Pra gente pequena

Desde que começamos a freqüentar as festinhas infantis, graças aos amiguinhos de escola da Helena, os presentes têm sido livros. Na verdade, prática que Mariana já tinha. Nada combinado, apenas prática que virou hábito. E procurando as obras adequadas para cada idade, ela descobriu que Saramago e Garcia Marquez andaram escrevinhando para os pequenos. Para mim, surpresa.

Do Nobel colombiano, A luz é como a água. Do português, são dois: O silêncio da água, publicado após sua morte e A maior flor do mundo. O vídeo abaixo, quase dez minutos que valem muito a pena, conta a história deste último.

Pelo jeito, e conhecendo só um pouquinho os dois autores, obras pra gente pequena que gente grande não pode deixar de ler.

Uma vontade danada de subverter a ordem

Hoje não vim direto para o trabalho, precisei fazer uma parada para fotografar um evento. E enquanto esperava o seu início, lendo o jornal e ouvindo a Sérvia vencer a Alemanha, recebi uma ligação da Mariana: “Saramago morreu”.

Fiquei meio puto e ela me falou o óbvio, o que todos estamos cansados de saber. “Todo mundo morre um dia”. Já doente há algum tempo e razoavelmente idoso, não foi nenhuma surpresa. Mas há pessoas espalhadas por este mundo de meu Deus que nos dão uma puta vontade de mudar a ordem da vida. Saramago era um.

Antes eu dizia: ‘Escrevo porque não quero morrer’. Mas agora mudei. Escrevo para compreender. O que é um ser humano?

Contadora de histórias

Antes de assistir ao vídeo abaixo, encontrado no blog do Juca Kfouri, basta saber que Chimamanda Adichie é uma escritora nigeriana que já tem dois romances publicados, Purple Hibiscus (2003) e Half of a Yellow Sun (2006). Mais do que isso, sua história, está na palestra abaixo, cerca de 18 minutos imperdíveis sobre o risco de uma única história.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Todos convidados!

ConviteA História de Pedro e Vovô Zeca

O primeiro livro infantil de Mariana Sirelli com ilustrações de Louise Guimarães e apresentação de Maria Cecília Cury, conta a história da amizade entre avô e neto e propõe uma reflexão sobre temas como a morte e o luto de uma forma delicada e envolvente.

Venha se emocionar com essa história!

A idade do mundo

Recebi de um amigo por e-mail, achei excelente e fui procurar autor, origem etc. Encontrei o cara e confirmei algo de que desconfiava, de leve: a Argentina tem mais coisas interessantes, além do futebol e dos chorizos.

Hernán Casciari nasceu em Mercedes, Buenos Aires, a 16 de março de 1971. Escritor e  jornalista argentino. É conhecido por  seu trabalho ficcional na Internet, onde  tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blognovela. Sua  obra mais conhecida na rede, Weblog de una mujer gorda, foi editada em papel  com o título Más respeto, que soy tu madre.

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no ‘sistema cão’. Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar sua idade biológica por 7. No caso de países temos que dividir sua idade histórica por 14 para conhecer sua correspondência humana.

Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplos reveladores. A Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividirmos esses anos por 14, a Argentina tem ‘humanamente’ cerca de  13 anos e  meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne. Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é formada por quatro adolescentes que têm um conjunto de rock. Ensaiam em uma garagem, fazem muito barulho e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para fazer o coro. Na realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade, quer é sexo, neste caso com o Brasil que tem 14 anos e um membro grande. O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma senhora de 85, conservadora, cheirando a xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem – ainda – dinheiro para comprar uma dentadura postiça. A China tem  um  neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer aberração em troca de grana. Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai. Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao amparo de papai Inglaterra e  mamãe França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora se fingem de loucos.

A Austrália é uma babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a  África do Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado,que a qualquer momento pode adotar o bebê Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão na moda. A França é uma separada de 36 anos, mais puta que galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos: Mônaco, que vai acabar virando puto ou bailarino… ou ambas coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que está casado com Áustria, que sabe que é chifruda, mas não se importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino e do Vaticano, dois filhos gêmeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com Alemanha – por pouco tempo e tiveram a Suíça – mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (A Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar espaguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se iguale a ela, mas perde em espontaneidade por usar tanto  perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente se deixa foder pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles, mas a perturbam quando têm fome, passam uma  temporada na sua casa e assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de barco à noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta. A Escócia e a Irlanda, os irmãos de Inglaterra que moram  no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam maconha); outras vezes cutucam a Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com Coréia. Coréia  (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gêmeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa.

Os Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos, a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar suas pistolas. Israel é um intelectual de 62 anos que teve uma vida de merda. Faz alguns anos, Alemanha, o caminhoneiro, não a viu e a atropelou. Desde  esse  dia, Israel ficou que nem louco. Agora, em vez de ler livros, passa o dia na sacada jogando pedras na Palestina, que é uma mocinha que está lavando a roupa na casa do lado. Irã e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos e acabou o negócio para eles. Agora estão comendo lixo.

O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns  mongolóides, outros esquizofrênicos. Faz uma semana, e por causa de um conflito com tiros e mortos, nós, habitantes sérios do mundo, descobrimos que tem um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna… e até gente! Eu fico com  medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passar por ignorantes. Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os que já existem ainda não funcionam?

Hernán Casciari

Vernáculo

Sou apaixonado pela nossa bendita língua. E se tem alguma coisa que me incomoda muito é a maneira como a turma anda escrevendo, principalmente na internet e em mensagens de SMS. Porque, cedo ou tarde (geralmente cedo), acaba ultrapassando suas fronteiras originais e permeando o resto de nossas vidas. E pensar que por essas terras tupiniquins, tudo começou com a utilização do ‘h’ quando não se podia usar um acento agudo (eh isso aih), o ‘aum’ no lugar do ‘ão’ (naum faça isso) e um inocente ‘vc’.

Antes que os que não me conhecem pensem besteira, não tenho 132 anos. Mas, como diria o grande filósofo, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Pelo Clube de Comunicação recebi o link do Pretextos, blog do Eduardo Lara Resende. E lá, encontrei o texto abaixo, brilhante, sobre as possíveis confusões que essas mutações podem provocar no convívio entre gerações.

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– Pai, mude o visu k c vai bomba.

O bilhete, encontrado por Concertino sobre um embrulho amarrado com fita vermelha, junto à xícara do café da manhã, não deixava dúvidas: Daniela, a amada e dedicada filha, não se esquecera de seu aniversário. Mesmo trabalhando duro como operadora de telemarketing, ela encontrara tempo para comprar-lhe…

Enquanto pensava, o homem abria o embrulho e tentava entender o que dizia o bilhete. A primeira curiosidade desfizera-se numa camisa estampada com flores grandes e coloridas. Logo ele, Concertino Arantes, haveria de usar algo que certamente fora fabricado para sinalizar um cidadão perdido em meio a dois milhões de pessoas? Homem discreto, conservador, não trairia assim tão fácil suas camisas cinza, de bolso grande, mangas folgadas e cobrindo até o cotovelo.

O bilhete era o mistério. Como decifrar aquela mensagem codificada? Trabalhadora e responsável, Daniela certamente trocara o nome do canário Bisu, digitando um v no lugar do b. Afinal, nos teclados de sua máquina de escrever e do computador da filha, as duas letras são vizinhas. Mas… mudar o Bisu? Bomba? Era verdade que, durante comemoração da vitória de certos times de futebol, o foguetório deixava louco o pássaro dentro da gaiola. E Kleber, o fogueteiro do andar de cima, tinha em casa torcedores de todos os principais times do Brasil. Era tiroteio quase todo dia – um explosivo inferno.

Concertino olhou de novo o bilhete e intuiu que a letra k queria dizer Kleber. Imaginou Bisu morto no fundo da gaiola, as patinhas pra cima. A idéia não o assustava tanto quanto ouvir a filha lamentar, entre lágrimas, a morte do tic-tic da mamãe – que era como ela tratava o canário. A imagem do cadáver de Bisu sacudiu o aniversariante que, de imediato, pegou a gaiola e levou-a à casa de Dona Matilde:

– Por favor, a senhora deixaria o passarinho aqui hoje? É que minha filha pediu, ele tem pavor de bomba…

– Claro, seu Cornetino! – respondeu atenciosa a velha, que nunca acertava o nome do vizinho. Sem entender as razões do homem, Dona Matilde apressou-se em cumprimentá-lo pelo aniversário.

– Daniela me falou… Vamos ter festinha?

Concertino agradeceu os préstimos, disse que não haveria qualquer comemoração e partiu para o trabalho com a convicção de que salvara a vida do tic-tic da filha.

À noite Daniela chegou cansada e deu um grito ao notar a ausência de Bisu. Um pai sorridente e vestindo a camisa nova (só aquela noite, que ele logo daria um jeito de sumir com ela) acalmou a filha dizendo que tomara todas as providências.

– Que providências, pai?

– Ué, mudei o Bisu de lugar, está com Dona Matilde…

– Bisu? Dona Matilde?

– É… a bomba… pum!!! – brincou um já desconcertado Concertino.

Quanto mais ele gesticulava e acenava o bilhete, menos sua atônita Daniela compreendia. Até que tudo se esclareceu quando a filha traduziu para o pai o recado carinhoso: era para ele mudar o visual com a camisa, que ele iria bombar.

– Bombar? – quis saber o aniversariante desapontado.

– É, pai, bombar. V. vai arrasar…

Entreolharam-se e, a um só tempo, correram à casa da vizinha. O desespero abriu a porta para recebê-los. Dona Matilde foi logo levando as mãos ao rosto e declarando, apavorada, que Borém, seu gato de estimação, comera o canário sem que ela tivesse a menor idéia de como ele conseguira abrir a gaiola.

Eduardo Lara Resende