Fórmula 171

Eu devia ter uns cinco ou seis anos quando ganhei um carro de fricção, preto com detalhes dourados, com duas asas. Provavelmente já sabia que aquilo era um Fórmula 1, o que não significa que entendesse o significado disso. Gostava do carro porque cruzava a sala de ponta a ponta, em alta velocidade.

Com o tempo, aquele carro ficou de lado e, acompanhando as corridas de Nélson Piquet, comecei a entender o que eram aquelas corridas e tive até a dimensão de quem foi Emerson Fittipaldi e o que era aquela Lotus.

Torci pelo Piquet. Mas me apaixonei mesmo pelas corridas. E com o tempo entendi como funcionava aquele negócio, a disputa dos pilotos e escuderias, o que era o jogo de equipe, quem eram os grandes ases e quais eram os grandes times. E com a aposentadoria de Nélson, deixei de ser um torcedor de pilotos e passei a querer assistir grandes corridas.

É claro que sempre se simpatiza com um ou outro, mas sempre olhei para os caras que ficavam atrás dos volantes sem me preocupar com o lugar onde tinham nascido. Nunca torci pelo Senna, por exemplo, apesar de apreciar seu arrojo.

Até que um dia apareceu um certo alemão que, com status de primeiro-piloto-praticamente-dono-da-ferrari, ao lado de Jean Todt e Ross Brawn, extrapolaram o conceito de jogo de equipe. O ápice foi o GP da Áustria de 2002, em que Rubens Barrichelo jogou a merda no ventilador ao quase parar seu carro a poucos metros da linha de chegada, permitindo a vitória do alemão. Foi um escândalo. E por conta disso, até novas regras foram criadas pela categoria.

2010 tem sido um ano especial na categoria. Apesar das dificuldades em se ultrapassar, pelas características de carros e pistas atuais, grandes duplas de equipes têm protagonizado disputas inesquecíveis, o caso de Vettel e Webber na Red Bull, Hamilton e Button na McLaren. E o mesmo se esperava de Alonso e Massa na Ferrari.

Até que o time italiano (Domenicalli à frente), o espanhol mimado e de caráter duvidoso, e o brasileiro fraco, sem atitude, sem hombridade, estragaram tudo.

Para mim, nos dois episódios, mais grave do que o jogo de equipe extremo foram as posturas dos dois brasileiros. Barrichelo expôs a farsa ao freiar quase na linha de chegada, mas depois se agarrou no discurso do “só um brasileirinho contra o mundo”. Massa, a despeito do que todo mundo viu e ouviu, primeiro fez cara de emburrado para depois dizer que foi uma decisão sua.

Não acho que a Fórmula 1 acabou ou vai acabar por causa disso. Assim como eu, milhões de pessoas continuam gostando das corridas. Mas episódios como o de domingo confirma a tese de que, mais do que um esporte, a F1 é um negócio. Um negócio que pode ser divertido para quem assiste.

Mas o que a Ferrari fez (de novo) pode sim espantar uma boa parcela de público, mesmo que temporariamente, que espera por disputas limpas e reais. Isso pode espantar patrocinadores que pagam as contas que garantem os carros na pista e tudo pode ficar muito mais difícil. Mas depois passa, como sempre.

E se você quer continuar ou começar a assistir corridas de F1, não esqueçam de não torcer por ninguém. Apenas apreciem o espetáculo. Porque da mesma maneira que nossa seleção não é a pátria de chuteiras, os pilotos brasileiros não são a pátria sobre rodas. Ou vão se decepcionar…

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Alíneas

A melhor pergunta sobre o imbróglio que Schumacher aprontou na Rascasse, a penúltima curva da corrida de ontem, ouvi hoje de manhã: ‘o regulamento foi feito por brasileiro?’

Como a confusão aconteceu no final da última volta, falemos primeiro da corrida. Como esperado, nenhuma emoção. Os cinco primeiros a cruzar a linha de chegada foram os mesmo cinco (e na mesma ordem) que passaram pela primeira curva. Poucas coisas relevantes, como o fato de Sebastian Vettel ter ultrapassado Robert Kubica na largada e pulado de terceiro para segundo. Apesar de perder a posição na largada, o piloto polonês é – sem dúvida – o melhor do ano até agora. O que ele anda conseguindo com a Renault é para constar em almanaques.

Outro destaque foi Alonso, que saiu dos boxes porque bateu e não treinou. Com a entra do safety car na primeira volta, ele deu o pulo do gato. Fez sua parada e começou a ganhar posições na pista. Quando todos os outros resolveram parar, ele pulou para a sexta posição.

Mesmo assim, uma corrida chata e previsível.

Como qualquer adendo seria um exagero, basta dizer que a Red Bull finalmente fez valer, nos números, o fato de ter o melhor carro do ano. Agora, a equipe é líder do mundial de construtores com 156 pontos, 78 para cada um de seus pilotos. Surpreendente, apenas o fato de Webber estar em um momento melhor que Vettel quando todos esperavam que o alemão seria a estrela do ano enquanto o australiano, seu fiel escudeiro.

Voltemos, então, à ultrapassagem de Schumacher sobre Alonso. No que diz respeito ao regulamento, para analisar o que aconteceu é preciso se debruçar sobre o artigo 40. Vejam o que dizem algumas de suas alíneas:

40.7: …é proibido ultrapassar até que os carros alcancem a primeira linha do safety-car após o seu retorno aos pits.

40.11: Toda vez que o SC entrar nos pits, sem exceção, as placas que sinalizam sua presença são retiradas e luzes e bandeiras verdes entram em ação.

40.13: Quando, ao final de uma prova, o safety car estiver na pista, ele será recolhido aos pits no fim da última volta e os carros receberão a bandeira quadriculada sem que acontecem ultrapassagens

40.14: é permitido realizar ultrapassagens, quando o safety car voltar aos pits, depois de cruzar a linha (se referindo à linha do SC)

Pelos trechos do regulamento reproduzidos acima, há argumentos a favor e contra Schumacher. O problema é que, mais do que ir contra as regras, o alemão feriu o espírito do negócio. Não importa se a regra é dúbia e deixa a brecha, pois todo mundo que acompanha automobilismo sabe que, se em bandeira amarela, só se ultrapassa após a linha de largada. Então, sua punição foi justa.

Mas há algumas nuances na manobra que devem ser notadas. É claro que Schumacher conhece o regulamento. Sabendo que existe uma pequena margem, arriscou. Perdeu.

Outro detalhe (talvez, o mais importante) é que, independente do resultado da manobra, ele precisava fazer aquilo. Porque desde que decidiu voltar a correr, sua decisão e – principalmente – seus resultados tem sido contestados. Mas Mercedes e outros patrocinadores apostaram muito dinheiro no piloto e ele precisa mostrar que valeu a pena. Com todos os aspectos de seu retorno analisados, dão-se os descontos necessários pelos três anos parados e a necessária readaptação muito mais lenta do que seria normal em função da proibição de testes. A manobra, mesmo acompanhada de uma punição, mostra que ele não perdeu o espírito competitivo, continua aguerrido, sempre em busca da vitória. Ele precisa prestar contas e, com o barulho feito ontem, conseguiu.

La Côte d’Azur sur les pilules

Domingo tem corrida em Mônaco. Uma pista que praticamente não mudou em 70 anos, o que nos faz chegar facilmente à conclusão de que a F1 não cabe ali. Se compararmos então com todos os autódromos e suas exigências de segurança, não dá pra entender como é que a F1 ainda vai ao principado. Dá pra perceber isso no vídeo abaixo, em que Mark Webber apresenta a pista.

Mas há a tradição e a grana, e tudo o que pode derivar destes dois aspectos. Enfim, a corrida em que não se pode pensar em errar, devido à proximidade constante dos guard rails, pode até ter surpresas. Mas se o tempo estiver bom e a largada for tranqüila, sem problemas na primeira curva, quem completar a primeira volta na frente deve terminar a corrida na frente. Mas há algumas variáveis que devemos levar em conta.

A classificação pode embaralhar muito o grid. Não é por ter 24 carros numa pista pequena e apertada. É por ter quatro carros andando a passo de cágado e dois a passo de cágado centenário. Esse tráfego pode provocar surpresas. E, se dois ou três dos favoritos largarem no fundo, não necessariamente conseguirão escalar o pelotão. Porque para ultrapassar em Mônaco, o cara da frente tem que deixar, bater ou dormir. Para quem duvida, basta lembrar o que Enrique Bernoldi (com uma Arrows) fez com David Coulthard em 2001, segurando o escocês por mais da metade da corrida.

A chuva é outra variável importante e há grande chance dela dar as caras e animar bastante a corrida. Nesse caso, não se deve esperar nada de Massa, Rubinho pode andar bem, Hamilton é favorito à vitória e as nanicas…

Das nanicas, ninguém deve esperar nada em hipótese alguma. Quando se fala em chuva em Mônaco, é comum lembrar do que Ayrton Senna fez com a Toleman em 1984. Seco ou molhado, Mônaco é uma pista que pede um carro extremamente equilibrado, com forte aderência mecânica. Aquela Toleman tinha um chassi sensacional e um piloto excepcional. Nada parecido com o cenário atual.

Nas CNTP, Red Bull e Ferrari (Alonso) devem brigar pela primeira fila. Mas como tudo é muito lento e os grandes pilotos podem sobressair, não me assustaria se visse Kubica, Hamilton e Schumacher na briga. Para a corrida, em qualquer condição, não descartaria Button e Rosberg.

Petites mises

Infelizmente, não estou no principado. Mas boatos correm soltos por lá, é possível ouví-los do Rio. Não vou comentar todos os pilotos que foram indicados como substitutos de Massa na Ferrari nem a especulação sobre sua ida para a Red Bull. Mas vou fazer pequenas apostas para a temporada 2011 e depois veremos o que acertei:

– As equipes pediram para a Bridgestone continuar na F1 e a Michelin quer voltar, mas é a Pirelli quem calçará os carros a partir do ano que vem.

– Hispania terminará o ano na marra e não correrá em 2011.

– Para a vaga aberta e em substituição ao time espanhol, Epsilon Euskadi e Art Grand Prix disputarão a próxima temporada.

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Na China, numa fria

Começa às 23h desta quinta-feira (horário de Brasília) a programação do GP da China de F1. Quarta prova do calendário, uma das expectativas sobre a prova remete à emoção que pode apresentar. Depois da tediosa corrida de abertura da temporada, no Bahrein, tivemos duas boas provas na Austrália e na Malásia. E como será em Xangai?

Apesar de várias tentativas da FIA para aumentar a competitividade e – principalmente – o número de ultrapassagens, a Fórmula 1 ainda depende do clima, particularmente da chuva. As previsões para o final de semana chinês ainda não asseguram que teremos asfalto molhado, mas é certo que vai fazer muito frio, o que também pode ajudar.

Em baixas temperaturas, todo o comportamento dos carros é alterado, principalmente os pneus. Felipe Massa, por exemplo, já teve problemas de aquecimento da borracha na Austrália. Certamente não é o único e isso pode embaralhar um pouco o grid de largada, deixando a prova muito interessante. Em compensação, a confiabilidade aumenta, diminuindo a chance de quebras a ponto de Bruno Senna acreditar que, além de completar sua segunda corrida, pode ter ganhos de desempenho.

As previsões do Weather.com para o final de semana são as seguintes: quinta-feira entre 8 e 11°C, sexta variando de 8 a 14°C, sábado com máxima próxima a 16°C e domingo, 18°C. A Bridgestone já disse que levará para a China os compostos ‘mole’ e ‘duro’. Com alta durabilidade apresentada até agora, caso se confirmem as condições climáticas, a grande maioria dos pilotos deverá dividir sua corrida em um trecho bem longo com pneus moles e utilização dos duros apenas para cumprir o regulamento.

A pista

O GP terá 56 voltas no circuito de 5,5km relativamente interessante. Das pistas novas e sem personalidade que começaram a se tornar comuns na F1 moderna, não é das piores, com pelo menos dois pontos claros de ultrapassagem mas que, se algum piloto estiver disposto, pode trazer boas surpresas.

Até hoje foram seis provas realizadas em Xangai, com seis vencedores diferentes, o primeiro deles o brasileiro Rubens Barrichelo (Ferrari, 2004). Ano passado, debaixo de chuva torrencial, Sebastian Vettel conquistou a primeira vitória da Red Bull, que fez a dobradinha com Mark Webber. Com o rendimento que teve nas primeiras provas do ano, os dois têm tudo para repetir a dobradinha, desde que não tenham problemas mecânicos. Os outros pilotos que subiram ao alto do pódio foram Fernando Alonso (Renault, 2005), Michael Schumacher (Ferrari, 2006), Kimi Raikkonen (Ferrari, 2007) e Lewis Hamilton (McLaren, 2008).

A programação do GP da China é a seguinte:

15/04 (quinta-feira) – 23h: treino livre (SporTv 2)
16/04 (sexta-feira) – 3h: treino livre (SporTv)
17/04 (sábado) – 0h: treino livre (SporTv)
17/04 (sábado) – 2h35: treino de classificação (TV Globo)
18/04 (domingo) – 3h50: GP da China (TV Globo)

O show não pode parar

Apesar do terremoto e a justa comoção que causou, o mundo não para e acontece neste domingo o GP da China.

Quem nos apresenta o circuito é Jaime Alguersuari, piloto da Toro Rosso que, em 2009, estreou numa baita roubada, sem nunca ter testado um Fórmula 1. Correu o risco de se queimar, com resultados absurdos de tão ruins, mas parece que a aposta valeu a pena. Já pontuou neste ano e teve um belo duelo com Michael Schumacher.

Se mantiver a curva de aprendizado que mostrou até agora, será mais um espanhol a dar muito trabalho no futuro.

Se não conseguir ver o vídeo abaixo, clique aqui para assistir.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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O mundo é uma pista de corridas

Tentando retomar a rotina, mesmo que aos poucos, volto a falar de Fórmula 1.

Primeiro, a imagem abaixo que encontrei no Blog Victal. O Circuito Mundial da F-1 foi criado pelo Bernardo Borges, designer da revista Mundo Estranho, utilizando as cidades por onde o circo passará em 2010.

Além da imagem final, uma caprichadíssima sacada, assino embaixo o destaque de Victor Martins: muito melhor que qualquer dos novos circuitos costruídos por Hermann Tilke. Outra coisa legal é clicar aqui e ver como o circuito foi criado.

Detalhes e polêmica

No post anterior, logo aí embaixo, está o vídeo com o resumo da última corrida e vale prestar atenção em alguns detalhes. O primeiro, o destaque dado a Felipe Massa, que saiu de Sepang liderando o campeonato. Na largada, é assustador sentir a velocidade da Ferrari ao passar pelo carro parado de Barrichelo. Faltou no vídeo a imagem que definiu a vitória, de Vettel pulando de terceiro para primeiro. E, pra quem não conseguiu ouvir na Globo graças à tagarelice de Galvão, vale prestar atenção no som do motor de Alonso, que abandonou a duas voltas do final.

O vídeo também é bom para tirar uma dúvida desta F1 recheada por polêmicas dos últimos anos. Hamilton ultrapassou Petrov que entra na reta tentando pegar o vácuo para devolver a ultrapassagem. Hamilton dança na reta e, em busca de condições para realizar a manobra, o russo dança atrás. O jovem inglês levou uma advertência por condução indevida, afinal só se pode mudar de trajetória para defender a posição uma vez.

Mas há um detalhe nessa história. Apesar de meio mundo ter achado a advertência uma ‘punição’ fraca, o jovem campeão britânico não merecia sequer um cartão amarelo. Como Petrov nem ensaiou a ultrapassagem, os comissários não deveriam ter considerado a direção de Hamilton errada.

Tecnicamente, o piloto da McLaren não fez nada muito diferente daqueles que balançam o carro antes de cruzar linha de chegada ou de quem tenta aquecer os pneus em plena corrida (Massa cansou de fazer isso, inclusive esse ano).

Hamilton não fechou a porta para Petrov. Petrov é que seguiu Hamilton para tentar entrar no vácuo. Para completar, aproveitem a trilha sonora. A FIA sempre capricha nas trilhas de seus vídeos.

E só pra ninguém achar que sou maluco, o vídeo está sozinho porque foi a única maneira que encontrei para publicar um vídeo do Vimeo, porque o WordPress só aceita vídeos e textos num mesmo post se forem Youtube, Google Video ou DailyMotion.

Sepang

http://vimeo.com/10747606