Ligações muito perigosas (pra nós)

O Lessa é um cara legal, apesar de discordar dele em quase tudo – Flamengo e Beatles são algumas exceções. Infelizmente, para quem gosta de ler, é um blogueiro quase bissexto. Mas hoje resolvi dar uma olhada em seu cafofo e encontrei lá um belíssimo post, publicado há exatamente um mês.

Sobre Paes, Cabral e suas ligações muito mais que perigosas (e olhem que a Delta nem é citada). No texto, uma provocação com que Lessa nos obriga a pensar na cidade em que vivemos e em que tipos temos votado, há um link para a Revista Piauí que é fundamental.

Nilton Claudino, o repórter fotográfico d’O Dia que foi descoberto e torturado enquanto fazia uma matéria sobre as milícias (ao lado de uma repórter e um motorista), finalmente rompeu o silêncio e contou sua história, publicada em agosto de 2011. Não vi a revista na época e, sinceramente, lembrava muito vagamente da história.

2012 é ano eleitoral e, mesmo que você não esteja disposto a dedicar muito tempo ao assunto, pense um pouquinho. Paes, candidato à reeleição, anda de mãos dadas com Cabral (e uma turma muito esquisita). Cabral é o cara que, ao lado de Beltrame, criou a UPP, a invasão que não prende ninguém e ainda empurra a turma expulsa de nossas favelas para Niterói, baixada e região dos Lagos.

Ah, e só pra lembrar, nunca houve uma UPP instalada em área dominada por milícias.

Num quarto escuro, só iluminado por telas de celulares, que usavam para que pudéssemos assistir uns aos outros serem subjugados. O motorista pedia para que eu afastasse escorpiões que subiam por suas costas. Não podia ajudá-lo. Ouvíamos passos de muitos PMs. Tiraram nossos capuzes e substituíram por sacos plásticos, parecidos com os de supermercados. Com eles, produziam asfixiamentos temporários. Mas dava para ver as fardas quando olhava por baixo do plástico (Nilton Claudino).

P.S. 1: vamos muito mal na Guanabara e, pelo jeito, teremos uma terrível “encruzilhada de três pernas” pela frente. As principais opções que se apresentam à eleição para prefeito são Eduardo Paes; a chapa que resolvi chamar de ‘Os Maiazinhos’ – Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho, herdeiros de clãs que dispensam apresentações; e Marcelo Freixo, do PSOL – o partido que abre seu programa com o seguinte texto: “o sistema capitalista imperialista mundial está conduzindo a humanidade a uma crise global. A destruição da natureza, as guerras, a especulação financeira, o aumento da superexploração do trabalho e da miséria são suas conseqüências. Sob o atual sistema, o avanço da ciência e da técnica só conduz a uma mais acelerada concentração de riquezas.”

P.S. 2: ou seja, estamos fodidos e mal pagos.

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Virou zona?

Deu no Comunique-se: Google lança canal no Youtube para ensinar Jornalismo. Virou zona? Acho que não.

O foco principal não é o brasileiro que, há poucos dias, teve a obrigatoriedade do diploma para a prática da profissão. O objetivo é preparar o maior número de usuários para o Jornalismo Colaborativo que toma conta da rede, no mundo inteiro. Isso porque as empresas entendem que a qualidade da comunicação está diretamente ligada à preparação do comunicador.

A iniciativa não pretende criar novos profissionais, mas preparar os amadores para que sua contribuição seja de alta qualidade. A novidade está no canal Reporter’s Center.

Aproveitando o ensejo, e ainda sobre a decisão do STF sobre o diploma, segue abaixo um texto de um profissional com quase 40 anos de carreira. Diplomado.

jornaisDiz a máxima jornalística que quanto mais informações o leitor tiver – de todos os lados – melhor será sua capacidade de concluir (desde que as informações sejam bem produzidas pelo repórter ou redator, essa figura cada vez mais ausente nas redações…).

Com meus 36 anos de profissão – quase 40 anos desde que entrei na faculdade – acho que o fim do diploma como exigência para exercer atividade jornalística deve estar pesando mais do lado dos donos de faculdades e cursinhos de PhD em jornalismo do que nas redações e nos sindicatos.

Quando fiz vestibular para a ECO-UFRJ (então na Praça da República), havia cursos de jornalismo/comunicação apenas na Eco, na PUC e na UFF, se não estou enganado. Ainda assim, os cursos eram muito teóricos e estavam muito distantes do dia a dia das redações. Me formei em 1973 e já trabalhava como foca na Economia do JB desde agosto de 1972. Pouco depois (setembro/outubro), saiu a convocação para o exame no cursinho de jornalismo do JB (então dirigido pelo Roberto Quintaes, editor da Pesquisa. O curso – aberto a jornalistas que estavam no 6º período em diante – tinha forte estímulo do Dines, e se não me engano, de novo, foi criação do Nilson Lages, um dos responsáveis pelo curso da PUC-Rio). Eu me inscrevi nele em março. Nossa turma tinha ainda Norma Couri, Diana Aragão, Arthur Rios (já falecido).

O curso era a melhor forma do JB ensinar a sua “cultura”, o seu estilo aos novos jornalistas. Naquela época, a redação do JB tinha vários craques que entraram na profissão antes da regulamentação do diploma. O Dines, por sinal, recrutou vários especialistas não formados em jornalismo para áreas específicas. Cito um: o Dr. Fritz Utzeri, isso mesmo o Fritz, formado em Medicina, área a que se dedicaria, mas que posteriormente se revelou um magnífico repórter de Geral, correspondente internacional, editorialista, Editor Chefe do JB e colunista. É dele, em parceria com o Heraldo (já falecido) o Prêmio Esso de 1981 pelas matérias sobre o atentado no RioCentro. Escrever bem é um dom que exige muita cultura e leitura prévia. Não uma garantia do diploma, que pode estar associado à transferência de boas informações sobre as diversas técnicas do jornalismo.

Pois bem, para não fugir ao assunto: naquela época, tínhamos no Grande Rio (então uma cidade nacionalmente muito mais importante do que hoje na irradiação de notícias para o Brasil) cerca de três ou quatro faculdades de jornalismo (Facha e Gama Filho surgiram depois; a proliferação, nos anos 90 em diante) e quantos jornais?

Para quem não se lembra, vamos lá: Jornal do Brasil, O Globo, O Jornal e Jornal do Commercio (ambos dos Diários Associados), Última Hora, Diário de Notícias, O Dia, A Notícia, Jornal dos Sports, Monitor Mercantil, Gazeta de Notícias, Luta Democrática. De Niterói, O Fluminense. O Correio da Manhã tinha fechado de vez, em 1972, na tentativa de ressurreição dos “irmãos bobagem” (Marcello e Maurício Alencar). Circulavam no Rio ainda o Estadão, o Jornal da Tarde, a Folha (sem prestígio, na época) e a Gazeta Mercantil, encontrados em poucas bancas, assim como os jornais de outros estados.

Ou seja, formavam-se, por ano, um máximo de 200 jornalistas. Número absorvido pela expansão e renovação dos jornais e das mídias. Isso mantinha os salários altos.

Hoje, temos quantos jornais? O Globo, JB (assim no diminutivo, expressando sua realidade), Jornal do Commercio, Monitor Mercantil, O Dia (reformulado), Jornal dos Sports. Surgiram o Extra e os subprodutos Meia Hora (O Dia) e Expresso (Extra) que não chegam a criar uma nova redação, só mudam o enfoque da mesma notícia, o Lance (que não é do Rio) e o Valor, que também não é do Rio. Houve sim, proliferação das mídias. E aí as faculdades particulares se aproveitam para ‘vender’ a idéia de que formarão jornalistas de televisão (no Google há uma de JF que apresenta os jornalistas Fátima Bernardes, Sérgio Chapelin e William Bonner como paradigmas).

A enxurrada de novas faculdades de “engana papai” (são quase 20 no Grande Rio) forma cerca de 2.000 jornalistas crus por ano (são duas turmas por ano, pelo menos). No Brasil, 470 faculdades jogam 12.000 jornalistas no mercado. Não admira que os salários tenham sido nivelados tão por baixo, assim como a qualidade. Aliás, com a facilidade de se copiar tudo da internet, os releases oficiais são chupados descaradamente nos sites oficiais e transcritos na íntegra. Não raro, saem as assinaturas (não por prurido de atribuir a fonte, mais por descuido mesmo). No nosso começo, copiar release era uma vergonha suprema. Sobretudo na área de economia. Hoje, do outro lado do balcão, está sendo muito mais fácil pautar a mídia com releases.

Falo isso com pesar, com uma razoável experiência de trabalho, às vezes em cargos de chefia, em jornais (JB e Globo), revista (Veja), Rádio (JB-AM), TV (Bandeirantes e GloboNews) e internet (Globonews.com), assessoria de imprensa (ANDIMA e Mediação) além de colaborações várias. Nas redações e em assessoria, ensinei muita gente (devolvendo o que me deram no começo da carreira e hoje ninguém faz mais). Só não fui professor de faculdade, embora tenha feito muitas palestras nestas faculdades “engana papai”. Nelas, sempre tentava desencorajar a turma quanto ao falso glamour da profissão – tática para deixar de pé os aguerridos, os que querem matar um leão por dia, com furos dignos, o verdadeiro prazer do bom jornalista, de informar algo novo. Esses sobreviventes, seriam os com DNA de jornalismo…

Em suma, apesar da decisão do STF, quem deve ser o juiz da questão é o leitor. O seu ponto de vista é o mais importante. A indústria do diploma melhorou a qualidade da informação?

Lamento concluir que não.

Gilberto Menezes Côrtes
(Mediação Imprensa e Comunicação)