresas nas próximas provas, com todas as equipes deixando os duros para o stint final.

Foram só duas corridas até agora, mas Vettel sobra. E como ainda não foi desafiado de verdade, tenho a impressão que não precisou forçar, ainda tem coisa escondida. E sobre Webber não ter o mesmo rendimento, tenho a impressão que foram apenas circunstâncias e um pouco de azar.

A próxima corrida, no próximo domingo, é na China e ainda haverá problemas com o horário. Mas teremos, como na Austrália, temperaturas mais amenas e não acho que o cenário vá mudar muito por enquanto.