Ah, a mídia golpista…

Reprodução: NewseumSempre disse que no Brasil a mídia, os meios de comunicação de massa ao menos, é oficialista. Ao contrário de outros países, com democracias um tantinho mais evoluídas, nossos jornais não assumem o que são e o que querem de verdade, escondendo-se atrás de uma máscara de isenção que é, simplesmente, impossível de praticar. Simplesmente porque todo mundo tem opinião.

Caso raríssimo foi o do Estadão, que na eleição passada assumiu em editorial o apoio a José Serra. Sempre achei que o ideal é que todos fizessem o mesmo: apoio isso ou aquilo por acreditar que isso ou aquilo é melhor para o país, estado, cidade ou seja lá que raio fosse.

Essa falta de posição provoca desvios absurdos. Por exemplo, temos hoje – como sempre – os órgãos oficialistas como sempre cada vez mais pressionados (e atendendo à pressão) pelo discurso da mídia golpista.

Pois quando fiz faculdade, a disciplina ‘Leitura de Jornal’ (dependendo da instituição, leitura comparada ou leitura crítica ou coisas do gênero) era obrigatória. Hoje parece que é eletiva e não das mais concorridas, infelizmente.

E daí?

Daí que, apenas como exemplo, vejam a manchete e subtítulo do Globo de hoje: “Renda média sobe mas desigualdade para de cair – Analfabetismo também deixou de registrar queda depois de 15 anos”. Por quê não escrever de forma reta, direta? Por exemplo: “Renda média sobe mas desigualdade aumenta – Analfabetismo cresce depois de 15 anos em queda”.

Pode parecer besteira, mas o efeito é completamente diferente. Ou será que estou louco?

Pois bem, leiam as manchetes de cinco dos principais jornais do país neste sábado e tentem reescrevê-las de modo mais objetivo. E analisem a quem favorece esse ou aquele jeito de escrever.

Depois, lembrem-se que o maior adversário de Dilma, hoje, é Lula. Ele já anunciou que está de volta ao jogo e os petistas chegam a babar de prazer com a possibilidade dele ser o candidato. E a moça, apesar de voltar a subir nas pesquisas, não está lá muito segura na cadeira, por conta de tudo isso que está aí, como diria – se vivo – Leonel Brizola.

Ah, a mídia golpista… Fico me perguntando: golpe contra quem?

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Princípios editoriais

Romario chega na CBF ao lado de Ivo Herzog com a petição pública que pede a saída de José Maria Marin / Foto: Julio Cesar de Moraes/UOL EsporteQualquer um que acompanha um pouquinho do que acontece no país do futebol, sabe que rolou a petição Fora Marin. O objetivo é tirar o sujeito da presidência da CBF e – principalmente – do COL, o comitê organizador da Copa do Mundo.

Em que pese, nos dois casos, falarmos de empresas privadas, há bons argumentos para que o público e até esferas de governo se metam no assunto.

Sobre a confederação, o deputado Romário (sim, ele mesmo) lembra que o time da CBF roda o mundo carregando o nome do país e usando nossos símbolos, como o Hino Nacional. Então, o mínimo a se esperar, seria uma gestão clara e transparente sobre os milhões que a entidade recebe de trocentos patrocinadores para cuidar do principal símbolo e representante do futebol brasileiro, patrimônio cultural desse nosso estranho país.

Sobre o COL, a questão é muito mais grave. Afinal, para realizar as copas (Confederações e do Mundo), há fabulosas quantias de dinheiro público envolvidas (ou escoando pelo ralo, se você preferir).

Pois bem, a tal petição que alcançou 54 mil assinaturas, foi entregue agora a tarde na CBF. Por Romário (PSB-RJ), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Ivo Herzog – autor da petição e filho de Vlado, o jornalista que foi suicidado pelo regime militar em São Paulo, poucos dias depois de discursos inflamados na assembléia legislativa, em que deputados estaduais pediam providências contra a TV Cultura – Vlado era diretor -, inclusive Marin).

Nenhum cartola recebeu a comitiva, algo mais do que esperado. Mas a entrega foi protocolada. E havia imprensa cobrindo o fato.

A entrega foi feita pelas 15h. Vinte minutos depois já havia notas começando a pulular aqui e ali, em portais como UOL e Lancenet!.

Mas não é curioso o fato dessa notícia não ter sido publicada na Globo.com (maior portal de notícias do país), G1 ou o site do Globo? Será por causa da histórica e – pelo visto – eterna parceria das Organizações Globo com a CBF? Será que é por acaso?

Será porque já começou a operação abafa, até com a contratação de Ronaldo como comentarista, um dos expoentes do COL e cotado para assumir a presidência do comitê em caso de afastamento de Marin?

No dia 6 de agosto de 2011, fizeram um carnaval com a publicação dos Princípios Editorias das Organizações Globo. Menos de dois anos atrás. Nesse caso, só resta uma pergunta: e aí?

Para constar, são 17h20 quando escrevo, mais de duas horas depois da entrega da petição. E a notícia não está no ar. Na Globo, claro.

O metrô e a virtude

Não é todo domingo que consigo ler jornal. Na verdade, é algo cada vez mais raro hoje, infelizmente. Ontem, por sorte, foi um dia de leitura. E no Globo, há duas colunas que merecem degustação e multiplicação.

A primeira é bem carioca. O texto de Artur Xexéo sobre o nosso metrô, o que e como era, o que se tornou.

Artur Xexéo / DivulgaçãoQuem está chegando agora pode pensar que foi sempre assim. Não é verdade. Durante quase 20 anos, a extensão de nosso metrô cresceu e a limpeza e eficiência continuaram funcionando. O caos se implantou a partir da concessão para uma empresa privada em 1998. O carioca nunca foi conhecido por cuidar de sua cidade. O metrô era uma exceção. Tornou-se exemplo de civilidade. Ninguém tinha coragem de jogar um papel de bala no chão. Com ele, aprendemos que, quando o serviço é bom, o usuário cuida e respeita. Hoje, o usuário trata mal o metrô. A culpa é do serviço. Ninguém gosta de pagar caro — e o metrô é caro à beça — por um produto medíocre.

O segundo é de João Ubaldo, o Ribeiro. Com a ironia que lhe é peculiar, disserta sobre o espírito público de nossos eleitos. Enfim, leitura obrigatória nesse começo de semana.

João Ubaldo Ribeiro / DivulgaçãoNo Brasil, os políticos são virtuosos, ou procuram ser virtuosos? Engabelados pelo noticiário leviano, venal, deturpador, difamador, caluniador, injurioso e irresponsável de praticamente todos os veículos de comunicação, muitos de nós diriam que não. Afinal, todos os dias mais um capadócio público é exposto, mais uma quadrilha é desmantelada, mais um ladrão se revela e um incompetente se evidencia. Solerte imprensa, antro de patifes, súcia de mentirosos. Pois basta livrar nossa visão dessa fumaça maledicente para logo vermos que a realidade desmente os detratores. Que a política e o poder demandam extraordinários sacrifícios é afirmação universal, postulado nunca discutido. Entretanto, nossos políticos jamais querem deixar o poder ou abandonar cargos de influência, estão dispostos a arrostar indefinidamente esses sacrifícios penosíssimos. Negar que isso é virtude, só com muita má vontade.

A força da grana que pode destruir a cidade mais bela

E as barcas que ligam o Rio a Niterói? Mais uma cagada, um acidente que machucou um bom bocado de gente (ainda bem que nem tão grave). E no dia seguinte, o anúncio do aumento de preços. Não é brilhante?

Aqui nesse meu cafofo, já cansei de dar porradas no metrô, já falei de ônibus, de trem e de barcas. E tudo continua igual ou pior.

E aí o Lessa trouxe para seu blog a charge do Chico, publicada no Globo. Brilhante. E escreve um texto um tanto raivoso – com razão demais e raiva de menos – sobre o tema. Vejam um trecho:

E o carioca vai sendo torturado a olhos vistos: enquanto o mundo maravilhoso da Copa e das Olimpíadas é evocado em nome do Rio de Janeiro, metrô, trem e barcas nos tratam como vermes. Vermes que ainda são obrigados a pagar mais pela tortura.

Vale clicar aqui para ler o texto completo, mas eu tenho um tanto de discordância do que está lá quando ele diz que O Globo “ultimamente tem sido uma extensão dos Diários Oficiais”.

Na verdade, na verdade, não é que eu discorde. É que lendo o texto, vejo um tom de crítica política (pura) nesse tipo de colocação quando, na verdade, a questão – penso eu – é comercial.

As organizações Globo são as detentoras dos direitos dos dois grandes eventos que a cidade vai receber. E se analisarmos o modus operandi de seus veículos, poderemos perceber que nunca é veiculada qualquer tipo de crítica sobre qualquer evento ou programa ou seja lá o que for que tenha cobertura dos caras. Não é por acaso que, de modo geral, tudo anda às mil maravilhas por aqui.

Até há problemas na cidade, mas assistindo ou lendo seus canais e publicações, descobrimos que tudo estará perfeito em muito pouco tempo. E isso tem a ver com grana e não por amor a Cabral e Paes.

1.000

Hoje é um daqueles dias que promete ser quase monotemáticos. Afinal, faltam 1.000 dias para a abertura da Copa do Mundo. O recorte da primeira página de O Globo é sintomático.

Mas, deixando de lado a discussão sobre a seleção, no que diz respeito ao planejamento, obras, o sempre falado mas nunca visto legado, lisura nos projetos e realizações e qualquer outra coisa que tenha relação com o negócio: vocês realmente acreditavam que seria muito diferente?

E alguém ainda acha que para os jogos olímpicos será diferente?

Assinando embaixo

É mais do que comum não dizermos algumas coisas só pra não se aborrecer com os comentários de quem está em volta. Principalmente quando você se incomoda tanto com o que é lugar comum. Afinal, pra que escutar coisas do tipo “como assim?!? Você está louco!!!” Desgaste à toa, é o que pensa a maioria de nós. Mas aí, vem alguém e diz. E aí você assina embaixo.

Não aguento

Eu não aguento mais pessoas que começam qualquer frase com a expressão “Na verdade…” Nem aquelas que respondem qualquer pergunta dizendo “Com certeza!”. Nem mesmo as que, antes de terminar um pensamento, acrescentam um “enfim” ao discurso.

Não aguento aqueles que, diante do caos em qualquer aeroporto, comentam “Imagina como vai ser em 2014”. Ou gente que, em qualquer engarrafamento de trânsito, suspira: “Imagina como vai ser em 2014.” Ou os moradores do Rio que, diante de um bueiro entupido, preveem: “Imagina como vai ser em 2014”.

Eu não aguento mais atrizes de novela que analisam seus personagens dizendo “Foi um presente do Gilberto” (ou do Maneco, ou do Aguinaldo, ou da Maria Adelaide). Ou aquelas que, tentando definir o parceiro ideal, afirmam que “humor é fundamental”. Não aguento as que nunca protagonizam a novela das oito, mas fingem que não se importam porque “é muito melhor fazer a vilã”. Ou ainda as que celebram a profissão de atriz porque, assim, podem “viver muitas vidas”.

Não aguento participantes da “Dança dos famosos” que dizem que a disputa provou sua “capacidade de superação”. Nem jogadores de futebol que, após a vitória de seu time, valorizam sua “capacidade de superação”. Muito menos modelos que após uma ida e volta na passarela do Fashion Rio sentem-se aliviadas por sua “capacidade de superação”.

Eu não aguento mais comentaristas de moda na televisão analisando o “look” dos desfiles. Nem a supervalorização dos seriados da TV americana. E atores do palco agradecendo “aos deuses do teatro”.

Eu não aguento mais prefeitos e governadores justificando atrasos nas obras porque  “o edital está em fase de finalização”. Eu não aguento políticos do PT pedindo que a oposição “não politize” o escândalo mais recente do partido. Nem os ministros do Governo chamando a presidente Dilma de “presidenta”.

Eu não aguento mais ninguém dizendo que as redes sociais são “uma poderosa ferramenta de comunicação”. Não aguento filmes em 3D. Nem gente que se acha na obrigação de comprar o iPhone 6, quando lê o anúncio do lançamento para breve do iPhone 5.

Não aguento mais médicos diagnosticando como “virose” tudo que eles não sabem bem o que é. Nem pesquisas científicas amaldiçoando o ovo e seus efeitos no colesterol, anos depois de o ovo ter sido abençoado por pesquisas científicas porque, afinal, o ovo tem bom colesterol, apesar de, anos antes, outras pesquisas já terem amaldiçoado o ovo etc etc etc.

Eu não aguento mais a Regina Casé bancando a simpática. Nem a comoção nacional em torno do fim do Exalta Samba. Muito menos algum artista jovem que recebe prêmio, gritando na boca de cena “Valeu, galera!”. Eu não aguento mais o Luan Santana.

Artur Xexéo (coluna publicada na Revista O Globo, 19/06/2011)

Polícia e ladrão ou polícia e polícia?

Se você é um pouquinho interessado no que acontece em volta de você, mesmo que não seja carioca, mesmo que nem more no Rio, está a par da zona na nossa polícia civil. E aí, em um dia que passei boa parte do meu tempo entre filas e passeios do metrô, sem saber direito o que escrever sobre o assunto, encontrei o texto do Zuenir Ventura no Globo.

A limpeza na polícia

Alguma coisa não vai mesmo bem quando a polícia precisa chamar a polícia para prender o ladrão. Será que só a Polícia Federal consegue desbaratar os esquemas de corrupção dentro das polícias do Rio, como fez em 2008, quando prendeu o delegado Álvaro Lins, ou agora, quando mandou para a cadeia dezenas de policiais que vendiam armas e proteção a traficantes? Como é que um sistema de segurança que tem se mostrado tão eficiente no combate ao crime nas favelas é tão complacente com ele dentro de casa? Como se explica que a PM e a Polícia Civil não disponham de um mecanismo de correição capaz de livrar as corporações dos bandidos que agem internamente? A banda podre é indestrutível?

A crise, que custou a demissão de Allan Turnowski da Chefia da Polícia Civil, surgiu num péssimo momento, justamente quando as UPPs haviam conquistado a confiança da população. Para que ela se torne um fator positivo, um processo de saneamento é necessário, e que o governo exponha toda a sujeira que há por baixo. Que explique, por exemplo, o fato de o cabeça de uma das quadrilhas desbaratadas pelos federais ser o ex-braço direito de quem até ontem foi o chefe de Polícia Civil. É estranho que esse delegado, Carlos Oliveira, não tenha despertado a desconfiança de seus superiores, apesar dos sinais de enriquecimento ilícito que ostentava, como carro importado e um apartamento de mais de R$1 milhão, entre outros imóveis.

Qual o verdadeiro papel de Turnowski nessa história? Assim que começou a operação da PF, ele foi chamado a depor. Em seguida, comandou uma ação que desviou as atenções, ao mandar fechar a Draco, Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, sob suspeita de extorsão. Seu titular era Claudio Ferraz, o delegado que atacou as milícias e colaborou com a Operação Guilhotina. Limpeza ou represália? Turnowski negou a segunda hipótese e declarou que exoneraria Ferraz, se estivesse ao seu alcance. Parecia tratar-se de rivalidade, de disputa de poder. Mas, bem antes de se consumar a demissão, Jorge Antonio Barros anunciou no seu blog que a disputa era na verdade entre Turnowski e ninguém menos que Beltrame. “Um dos dois terá que pedir para sair”, garantiu. O repórter não teve dúvida sobre quem iria sobrar. A dificuldade do governador, ele adiantava, será “obter uma saída honrosa para Turnowski”.

É louvável que José Mariano Beltrame não tenha se melindrado com a interferência federal; ao contrário, recebeu-a como colaboração. Mas seria melhor que a PF não precisasse vir a cada dois anos fazer uma faxina nas nossas polícias.