Luiz Vela

Luiz VelaPerder é uma merda. E este foi um fim de semana muito duro. Perdi um amigo.

A sexta-feira já tinha sido estranha. Mas no final do dia, a impressão é de que mais uma borrasca tinha se dissipado.

“Amanhã de manhã ele liga de novo, pra pedir ajuda como sempre. E a gente vê o que faz”.

No sábado de manhã ele não ligou. Não ligaria mais.

Eu estava dirigindo, a caminho de um almoço na casa de uma amiga, quase família ou família há 28 anos.

É claro que soltei um palavrão. E do outro lado da linha o mais sensato e o pior conselho a se ouvir naquele momento: “não adianta praguejar. Do jeito que vinha, pensa bem, foi até melhor, parou o sofrimento”.

Puta que o pariu! O mesmo palavrão que disse na hora. É que tem hora que não dá pra racionalizar. Quando estacionei, saltei do carro sozinho, a turma ficou lá dentro. Sentei no meio-fio, acendi um cigarro e chorei. Como há muito não fazia por nada. De tristeza, de saudade, de se sentir impotente pensando que podia ter feito mais e não fez.

Pombas, será que eu fiz tudo o que podia? Não tive a dedicação do Armando, o desprendimento do Morcego… É, não sei lidar bem com algumas coisas, talvez tenha me afastado demais quando não devia, será? Não sei, não dá pra saber.

Há algumas semanas nos reunimos. Uma espécie de núcleo duro da turma do Rio. Duas, três horas de elucubrações em busca de uma saída. A conclusão óbvia. Se ele não quiser, não tem jeito. Não há o que fazer. Do jeito que vai, acaba logo, nem demora. Volta pra casa com a garganta fechada, ainda buscando um jeito de lutar contra a maré.

A maré venceu. Ontem. Sábado de aleluia. Trocadilho infame do caralho!!!

Ano passado foi um ano bom, horas de telefone, centenas de mensagens por todos os meios, produzindo. Construindo juntos. Degringolou justo na hora de fazer dar certo. Aquela nesga de sol que te deixa pensar ‘agora vai’. Não foi.

Que nó é esse que dá na cabeça de um sujeito com um cérebro tão brilhante? Fico entre as palavras da Claudia – de que decifrá-lo ia muito além da nossa vã filosofia – e do Morcego: sua tempestade pessoal nunca refrescou, nunca deu trégua, e ele foi arrastado até a que a nau fosse engolida pelas vagas.

Talvez seja isso, talvez nada disso.

Mais de um dia da notícia já se passou. Ainda em construção por aqui, ainda tentando aceitar que não há culpas de qualquer espécie. Ainda vai durar um tempo aquela sensação de buscar a brecha que perdemos, o passo que escapou.

Pouco mais de sete anos depois do primeiro encontro, num mês de abril, acompanhávamos os serviços funerários do homem que havia surpreendido a todos. Segundo o diagnóstico visual de qualquer um, a saúde era frágil. Não se tratava de males do fígado, como alguns diziam, mas da alma. Ele tinha 51 anos. Mas sua aparência era de, pelo menos, uns cinco anos a mais. O funeral teve lugar em um cemitério qualquer, sem pompa, como talvez previra o falecido em seus últimos dias. Não houve música, discursos ou salvas de tiros, e o caixão desceu ao seu endereço final.

(Livre adaptação sobre trechos do capítulo 10, págs. 125 e 126, de Sàn Guermin, de Luiz Octavio Bernardes)

Quando voltei pro carro, Helena – que o conheceu – perguntou: “papai, o Vela do Luiz Vela é por causa do barco?” É minha filha.

É meu amigo, sobe o pano e bota no vento, que agora é largo. Vai ter a paz que não conseguiu quando passou por esse porto.

Anúncios

Livros

Dois desses artefatos ultrapassados, analógicos, fabricados com papel e cheio de folhas, mobilizaram as minhas primeiras semanas de janeiro de 2014.

Sàn Guermin / ReproduçãoO primeiro é Sàn Guermin (Luiz Octavio Bernardes, Multifoco). Por razões que vocês vão descobrir quando o lerem, estou envolvido com o primeiro livro de Luiz desde meados do ano passado. Mas foi lançado agora, há alguns dias.

Trata das primeiras eleições em um país que fica ali pela América Central, perto do Caribe, depois de uns 80 anos de ditadura militar. Parece familiar? Pois é. Mas acreditem, está longe de ser mais do mesmo.

Na história, ficamos conhecendo um sem número de personagens muito interessantes e, o mais importante, sua estranha e patética (como está no prefácio) relação com o poder.

O livro é envolvente e a sensação de “estar em casa” passa depois de algumas páginas, o que – pelo menos pra mim – só depõe a favor. É ficção, claro, o que está longe de impedir as muitas pinceladas na história que contribuem para a construção dos perfis dos personagens e outras respostas do livro. De quebra, o final é surpreendente.

Haverá um ‘lançamento 2.0’, em Ipanema, em breve, mas sem data confirmada. Quem gosta de ter a obra autografada e conversar com o autor, é só ficar de olho na página do país no Facebook.

Entre pai e filho

O drible / ReproduçãoO outro livro deste início de ano O drible (Sérgio Rodrigues, Companhia das Letras). A história da relação (ou falta dela) entre um pai e um filho que passaram mais de 20 anos sem se falar. Depois de décadas, o pai – desenganado pelos médicos – chama pelo filho. E toda a história é construída a partir dos encontros entre os dois, no refúgio do mais velho.

Acontece que Murilo Filho foi um dos grandes cronistas esportivos da história do país e todas as conversas que tem com Neto são permeadas de histórias de futebol. Uma delas é a que dá o nome (e muito mais) ao livro: o drible de Pelé em Mazurkiewicz.

O livro é sensacional e sei que estou longe de ser o primeiro a falar isso, não é por acaso que já foi vendido para vários países. Sérgio tem um texto brilhante e a trama é excelente. Se não bastasse, a descrição/narração de Murilo Filho do grande lance, enquanto para e adianta o vídeo tape, é coisa de maluco. O primeiro capítulo do livro, se gol fosse, mereceria – como Pelé – uma placa de ouro.

Leitura obrigatória

Resumindo: são dois romances curtos (134 e 224 páginas, respectvamente) e imperdíveis.

Medo

Trecho de texto em que Luiz fala sobre o episódio Serra X bolinha de papel X fita adesiva, o significado de qualquer (QUALQUER) forma de agressão e o hábito da truculência característica da turma que está prestes a seguir no poder. Se está aqui, é porque acho que a vale a pena clicar no link, ler o texto inteiro e pensar.

Eu sou a Regina Duarte da vez!!!

Bem, a certo ponto, o pau roncou na casa de Noca. Impossível atribuir a confusão a desavenças entre militantes do PSDB. Coincidência ou não, a militância petista entrou em cena, truculenta. Se a careca do Serra arranhou ou ele teve traumatismo craniano, é irrelevante. Trata-se de agressão a um candidato num estado democrático. Isso é inconcebível. Patrulhar campanha, provocar distúrbios e afins me parece um método chavista de praticar democracia, uma contradição em termos, óbvio.

Essa truculência denota medo. medo justifica muita coisa. A militância petista deve estar preocupada com uma derrota da Dilma. Como se sabe. O governo democrático do PT não passou de loteamento político de tudo. De empresas estatais, a ONGS, a escolha de fornecedores do Governo. Para os amigos, tudo. Para os inimigos, porrada.

Luiz Octavio Bernardes

A mandala de Luiz

O candidato dito da oposição renega o governo de seu partido oito anos antes e se parece mais com a situação do que nunca. A candidata da situação é figura polêmica, imprevisível talvez, mas está pasteurizada a um ponto que tudo leva a crer que o Brasil experimentará um continuísmo maquiado. E, neste ponto, não fosse a tradicional forca do clientelismo, do voto de cabresto e dos votos para beneficiar grupelhos que se apoderam de partes do Poder Público para enriquecer, coisa totalemente normal no Brasil, me arriscaria a dizer que seria uma eleicão fértil para abstencões e votos em branco.

Luiz Octavio Bernardes
With a little help from my friends

Ainda não consegui definir se feliz ou infelizmente. Luiz é um cronista quase bissexto. Excelente, por sinal, mesmo quando não se concorda com ele. Porque constrói argumentos sólidos e bem fundamentados.

Ainda acho que sua Ave Maria é, das coisas que escreveu, a melhor. Mas é fato que ele está bem próximo de se superar, o que não é pouca coisa. Como com o texto, de onde copiei o trecho acima, em que junta a História de Fukuyama, a estupidez do 11 de setembro, a lucidez de José Saramago e o continuísmo provável de Dilma Roussef.

Verbetes e expressões (12)

Apedeuta

s.m. e s.f. Pessoa sem instrução, ignorante.

•••

Depois dizem que sou implicante. Pelo menos, agora tenho certeza, não sou o único.

Qualquer brasileiro sabe da facilidade que nosso presidente tem para produzir pérolas suficientes para justificar a criação de um dicionário próprio. Não é raro, inclusive, que ele se supere quase diariamente.

Como ele mesmo disse em um Roda Viva de 2005, “nunca antes na história deste país um presidente fez tantos discursos”. E se fala muito, a chance de falar muita besteira aumenta exponencialmente em se tratando de quem é.

Pois bem, por conta das chuvas que desabaram sobre o Rio nesta semana, ele já tinha deixado escapar que ‘quando acontece uma desgraça, acontece’. Na mesma oportunidade, disse que ninguém precisa se preocupar de acontecer algo assim durante a Copa 2014 ou Rio 2016, pois todo mundo sabe que ‘em julho não chove tanto’.

Quer dizer, preparar as cidades para suportar eventuais problemas como o desta semana, nem pensar. Afinal, não há risco de chuvas assim atrapalharem os grandes eventos do país.

Não é sensacional?

É claro que sempre pode piorar. E ele conseguiu, mais uma vez. Disse hoje que ‘as chuvas e as perdas de vidas eram lamentáveis mas pelo menos serviam de exemplo para os governantes fazerem sua parte’.

Eu poderia perguntar ‘como assim?’ e discorrer sobre o ineditismo dessa tragédia e o fato do presidente da república não se colocar como um governante. Mas Luiz já fez isso de maneira brilhante. Leitura imperdível, é só clicar aqui.

Tragicômico

Um dos grandes clichês nacionais diz que o carioca nunca perde o humor. Luiz Octavio Bernardes resolveu confirmar isso e está impossível no Facebook. Começou a postar uma coleção musical com It’s Raining Again (Supertramp), Crying in the rain (Garfunkel e James Taylor) e Yellow Submarine (The Beatles). Chegou ao auge com os Originais do Samba. Divirtam-se.