Crônica de uma tragédia anunciada

Há muito tempo não falo de futebol por aqui. Nem Fórmula 1, duas de minhas paixões. Mas hoje não tem jeito, dado o que aconteceu ontem na Bolívia.

Se você é um ET e não sabe de nada, um torcedor do Corinthians disparou um sinalizador de navio (!) que atingiu e matou um garoto de 14 anos.

Galeria da tragédia de Oruro / Montagem: Globo.comEntre tantos discursos muito bonitos, inflamados, dramáticos etc. que surgem em momentos como esse, o mais comum é esperar e até pedir a eliminação do clube da competição, jogar com portas fechadas e coisas do gênero.

Há 12 corinthianos presos em Oruro por conta do ocorrido. Deles, alguns nem estavam por perto quando a polícia agiu, mas ficaram para – em grupo – se defenderem e se protegerem. Reza a lenda que o sujeito responsável (?) pelo disparo não está entre os 12. Pode ser verdade, e nesse caso a Polícia Federal tem que entrar no circuito. Mas pode, também, ser apenas jogo de cena para que os detidos sejam soltos no clima “o culpado já foi embora mesmo”.

É claro que há que se investigar. E o sujeito tem que pagar pela cagada. Homicídio. Culposo que seja, partindo da premissa que não teve a intenção de acertar ninguém, que apenas operou mal o dispositivo. Mas ele tem que ser preso e julgado. Na Bolívia, claro.

O grande problema é que é uma tragédia anunciada. Porque entre tantos e tantos problemas que já aconteceram nos estádios brasileiros e de toda a América do Sul, nada foi realmente feito para dar solução. A questão não é proibir faixas, camisas e bandeiras de torcidas organizadas, mas implantar sistemas de vigilância que permitam a identificação dos marginais e bani-los dos estádios. Mas ninguém tem coragem de fazer isso.

Sobre o futebol, propriamente dito, e a possibilidade de punição ao clube, o texto abaixo diz tudo.

Me engana que eu gosto

Torcida La Temible, do San Jose / Foto: Diego RibeiroVocê ai, sentado em seu PC, está realmente pensando em justiça ou querendo que o Corinthians se foda? Vamos falar a real, sem viadagem. Não tenho censura de editor, posso falar com você as vezes nesse tom. Somos íntimos, nos vemos todos os dias por aqui, podemos ser honestos um com o outro.

Teu problema é o Corinthians, o corintiano ou a “justiça”?  Se fosse do seu clube, um incidente, como tudo indica ter sido, você acharia justo seu time ser punido por um erro isolado?

Vamos separar as coisas de forma clara.

Quando se pune um clube de futebol por sua torcida é na tentativa de evitar que camuflados no meio de tantos eles façam algo coletivamente sem controle. Quandos se identifica o torcedor que atirou um copinho no campo o clube não é punido, mas sim o torcedor. Porque? Porque acharam o culpado e portanto não precisam mais fazer “terrorismo” para impedir que outros façam igual.

Uma situação é “justiça”, a outra é pra causar medinho. Clube de futebol não tem que ser punido por ação nenhuma de torcedor nenhum. Existe uma lei e ela precisa ser seguida. Ela diz que o cidadão que comete um crime responde por ele. Ponto. Se ele torce pro Vasco, pro Osasco ou pro Manchester é problema dele.

Se um sujeito nervoso porque brigou em casa quebra tudo na rua e machuca alguém, a mulher dele vai presa por tê-lo irritado? Não. Então, o clube não tem que pagar por atos de violência isolados, ainda mais fora de seu estádio, onde sequer a segurança é de sua responsabilidade.

Até onde sabemos, foi um incidente. O rapaz não teve intenção de machucar ninguém e errou o disparo do sinalizador.  Permitida a entrada de fogos no estádio, ele errou, vai responder, e deve responder. Mas entre cometer um erro fatal e ser criminoso existe uma diferença.

Na praia, no ano novo, se seu pai errar o rojão e acertar alguém ele é responsável, não um criminoso. E o rapaz que fez isso ontem, pelo que todos relataram, é responsável, não um marginal afim de machucar alguém.

Sendo preso, como foi, não tem nada que o clube ser punido. Se querem justiça, vamos questionar porque tinha 20 mil fogos dentro do estádio? Vamos falar sobre segurança, sobre polícia, revista, regras do que pode ou não entrar no estádio. Mas não vamos falar em assassinato, Libertadores, Corinthians.

Que importa o time do sujeito? Que diferença faz se ele é corintiano ou se vendia pipocas? Ele errou, vai responder, foi identificado, ponto.  Levar isso até o clube e tentar atrelar uma coisa a outra me parece mais uma forma de torcer pro rival ser eliminado de um torneio do que por justiça.

Injustiça seria um erro, ou mesmo se fosse um crime brutal, individual condenar 30 milhões de pessoas a pagar por ele.

Justiça? É isso mesmo que estamos discutindo? Ou é clubismo barato em busca de foder o rival?

A pessoa foi detida. O estádio é fora do Brasil, ao que tudo indica não foi um ato de vandalismo, mas sim um incidente.

Cadê a justiça em tirar um clube de futebol de um torneio por isso?

Sejamos honestos, e menos burros.

Amanhã, meu caro, se o Joãozinho atirar um copinho e acertar a testa do jogador adversário, quem não vai mais ao jogo ver seu time é você. Porque ao invés de pedir justiça, estamos cobrando atitudes de grande impacto.

São coisas diferentes.

Que se faça justiça com o responsável pela morte do garoto. Seja ele corintiano, judeu, negro, nordestino ou alemão.

Mas justiça é quando o responsável é identificado e responde pelo que fez. Não quando na falta de um culpado resolvem culpar todos que estavam em volta.

Isso é covardia, não justiça.

abs,

Rica Perrone

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Bradesco: na fila, lado a lado com você

…e conte com a gente. Nós estaremos lado a lado com você.

Isso é um fragmento do texto do comercial de ano novo (2012) do Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil (segundo a Wikipedia).

Agora, repare na imagem abaixo.

É uma senha de atendimento da agência 0448 – Haddock Lobo (Tijuca, Rio de Janeiro) do tal banco. Atenção aos horários impressos: entrada às 14h11 e saída (na vertical, no canto direito) às 15h09. Ou seja, descontando o tempo que você leva pra passar pela porta giratória (esvaziando bolsos e bolsas e, depois, recolhendo tudo), foram 58 minutos para ser atendida (o caso aconteceu com a dona da minha vida).

Aí, a moça fica uma arara, se dirige à uma funcionária para reclamar e ouve a seguinte pérola: “processa”.

Não é brilhante a maneira como o Bradesco trata os clientes? Não é brilhante como o Bradesco garante o bom treinamento de seus empregados?

Só pra lembrar, há no Rio a lei 5.254/2011 (em São Paulo, lei semelhante é de 2005) que limita o tempo de permanência em filas de banco em 15 ou, em dias de pico, 30 minutos no máximo. Como podem ver – apesar da multa prevista de até R$ 160 mil e o risco de ter a agência fechada –, o Bradesco trata a lei como boa parte dos motoristas brasileiros lida com a seta: liga o foda-se (desculpem o palavrão).

A orientação para quem passa por isso é procurar o Procon com o comprovante. E aí, eu pergunto: pra quê? Perder mais tempo e não ver nada acontecer? Ou processar para, depois de sei lá quanto tempo (todos sabemos como é rápida nossa justiça), não dar em nada?

Pois é, chegamos à conclusão que o melhor (para nos poupar tempo, trabalho e muitas aporrinhações) seria contar (e tentar espalhar) a história. Quem sabe as pessoas que cogitam ser clientes Bradesco, não pensem melhor e escolham outro banco?

Banheiros

Tentei evitar o tema que é pra lá de espinhoso nesses nossos tempos estranhos, politicamente corretos na marra, em que falar o que pensa pode dar até cadeia, a despeito de vivermos numa democracia em que a liberdade de expressão é garantida pela constituição. Mas sabem como é, fui provocado. Recebi um e-mail de um amigo, que também é pai de uma menina, que termina com a seguinte pergunta: e aí, como é que faz?

Não sei se vocês acompanharam, aconteceu em São Paulo na semana passada. Uma menina de seus 10 anos entrou no banheiro de uma pizzaria e voltou correndo pra mãe com a novidade, “tem um homem vestido de mulher”. A mãe chama o dono ou o gerente e reclama; o sujeito, por sua vez, vai até o/a cliente e pede para que ele/ela use o banheiro dos homens. Está armada a confusão.

Como o/a moço/moça, ainda por cima, é alguém reconhecido, com espaço garantido em grandes meios de comunicação… Nossa personagem é Laerte, cartunista mais que reconhecido e que há alguns anos resolveu mudar de vida. Até aí, problema dele, a vida dele, corpo dele, opções dele. Mas e quando o negócio começa a afetar quem está em volta?

Nessa matéria da Globo, Laerte diz que a discussão não é nenhuma bandeira, apenas luta por seus direitos. E, nesse tempo de ONGs e minorias superprotegidas, quem é que luta pelo direito dos outros, da maioria? Aqui há um bom texto do blog/coluna para entender Direito. E aqui, outro.

Mas o que importa é que até agora não respondi à tal provocação.

Provavelmente, se passasse pela mesma situação, estaria preso. Afinal, que papo é esse de homem no banheiro de mulher, mesmo que esteja travestido? E o constrangimento de minha filha? Tenho quase certeza que sairia da mesa furibundo em direção ao banheiro e tiraria o/a moço/moça de lá a tapas.

E, além da agressão, seria acusado de homofobia e otras cositas más que não fariam sentido. Estaria apenas reagindo contra um despudor – um homem no banheiro feminino, seja vestido de palhaço, um cross dresser ou um gay travestido – ao qual não quero minha filha de dois, oito ou quatorze anos, exposta.

Mas levei a questão para casa e a dona da minha vida, muito mais sensata e – pelo visto – menos conservadora sai com a pérola: “e daí? Ele não está lá de sacanagem para ver mulher pelada. Ele se sente mulher, se veste como mulher, não tem problema em ir ao banheiro de mulher. Há coisas muito piores por aí”.

Pouco depois, Helena (que tem apenas dois anos) vê a mulata globeleza e pergunta: “mamãe, ela tá pelada?”. A gente sabe que, além da sambista, coisas muito mais chocantes estão à disposição na TV , inclusive aberta. E o óbvio discurso do controle remoto não tem muita valia em tempos de internet, ao menos para crianças mais velhas. Um tanto complicado esse nosso mundo moderno, né não?

Mas, voltando ao caso do banheiro, como é que faz? Na verdade, as escolas de samba do Rio resolveram esse problema há uns trezentos anos, sem alarde, sem bandeiras, sem justiça envolvida. Bastou criar um terceiro banheiro para o público LGBTXYZ (essas siglas sempre mudam e nunca sei a que vale). A iniciativa não foi só aprovada, mas aplaudida. Simples e direta. Apenas bom senso de ambas as trocentas partes.

E agora que bostejei sem chegar a conclusão alguma, será que alguém aí tem alguma solução? E o que acham de toda a situação?

Verbetes e expressões (25)

Cagalhopança

Ato ou situação desenvolvida por uma ou mais pessoas que resultam de uma cagada mais refinada, ou seja, uma cagalhopança. Vem a ser algo meio que orquestrado, uma cagada sem tamanho e inenarrável.

Os exemplos se aplicam em inúmeras e inusitads situações, tal como uma cagada sem tamanho que não pode ser descrita em poucas palavras e que também é muito maior do que uma simples cagada, logo é uma cagalhopança.

Fonte: Dicionário inFormal

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Alguém tem alguma dúvida de que o que houve em São José dos Campos foi uma belíssima, caprichadíssima cagalhopança? Pois é, deu até a impressão de que foi construído um grande plano de ação, com tudo o que poderia ser feito de errado. E tudo cumprido à risca.

Sobre o tema, vale muito ouvir o comentário de Ricardo Boechat na Rádio Bandeirantes, é quase perfeito. O único grande defeito é que o jornalista não se aprofundou como deveria ao dizer que o governo federal não fez nada além de tentar se aproveitar politicamente do evento, atitude típica dos governos e aliados petistas.

Quanto ao futuro, me preocupo bastante com o que vai acontecer com as pessoas que foram tiradas de casa na marra. Vale lembrar que a ocupação ilegal do terreno começou há oito anos e poderia ter sido evitada naquela época. Agora, 1.500 famílias estão sem rumo.

Com um drama completamente diferente, mas com resultado parecido, amigos de Niterói lembram que até hoje há desalojados do morro do Bumba. A tragédia provocada pela chuva completa dois anos no dia 6 de abril.

E assim, abandonado como sempre, independente de discursos e bandeiras, segue o povo – principalmente a parcela que mais precisa de amparo.

É justo?

Parece que o Ministério da Educação – por meio dos discursos e desculpas esfarrapadas de seu titular Fernando Haddad – não é a única instituição do Brasil que resolveu institucionalizar o vazamento de provas/concursos públicos no Brasil.

A primeira decisão cancelava 13 questões do Enem que teriam vazado, beneficiando claramente quem errou mais em detrimento de quem errou menos. Como o vazamento só foi comprovado no Colégio Christus de Fortaleza – que no mundo conectado de hoje, parece viver numa bolha –, um recurso (do Inep, do MEC ou sei lá de quem) derrubou a decisão e confirmou o cancelamento das tais questões apenas para os 639 alunos da tal escola.

Assim, os resultados serão calculados sobre 180 questões para todo o Brasil e sobre 167 para 639. Será que ninguém se deu conta de que o valor relativo de cada questão é maior, alterando sensivelmente as notas? Ou seja, os tais 639 serão beneficiados por tal decisão.

Por exemplo (e partindo do princípio que todas as questões tenham o mesmo valor), imaginem que um aluno de qualquer lugar do Brasil tenha acertado 100 das 180 questões. Sua nota seria 55,56. Se um do Colégio Christus acertar as mesmas 100, sua nota será 59,88. Mais de três pontos de diferença!!! E todo mundo sabe ou é capaz de imaginar como esses 3,32 pontos fazem diferença em um concurso público qualquer. Além disso, a decisão beneficiaria o infrator. Ninguém fez essa conta tão básica? São mesmo uns çábios…

Vale lembrar que o resultado do Enem é base para obtenção de vagas, bolsas e vários outros incentivosem universidades. Adecisão parece justa?

Será que é tão difícil se dar conta do óbvio? É uma questão de princípios básicos: se houve vazamento, é preciso cancelar todo o concurso.

P.S.: seria natural imaginar que UNE e UBES já estariam arrumando a maior confusão em defesa dos estudantes. Mas isso, só se fosse em outros tempos. Como todos sabem, vivem às custas do governo. Alguém aí acredita que vão se manifestar sobre as cagadas de Fernando Haddad? Só se for pra elogiar o ministro…

Persistência

Dia da criança, feriado, almoço com o vovô que estava viajando. E cheguei um tanto atrasado em Copa e quando encontrei a turma, já estavam quase na Princesa Isabel. E se você não é do Rio, é a avenida que separa Copacabana do Leme. Ou seja, já estava quase no fim.

Sinceramente, quando vi, fiquei um pouco decepcionado. Já fui a casamentos com mais convidados. Depois, soube que desde a concentração e durante boa parte do tempo havia cerca de duas mil pessoas reunidas. E digo que, apesar de parecer pouco, não é. Lembrem-se que o movimento não é comandado por partidos, centrais sindicais ou uniões disso ou daquilo. Isso significa que alguma dificuldade de mobilização é mais que normal.

Mesmo assim, as duas mil pessoas que passaram por ali fizeram uma marcha na média das outras grandes cidades do país. A exceção, mais um vez, foi Brasília com 20 mil nas ruas.

Como das outras vezes, a turma que manda lá no Planalto vai tentar diminuir o movimento, dizer que não significa nada, que o pequeno número de pessoas nas passeatas só serve para mostrar que o povo brasileiro está satisfeito com o governo e o trabalho no congresso. E serão apoiados por todas aquelas entidades que deveriam ser críticas mas que, vivendo às custas do governo, seguem caladas e felizes.

Por enquanto, é preciso ter em mente que as causas são boas e temos de ser persistentes. Lembrem-se que o negócio começou no sete de setembro em meia dúzia de três ou quatro capitais. Ontem, foram 25 cidades em 17 estados. Passos de formiguinha, mas ganhando corpo.

Princesinha do mar

A diferença no Brasil de hoje é que a corrupção se tornou uma pandemia disseminada como estratégia de poder, que contaminou todos os níveis e todas as esferas do governo e dos serviços e políticas públicas.

A corrupção passou a ser imposta à sociedade como a única forma de fazer política no Brasil e de governar. Tudo e todos têm de pagar o imposto da corrupção, que rouba o dinheiro da saúde, da segurança, da merenda escolar e da educação.

É para lutar contra isso que estão sendo organizadas manifestações nesta quarta-feira, dia 12 de outubro em todo o país. É para construir um sistema político melhor, que puna a corrupção e combata a impunidade.

É por isso, que a agenda dos movimentos contra a corrupção começa pela aplicação da Lei da Ficha Limpa, pelo fim do voto secreto no Congresso Nacional, pelo limite à imunidade parlamentar, pela agilidade de julgamento nos casos de corrupção e pelo aumento das penas para corruptos e corruptores.

É por isso que não basta demissão. Tem de ter prisão!

Sinceramente, acho que vale a pena clicar aqui e ler o texto inteiro do Tojal. Mas, se você é um tantinho preguiçoso, o espírito está aí em cima. E esse post é só pra lembrar que amanhã acontece uma nova rodada de manifestações, em várias capitais do país.

Eco do movimento que nasceu na internet e que foi às ruas pela primeira vez no dia 7 de setembro, as marchas acontecerão – pelo menos – em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, São Paulo e Teresina.

No Rio, o encontro acontece em Copacabana, em frente ao posto 4 (olha ele na foto, lá em cima), próximo à rua Constante Ramos. Quem quiser ir, deve lembrar que – por causa do feriado – uma das pistas estará fechada e o estacionamento um tanto mais confuso. Então, dê preferência a ônibus e metrô.

E não esqueça que o movimento é apartidário. Ou seja, ao invés de bandeiras e/ou camisetas, leve seu partido e seu sindicato no coração.

2ª Edição

Ao todo, serão 25 cidades em 17 estados. Clique aqui para ver um mapa completo, com horários e pontos de encontro das manifestações.