Sempre no vento

Leonardo Mauro, o MorcegãoMas é mesmo um picareta esse meu comandante, vejam vocês.

Hoje é o seu aniversário. Sinceramente não sei quanto, não importa. Aí, logo pela manhã, quase cedo, ele me liga. Foi a primeira vez no dia que o telefone tocou. Pra falar de trabalho, para – quem sabe – abrir mais um tanto de horizonte neste momento de tormenta da minha vida.

E como ligou para falar de trabalho e de futuro, não me deu tempo nem espaço para pensar no presente, no seu presente. Presente que ele deveria ganhar, mas que resolveu me dar.

E o dia passou com as correrias de sempre e algumas novas, naquele passo que não nos deixa pensar, muitas vezes, no que é importante de verdade.

Pois que esse tal meu comandante merece todas as homenagens do mundo, porto seguro que é, em todos e mais sentidos, pra tanta gente. E bota gente nisso, capaz de lotar alguns botecos, do 1 ao 794, do Grajaú à bela ilha de Santa Catarina, passando por Brasília e Mato Grosso.

É meu comandante, entre tormentas e calmarias, é dia de festa. E de seguir com as velas enfunadas, em frente como sempre foi. E, impressionantemente, sempre sorrindo. Não é por acaso que sua tripulação não abandona o barco.

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Pinto no lixo

Tam Tum / Foto: Lúcia FerreiraComecei a velejar em 2006. Sempre como tripulante. Manza. Mas nesses poucos anos, já houve muitas boas histórias, em terra e mar, e muitos momentos especiais, especialíssimos. Como a primeira vitória, no Picareta. Ainda estava em recuperação da última cirurgia joelho e levei um tombo na cabine no meio de uma manobra. Como eu tinha aprontado na regata anterior e desperdiçado a vitória, caí com o cabo do balão na mão e não soltei nem por decreto. No final deu tudo certo, e apesar do susto, o joelho ficou bom.

Em 2007 não foi um dia, mas um fim de semana inteiro: a conquista do Circuito Rio. A tripulação estava azeitadíssima, velejamos demais e não erramos nada. E ganhamos o campeonato com uma regata de antecedência.

A Santos-Rio de 2008 também teve seus momentos, pro bem e por mal. Primeiro, a levada do Fandango de Ilhabela pra Santos, uma velejada maravilhosa num dia lindo. Eu e Armando fizemos a armação em trisail que usávamos no Picareta e surpreendemos até o Sergio, dono do barco e que já cansou de velejar nesse mundão de meu Deus. Minha primeira travessia em dia de gala.

Já na regata, o sábado à noite foi marcante. Íamos nos arrastando sem vento praticamente desde a largada e àquela altura já surgia a discussão sobre abandonar ou não, por conta dos compromissos da segunda-feira. E íamos nos revezando em turnos e no leme. E calhou do vento entrar, já noite fechada, com nuvens negras e um bom tantinho de chuva. Batismo dos infernos e eu no leme (eu que não tocava nem o Picareta dentro da baía de Guanabara). E toda aquela teoria na cabeça e bota o barco pra andar no escuro só tentando sentir o balando das ondas, e a velocidade aumentando e a turma ficando animada e… Depois de alcançar a velocidade máxima do fim de semana, o céu abriu e o vento foi embora. Meia hora depois do auge da adrenalina e excitação, o cúmulo da frustração. Fui voto vencido e abandonamos.

No ano seguinte, nossa segunda e última Santos-Rio, não foi fácil deixar Helena recém nascida, com menos de uma semana de vida, pra matar uma frustração tão grande. Mas valeu muito muito a pena, pela velejada e pelo resultado.

Esses foram só alguns e ontem eu tive outro dia especial. Finalmente, e depois de muitos meses, voltei a velejar. Minha estréia no Tam Tum, o barco mais novo da família Boteco 1. E eu estava ancorado há tanto tempo que o barco já está quase fazendo aniversário e ainda não tinha experimentado.

Não era dia de regata, houve uma revoada em protesto contra a poluição da baía. Basicamente um passeio. E lá fomos nós, eu, Oscar e (oh, captain, my captain) Morcegão. E nem lembro como, acho que estavam testando alguma coisa no motor que acabou de ser revisado, mas logo depois de sair do clube alguém gritou “Gustavo, fica aqui”. E lá fui eu pro leme. E depois que resolveram tudo, panos pra cima e vamos velejar. E eu lá, tocando o bicho como se tivesse feito isso a vida inteira.

Que barco gostoso da porra, que dia maravilhoso. Um tantinho de vento, um pouquinho de swell, mais ou menos 80 barcos juntos, e a gente se divertindo. Primeira vez que tocava um barco com roda, ao invés da cana de leme. E fora um episódio ou outro, tudo em casa e adaptação perfeita. E com aquele tantinho de vento, 10 nós no máximo, fizemos o bichinho andar no máximo de seu rendimento (pelo que os dois falaram): 6,5 a 7 no popa com asa de pombo, 4,5 a 5 no contravento. E ele lá, soltinho, confortável. E eu ali, pagando de almirante, todo pimpão, quatro horas felizes como há muito não vivia. Difícil vai ser alguém me tirar do leme na próxima velejada.

E o melhor é que, depois de chegar no clube, dava até pra ver o sorriso do barco. Duvida? Então tira a bunda da cadeira e vai velejar. Você vai entender…

Na mesa, no lago, no mar

Desde maio não vou ao mar, e já sinto um certo comichão. O problema é que ainda vou demorar a voltar. Mas isso não me impede de acompanhar o que anda acontecendo por aí e continuar torcendo pela turma. Neste final de semana, as tripulações do Boteco 1 andaram disputando e abiscoitando algumas coisas por aí.

Foi realizado, em Brasília, o IV Campeonato Brasileiro da Classe Velamar 22. Pela distância, falta de grana comunitária e mil compromissos de trabalho de Deus e quase todo mundo, apenas uma tripulação do Rio foi formada para a disputa. Dois do Picareta, dois do Smooth. E lá foram Armando, Leonardo (o Morcegão) e Oscar – devidamente comandados pelo Ricardo, que defendia seu título – para a merreca do Lago do Paranoá.

E fizeram a festa. A bordo do Hakuna Matata, foram cinco vitórias, um segundo e um terceiro lugar em sete regatas válidas para o campeonato, além da vitória na regata de abertura. Seu Ricardinho, agora, é bicampeão brasileiro.

Mas não foi só isso não, porque em Ilhabela também teve festa. Se preparando para a Rolex Ilhabela Sailing Week, o Pimenta venceu o Warm-up com o Ariel na classe RGS C. Isso é que é aquecimento (com trocadilho infame).

Comprovando que a Equipe Boteco 1 é uma só, não importa onde estejam seus tripulantes, Armando e Ricardo (campeões em Brasília) vão correr a Semana de Ilhabela a bordo do Ariel.

Claro que estou morrendo de inveja, mas fazer o quê? Ninguém tem tudo o que quer… Daqui, muita torcida. Boa sorte e excelentes ventos.

Uniban

Em tempos de fim de férias (sim, elas são curtas mas existem), aproveitei os últimos dias para me dedicar à nova moça de minha vida e acabei ficando (quase) completamente aéreo ao que está acontecendo no mundo ao meu redor.
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No primeiro dia do Circuito, o Fandango (2° na Santos-Rio) persegue o Calamar e cruza a proa do Lisboa (campeão da Santos-Rio)

E neste pouco tempo desde a minha chegada da Santos-Rio, corremos o Circuito Rio e fomos mal, terminando em oitavo. Em compensação, e apesar do resultado, foram dias de velejadas inesquecíveis, das mais divertidas desses pouco mais de três anos de velejador, três novos e grandes domingos da minha vida. Agradeço penhorado ao comandante Ricardo Timotheo, Armando, Pimenta, Morcego (vulgo Leonardo Mauro) e Oscar.

DilmaObama

Quem, com o dinheiro de quem, vai pagar (mais) essa conta?

Mas como não poderia deixar de ser, apesar de tentar ficar alheio, algumas coisas conseguem quebrar qualquer barreira. A primeira delas, descobrir que o marqueteiro do Obama foi contratado para fazer a campanha da Dilma. Sinceramente, achei que existiam limites, um mínimo de simancol, mas o PT consegue se superar a cada dia. Fico até com medo dos que acontecerá nos próximos meses. Haja máquina…

FlaOutra surpresa, essa agradável, é a campanha do Flamengo na reta final do brasileirão. Dá até pra ficar com medo, mas entramos na briga. Aliás, sobre os cariocas em geral, dá muito medo. Todos começaram a ganhar e até o Flu deixa no ar que poderá escapar do rebaixamento. Será? Como quando a esmola é muita, o santo desconfia, tenho certeza que se Flu e Fogo escaparem da segundona, o Fla não será campeão. Então peço desculpas à quase toda minha família tricolor e aos amigos alvinegros MP, Mark e Barreto, mas as velas aqui de casa já estão acesas.
A outra grande novidade das últimas semanas foi a confusão da saia curta na Uniban. Minha primeira reação foi a óbvia: “estudante paulista não gosta de mulher?”. Depois foi a hora de tecer comentários sobre a moça, suas ‘qualidades’, bom gosto etc. Mas toda a situação, além de absurda, é muito mais séria do que pode parecer à primeira vista. E enquanto quebrava a cabeça tentando pensar em algo para escrever sobre o tema, pesquisando por aí para juntar e digerir as idéias dos outros, encontrei o texto abaixo.
Flavio Gomes é jornalista esportivo, especializado em automobilismo. Gosto do texto do cara quando fala de carros e, principalmente, quando fala de outras coisas. Curto, grosso, às vezes até mal educado, ranzinza, sem papas na língua. Um daqueles de quem a gente fala que quer ser igual, quando crescer.

Uniban

Reprodução: G1

A moça, a saia, a faculdade

Fiz faculdade entre 1982 e 1985. Faculdade de riquinho, FAAP. Não havia sinal de movimento estudantil ali. Na verdade, com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989, o movimento estudantil se enfraqueceu e, sendo bem sincero, foi sumindo aos poucos. Minha atividade mais próxima da subversão foi vender sanduíches naturais para arrecadar dinheiro para uma festa das Diretas.
Hoje, as entidades representativas dos estudantes servem para emitir carteirinhas para a turba pagar meia-entrada em shows e no cinema. Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar. Porque, no fundo, por conta da politização desses movimentos todos, a questão educacional foi colocada de lado por muitos anos, e deixou de ser prioridade.
Já como repórter, cheguei a cobrir algumas confusões na USP na segunda metade dos anos 80. Sem querer simplificar demais, mas recorrendo ao que minha memória me permite lembrar, o tema central era o aumento do preço do bandeijão nos refeitórios da universidade. Deu greve e tudo. Muito pouco. Ainda mais porque, como se sabe, boa parte dos que conseguem chegar à USP vêm de escolas particulares, e o preço do bandeijão não chegava a afetar seriamente o orçamento de ninguém.
O caso dessa moça de minissaia da Uniban poderia ser um bom motivo para despertar algum tipo de reação na molecada. De repúdio aos que ofenderam a menina, de reflexão sobre os rumos da universidade, de protesto contra sua expulsão, de perplexidade com o recuo da reitoria por razões obviamente mercantis.
Reitoria… Era palavra respeitada, antigamente. Hoje, os reitores dessas espeluncas mal falam português. A transformação do ambiente universitário em quitandas que vendem diplomas é assustadora. E os estudantes são coniventes. Não exigem ensino de qualidade, compromisso com a educação, porra nenhuma. Querem se formar logo, se possível pagando pouco, e dane-se o mundo.
Fico espantado ao observar como pensa e age essa juventude urbana entre 20 e 25 anos. São fascistóides, hedonistas, individualistas, retardados ao cubo. Basta ver o perfil da menina da minissaia no Orkut. Uma completa debilóide, mas nada diferente, tenho certeza, de seus colegas de faculdade (vejam as “comunidades” às quais ela pertence; coisas como “Gosto de causar, e daí?”, “Sou loira sim, quem me aguenta?”, “Para de falar e me beija logo”, coisas do tipo). O que, evidentemente, não dá a ninguém o direito de fazer o que fizeram com ela. Até porque são todos iguais, idênticos, tontos, despreparados, sem noção.
Aí a Uniban expulsa a menina, dizendo que os alunos que a chamavam de “puta” e queriam bater na coitada estavam “defendendo o ambiente escolar”. Puta que pariu! Como é que pode? Como podem adultos, “educadores”, que teoricamente têm um pouco mais de neurônios em funcionamento, reduzirem a questão a isso? E criticarem a menina porque ela se veste assim ou assado, anda rebolando, “se insinua”?
Pior: muitos, mas muitos mesmo, alunos defenderam a expulsão. Acham que a menina é uma vagabunda que provoca os colegas. Bando de animais, intolerantes, sádicos, hostis, agressivos. Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra.
O Brasil está fodido com essas gerações que vêm por aí. Um caso desses, que poderia trazer à tona discussões importantes sobre o comportamento dos jovens, suas angústias, seus rumos, resume-se ao tamanho da saia da moça e ao seu comportamento “inadequado”, seja lá o que for isso. A educação, neste país, tem sido negligenciada de forma criminosa há décadas. O governo poderia começar a limpar a área por essas fábricas de diploma, que surgem aos montes sem que ninguém se preocupe com o tipo de gente que está à frente delas.
O que se vê hoje, graças a essas faculdades privadas de esquina, sem história e princípios, é uma população cada vez maior de “nível superior” sem nível algum. Um desastre completo. Gente que não pensa, não argumenta, não lê, não raciocina coletivamente, se comporta como gado raivoso, passa o dia punhetando no Orkut e no MSN, escreve “aki”, “facu”, “xurras”, “naum”, “huahsuahsua”, um bando de tontos desperdiçando os melhores anos de suas vida com uma existência vazia, um vácuo intelectual, sob o olhar perplexo de gerações, como a minha, que um dia sonharam em fazer um mundo melhor e, definitivamente, não conseguiram.
Somos todos culpados, no fim. Me incluo.

Flavio Gomes

Novos domingos

Em uma terça-feira de outubro de 2008, estava a bordo do Fandango, levando o barco no qual correria minha primeira Santos-Rio de Ilhabela para o porto de largada. Ao final daquela semana, foram seis domingos, uma boa história pra contar e uma grande frustração: não completamos a prova.
Daquela semana especial, ficou a promessa de que voltaria este ano para completar a travessia do jeito que desse. E aí, apesar do plano de correr a regata em 2009 ter sido feito ainda dentro d’água em 2008, só no meio do ano começamos a correr atrás de realizá-lo.
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Uniforme da tripulação

E tasca a buscar patrocínio. Se já não é fácil para campeões olímpicos, imaginem para uma turma de amadores que, se já conhecidos pela vela brasileira, tem um nome pouco sugestivo para quem está de fora: Boteco 1. Daí, para cada um que nos apresentávamos, ter que explicar quem somos, de onde viemos, há quanto tempo já velejamos, os resultados que já obtivemos etc etc etc. E conseguimos, aos 45 do segundo tempo.

Então, antes de contar a história da regata, é preciso registrar o muito obrigado aos patrocinadores – Arapongas Tecnologia Mecânica, Ronstan e Petromais –, aos apoiadores – Sportmania e Veleiros Eventos – e ao projeto Três no Mundo, parceiro desde 2008.

1º domingo: 22 de outubro

Voltando a falar de domingos, neste ano o meu tempo disponível para a faina foi mais curto, afinal Helena chegou no dia 17 e só embarquei para Santos na tarde do dia 22. Saímos do Rio, além de mim, os comandantes Ricardo e Leonardo, e o piloto Agnaldo. Uma viagem rápida e tranqüila, com muito boa música durante todo o trajeto, boa conversa sobre assuntos tão díspares quanto as novidades do apedeuta, minhas descobertas com Helena e os planos para a regata.
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Descarrega o carro com o material que saiu do Rio e recarrega com a tralha que não seria usada na regata

Da estrada, direto para o clube para descarregar o carro e recarregá-lo com o material do barco que não viria pela água para aliviar o peso. Finalmente, a tripulação estava toda reunida e ainda com o auxílio luxuoso da presidente Claudia e do paupratodaobra Lobo. Barco pronto, ainda havia trabalho a fazer. No hotel, hora de preparar as velas e aplicar os adesivos dos patrocinadores. Depois, um bom jantar, alguns goles de gelada devidamente rebatida com a quente e cama. Seria nossa última noite de sono em uma cama confortável, pelos próximos três ou quatro dias.
Velas prontas quase meia noite da véspera da largadaÀs 9h30, toda a tripulação já estava reunida no Fandango. Depois de pouco mais de uma hora de algum trabalho, parte foi dar uma volta e tomar um café e o resto ficou a bordo. Eu aproveitei para tirar o último cochilo e já acordei com o barco em movimento, saindo do clube em direção à linha de largada.
Até aquele momento, as expectativas eram as piores possíveis. A largada foi atrasada em uma hora por falta de vento e, graças à previsão de uma enorme calmaria no final de semana, o prazo limite para os barcos completarem a prova aumentou em 24 horas, passando do meio dia de segunda para o mesmo horário de terça. Como em 2008, a promessa era ficar boiando no meio do mar por, pelo menos, dois dias e meio. O vento chegaria na segunda, com uma frente-fria que viria da Argentina.

2º domingo: 23 de outubro

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Com pouco vento, a fragata da Marinha deu o tiro de largada uma hora mais tarde

Nosso segundo domingo começou com o tiro de largada, às 13h. E para quem esperava calmaria, começou muito bem. Vento sul de quase 10 nós e uma velejada folgada em direção a Ilhabela. Um portão de pontuação nos obrigava a passar pelo canal entre a ilha e o continente. E para que tivéssemos o melhor rendimento possível, seria necessário lidar com o vento e a maré. Como ficamos perto da costa durante todo o dia, conseguimos aproveitar o terral que chegou com o início da noite. Vento norte/noroeste entre 10 e 12 nós e meia dúzia de oito ou dez cambadas para começar a cruzar o canal.

A caminho de Ilhabela, Ricardo toca o barco e Oscar trabalha nas velasNesse momento, algo sensacional pelo qual não passamos no ano passado, até por conta da calmaria eterna. Como cruzar o gate bem fazia diferença para o resultado e várias manobras seriam necessárias, toda a tripulação trabalhou sem parar até passarmos pela marca fatal. Como ainda esperávamos ficar sem vento por muito tempo, pensei que aquele seria o grande momento da regata. Vento bom, noite clara de lua, navios atracados no canal funcionando como obstáculos, vários barcos andando junto.
Cruzamos o portão às 2h49 de sábado, após 13h49m34s, na quarta posição.

3º domingo: 24 de outubro

A velejada até a ilha foi sensacional e na hora não tínhamos como saber o resultado por causa das contas necessárias para se achar o tempo corrigido. Mas comemoramos o dia excelente. Logo depois da passagem, hora de descanso para alguns. Eu fui um dos que ficou no convés e as condições da madrugada prometiam que teríamos outro dia de regata muito bom. Entramos num través aberto que nos empurrou até a Ponta das Canas (saída do canal) com velocidade média de 7 e pico de 9,5 nós. Mas aí, acabou-se o que era doce.
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Armando e a roupa de tempo para enfrentar o frio da madrugada

Foi só pegar mar aberto e o vento foi embora. Dois, talvez três nós. Como disse o Armando, “uma merrequinha de dar dó”. Mas mesmo a passo de cágado, rumo 90, direto pro Rio. Fui dormir pouco depois de amanhecer e, quando acordei, pouco depois das 9h, alguma coisa tinha mudado. Encontrei o mar bem mexido e o vento prometendo entrar.

Estávamos nos afastando da costa para aproveitar as melhores condições. Entrou uma lestada que variava entre 15 e 20 nós, contravento daqueles, com mar batido, furando onda e todo mundo na borda pra segurar o barco. O Fandango pulava mais que touro em festa do peão. E pensar que todas as previsões apontavam merreca. Na minha cabeça, só passava uma frase: “previsões são apenas isso, previsões”. Seguimos assim até pouco depois das três da tarde, nosso limite para começar a voltar para perto de terra e conseguir aproveitar o terral. O objetivo era passar pela Ilha Grande antes do amanhecer, mas como o vento caiu um pouco (outra merrequinha de dar dó durante a noite), só conseguimos chegar à Restinga da Marambaia pelas 10 da manhã do dia seguinte.

4º domingo: 25 de outubro

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Além de timonear e resolver toda a logística da equipe, Morcegão - vulgo Leonardo - foi o chef de bordo

Faltava cerca de 50 milhas para cruzar a linha de chegada na entrada da Baía de Guanabara. Àquela altura, já tínhamos enfrentado contravento fraco e forte, través, popa tranqüilo, merrecas, todos os dias com o sol no quengo, noites amenas e madrugadas muito frias. Só faltava chuva e porrada de popa, mas como a tal frente fria só era prevista para a segunda e passamos o dia com vento em paz, com o barco andando entre quatro e seis nós, nem nos preocupamos.

A virada do vento, mais uma vez, foi favorável e conseguimos manter o rumo direto para o Rio, andando no máximo 10° acima ou abaixo da linha ideal para aproveitar as melhores rajadas. E pelo início da tarde já era possível prever a chegada entre dez e meia noite. Resultados? Não tínhamos a menor idéia de como a coisa andava. Apesar da obrigação de todos os barcos informarem posições aos clubes de Santos e Rio às 8h e às 20h, as chamadas de sábado à noite e manhã de domingo não funcionou, muita gente fora do alcance (nós inclusive). Assim, você perde a noção de quem está onde, perto ou longe, no que pode dar. Estávamos mesmo felizes da vida, foi uma velejada daquelas, com direito até a banho de mar na merreca do domingo de manhã.
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Mestre Pimenta, sentado na borda

Devagar, fomos chegando e conseguimos até fazer contato com as famílias e amigos para avisar onde estávamos, que jantaríamos em casa. E o dia foi passando em paz até que, pelo final da tarde, o vento começou a cair. Já estávamos pelo meio da Barra e vinha mais uma viração por aí. Aquela frente da segunda-feira estava chegando e começou a nos empurrar…

Com a chuva que chegou e um ventinho social, resolvemos baixar o balão. Usando a genoa, o rendimento não mudaria muito e não molharíamos mais uma vela tão perto da chegada, mas o través foi virando popa raso e o Ricardo deu a ordem. Balão pra cima e, no vento que oficialmente variou entre 20 e 25 nós, planamos nas ondas de Copacabana a quase dez nós de velocidade. Armando tocando o barco e Ricardo e Morcegão trimando as velas, enquanto eu, Oscar e Pimenta nos segurávamos na borda para equilibrar o barco. Com a chuva e a porrada de popa, não faltava mais nada.
Nessa altura, passando entre as Cagarras e a Redonda, a previsão de chegada a partir das dez caia para algo pelas 8 da noite. Jantar em casa e ainda ver o Fantástico. Mas quem já velejou pelo Rio alguma vez sabe que nada é tão simples assim…
Ao se aproximar do canal entre a Cotunduba e o Pão de Açúcar, o vento começou a diminuir, diminuir, diminuir… Morreu. Resultado: levamos quase duas horas para percorrer o último quilômetro da regata, pouco mais de meia milha. Se não é inacreditável, certamente foi surreal. Velas batendo, todo mundo tentando encontrar o melhor ponto de equilíbrio do barco para aproveitar qualquer sopro que nos alcançasse e aquela agonia tão perto do final.
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A rota do Fandango

Completamos a regata às 22h01m20s, 57 horas depois da largada. Até agora o resultado oficial não saiu, algumas informações erradas obrigaram a organização da regata a refazer todas as contas. O que posso adiantar é que o Fandango Boteco 1 terminou na segunda colocação na classe BRA RGS I. Extraoficialmente, perdemos por 1m26s. Pra quem não esperava nada além de desentalar o abandono do ano passado, quase ganhar é maravilhoso.

A tripulação

Éramos seis a bordo. Para agüentar os turnos necessários para manter o rendimento do barco sempre o melhor possível, descansando o necessário, tínhamos quatro timoneiros e outros dois responsáveis pelo meio do barco. Mas todos estavam aptos a desempenhar qualquer função, claro que de acordo com as condições e a experiência de cada um.
Ricardo foi o nosso comandante. Além de ser o mais experiente a bordo, também é capaz de estar atento a cada detalhe de tudo o que acontece em volta. Impressionante. Também regulou velas, fez a secretaria e fez a proa. Contando com os pitacos de todos, dividiu com Armando – timoneiro, velas e proa – as decisões táticas.
Os outros dois timoneiros foram Pimenta e Morcegão. O primeiro, Mestre, era o responsável pelo barco, além de regular velas e fazer proa. O outro, meu comandante no Picareta, acumulou as funções de proeiro, secretário e cozinheiro. Oscar foi a bordo como proeiro, mas regulou velas e timoneou. Eu, secretário, dei minhas cacetadas nas velas, na proa e no leme.
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Amanhecendo no leme, deixando Ilhabela pra trás

Minha opinião é que o mais importante ao montar uma tripulação (principalmente as pequenas como a nossa), com os turnos funcionando, é garantir que quem fica acordado seja capaz de fazer o barco andar. No nosso caso, o turno (geralmente) rodava a cada quatro horas, sempre com três em cima. E por isso, todo mundo fez um pouco de tudo. E é o melhor que pode acontecer, pois não conheço outra maneira de aprender.

Próximos domingos

Na sexta-feira começa o 40º Circuito Rio. A Santos-Rio vale como abertura para o campeonato, ou seja, já estamos em segundo. Sobre resultados, a melhor política é fazer o mesmo que fizemos na travessia: aproveitar a velejada, o convívio a bordo e celebrar mais três domingos. Na programação, teremos duas regatas barla-sota (algumas voltas entre duas bóias) no primeiro dia, uma de percurso médio no segundo e o encerramento é uma surpresa: pode ser de um jeito ou de outro e só saberemos na hora.
Por hora, resta agradecer aos cinco grumetes que estão comigo e, como diz Seu Ricardinho, ao Maior. Sei que esse é um blog de família, mas não encontrei definição melhor: nossos domingos têm sido phoda.

Boteco 1 confirma participação na Santos-Rio

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.
A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.
Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.
A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.
Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.
A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.
Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1 (www.boteco1.com)  – ou siga o twitter @equipeboteco1 (www.twitter.com/equipeboteco1).

Fandango

Fandango

Pelo segundo ano consecutivo, a torcida que virou equipe participa da travessia mais tradicional do Brasil.

A história já é conhecida: uma turma que se conheceu torcendo pelo Brasil 1 e se transformou em equipe de vela. O Boteco 1 está no mar desde 2006, disputando o ranking da classe Velamar22 no Rio, a bordo do Ariel (um Fast230) em Ilhabela, tripulando barcos de outras classes, como o Viva (ORC 670), e disputando match races. Em 2008, a equipe participou de sua primeira travessia, a Regata Santos-Rio. E resolveu voltar em 2009.

Com patrocínio da Ronstan, Arapongas Tecnologia Mecânica e Petromais, e apoio do Sportmania e Veleiros Eventos, a Equipe Boteco 1 participará da 59ª Regata Santos-Rio. Para a Náutica 30 Nós, representante da Ronstan no Brasil, apoiar o Boteco 1 é uma maneira de mostrar que, além de fornecer equipamentos de alta performance, a empresa australiana também se dedica à vela de cruzeiro e participação, em que a segurança é fundamental. Além disso, “acreditamos nos ideais passados pelo Boteco 1, como amizade, esportividade e competitividade. Conceitos que achamos que devem acompanhar a vela sempre, em qualquer ambiente”, destacam os sócios Rodrigo Claessen e Sandro Sartório.

A bordo do Fandango, o mesmo Schaeffer 31 de 2008, Ricardo Timotheo comandará a tripulação formada por Armando Faria, Gustavo Sirelli, Leonardo Mauro, Luis Henrique Pimenta e Oscar Castro.

Para o timoneiro Leonardo Mauro, que esteve na tripulação de 2008, a regata está entalada. “No ano passado, começamos bem e tínhamos chance de um bom resultado, mas não terminamos a prova por causa da falta de vento. Então, este ano temos que terminar, esse é o nosso objetivo. Se chegarmos bem, numa boa colocação, melhor ainda”.

A novidade na regata deste ano é a criação de um portão de pontuação em frente à sub-sede do Iate Clube de Santos em Ilhabela. A notícia agradou o tático e regulador de velas Armando Faria. “Com o gate é como se tivéssemos duas regatas em uma, o que deixa a disputa mais animada. Além disso, vamos ter que estudar muito a maré, para termos o melhor rendimento possível na passagem do canal entre a ilha e o continente”.

Para acompanhar a Equipe Boteco 1, acesse o Blotequim – o blog do Boteco 1  – ou siga o twitter @equipeboteco1.